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Detox Literário.

Duas Noites e Dois Dias – Conto (Luanda Julião)

Eu não me lembro de ter ouvido os ruídos do motor do carro se aproximando e nem mesmo o instante exato de quando as balas começaram a zunir. As caixas de som estavam no volume máximo e tocava um rap, cujas batidas impediam inclusive a atenção de qualquer arrancada forte ou ronco de motor. Eu mesmo, entre um copo e outro de cerveja, viajava solitário nas letras do mestre Sabotagem, enquanto deixava o efeito do álcool atravessar meu corpo. Era quase meia noite e pra mim nem era tarde, era sábado, fazia um calor do caraio e àquela hora ainda havia muita gente não só no bar do Zecão, mas também nas vielas, em outros botecos, nas portas dos casebres, enfim, na quebrada toda. Gente que chegava do trampo, como eu, e fazia uma fita no Zecão pra relaxar, torcar ideias e tomar umas brejas antes de seguir para casa, gente que estava ali o dia todo jogando sinuca, baralho e dominó, gente que passava ali antes de descer pro fluxo.

 Além disso, era aniversário do mano Pepê, um dos moradores mais querido e respeitado na área. Ele havia improvisado uma churrasqueira com uns tijolos e assava uns espetinhos de carne para os parças mais chegados. Os manos comiam e bebiam enquanto trocavam ideias sobre o surto de dengue na área, até aquele dia quatro moradores tinham morrido na quebrada. Falavam também da falta da coleta do lixo. Pepê, semianalfabeto, vociferava contra o prefeito e a omissão do governo e os parças, desatentos, nem se ligaram quando uma Parati, preta e filmada, parou em frente ao bar do Zecão. Eu voltava do banheiro, um pequenino cômodo que ficava na parte externa e lateral do bar, quando vi as portas do veículo serem destravadas rapidamente e descerem cinco homens encapuzados, com sangue nos zóio, disparando sem hesitar os seus fuzis contra todos ali.  

Sim, eu me lembro de que quando as metralhadoras começaram a ser disparadas contra nós pra arregaçar, sem dó. No desespero, trombamos nas coisas que estavam a nossa frente e também uns nos outros, a ponto de olharmos um nos olhos do outro o desespero com a proximidade da morte. Zecão, o dono do bar, enorme e robusto, olhou para mim em silêncio com os olhos esbugalhados de medo, antes de tombar ao chão. Sim, me lembro perfeitamente. De sua cara decepada por dois projéteis, escorria uma poça de sangue. Zecão estava irreconhecível com o rosto desfigurado. Os outros fregueses, homens e mulheres, adolescentes e até crianças, todos trôpegos de medo gritavam, pediam clemência a Deus, enquanto eram furados pelos projéteis.

Os tiros provocaram uma fumaça azulada que era cortada pela linha de fogo. Não dava para distinguir muita coisa, não dava para se pensar muito a não ser correr ou se proteger o quanto o seu corpo aguentasse. Minha primeira reação foi proteger os meus ouvidos e me jogar ao chão, então me protegi na mesa de sinuca, mas a rajada de tiros e os disparos ficaram cada vez mais próximos e mais frequentes.

Baixei o máximo que eu pude a cabeça e procurei retornar ao fundo do bar, que dava para um terreno baldio e descampado, que os moradores faziam de lixão.  Os fuzis não paravam e eu me encolhia o máximo que podia e praticamente me arrastando no chão, eu consegui correr para o terreno baldio e escuro. Mas um dos homens me seguiu. Enfurecido, ele atirava a esmo na escuridão e mesmo com todo o breu que me ajudou a escapar dos tiros, eu sentia que a qualquer momento eu seria atingido. Eu ouvia o tilintar das balas que atingiam o mato, o entulho e o lixo, cada vez mais próximo de mim. Com a escuridão era difícil se desviar de tantos obstáculos no chão e o medo fazia com que eu tropeçasse várias vezes. Os projéteis passavam perto, muito perto, cada vez mais perto. De repente, senti uma pressão, uma pancada na cabeça e caí. Os gritos e os tiros foram ficando cada vez mais raros, longe, inaudíveis. Tudo havia silenciado. Fui atingido, vou morrer, eu pensei. Esse foi meu último pensamento antes de tudo desaparecer.

Eu jamais me encontrara numa situação tão estranha e jamais sentira a morte tão próxima. Despertei algum tempo depois, ainda era noite, e percebi que eu estava deitado em cima de um amontoado de sacos de lixo. O cheiro era forte, horrível. Algumas baratas roçavam suas patas e antenas na minha pele. Não sentia nojo. Estava confuso demais para sentir qualquer ranço, mas sentia um desconforto terrível por não conseguir me mexer ou gritar por socorro. Como num sonho, meu corpo não obedecia aos meus comandos e isso me angustiava.

Ouvia os zunidos das moscas, o movimento das ratazanas e das baratas, e assim o tempo passava. Eu estava ansioso por um rastro de luz. Como havia caído de bruços imaginei que se me virasse de costas conseguiria ver ao menos as estrelas no céu e isso me acalmaria. Decidi então fazer um esforço imensurável para me movimentar e sair daquela situação, mas sequer consegui me mexer. Uma dor aguda, lancinante atravessou meu corpo dos pés à cabeça e outra vez tudo desapareceu.

As primeiras luzes do dia começaram a raiar quando eu acordei. Sentia uma forte ardência na lateral da cabeça, perto da orelha, que escorria sangue em meus olhos e lábios. Estava trêmulo, confuso. O que havia acontecido? Como eu fora parar ali naquela situação? Por que não conseguia pedir socorro? Eu estava baleado e iria sangrar até morrer.

Novamente tentei me movimentar. Dessa vez consegui mexer levemente o braço esquerdo e a perna direita. Tentei me virar, pois a posição que eu me encontrava era incômoda demais. Sentia muita dor, era como se todos os meus ossos estivessem partidos e sem muita força não tinha jeito, tive que continuar, ao menos por enquanto, de bruços. Com muito custo levei meus dedos à perna que doía muito. Era uma dor intensa, aguda e interruptiva. Ainda em estado de choque eu compreendi então que eu estava bastante ferido. Só em minha perna direita havia três perfurações. Eu sentia os projéteis alojados queimarem. Meus ombros também doíam, o que dificultava ainda mais meus movimentos. Além disso, minha cabeça estava inchada e ardia constantemente. O sangue havia parado de escorrer, mas eu a sentia aberta. Meus pensamentos estavam obscuros, desconexos. Relembrei calmamente o que se passara comigo. Eu havia parado no Zecão para dar um abraço no mano Pepê. Tomei quatro ou cinco latinhas de cervejas e já estava me preparando para ir para casa. Fui ao banheiro e quando voltei tinha tiro para tudo quanto é lado. Saí correndo para o terreno baldio, para o lixão e corri na escuridão até cair onde então eu me encontrava.

O sol foi esquentando e o cheiro do lixo começou a me incomodar profundamente. Precisava levantar o corpo, mudar de posição ou ao menos conseguir virar a cabeça. Eu tentei várias vezes e nessas várias tentativas de perder o fôlego e sentir todo o corpo queimar, eu chorava desesperadamente. Estava prestes a desistir, quando num golpe só, numa dor indescritível, consegui virar de costas. Vi então que acima de mim o sol e senti os meus olhos arderem. Tentei abri-los, mas o pouco que eu enxergava era cinza e nebuloso. Eu sentia minha garganta ressecada e uma sede imensurável. Com um esforço penoso, sobre-humano, consegui me apoiar em algum resto de coisa, em algum lixo e consegui me sentar reclinadamente. Assim, aos poucos eu conseguia distinguir em que parte do terreno eu me localizava. Percebi então que estava no centro, exatamente onde restos de materiais de construção, pneus velhos, carros abandonados e queimados e lixo orgânico eram jogados, abandonados e às vezes carbonizado ou enterrado. A minha frente, a uns trezentos e cinquenta metros de onde eu estava, havia um córrego poluído e contaminado, onde uma ponte com restos de madeira fora improvisada pelos próprios moradores para ligar os dois lados da comunidade. Nas minhas costas, a mais ou menos quatrocentos metros de mim, estava o bar do Zecão. Como é que eu havia ido parar naquele amontoado de lixo se me acertaram na área descampada? Eu havia me arrastado até ali? E por que agora eu mal conseguia me mexer?

O calor era insuportável. Eu sabia não sobreviveria muito tempo sem água. As moscas, atraídas pelo odor fétido do lixo e pelo meu sangue coagulado na pele, me atormentavam e eu não tinha muita força para espantá-las.  Às vezes, sons estranhos chegavam aos meus ouvidos, ruídos de vozes, gritos de crianças que me chamavam. Eu sentia a cabeça pesada e dormente. Tentava responder as vozes, gritava o mais que eu podia, mas elas não respondiam como ou quando eu queria. Meu Deus, eu estava delirando. Não havia ninguém ali, a não ser eu, as baratas, os ratos e as moscas.

Entrei em desespero e comecei a chorar. Foi nesse momento que eu vi um cão em decomposição a uns seis ou sete passos de mim. Os vermes famintos faziam festa com a fartura, fervilhavam atravessando a sua carne que se desmanchava. Ainda dava para ver que o cão era grande e gordo. Logo seria o meu fim, logo eu estaria morto e sendo devorado pelos vermes igual ao cão que fedia ao meu lado. Com a temperatura aumentando o cheiro tornava-se cada vez pior. Será que alguém o abandonara pra morrer ou lhe jogaram morto? Será que, como eu, ele agonizara em seus últimos momentos de vida? Eu me sentia mais desgraçado que ele, pois via que depois de devorarem o cão, os vermes me devorariam e eu federia igual até ser reduzido a ossos.  

Eu estava deitado há tempos e havia fechado os olhos para ignorar o cão morto que brilhava com a luz forte do sol. Embora minhas sensações se restringissem ao mal cheiro e ao zumbido das moscas, meus pensamentos estavam a todo vapor. Lembranças, aflições e incertezas consumiam a minha mente. Seria bom que assim como o meu corpo o meu cérebro tivesse parado, eu pensei. Mas ele estava intacto e em pânico, debruçando-se sobre sentimentos ruins e desenterrando memórias.

Deus, eu nem tava na treta, nem tenho currículo de bandido e agora estava pagando o pato. Eu e os outros inocentes que haviam morrido. Os homens fizeram uma carnificina, vieram muito loucos na crocodilagem. Mó covardia. Haveria mais algum sobrevivente? Não quero morrer assim, num lixão qualquer, como indigente.

Com certeza os jornais escreveriam algumas linhas e a internet faria algumas postagens sobre a chacina, a quantidade de mortos, os suspeitos, a violência urbana, enfim, sem ao menos imaginar que eu agonizara por intermináveis horas (talvez dias, não sei) no lixão ao lado.  As pessoas leriam indiferentes as postagens e reportagens e no outro dia estariam novamente sedentas por novas notícias e tragédias, pois é assim que a multidão age: primeiro aglomeração, comoção, depois dispersão. Os investigadores e a polícia arquivariam o processo por falta de provas e os mortos jazeriam no silêncio da impunidade. É assim que sempre foi e sempre será. Tudo isso continuaria, todo o mundo, mas agora sem mim.

Ontem, numa manhã parecida, eu estava feliz. Feliz sem qualquer motivo ou por qualquer motivo, mas simplesmente feliz. Havia conseguido vender duas dúzias de garrafinhas de água no farol, o que me garantia quarenta reais no bolso. Tinha sido um dia bom. O trânsito parado fazia com que os motoristas sentissem mais calor e bebessem mais água. Agora cada lembrança, cada memória recriada e revivificada pela saudade adquiria pra mim um sabor agridoce. Era me muito custoso cada movimento, cada pensamento. Eu agonizava num descampado usado como depósito de lixo, tampouco impedido de afligir-me com a iminência da morte.

Abri os olhos e novamente encarei os restos mortais do cão. Com certeza ele estava numa situação melhor que a minha. Nada sentia, não mais existia e sofria. Morrer faria desaparecer todo o meu cansaço, todo o meu desespero. Meus pensamentos me perturbavam e exausto de lutar contra eles e contra o sol quente que queimava minha pele, eu adormeci.

Quando despertei já era noite, mas tudo estava como antes: dor, solidão, desespero, calor e sede, muita sede. Eu já estava praticamente há vinte e quatro horas ferido. O tempo ia passando e eu sabia que horas a mais ou horas a menos eu iria morrer, sem tampouco saber o que isso significava. Minha garganta seca queimava a ponto de me incomodar mais que a dor no corpo. Da escuridão em que eu me encontrava era possível ver as luzes dos casebres que não estavam tão distantes. Será que a minha mãe e minha Preta já tinham dado minha falta? Oh, Deus e o meu pivete? Quem iria sustentar o meu pivete? A essa altura algum vizinho já deveria ter dito que eu também estava no bar. Haveria mais sobreviventes? Elas estavam apavoradas a minha procura? Eu provavelmente seria dado como desaparecido e anos mais tarde ao lotearem ou limparem o descampado achariam a minha carcaça e pensariam que tratava-se de um desova.

O cheiro do lixo me nauseava. E o cheiro de carniça tornara-se insuportável. Eu precisava me arrastar dali a qualquer custo assim que o sol nascesse. Mas será que eu conseguiria? Como deslocar um corpo pesado e quase imobilizado?  

Assim que o dia começou a clarear comecei a me arrastar como uma minhoca pelo lixo. Passei praticamente toda a manhã sufocando a dor e me rastejando, mas tendo em mente que precisava sair daquela situação. A dor era forte, imensurável, mas era a sede que eu sentia que me torturava. Como uma fera usei minhas unhas para procurar entre os sacos de lixo, algum resto, algum resquício de algum líquido. Havia perdido tudo aquilo que se pode chamar de pudor ou dignidade. Estava imundo, sujo de sangue, suor e restos de alimentos podres e fezes. O sol estava a pino e eu estava completamente fraco, esgotado, a ponto de me dar por vencido, quando milagrosamente uma garrafa pet reluziu em meus olhos com quatro dedos de refrigerante. Eu não tive dúvidas, virei goela abaixo. O líquido estava quente e insosso, intragável, mas ainda servia pra me dar um pouco de força.

Passei o resto da tarde gemendo, lamentando minha má sorte e tentando me recompor. Quanto tempo mais eu vou resistir? O líquido quente e açucarado que havia bebido aumentou a minha sede. Soprava um ar menos carnicento ou já nem notava mais o cheiro. Eu não ouvia mais nada, não sentia mais nada. Olhava para o céu com poucas estrelas e pensava que sem água morreria em breve. A dor aumentara, minha perna estava inchada e latejando com a hemorragia interna. Via vultos na escuridão, acho que eu estava delirando. Essa noite, com o todo o desconforto foi passada em claro. O dia amanhecia quando eu apaguei.

Completamente sem forças eu acordei com o sol quente queimando meu rosto. Estava esgotado, quase sem sentidos. De repente, escutei vozes. A princípio julguei que estava delirando. Mas, não. Eram vozes de duas ou três mulheres. Comecei a grita, a pedir socorro o mais alto que eu conseguia, mas da minha boa saiam gemidos e lamentações. Achei que elas não veriam. E de repente, pela misericórdia divina, elas me viram e me salvaram.

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Luanda Julião

Autora dos livros “Fiar o tempo” e “A Ária das Águas”, ambos publicados pela editora Clube de Autores. Doutoranda em Filosofia. Professora nas escolas públicas e privadas de São Paulo.

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Um comentário em “Duas Noites e Dois Dias – Conto (Luanda Julião)

  1. Regina Lopes Maciel
    17 de maio de 2018

    Olá Luanda,
    Ao ler seu conto senti que o sofrimento deste rapaz, tão longamente descrito, não foi muito convincente, muito justificável. Ele estava a apenas 400 metros do bar, local de onde poderia berrar, pedir socorro, ficar sentado, fazer sinais, se arrastar (como depois até fez) principalmente pelo fato de que com a chacina, muita gente ainda deveria circular por ali. Depois, a resolução final foi muito simples.
    Me pareceu também que no início do texto você tentou caracterizar o personagem pela sua linguagem (algumas gírias) mas isto se perdeu,foi esquecido.
    Um abraço,
    Regina

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Publicado às 14 de maio de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .