EntreContos

Detox Literário.

A Coisa – Conto (Thiago Lopes)

Não sei como aconteceu.

Recebi a coisa quando eu era criança, ela estava encolhidinha dentro de uma caixa. No começo eu brincava com ela – não era tão feia assim antes – mas com o tempo ela foi ficando sem graça, foi ficando feia e eu acabei deixando-a no canto do quarto até o esquecimento.

Ela também nunca se manifestava. Acho estranho que não tenha morrido de fome ou de sede, mas a coisa foi sobrevivendo como podia. Segundo pensamos, ela foi bebendo a água do gato, juntando a água que caia da goteira. Foi comendo restos de comida que deixávamos nos pratos empilhados na pia, pedaços de tecido nas horas em que a fome aperta – quantas meias minhas sumiram!? Quantos buracos foram aparecendo nas cortinas?! – páginas dos jornais e das revistas; foi comendo baratas, sabão na pia, traças, foi comendo nossa pestana. Até ratos a coisa comia.

Só não entendo como conseguiu crescer assim, ainda mais sem carinho, já que, pelo que me lembro, ela gostava de brincar e gostava de afagos – quando eu era criança e voltava da escola,  ela sempre me recebia com um sorriso e ficava feliz quando eu fazia festinha na sua cabeça.

Deixamos a coisa a crescer. Sempre ouço essa frase: deixamos a coisa crescer, e essa frase me espanta, põe-me em pânico, pois não a vimos crescer, nem nos lembrávamos dela. 

Só sei que um dia cheguei do trabalho e me deparei com as caras de espanto de todos . Algo acontecia no meu quarto. Ao me verem, as pessoas gritavam, atropelando-se umas às outras: a coisa está se debatendo lá dentro, está quebrando tudo! Faça algo!

Quando cheguei, ela era uma coisa enorme. Se debatia nas paredes, manchando-as com seu sangue – um sangue vermelho – derrubando tudo, quebrando os móveis, quebrando vidros. Então alguém gritou: abra a janela, quem sabe ela não sai pra fora? Passei por ela e ouvi seu ronco, sua dor, ouvi seu desespero e seu medo – tive pena da coisa – e consegui abrir a janela.

A coisa deve ter sentido o vento vespertino vindo de fora, porque ela se virou e saltou pela janela abaixo. Um som abafado seguiu-se ao silêncio. Um som de coisa se espatifando – som macio e violento – e lá embaixo, no chão de concreto, tal como se tivesse caído um prato de macarrão com molho, a coisa havia se estourado.

E parecia ainda respirar.

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3 comentários em “A Coisa – Conto (Thiago Lopes)

  1. Filipe
    12 de maio de 2018

    Que coisa, hein? Achei que era alguma metáfora para os problemas da vida, mas ao final ela pula da janela, então não soube muito bem o que pensar.

  2. Regina Lopes Maciel
    12 de maio de 2018

    Olá Thiago,
    Ao ler seu conto senti necessidade de ouvir mais sobre esta coisa, talvez acontecimentos estranhos na casa à medida que crescia, experiências pessoais com a coisa. Não sei, também ficou meio vazio este crescimento de um dia para o outro. Sinto como se fosse uma ideia ainda para desenvolver melhor.
    Um abraço,
    Regina

  3. André Lima
    10 de maio de 2018

    Que conto interessante, Thiago. Adorei a parte final, a forma como narrou foi bastante envolvente. Parabéns pelo trabalho!

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Publicado às 10 de maio de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .