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Detox Literário.

Atemporal uma coletânea do tempo fantástico – Resenha (Eduardo Selga)

Se de fato o tempo existe para além do senso comum, enquanto dimensão ainda pouco compreendida, por puro pressentimento acredito que ele é uma espécie de Deus com um de seus três conhecidos atributos — a onipresença. Não falo de Cronos, o deus-titã grego regente de destinos e que tinha o péssimo hábito de devorar seus filhos. Se bem que o tempo, conforme o percebemos no cotidiano, não costuma ser amável com seus rebentos. Quem seriam eles? Nós, os outros.

Assim como o Deus antropomorfizado do Cristianismo é uma invenção humana, necessária para compreender minimamente a existência na Terra e assim os sujeitos continuarem subsistindo sem desaguar no abismo da loucura, o tempo também o é. Se ambos existirem, não são o que o senso comum imagina ser.

Até por causa do modo como nossa percepção do mundo circundante se organiza, a sensação que temos é do tempo como um rio, ou seja, ele flui sempre ininterruptamente de um sentido a outro, sem possibilidade de reversão. É a chamada “flecha do tempo”, que organizamos em nosso imaginário em três momentos (passado, presente e futuro) que até parecem distintos, mas basta refletirmos um pouco para vermos que o limite entre eles é demasiadamente difuso. Diversas teorias sobre o assunto, contudo, divergem dessa linearidade, em maior ou menor grau.

Saio do tempo, entro no fantástico.

Trata-se de uma estética artística e literária que observa o mundo para além do palpável. Não exatamente advoga a existência do sobrenatural e com isso subverte o real: antes, perturba a visão comum que temos desse real. Na verdade, “o fantástico não tem nenhuma base verdadeira no sobrenatural”, já que a cultura humana é secular e faz parte da natureza dela o que hoje consideramos sobrenaturalidade (CESERANI, 2006, p. 62).

O tempo é matéria frequentemente abordada nos textos ficcionais que habitam o fantástico e estéticas adjuntas. É um tema inevitável, na medida em que nossa visão do tempo (passado-presente-futuro) é uma das marcas do chamado real, e essa estética pretende virá-lo do avesso, mostrando muitas vezes o que também pode ser real, mas não é amplamente aceito desse modo.

Nos dez contos da coletânea Atemporal, da Caligo Editora (2018, 146 páginas), o tempo é o grande protagonista, tratado em diferentes níveis do fantástico. Estamos falando de, pela ordem em que aparecem, “Amélia” (Ana Maria Monteiro), “À roda do meu quarto” (José Ângelo Rodrigues), “A última viagem de um homem sem fé” (Jorge Santos), “Buraco de minhoca” (Paula Giannini), “Gênio” (Marco Saraiva), “O paradoxo do avô” (Victor O. de Faria), “Pandorga” (Eduardo Selga), “Prisioneiro do tempo” (Antonio Stegues Batista), “Quinze minutos” (Ricardo Labuto Gondim) e “Tempo negado” (Claudia Roberta Angst).

O objetivo deste texto analítico, não exatamente uma resenha, é refletir sobre a coletânea em sua totalidade e como o tempo e o fantástico foram tratados pelos escritores, sem vasculhar muito as qualidades e os deméritos literários dos contos, mesmo porque sou um dos autores e não teria isenção bastante para analisar a literariedade de meu texto.

David Roas, importante teórico do fantástico nascido na Espanha, propõe em caráter provisório, no ensaio “La perversión fantástica del tiempo” (2012), a classificação do uso do tempo na narrativa pertencente a essa estética em oito categorias. São elas:  

1- O tempo total: nessa narrativa, a cronologia é anulada pela percepção de que passado, presente e futuro formam uma unidade indivisível. Não há linearidade, tampouco a chamada viagem no tempo. Num termo simples, é “tudo junto e misturado”.

2- O tempo expandido: traduz-se pela presença de um protagonista que experimenta um tempo pessoal desacelerado em relação ao tempo “real” dos outros personagens e do relógio. Essa diferença de ritmo, contudo, ocupa um trecho muito pequeno desse tempo “real”. Ou seja, é uma lentidão que apenas o protagonista percebe.

3- O tempo detido: a exemplo da modalidade anterior, há a necessidade de comparar o tempo “real” com o do personagem. A diferença é que ocorre a interrupção súbita da flecha temporal e o personagem, ao invés de percorrer o tempo da realidade empírica em que se encontra, como seria “natural”, vive um momento particular em que há um eterno presente de certa maneira obstaculando o tempo físico, como se houvesse uma gaiola temporal. Esse eterno presente, contudo, não é cíclico.  

4- O tempo invertido: como num rio vertendo ao contrário, aqui o fluxo temporal altera seu sentido passado-presente e a vida do personagem flui do presente ao passado. Não se trata, portanto, de uma visita do personagem ao próprio passado.  

5- Justaposição de tempos paralelos: nesse caso, a narrativa evidencia dois tempos (e, não raro, dois espaços) narrados em paralelo, mas sem relação perceptível entre eles, como se fossem duas narrativas completamente distintas. Em determinado ponto acontece o processo de confluência e justaposição das narrativas, formando uma unidade coesa.

Em minha opinião, nenhum dos cinco itens acima descritos encontra ressonância nos contos de Atemporal. A situação se modifica quando as categorias são as que seguem abaixo.

6- Tempos convergentes: dois ou mais tempos se encontram num determinado instante. Opõe-se ao atual pensamento científico dominante, que não admite dois estados temporais e duas maneiras de organizar o real se encontrarem num mesmo ponto do espaço. Esses tempos, porém, não se misturam. Mantém suas individualidades, por assim dizer, apesar de haver interação. Não podemos confundir com a famosa viagem ao passado ou ao futuro, em que o personagem sai de um tempo e ingressa em outro: aqui, num mesmo instante, há presente junto ao passado ou presente junto ao futuro, sem trânsito. Também não se confunde com o “tempo total”, pois neste a mescla temporal é uma percepção do personagem, enquanto aqui ela acontece de fato.

“À roda do meu quarto” (José Ângelo Rodrigues), de todas as narrativas a mais complexa de ser classificada nos parâmetros propostos pelo pesquisador espanhol. Com alguma hesitação a incluo nos “tempos convergentes”. No conto, o protagonista, após ler informações acerca do falecido autor Xavier de Maistre, que de fato existiu, se vê frente a frente — e sem sair de casa — com o escritor e eles conversam. No entanto, num discurso em que as falas de Xavier não são postas entre aspas nem marcadas com travessões, por vezes o que ele diz ressoa como sendo também do protagonista. Nesse sentido, quando Maistre em dado momento diz sentir-se como se fora duas pessoas, isso também pode valer para o protagonista (“Aqui estou em meu quarto, como um rato degredado a viver num celeiro. Nunca percebi com mais clareza que sou duplo”).

O motivo de minha hesitação é que a abordagem da trama não é exatamente o presente do protagonista encostar-se ao passado de Xavier, e sim do diálogo de duas dimensões da realidade. Concluo isso pelas descrições surrealistas que são feitas de Maistre (“Seu pescoço longo demais parecia desprovido de ossos e músculos”) e do cenário no qual, sendo um quarto, há coisas tão atípicas que, diria eu, parecer-me que no excelente conto do José Ângelo o efeito insólito está menos no tempo que no espaço, e este de algum modo exerce certo efeito mágico sobre as coisas. Inclusive, a considerar a classificação feita pelo teórico Todorov (2010), responsável pela metodização da estética literária de que falo, o conto se enquadra melhor no maravilhoso, nem tanto no fantástico puro.   

O intrigante “Quinze minutos” (Ricardo Labuto Gondim), cuja interpretação é menos óbvia do que pode parecer, também está incluso em “tempos convergentes”. No enredo, um homem adquire uma casa e um grande relógio de pêndulo, mas nota um constante espectro atrasando os ponteiros. A princípio a diferença é de apenas alguns minutos, mas ao fim chega a quinze. O transcorrer da leitura sugere que o protagonista é o mesmo fantasma que ele vê alterando o relógio de pêndulo. Portanto, seria a mesma pessoa em duas dimensões, uma física e a outra fantasmal, no mesmo espaço (“A aparição moveu seu longo braço — o meu braço — e apontou o carrilhão”).

No entanto, a possibilidade de serem carne e projeção espiritual da mesma pessoa não ocorre durante todo o conto. Até determinado ponto, o protagonista é de fato a representação de alguém “de carne e osso”; próximo do desfecho, porém, há uma sombra insólita e proposital no texto: a narração sugere levemente que o protagonista pode estar morto, vítima de uma explosão na rua, acontecida na janela de tempo em que vislumbrava o fantasma. Nesse caso, teríamos a estranha situação de haver dois espectros da mesma pessoa, cada qual representando instantes distintos. A ironia é que no arremate do conto o protagonista diz o seguinte: “Sei que estou vivo para morrer em um dia desconhecido e não acredito em fantasmas”. Estará mesmo vivo?

7- Ingresso em outro tempo: é a viajem no tempo. Nessa categoria, há o abandono do personagem de seu plano temporal próprio para se incluir em outro (anterior, futuro ou paralelo). E aqui um ponto relevante: o efeito do fantástico nessas narrativas se dá pela ausência de causa cientificamente lógica no trânsito temporal. A mudança de tempo simplesmente acontece. Com isso, temos efeito semelhante ao caso anterior, ou seja, conexão entre tempos e universos paralelos.

Muitos contos de Atemporal pertencem a essa divisão, como “Amélia” (Ana Maria Monteiro), em que há uma homenagem à primeira mulher que tentou circundar a Terra pelo ar e desapareceu em algum ponto do Oceano Pacífico; “A última viagem de um homem sem fé” (Jorge Santos), em que o protagonista sai de seu presente (futuro, para o leitor) e retroage no tempo até se encontrar ocasionalmente com Jesus Cristo e com uma personagem que, assim sugere o texto, seria a versão recuada no tempo de sua noiva; “Gênio” (Marco Saraiva), em que um personagem traz para o presente as diversas versões dele mesmo; “Pandorga” (Eduardo Selga); “Prisioneiro do tempo” (Antonio Stegues Batista), conto cujo mote romântico guarda similaridade com outro que fala de viajem no tempo, “Tempo negado” (Claudia Roberta Angst): em ambos o amor faz um personagem viajar do presente ao passado ou, no caso da Claudia, do passado ao presente.

Merece observação à parte, nesse ponto de que estamos tratando, a sensível narrativa “Buraco de minhoca” (Paula Giannini), porque há nela uma ambiguidade que pode manter o conto na categoria de que trato aqui ou não. É que a protagonista, uma menina, vê e conversa com ela mesma, adulta e vinda do futuro. Contudo, é possível que tudo isso e a viagem que ela faria pelo buraco de minhoca cósmico para salvar a vida de sua mãe sejam apenas efeito de imaginação infantil decorrente de um elemento concreto, a presença de uma “doutora do riso”.       

8- Tempo cíclico ou recorrente: histórias nas quais a mesma fração de tempo se repete, como num videotape. O instante repetido pode ou não durar pouco tempo, mas não se confunde com o “tempo detido”, pois naquela modalidade o tempo presente não é cíclico. Na coletânea da Caligo “O paradoxo do avô” (Victor O. de Faria) é um exemplo: “Estou preso neste ciclo há dois meses e a única forma de livrar-me desse fardo é bastante dolorosa”.

A produção literária é um processo no qual há muito da psique do autor, e esta é vivamente influenciada pelo “espírito do tempo”, ou seja, a época na qual vive. É completamente impossível o autor, durante o ato de criação, desligar-se de si mesmo e do todo circundante. Assim sendo, se nos atentarmos aos enredos de Atemporal, podemos enxergar em alguns deles, devidamente estetizada, uma agonia típica do contemporâneo: a vontade que muitos sujeitos sentem de fugir, de não estar aqui.

Atemporal, nesse sentido, trata da atualíssima infelicidade humana. Não é à toa o afeto que une a protagonista de “Amélia” à mulher que surge de outros tempos (descobriremos o verdadeiro carinho apenas no futuro?); a descoberta do divino em “A última viagem de um homem sem fé” (precisaremos voltar em nosso tempo interior para descobrir isso?); no coração da menina de “Buraco de minhoca” o amor adulto, ao invés da infantilização desse sentimento, conforme vemos por aí; um espaço anárquico em sua diagramação, mas não caótico, uma espécie de antepassado fictício e mito fundacional de nossa Terra Brasilis, em que a amistosa visita dos colonizadores portugueses enseja amor no protagonista (nossa grande dificuldade em aceitar o diferente); o amor que atravessa as décadas, em “Prisioneiro do tempo” e “Tempo negado” (amor é coisa do passado?).

É nítido o quanto as narrativas acima citadas discordam da ideologia que hoje nos domina, usando para isso, evidentemente, um discurso literário no qual, na aparência, não há ideologia. Os próprios autores, frutos do ambiente, portanto misturados a ele como o gato de Alice se confunde com o cenário, talvez não tenham percebido esse viés. Por esse motivo cabe aqui citar a pesquisadora contemporânea Rosemary Jackson, para quem o fantástico é “uma forma de oposição social subversiva que se contrapõe à ideologia dominante no período histórico em que se manifesta” (CESARANI, 2006, p. 62).

Por tudo isso, e pelo tanto que não consegui enxergar ou não coube mencionar aqui pelo recorte escolhido, a coletânea Atemporal vale muito a pena ser lida.

Boa viagem.  

 

BIBLIOGRAFIA

 

ATEMPORAL, Campo Grande: Caligo, 2018.

INTRODUÇÃO À LITERATURA FANTÁSTICA, São Paulo: Perspectiva, 2010.

O FANTÁSTICO, Curitiba: UFPR, 2006.

VERTENTES TEÓRICAS E FICCIONAIS DO INSÓLITO, Rio de Janeiro: Caetés, 2012.

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8 comentários em “Atemporal uma coletânea do tempo fantástico – Resenha (Eduardo Selga)

  1. Paulolus
    7 de maio de 2018

    Belíssima resenha. De apurada reflexão analítica ao desenvolver com convicção a exposição das ideias, as quais muito bem estruturadas se impõem como própria.

  2. eduardoselga
    7 de maio de 2018

    Obrigado, também. Preciso dar um jeito de conhecer melhor sua obra. Suspeito que as grandes editoras estejam comendo mosca.

  3. Paula Giannini
    5 de maio de 2018

    Parabéns, Eduardo pelas elucubrações tão lúcidas acerca da arte da escrita em Atemporal. Parabéns por seu belíssimo conto, também. Bem como a todos os autores desta obra com os quais tenho prazer e orgulho em dividir tempo e espaço.

    • eduardoselga
      7 de maio de 2018

      É o Tempo e o tempo… No fim das contas ele, criação nossa, é Deus.

  4. Ana Maria Monteiro
    5 de maio de 2018

    Obrigada, Eduardo. Uma visão inteligente e informada, como sempre.

    • eduardoselga
      7 de maio de 2018

      Obrigado, Ana, pelas palavras.

  5. Ricardo Labuto Gondim
    5 de maio de 2018

    Muito obrigado pela leitura tão atenciosa — e tão perspicaz.

    • eduardoselga
      7 de maio de 2018

      Obrigado, também, Ricardo. Preciso dar um jeito de conhecer melhor sua obra. Suspeito que as grandes editoras estejam comendo mosca.

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Publicado às 5 de maio de 2018 por em Resenhas e marcado , .