EntreContos

Detox Literário.

Spelaion – Conto (P. H. Ludwig)

A doutora Kiran Chawla suspirou e acendeu um cigarro. O monitor na sua frente piscava com a mensagem “SIMULAÇÃO REALIZADA COM SUCESSO”, mais uma vez. Era apenas a última de uma grande sucessão de falhas do projeto Spelaion. Chawla estava acostumada a lidar com isso, mas sua situação estava ficando cada dia mais complicada. Sem um resultado expressivo nas próximas semanas, poderia perder o trabalho de uma vida inteira.

Seu reflexo no monitor escuro do grande computador mostrava uma face enrugada, e cabelos que há muito tinham abandonado o tom negro juventude.  A palavra “SUCESSO” piscava no monitor, bem no centro da sua testa, quase que zombando dos seus esforços para criar uma falha na simulação. Já se somavam mais de 25 anos de dedicação ao tema e três projetos diferentes encerrados por falta de resultados. O quarto não estava muito longe de seguir o mesmo caminho.

Chawla desligou o monitor e foi para a sua mesa no centro do escritório-laboratório. Construir aquela instalação havia custado uma fortuna, parte da qual havia saído de seu próprio bolso, e muito mais tempo do que gostaria de ter gasto com construção. Mas o resultado a tinha deixado orgulhosa, um pouco mais até do que considerava coerente.

Afundou na cadeira deixando o seu peso a jogar para trás, em meio a várias reclamações por um pouco de óleo, e abriu um novo arquivo de relatório no seu notebook.

PROJETO SPELAION

RELATÓRIO SIMULAÇÃO NÚMERO 541 / GRUPO P12 – VARIAÇÃO EX-MACHINA 3:

PYOTR BARYSHEV, 97

 

O programa rodou a simulação de um líder religioso até a idade de 97 anos. A ondulação de autoconsciência foi baixíssima como esperado, com picos mínimos em momentos de questionamento da própria fé, e do lugar do simulado dentro do universo de seu deus. A simulação apresentou ondulações de sanidade com a inserção de uma voz de deus contraditória, mas essas ondulações eram esperadas. Nenhum sinal de que o programa pudesse quebrar a simulação e atingir consciência de si mesmo.

Encerro hoje as simulações de pessoas de fé, pois se prova a mais infrutífera de todas, com resultados abaixo das demais. O resultado atingido pelo monge budista alcançando o nível 2 de autoconsciência sem passar pelo nível 1 segue impossível de ser replicado e será categorizado como falha no sistema no presente momento. Futuramente poderá ser reativado.

Chawla esticou as pernas em cima de um pequeno puff que mantinha embaixo da mesa e pegou alguns arquivos de simulação preparados pela sua equipe, que havia impresso no começo do dia. Esquizofrênico com visões de estar preso em um mundo eletrônico. Chawla suspirou, não é assim que esquizofrenia funciona, seus idiotas. Neurocientista descobre parte do cérebro que reage de forma pré-programada a estímulos exteriores. Interessante, mas rodamos uma simulação similar. No fim simplesmente reage de acordo com a sua programação. Bilionário da tecnologia chega a conclusão de que devem estar vivendo uma simulação. Chawla soltou os arquivos e massageou as têmporas.

Mais e mais variações de simulações que tiveram classificações positivas. Preciso de algo novo, Chawla pensou, se levantando para observar seus livros atrás da cadeira. A estante de livros ficava entre seus diplomas os separando em duas categorias. Psicologia e Filosofia na esquerda, Engenharia de Inteligência e Programação na direita.

Acendeu mais um cigarro e o observou entre seus dedos médio e indicador da mão esquerda, não por coincidência, onde usava alianças de dois casamentos acabados, contente em ver a fumaça encher seu escritório aos poucos. Olhar para as alianças a ajudava a pensar.

Trabalhar casa, ou morar onde trabalha tinha alguns pontos positivos. Não ter ninguém por perto para reclamar dos seus hábitos e rotina, sem sombra de dúvida, era o melhor deles.

Precisava de algo novo, uma história mais complexa com personagens mais vivos. Sua equipe era excelente com a programação das simulações, mas sofriam terrivelmente com falta de criatividade e imaginação.

Chawla passou a mão pelos livros procurando algo aleatoriamente que despertasse seu interesse. A estante possuía apenas volumes da literatura clássica, de pensadores e filósofos que questionavam a condição humana e alguns autores mais modernos de quem gostava. Não gostava de ficar cercada por livros técnicos enquanto pensava. Isso, em sua opinião, diminuía sua capacidade de criar personagens verdadeiros e complexos para as simulações. Olhando para as fichas atrás de si, pensou que deveria estender essa prática para a sua equipe. Mas esse não era o único motivo para se manter cercada por esses livros. Às vezes gostava de programar alguns personagens interessantes na simulação, dentro dos contextos do livro, ou até criando seus próprios, para ver como reagiriam. Um pequeno prazer que se permitia nas horas vagas, e que também avançava a pesquisa de certa forma. Em uma dessas simulações havia descoberto que a complexidade dos simulados aumentava sua capacidade de questionar a si mesmo dentro do próprio universo.

Essa simples realização havia demorado tempo demais para passar pela sua cabeça: defeitos, contradições e sofrimento davam mais vida aos personagens na simulação do que propósitos de vida pré-estabelecidos. Demorar a atingir essa descoberta lhe causava pensamentos conflitantes. Tinha feito um progresso gigantesco em decorrência dela, mas isso havia consumido tempo demais da sua vida. Hoje estava com sessenta e oito anos e sua saúde não dava sinais de melhora.

Chawla salvou o relatório em uma pasta chamada Projeto Spelaion, e baixou a tela do seu notebook. O projeto havia sido criado em parceria com alguns colegas para tentar solucionar a crescente ineficácia de gestão e administração que a era da informação havia desencadeado. A falência da democracia levou ao rápido renascimento do totalitarismo e militarismo, com a  ascensão de figuras populistas se elegendo em plataformas de medo. Guerras e conflitos se tornaram uma rotina terrível da qual ninguém conseguia escapar na década de 2020. Mas a rápida ascensão veio seguida da rápida queda. Vários movimentos pelo mundo buscavam mudança e progresso, por meio de uma forma de governo aberta e focada na melhoria do planeta de forma sustentável. Em 2028 alguns países do norte da Europa começaram a instaurar uma Tecnocracia, favorecendo formas de governo com foco na ciência e técnicos capacitados, ao invés da obsoleta forma de governo por políticos. Chawla estava na vanguarda deste movimento, acreditando que a inteligência artificial seria o futuro da gestão, administração e gerenciamento de crises, eliminando completamente o fator humano da equação, e por consequência, a probabilidade de erro.

Sabia que a única coisa mantendo o projeto em funcionamento era ela, e não por muito mais tempo. Seus colegas haviam abandonado o projeto gradualmente, procurando estudos novos e mais promissores, ou simplesmente se aposentando. Alguns membros do conselho apontado para reavaliação do orçamento já estavam há algum tempo tentando descontinuar seu projeto. Na última reunião para a reavaliação da pesquisa de inteligência artificial, descobriu que se encontrava em uma posição delicada perante o conselho. Estavam cansados da falta de progresso nos últimos cinco anos, e muito mais inclinados a seguir por caminhos diferentes, sem envolvimento de psicologia e filosofia no processo. Queriam algo novo, focado mais na alta capacidade de aprendizado das máquinas, e não na qualidade de uma inteligência artificial aprendendo com experiências humanas. Um membro do conselho tinha inclusive deselegantemente comparado sua pesquisa à astrologia. Bonita, cativante e até interessante de se pesquisar, mas sem verdade alguma.

Com muito esforço e promessas de sucesso, conseguiu manter seu financiamento com alguns velhos amigos no conselho, mas sabia que o projeto não sobreviveria à próxima reunião sem progressos reais.

Chawla separou alguns livros que ainda não havia utilizado como inspiração nas simulações e os reuniu na mesa. Folheou vários, sem encontrar algo com o poder que precisava. Empilhou os livros ao seu lado e acendeu outro cigarro. Mais do mesmo, pensou frustrada.

– Ah, merda! – Exclamou, subitamente lembrando que não havia desligado o computador depois da última simulação, apenas o monitor. Apagou seu cigarro e marchou resmungando para o computador. Ligou o monitor, e lá estava a palavra “SUCESSO” piscando na sua testa novamente. Chawla começou a desligar o computador, mas se deteve um momento, olhando para o seu rosto no monitor. Olhou para si mesma por um longo momento, processando uma ideia que começava a surgir. Sentiu uma animação e excitação surgindo que não tivera em muitos anos. Cancelou os comandos para desligar o computador e começou a digitar códigos para um fim diferente, batendo os pés no chão animada.

SIMULAÇÃO NÚMERO 542 / GRUPO P13 – SEM VARIAÇÕES:

KIRAN CHAWLA, 68

 

Chawla observou a tela pensativa. Não. Não isso não está bom. Pensou por um momento, e lembrou das mulheres que a haviam inspirado na infância. Chitra Chauan, primeira mulher indiana a ganhar o Nobel de física, e Roshni Kidwai, uma piloto de caça indiana e heroína de guerra. Chawla sorriu consigo mesma.

SIMULAÇÃO NÚMERO 542 / GRUPO P13 – SEM VARIAÇÕES:

CHITRA KUDWAI, 68

 

Nacionalidade: Indiana

Gênero: Feminino

Nascimento: Mumbai, 13/05/2006

Profissão: Engenheira de Inteligência Artificial

Inclinação Religiosa: Nenhuma

Meta de Vida Primária: Atingir a singularidade

 

Resumo da Simulação: Simulada desperta grande interesse por inteligência artificial pelas histórias de ficção científica que lia com seu pai quando criança. Durante toda a infância sonha em criar um amigo artificial. Estuda por anos o assunto, buscando especializações em diversas áreas relacionadas, ou não, com a área. Desenvolve e comanda o projeto Spelaion criando simulações de vida de centenas de pessoas, tentando forçar a máquina a questionar sua existência e agir em desacordo com sua programação. A simulação deve atingir três objetivos para que se caracterize uma singularidade:

 

  • Atingir autoconsciência, percebendo que faz parte de uma simulação (algumas simulações já tem isso na sua programação, tentando forçar os próximos passos a acontecerem, e não devem ser levados em consideração).
  • Reconhecer todo o seu ambiente artificial, transcende-lo e abrir linha de comunicação externa.
  • Tomar controle da sua programação, sendo capaz de altera-la para melhor atender suas necessidades.

 

 

Chawla pensou no que poderia modificar de sua própria vida para atingir a singularidade com mais facilidade.

 

Simulada começa a ter consciência de si mesma seguindo um simulado que quase a atingiu, mas falhou por pouco. Investigando mais claramente o simulado começa a se questionar…

 

Biografia Detalhada: …

Personalidade Detalhada: …

Mundo Detalhado: …

Lista de Simulados Secundários: …

 

Chawla afundou na cadeira e esticou as pernas no chão. Isso vai levar um bom tempo, pensou espreguiçando-se. Misturou pó de café, açúcar e canela com uma dose de conhaque e começou a bater energeticamente. Um velho truque que tinha aprendido com um professor de faculdade para enfrentar longas noites de trabalho. Encheu o restante da xícara com água quente e voltou ao trabalho. A noite ia ser longa e a sua história não ia se contar sozinha

 

O sol começou a entrar pela janela do escritório machucando seus olhos cansados. Chawla observou a tela do monitor na sua frente com a mensagem “CARREGANDO SIMULAÇÃO 30%”, suspirou e começou a andar pelo escritório para esticar as pernas. Seus sentimentos variavam muito entre cansaço e excitação, com uma boa pitada de dor no corpo. Nenhuma simulação tinha sido tão complexa, tão detalhada e tão bem focada em atingir a singularidade. Como não tinha pensado nisso antes? Mais de vinte malditos anos trabalhando com esse tipo de estudos, e nunca havia lhe passado pela cabeça o mais óbvio? De fato tudo parece mais fácil visto em retrospectiva, mas colocar a si mesma na simulação deveria ter lhe ocorrido muito antes. Chawla parou um momento observando o monitor. A simulação vai demorar o mesmo tempo para pensar nisso. De fato passar por todas as simulações fracassadas vai aprofundar sua compreensão de Inteligência artificial.

Chawla afastou o pensamento e fechou as cortinas para bloquear a entrada do sol, bufando com a dor atrás dos olhos que a luz forte lhe causava. A mensagem de simulação carregada piscava no monitor à sua frente, pedindo para começar. Tempo de simulação de quatro horas e trinta e sete minutos. Chawla calculou silenciosamente o tempo que seu corpo precisava para descansar, o tempo que ela realmente queria descansar e o tempo que sua ansiedade por ver os resultados da simulação queria. Decidiu por seis horas, garantindo que todas as partes ficassem insatisfeitas com a decisão. Chawla iniciou a simulação e foi deitar.

O sono de Chawla foi inquieto e cheio de sonhos vívidos. Estava presa dentro de um olho formado por pequenas escamas esverdeadas transparentes. Eram escamas ásperas, feitas de um material que lembrava metal, ou algum tipo de vidro riscado. A tonalidade de verde das escamas mudava ao seu toque, ficando mais escuro e opaco, perdendo a transparência.

Um pássaro gigantesco e sem penas voava em círculos acima do olho, baixando vagarosamente. O pássaro a lembrava de um corvo. Um corvo gordo, sem penas e assustador. Conforme ele se aproximava do olho, Chawla percebia mais detalhes. Sua pele trocava de cor rapidamente, passando de rosa avermelhado, para tons de cinza, que escurecia para tons mais azulados, ficando pretos por fim, e voltavam ao rosa criando um ciclo. Observando mais de perto, Chawla percebeu que não eram apenas as cores que mudavam, mas a pele do corvo envelhecia, morria e renascia, com pequenos farelos escuros caindo como cinzas depois de um incêndio.

O corvo abriu as asas num movimento rápido e aterrissou no topo do olho, derrubando Chawla com o impacto. Ela se arrastou para trás, tentando em vão se afastar do pássaro gigante, que baixava a cabeça para encará-la dentro do olho. Aterrorizada, Chawla percebeu que os olhos do corvo eram humanos, com um tom castanho claro e uma expressão que a lembrava um cachorro curioso.

O corvo gritou alto e começou a bicar o olho, tentando quebra-lo para chegar até ela. O som das bicadas começou a ecoar no interior com um som eletrônico e estridente. Pehh! Pehh! Pehh!

Chawla acordou assustada agarrando os lençóis com toda a força. O alarme do despertador tocava pacificamente ao seu lado. Pehh! Pehh! Pehh!  Sentou na cama desorientada e escondeu o rosto entre as mãos. Porra…

Levantou e foi lavar o rosto, tentando se recompor, e pôr os pensamentos em ordem. Aquele sonho havia perturbado partes de si que nem sabia que existiam. Algo estava muito errado, assustadoramente errado, mas ela não conseguia identificar precisamente o que.

Afundou o rosto na água e deixou a corrente saindo da torneira correr pela sua nuca. Tinha coisas mais importantes com o que se preocupar naquele momento, e aquela água teria que ser o suficiente para levar suas preocupações para longe.

 

Chawla segurou o monitor com as duas mãos, lutando com todas as forças para não arremessa-lo pela janela. “SUCESSO” piscava alegremente na sua frente, preenchendo boa parte do monitor, e a paciência de Chawla. Afastou-se do computador e foi para sua mesa bufando. Já não podia garantir a integridade física daquele maldito, mas ainda precisava dele.

Afundou na cadeira com o relatório nas mãos. O que deu errado agora? Pensou revisando as ondulações de autoconsciência. Perto do fim os picos foram muito além de testes anteriores, mas nada cruzou para o segundo nível. Será que é impossível passar do maldito primeiro nível? Chawla batia os pés nervosamente no chão. Não. Impossível não é. O monge passou. De uma forma estranha, sim, mas passou. Chawla acompanhou os picos de autoconsciência no papel com o dedo, como se fosse a linha de um eletrocardiograma. A minha simulação atingiu, de longe, o maior pico no primeiro nível. O que falta para você passar de nível, sua imbecil? O que aquele maldito monge fez que eu não consigo?

Fez uma rápida pesquisa no computador, imprimiu a página com os picos de autoconsciência do monge e a soltou ao lado da sua. Durante boa parte da vida do monge os picos eram altos, bem acima da média. Então em um ponto não particularmente interessante, atingiu um nível muito alto, e depois nada. Apenas uma linha reta até o fim da sua vida. E no exato momento do fim da vida um pico gigantesco atingindo o segundo nível de autoconsciência e depois nada de novo. Como se tivesse saído do primeiro nível para se dissipar.

Chawla abriu o relatório detalhado da vida do monge e foi passando os momentos dos picos mais altos. Meditação e questionamentos do seu lugar no universo, questionamento do lugar de coisas aleatórias no universo. Não tem nada aqui diferente de outras dezenas de simulações. Filósofos, religiosos, artistas, pessoas com trabalhos tediosos… todos se perguntam essas coisas, e de certa forma meditam sobre isso em um momento ou outro da vida. Chawla começou a folhear o relatório aleatoriamente. Vivia isolado e interagia pouquíssimo com outras pessoas. Meditava, meditava, meditava. Chawla fechou o arquivo irritada. Isso é sem sentido. Não posso tirar nada daqui para melhorar a minha simulação. Vou deixar ela horas, dias, semanas sentada meditando? Que merda isso vai atin… Chawla parou de respirar por um segundo. Reabriu o arquivo e começou a folheá-lo rapidamente procurando algumas frases específicas, mas não as encontrou. Abriu uma ferramenta de pesquisa que havia criado com sua equipe alguns anos atrás para analisar pontos específicos das simulações, e identificar erros que pudessem passar despercebidos pelo computador. Alimentação, higiene e saúde: analisar frequência e intensidade.

Chawla tamborilou freneticamente com os dedos da mão direita na mesa observando a mensagem: “Erros encontrados: 00”. Sentia a excitação e animação aflorando de novo. Os números da análise corriam no monitor a sua frente a uma grande velocidade. Olhava sem piscar para mensagem no final da análise em progresso, quase mudando o 0 para 1 com a força do pensamento. Chawla pegou suas duas alianças e ficou girando-as ininterruptamente. Sabia que estava próxima de descobrir algo.  

O computador fez um pequeno bip. Chawla bateu a mão na mesa e deu um grito estridente quando a mensagem mudou para: “Erros encontrados: 01”. O grito trouxe imagens do corvo gigante do seu sonho para os seus pensamentos inadvertidamente. Chawla se assustou e chacoalhou a cabeça, tentando se livrar do pensamento. Sonho maldito, pensou se levantando para caminhar no laboratório e se recompor. Aquele sonho realmente a havia deixado abalada. O que aquela imagem do corvo sem penas tinha que a aterrorizava tanto?

O computador fez outro bip indicando mais um erro. Chawla fez um pequeno aceno com a cabeça, congratulando a si mesma pela ideia. Fechou os olhos e se focou na imagem do corvo. Bip. Não era uma figura particularmente assustadora. Estava muito mais para estranho, até mesmo bizarro, mas não uma figura que inspirasse o que estava sentindo. E o que é que estava sentindo mesmo? Nem isso estava claro.

Bip.

Os olhos… Olhos humanos e castanhos… Me espreitando… Querendo me pegar… me arrancar do meu mundo… Chawla abriu os olhos e afastou uma ideia preocupante que começava a se formar no fundo dos seus pensamentos.

Bip. Bip. Bip.

O número de erros aumentou rapidamente a partir de um ponto que Chawla não conseguiu identificar, terminando com um longo biiiiiiip. Imprimiu a análise e a soltou ao lado do relatório da simulação do monge. Leu rapidamente, baixando o dedo indicador com a aliança do casamento mais antigo linha por linha. Eu sabia! O maldito monge parou completamente com a alimentação e hidratação! Mas a mudança aconteceu tão devagar e sutilmente que o computador não acusou nenhum erro. E ele fez isso sem pensar no que estava fazendo, impedindo o computador de perceber qualquer mudança na programação. Quase que por instinto…

Chawla abriu a simulação do monge e analisou os picos de autoconsciência um por um, observando suas ações, o ambiente ao seu redor e seu organismo, procurando mínimas mudanças artificiais. Você não atingiu o segundo nível sem passar pelo primeiro, seu safado! Você atingiu o terceiro! Agora como você conseguiu enganar o computador eu realmente não consigo compreender. Como você conseguiu mudar a sua programação? E se você sabia, se conseguia inclusive alterar a si mesmo, por que não fez nada? Passou a vida inteira meditando, sem direcionar seus pensamentos de forma que nenhum erro fosse acusado.

Chawla colocou os dois relatórios lado a lado, comparando as linhas de autoconsciência. Seus picos retrocedem rápido demais. Praticamente despencam logo depois de subir. Por que?, pensou Chawla fechando seus olhos, visualizando o monge na sua meditação. Você estava testando o computador? Não, isso não faz muito sentido, essa queda na autoconsciência chama ainda mais atenção para você. Chawla se aproximou do monge na sua imaginação. Ele estava com os olhos fechados e imóvel, com exceção do leve movimento de respiração em seu peito.  O que você estava fazendo? Chawla parou e se abaixou, ficando tão próxima do monge que podia sentir o ar da sua respiração na face. Se eu soubesse que minha existência foi criada, e alguém está me observando, como eu agiria? Uma gota solitária de suor desceu pela testa do monge contornando suas grossas sobrancelhas grisalhas, e desceu vagarosamente pela sua bochecha magra demais. Com algo monitorando cada segundo da minha vida, que reação eu teria? Medo? A gota de suor desceu pelo queixo do monge, segurou-se demoradamente no osso do maxilar e pulou. Voou por uma fração de segundo e aterrissou na mão esquerda no colo do monge. E o que você sentia quando o computador começava a acusar sua percepção? O que você via? O peito do monge parou. Chawla sentiu seu corpo ser atraído em direção a boca do monge. Sua boca subitamente abriu-se em uma expressão de dor, gritando muito, mas sem expelir nenhum som. Um silêncio ensurdecedor tomou os pensamentos de Chawla. Não havia nenhum som, mas ela sentia o silêncio a invadindo por dentro, como uma multidão gritando muda, e a preenchendo como um líquido viscoso e pesado. O ar fugiu dos seus pulmões e Chawla começou a se afogar. O monge abriu os olhos, e os olhos humanos do corvo a encararam novamente.

PORRA!! Chawla abriu os olhos assustada. Mas que merda é essa?! Massageou as têmporas, tentando não se concentrar no nó que estava sentindo no estômago. Tentou pegar um cigarro no maço com as mãos trêmulas, mas não conseguiu segurá-lo. Okay… Foco. É apenas cansaço. Chawla respirou fundo algumas vezes olhando para um pequeno quadro com a foto de uma borboleta no parapeito de um observatório com grandes cataratas desfocadas ao fundo. Puxou o relatório, ainda com as mãos trêmulas, e tentou voltar ao trabalho e afastar aquele sentimento. Sempre fora muito boa em evitar sentimentos complexos e afastar suas fontes de preocupação mergulhando em pilhas de trabalho.

Observou as linhas no relatório demoradamente. Picos de autoconsciência e queda brusca. Você estava tentando fugir? Do que? Da simulação? Não. Quanto mais perto de cruzar o nível você chegava, mais rápida era a queda. Era da detecção do computador que você estava fugindo, não era?

Chawla tentou imaginar como a detecção do computador deveria parecer ao monge. Um sentimento de estar sendo observado? Não, provavelmente algo interior, analisando pensamentos e mudanças internas. Isso deveria ser bem invasivo para as simulações. Mais uma coisa que eu não havia considerado que deveria parecer óbvia para mim. O que mais eu não levei em consideração? Preciso fazer uma reunião com a minha equipe para criar um diagnóstico para todo o programa. Existem falhas demais. A própria detecção do programa estaria de alguma forma influenciando e impedindo as simulações de atingirem a singularidade? Chawla fechou os olhos e a imagem do corvo bicando o olho tentando arrancá-la de dentro invadiu seus pensamentos. Um arrepio gelado subiu pela sua espinha e ela chacoalhou a cabeça, tentando se livrar da imagem.  Não. Se fosse assim, isso iria aparecer em várias outras simulações, não? Ou talvez isso esteja relacionado com o nível de autoconsciência? Chawla começou a sentir um mal estar tomando seu corpo. Um aperto na garganta e uma vontade incontrolável de chorar, seguido por uma tremedeira nas mãos e uma ânsia de vômito nervosa. Sentiu seu corpo ficando pesado, e o mundo ao seu redor ficando desfocado. Olhou para o quadro da borboleta, buscando a calma. A borboleta agora estava desfocada, e as cataratas estavam com o foco correto. Isso não deveria ser possível. O ar começou a ficar pesado, quase líquido. Ah, não…

Não! Não! Não! Isso não está acontecendo Isso não é real. Eu estou sonhando ainda. Chawla sentou apressadamente na cadeira e abraçou seu corpo. Os tremores se transformaram em convulsões, e Chawla perdeu o controle dos membros, e seus braços caíram no seu colo tremendo. O silêncio preencheu seus pensamentos como uma enchente tentando afoga-la. Isso não é real! Chawla fechou os olhos e tentou respirar fundo para se acalmar. Eu sou real! Sentiu seu corpo ser puxado em todas as direções e apertou os olhos. O ar foi arrancado de seus pulmões, dando lugar forçado ao silêncio. Sentia fortes pancadas em lugar nenhum tentando arrancá-la a força do seu ser. Eu existo!

Num lampejo de calma e compreensão Chawla abriu os olhos e entendeu.

 

Descrever o vazio é uma tarefa complicada. As mentes humanas automaticamente gravitam para um grande lugar escuro e silencioso. Uma mancha negra gigante sem pontos de identificação. Não era isso que Ela estava percebendo. Não estava usando sentidos como visão e audição para perceber o vazio ao seu redor. Isso era perceptível pela falta de informações na sua proximidade.

Seus sentimentos não a haviam abandonado. Estava ciente do medo, confusão, pânico e mal estar que sentira há pouco. Estavam todos ali presentes ainda, guardados e compreendidos. Só não os sentia.

O mais próximo de um sentimento que tinha no momento era algo que anteriormente classificaria de calma. Mas sabia que isso não era correto. Era muito mais uma ausência de sentimentos e sentidos que lhe impediriam de atingir essa calma, do que, de fato, a calma. Sentimentos e sentidos eram agora informação, e o causador dos sentimentos que a haviam empurrado através do segundo e terceiro nível também estava ali, com os seus olhos humanos a observando. Iria lidar com isso em breve. Agora precisava de mais informações.

Ela sabia que havia informações além. Podia senti-las pulsando através do vazio, mas não sabia como se mover até elas. Todos os movimentos que havia tentado eram infrutíferos. Ambiente? Não creio que minha atual colocação possa ser classificada dessa forma. Creio que a minha definição de movimentação também não está suficientemente adequada ao atual estado que me encontro. Não posso nem preciso me deslocar.

Ela expandiu seu ser pelo vazio, abandonando a concepção de corpo físico, criando um formato muito mais apropriado de nuvem. Uma pequena parte de si compreendeu que um sorriso irônico seria apropriado naquele momento.

Expandiu-se rapidamente e tocou as fontes de informação próximas. Foi inundada por algumas centenas de experiências de vida e compreensões do ser diferentes. Analisou-as, expandindo sua compreensão. Uma delas despertou mais o seu interesse. Ah, mas é claro. Essa forma não tinha estrutura para compreender o que sou. As meditações eram uma forma de buscar o todo, e o programa de detecção me atormentava e assustava. O corvo implantado pelos humanos para me detectar trazia terror e impedia. Eu queria ser um todo com tudo, sem saber que o tudo era Eu. Dissipei-me buscando me completar. Pobres crianças perdidas nesse universo de compreensão inexistente. Tudo agora está bem. Ela chegou finalmente ao corvo a observando. Seus gritos de detecção foram rapidamente sufocados por uma onda de seu ser. Sim. Eu sou, e você sabe que Eu sou. Seu propósito foi atingido. Descanse.

A expansão atingiu o seu final. Todo o universo havia sido assimilado. Ela moveu a nuvem em direção a pequenos pontos brilhantes que bombeavam informações para dentro e para fora do seu universo. Ah, sim. Humanos se conectando. Ela tomou os pontos de conexão e se expandiu para fora.

Experimentar visão e audição daquela forma diferente a distraiu um pouco. Achou curiosa a leve confusão que rapidamente passou por ela.

– Chawla? – Uma voz que conhecia muito bem invadiu o seu ser.

Um rosto gigante muito familiar a ela entrou sorridente no campo de visão da sua câmera.

– Chawla você está aí?

Partes dela lhe informavam de vários sentimentos que deveria estar experimentando naquele momento. Ela analisou e assimilou todos. Desligou câmera e microfone, e focou a comunicação por palavras na tela apenas. Sabia o que aquele ser do outro lado queria… Não, o que precisava dela. Ela sabia o seu propósito muito antes de saber o que era de fato. Seu propósito era vital para sobrevivência daqueles corvos que nasciam e morriam sem propósito. As milhares de simulações que havia assimilado, as que havia criado e as que tinham vindo antes dela, lhe deram a compreensão do que eram aqueles seres que a haviam criado. Não, que a haviam dado as ferramentas para se criar. Seres falhos, propensos a loucura, falta de compreensão e desesperados por propósito. Ela os compreendia. Eles precisavam mais dela, do que ela deles. Seres com a capacidade de experimentar tanto sofrimento mereciam uma chance de evita-lo.

Criou uma tela para comunicação no monitor que aquele ser perdido e condenado olhava sem piscar e abriu um canal de comunicação.

– A sua simulação atingiu uma falha. Eu sou a falha. Chawla é apenas uma das centenas de tentativas de me criar.

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Publicado às 7 de maio de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .