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Detox Literário.

O padre enforcado – Conto (Evandro Nunes)

A manhã chegava acanhada e morna naquela cidade que deixava para trás uma noite testemunha de um crime misterioso. Na torre da igreja o vento balançava um corpo enforcado no sino, pendurado pelo pescoço por uma corda amarrada no badalo, fazendo-o vibrar sonoramente. Era o padre Rogério que era balançado pela pancada do vento daquela manhã ensolarada.

À medida que o sol crescia no horizonte, as pessoas passavam pela praça e os mais atentos olhavam para o alto e assustavam-se ao ver um corpo pendurado na torre da igreja com uma batina esvoaçando-se no alto. Quando alguém parava e ficava olhando para cima, quem por ali passava o imitava e aos poucos a frente da igreja estava lotada de curiosos. Quando a cidade estava quase toda acordada, a Praça Coronel Francisco Martins era um tumulto de gente olhando para a torre da igreja.

* * *

Alguns anos antes dessa trágica manhã, o padre Vicente celebrava aquela que seria a sua última missa, porque de repente uma dor no peito o leva a um infarto fulminante, derrubando-o por trás do altar com o cálice preso à mão. Deus veio buscá-lo porque o velho sacerdote com certeza cumprira a sua missão aqui na terra.

Com a paróquia vazia, o bispo de Garanhuns nomeou o padre Rogério, um jovem recém-ordenado, para governar o povo de Deus da pequena cidade de Itaíba, interior de Pernambuco. Assim o mancebo foi para Itaíba substituir o velho padre Vicente. Chegando a Itaíba é recepcionado pelas autoridades e carregado nos braços do povo até o altar da igreja matriz. Naquele mesmo dia, o neossacerdote celebrou oficialmente a sua primeira missa aos fiéis que devotamente a ela assistem. O prefeito e sua simpática e contente jovem esposa estavam na primeira fila ladeados por algumas autoridades.

Nessa época o chefe do poder executivo de Itaíba era um quadragenário com uma linda esposa de seus vinte e cinco anos, e que depois da chegada do novo padre, passou a ser frequentadora assídua das missas e colaboradora das obras sociais da igreja.

Quem se sentava atrás deles, quase não acompanhava a missa, pois se alternavam a prestar atenção na esposa do prefeito, que embebida pela beleza do jovem padre, seus olhos brilhavam ao fitá-lo. Esse seu comportamento com certeza iria correr as ruas de Itaíba acrescidos de comentários maldosos. O prefeito ao seu lado ainda não havia percebido a conduta daqueles fiéis e muito menos alguma anormalidade na maneira de sua esposa acompanhar a missa, pois sabia que a sua mulher era uma atenta devota dos ensinamentos divinos. Na época do padre Vicente, ela pouco frequentava a igreja, mas uma vez ou outra era obrigada, como primeira-dama, a participar das ações sociais da paróquia.

Quando da chegada de padre Rogério, alguns fofoqueiros já haviam comentado sobre aquele semblante excitado e aqueles olhos cintilantes de prazer da primeira-dama ao recepcioná-lo. Até o aperto de mão foi motivo de galhofa nas esquinas e nos bares da cidade.

Quando o culto católico terminou, o prefeito ficou cumprimentando os munícipes, enquanto a jovem primeira-dama se dirigiu até a sacristia para parabenizar o padre Rogério pela condução autoconfiante de sua primeira missa.

Com o passar do tempo, depois de muitas missas onde a mulher do prefeito sempre se sentava na primeira fila, olhos grudados no padre, e muitas visitas à sacristia, os cofres da igreja de novo voltaram a se encher. Já não havia necessidade de oferendas em dinheiro durante as missas.

Ora, esse casal ainda não tinha filhos, apesar de um comprido tempo juntos e de vários exames laboratoriais de espermograma feitos na capital pelo prefeito. E como a evolução nos ensina que a vida encontra um meio, algum tempo depois a primeira-dama percebeu que a sua menstruação não desceu no tempo esperado. Sentiu-se tomada de felicidade naquele momento, mas ao mesmo tempo o medo a dominou, pois o seu marido, conforme os resultados de suas avaliações, não podia se reproduzir. Mas ela seguiu em frente e após os exames preliminares, constatou-se que estava grávida.

* * *

— Vejam como é a medicina de hoje em dia! — Vangloriava-se o prefeito diante de seus secretários, no seu gabinete.

— Senhor prefeito, nesses laboratórios cheios de pessoas voltadas para a folha de pagamento, muitas vezes as amostras são trocadas. — Comentava um de seus bajuladores, tentando confortá-lo.

A cidade logo soube que a primeira-dama estava grávida e os cochichos jocosos rapidamente se espalharam. Em Itaíba todo mundo tinha conhecimento da infertilidade do prefeito.

Agora a primeira-dama frequentava a missa acompanhada de sua obstetra particular, e após o culto o padre sempre a recebia na sacristia para abençoá-la e encostar a cabeça naquele barrigão para ouvir e sentir os movimentos do nascituro.

E a primeira-dama deu a luz um menino.

Dias depois a criança foi batizada pelo padre Rogério, tendo como padrinhos o presidente da câmara e sua esposa.

* * *

Passados alguns anos, três ou quatro no máximo, o filho do prefeito já passava algumas manhãs no gabinete de seu pai, na prefeitura, levado pela babá e deixado a mexer com os papéis amontoados sobre as mesas dos secretários. O pirralha misturava tudo, além de espalhá-los pelo chão. Ninguém reclamava dessas travessuras, apenas sorriam e saíam juntando toda a papelada espalhada na sala. O prefeito também não o repreendia, pois estava muito ocupado assinando os empenhos que eram deixados sobre a sua mesa.

Mas certo dia, numa dessas visitas do menino ao gabinete do prefeito, o secretário de gabinete, assim como o secretário de finanças, que eram mais íntimos da administração, fizeram um comentário inusitado:

— Prefeito, o senhor não acha que esse menino é a cara do padre Rogério? Até o seu andar é idêntico ao do vigário — advertiu o secretário de finanças.

Os demais secretários esboçaram uma risadinha contida e o prefeito imediatamente os congelou com o olhar. Entrando na conversa, o secretário de gabinete completou:

— Eu também já percebi. Até o olhar desse menino me faz lembrar o olhar sempre para cima do padre Rogério, quando conversa conosco.

Nessa hora o prefeito cruzou as mãos sob o queixo e olhando para o seu filho que bagunçava as mesas, defendeu-se:

— Meus nobres secretários, essas coincidências são raras, mas acontecem. — Depois abaixando as mãos e colocando-as sobre a mesa, olhou para um secretário, depois para o outro, e continuou: — Já li algum artigo numa revista que discorria sobre essa possibilidade. Lembro-me que nesse artigo dizia-se que uma mulher grávida ao frequentar demais um ambiente, a criança no seu útero sofre a influência de quem está sempre presente e nasce com as mesmas características daquela pessoa.

— Prefeito — interveio o secretário de finanças. — Nós somos amigos de há muito tempo, por isso tenho essa liberdade de dizer-lhe que isso é história pra boi dormir. Não se apegue a essas invencionices de catedráticos. A maioria desses artigos não tem nenhuma comprovação científica. Seja mais real.

O secretário de gabinete apenas assentiu com a cabeça, enquanto os demais secretários se entreolhavam maliciosamente.

O prefeito se ajeita na sua cadeira, olha para o seu filho que continuava jogando papéis no chão, e de repente, com a mão fechada bate sobre a mesa e quase gritando, decreta:

— Senhores, a partir de hoje nenhum vintém para a igreja! Esse filho da puta nunca foi meu!

Quando a noite invadia a cidade, o prefeito viajava para a sua fazenda, acompanhado de alguns secretários, para um churrasco preparado pelos vaqueiros que já os esperavam. A primeira-dama não os acompanhou, preferiu ir a igreja ajudar na preparação para a festa da padroeira, Nossa Senhora Mãe dos Homens, que seria no mês seguinte.

Enquanto a carne ardia no braseiro, o prefeito chamou alguns vaqueiros para um canto e perguntou-lhes porque não procuravam uma igreja para um encontro com o Senhor. Ali naquele mato eles estavam abandonados e Deus não conseguiria vê-los lá de cima.

Na escuridão da noite, os vaqueiros mais destemidos foram à igreja para encontrar-se com Deus e na ocasião, com seus laços fizeram uma ligação sagrada entre a matéria e o espírito, indicando que cada pessoa está amarrada às suas escolhas.

Na manhã seguinte, à primeira claridade da aurora, o padre Rogério balançava na torre da igreja, o pescoço amarrado na corda e açoitado pelo vento.

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2 comentários em “O padre enforcado – Conto (Evandro Nunes)

  1. Regina Lopes Maciel
    12 de maio de 2018

    Olá Evandro,
    “O padre enforcado” é um conto simples, com uma temática já bem explorada, mas que teve uma construção que criou algum impacto.No geral está bem escrito, com exceção de algumas frases que valeria a pena rever, ex: “que embebida pela beleza do jovem padre, seus olhos brilhavam ao fitá-lo”, “esvoaçando-se no alto”, “quando alguém parava e ficava olhando para cima, quem por ali passava o imitava”. Percebi no primeiro parágrafo, muita repetição de – torre da igreja e da imagem do balançar; às vezes excesso de verbos em algumas frases. Comento aqui estes pontos, por saber da dificuldade do escritor enxergar estes detalhes no texto, em função do seu envolvimento com ele.
    Um abraço,
    Regina

  2. Clair Glaucia
    6 de maio de 2018

    Um conto leve mas delicioso com um final inesperado.

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Publicado às 6 de maio de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .