EntreContos

Detox Literário.

Irreversível (Dead Sea)

Foi assim que tudo terminou.

Cada um para o seu lado, cigarros acesos na chuva.

Não sem antes trocarem um longo beijo desesperançado.

Combinaram que aquilo era só outro começo.

Ele aceitou como pôde.

Ela nunca conseguiu superar.

Voltou do médico, arrasada.

A notícia não era nada boa.

Poderiam ter tido um filho.

Tentaram se equilibrar, cada um ao seu modo.

Ela queria ser malabarista. Ele, segurar o mundo com as mãos.

Conversaram muito, sobre todos os casos, sobre todas as coisas.

Resolveram se encontrar. Mais uma vez.

Sabiam que havia algo ali – à espera, à espreita.

Parados, procurando o tempo certo, e o que dizer um ao outro.

– Tudo bem.

– Você quer?

– Um cigarro?

– Você tem?

Os dois, sozinhos sob a marquise, ao abrigo da chuva insistente.

Foi aqui que tudo começou.

P.S. Frase por frase, é assim que deveria ter sido: exatamente ao contrário do que realmente aconteceu. Mas viver é irreversível.

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27 comentários em “Irreversível (Dead Sea)

  1. Ana Carolina Machado
    21 de abril de 2018

    Oiiii. Muito bom. O texto é curto, mas diz muito em poucas palavras. Foi muito bom o fato de ele poder ser lido tanto de baixo para cima como de cima para baixo. E gostei também da reflexão que ele trás, porque muitas vezes ficamos com a sensação de que tudo poderia ter sido diferente, que o tempo passado poderia ter sido diferente do que foi, só que o tempo é como um rio que corre em um única direção e como diz o texto viver é irreversível. Parabéns. Abraços.

  2. Andre Brizola
    21 de abril de 2018

    Salve, Dead!

    Direto ao ponto (como o conto fez – duas vezes, por sinal) digo que é um dos trabalhos mais interessantes do desafio até agora. E digo isso analisando o fato de que a forma, embora pareça ser a razão principal de sua existência, não deixa o enredo para trás. Alguns contos do desafio focaram demais na forma, tentando atingir o experimentalismo, e acabaram deixando o enredo em segundo plano. Não é o caso aqui. O experimento foi utilizado em favor do enredo (ou enredos).
    Mas devo dizer que o tom de melancolia me incomoda um pouco. Opções, decisões, alternativas nem sempre geram insatisfações ou arrependimentos, e teria sido legal ver o conto ir por outro caminho. Vários contos desse desafio adotaram o mesmo tom. O tom melancólico não é exatamente um problema. Mas é algo que me impediu de conseguir um vínculo maior com o texto.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  3. Jorge Santos
    21 de abril de 2018

    Texto curto. Uma benção depois de ter lido dezenas de textos. O facto de ser curto não significa que não tenha sido emotivo ou sem qualidade. Neste texto, escrito de uma forma simples com recurso à inversão da ordem da narrativa, é contada a história de um casal em que a mulher tem um aborto, o que faz com que a relação termine. A história é real, contada com palavras cruas. Gostei, mas acho que ficou excessivamente curto.

  4. Higor Benízio
    19 de abril de 2018

    Putzs, outra ideia que eu gostaria de ter tido (como naquele conto em linguagem de programação). Fico imaginando como foi complicado escrever esse conto, que funciona de baixo para cima e de cima para baixo, pqp…. O “ps” no final é necessário, pra gente sacar que de ponta cabeça o texto também funciona, mas acho que seria mais legal um “ps” com mais neblina, menos direto, ou, e eu não sei como (talvez o autor(a), genial como foi, conseguisse) arrumar outra forma de dizer ao leitor que o texto funciona de baixo para cima. Trabalho genial,

  5. iolandinhapinheiro
    19 de abril de 2018

    Olá, autor!

    Gostei demais do seu texto fazendo sentido nas duas direções, ainda que a certa fosse ler de baixo para cima.

    Um trabalho muito bem feito e que tive o prazer de ler e reler do jeito certo.

    O texto é bem curtinho mas há personagens, há enredo, há emoção, há lógica, e há experimentalismo!

    Um projeto de inequívoco sucesso. Parabéns!

  6. Priscila Pereira
    17 de abril de 2018

    Olá Dead Sea,
    Eu gostei do seu experimento! Texto curto direto, poético. Duas estórias? Outro ângulo da mesma? Não importa. O que importa é que o leitor use a imaginação e preencha as lacunas. Muito bom! Parabéns e boa sorte!

  7. jowilton
    16 de abril de 2018

    Gostei. Muito legal a históriia de trás para frente, além de fazer mais sentido também. De frente para trás, em alguns momentos, parece que as frases estão soltas, sem uma conexão. Alta criatividade, boa técnia, bom impacto. Boa sorte no desafio.

  8. Evelyn Postali
    15 de abril de 2018

    Eu gostei demais! E se posso me atrever, tiraria a primeira frase (Foi assim que tudo terminou). Para mim ela é dispensável. Li do começo ao fim e do fim para o começo, ou será que foi ao contrário? Está curto, sim, mas é direto, reflexivo, e experimental. Tudo a seu tempo.

  9. Mariana
    12 de abril de 2018

    Um texto curtinho, que conta uma história de cima para baixo e baixo para cima. O começo e o fim de uma relação, coisas que doem em todos nós. Sempre. Efetivo, uma bala bem mirada. Parabéns e boa sorte no desafio.

    • Mariana
      12 de abril de 2018

      Um texto curtinho, que conta uma história de cima para baixo e baixo para cima. O começo e o fim de uma relação, coisas que doem em todos nós. Sempre. Efetivo, uma bala bem mirada. Mas aqui, ao contrário da brincadeira infantil, não temos o final feliz escondido – a vida, ela é irreversível como a fumaça que se perde no ar. Parabéns e boa sorte no desafio.

  10. Paula Giannini
    12 de abril de 2018

    Olá autor(a),

    Tudo bem?

    Viver é irreversível. Não há nada mais belo, real e triste. Na literatura, no entanto, há a possibilidade da tal reversibilidade. Aqui, lemos um conto de cima para baixo, outro, de baixo para cima. Ambas as histórias, porém, convergem para o mesmo fim.

    O fim.

    Viver é mesmo irreversível.

    É interessante notar que, embora contada de modo diferente, digamos cronologicamente, ambas as narrativas, a direita e a avessa, convergem para um mesmo ponto de virada. O momento em que o casal descobre que, em suas histórias, não há filhos. Assim, separam-se. Um filho seria, talvez, a tábua de salvação para ambos, para um deles, ou, aproveitando a premissa do trabalho, para nenhum. Afinal a proposta é a inexorável irreversibilidade dos fatos.

    O jogo é gostoso e as palavras convidam o leitor permanecer girando e girando no looping de sua verve.

    Parabéns.

    Sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  11. Regina Ruth Rincon Caires
    8 de abril de 2018

    Que leitura interessante…

    Um texto simples, com apenas 23 linhas, pouquíssimas palavras, e o autor conseguiu retratar parte da vida. E, justamente, uma parte densa, emotiva. Um texto enxuto, mostrando que a construção de um trabalho com frases curtas pode transmitir uma história consistente.

    Genial a leitura ao contrário, deve dar muito trabalho.

    Que peninha que o final tenha sido triste. Ou não foi?!

    Parabéns, Dead Sea!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços….

  12. Rose Hahn
    8 de abril de 2018

    Caro Autor, alinhada com a proposta do desafio, estou “experimentando” uma forma diferente de tecer os comentários: concisa, objetiva, sem firulas, e seguindo os aspectos de avaliação de acordo com a técnica literária desenvolvida pelo meu conterrâneo, o Analista de Bagé, a técnica do “joelhaço”:
    . Escrita: Reversível ou camaleônica,
    . Enredo: O inverso do Universo;
    . Adequação ao tema: De trás pra frente, vá em frente;
    . Emoção: “Cada um para o seu lado”, fim.
    . Criatividade: Poética.

    . Nota: Mais do que vc. espera. Abçs.

  13. Ricardo Gnecco Falco
    7 de abril de 2018

    PONTOS POSITIVOS = Me fazer lembrar do maravilhoso filme do Gaspar Noé, de mesmo nome! Lembro que quando assisti no cinema fiquei completamente admirado com aquela verdadeira obra de arte! Que filme! Que filme…

    PONTOS NEGATIVOS = Talvez por eu ter gostado TANTO do filme, fiquei esperando por algum tipo de soco no estômago enquanto lia o seu texto; mas – claro, nem poderia ser diferente! – ele não veio. Foi apenas um texto escrito de trás para frente, no que diz respeito às frases (assim como as cenas que vão ‘retroavançando’, em espiral, no filme homônimo). Mas o problema aqui nem foi esse… Diferentemente da obra cinematográfica, cujo final (num paradoxo genial) é ‘feliz’, aqui o final tornou-se triste. Tudo por causa de uma (desnecessária) nota final do autor…

    IMPRESSÕES PESSOAIS = Desculpe-me por minha sinceridade, autor, mas realmente foi assim que me senti. Na minha humilde opinião, soou como se você não acreditasse que o leitor pudesse compreender sua ideia de reverter a ‘contação’ de sua história, temporalmente falando, linha por linha, e precisasse ‘pegar o leitor pela mão’ (através da nota final), levando-o, então, ao Nirvana. Mas o mote do trabalho foi bom e lhe parabenizo pelo texto!

    SUGESTÕES PERTINENTES = Num texto tão pequeno como o seu, a surpresa final (ou qualquer outro sentimento que faça o leitor ficar ‘matutando’ alguma coisa após terminada a leitura) é praticamente obrigatória. Talvez, se ao invés de uma nota explicativa você colocasse algum diálogo que só se fizesse inteligível de trás para frente, ou até mesmo uma última frase onde as palavras, aos poucos, fossem ‘odnariv ed odla’, ou ‘ordem de’, o leitor iria realizar sozinho esta descoberta (caso já não a tivesse feito bem antes, como em meu caso e no de muitos outros, certamente) e o final soaria muito, muito mais “dramático” ou “revelador”, cumprindo com a mais importante das premissas do gênero de histórias curtas.

    !oifased on etros aoB

  14. José Américo de Moura
    6 de abril de 2018

    Assim como começou o amor rápido acabou, Frases curtas para demonstrar em um conto bem curto o início e o fim de uma ilusão amorosa, cada um pro seu lado sem sentimentos e sem dramas, acabou, ponto final;

  15. Fheluany Nogueira
    6 de abril de 2018

    Trata-se de uma brincadeira engenhosa, um texto cujo sentido se altera quando lido de baixo para cima. Não se pode dizer que seja um poema e, não sei se seria um conto. É um texto dividido em linhas. Não é um palíndromo, porque eles dão a mesma leitura. Lembrei-me, logo que terminei a primeira leitura e vi a nota abaixo, de um texto atribuído a Clarice Lispector:

    “Não te amo mais.
    Estarei mentindo dizendo que
    Ainda te quero como sempre quis.
    Tenho certeza que
    Nada foi em vão.
    Sinto dentro de mim que
    Você não significa nada.
    Não poderia dizer jamais que
    Alimento um grande amor.
    Sinto cada vez mais que
    Já te esqueci!
    E jamais usarei a frase
    EU TE AMO!
    Sinto, mas tenho que dizer a verdade
    É tarde demais…”

    No todo, gostei, enquadra-se perfeitamente neste Desafio e a trama ficou interessante. Parabéns pela participação. Abraço!

  16. werneck2017
    6 de abril de 2018

    Olá,

    Um senhor texto. Curto, simples, sensível e triste. Muito bem concebido. Frases curtas, mas efetivas. Daquelas que muito falam com pouco. Parabéns pelo trabalho. Boa sorte no desafio.

  17. Angelo Rodrigues
    5 de abril de 2018

    Olá, caro Dead Sea,

    uma história simples, rápida e bem contada, segundo os limites do desejo de reversibilidade da leitura.
    Uma leitura que pode ser considerada cíclica, contada em circularidades.
    O móvel, por princípio, é abrir mão daquilo que fundamentalmente caracteriza as línguas: a recursividade. Isto quer dizer que as frases devem ser curtas e não declinarem em sucessivos caminhos, privilegiando o estancamento, em cada frase, de uma ideia de boa cognição que termina em si.
    Assim, “então, dado que, embora, que, portanto..”, estão fora da jogada.
    Apenas como ilustração, apenas uma língua até hoje encontrada que abdica da recursividade está aqui no Brasil e se chama língua pirahã (por óbvio, indígena).
    Há um livro fabuloso que trata disso e se chama O Reino da Fala, de Tom Wolfe, onde relata a longa briga linguística entre Noan Chomsky e Daniel L. Everett. O primeiro negando o fato de que não possa haver uma língua sem recursividade e o outro, Everett, afirmando que ela existe e se chama pirahã.
    O conto não pode ser considerado um palíndromo nem as frases são anacíclicas, tratando-se fundamente de uma construção em blocos lógicos de escrita sem recursividade.
    Legal isso. Parabéns e boa sorte no desafio.

    • Sabrina Dalbelo
      5 de abril de 2018

      Que bacana teu comentário, Angelo!

  18. Fernando Cyrino.
    5 de abril de 2018

    Sim, Dead Sea, a vida é irreversível. Ela não nos dá a chance do palíndromo. E isto é angustiante. Ah, como gostaria de voltar em alguns pontos na minha vida e poder descosturar o que bordei, enlaçar novos fios, e enfim, poder costurar de novo com outras cores mais bonitas e com desenhos mais significativos a minha história. Mas cá estou eu a fazer filosofia barata do seu lindo conto. Que bacana a sua obra, gostei demais da sua criatividade. Está ótimo. Curto, denso e belo. Precisa mais o quê? Que tudo comece, que tudo termine e que tudo tenha novo início… abraços de parabéns.

  19. angst447
    4 de abril de 2018

    Bem bacana,a sua ideia de usar um texto reversível. Já tinha visto isso em um poema de alguém famoso e achei espetacular. Além de tudo, o conto é curto, ágil e portanto não cansa. Fiquei com pena dos personagens por terem terminado algo que já não podia ser revertido. Boa linguagem, sem pretensão de apresentar algo mirabolante. Aqui, a simplicidade foi o grande trunfo. Parabéns!

  20. Antonio Stegues Batista
    4 de abril de 2018

    Eu já conhecia frases que, lidas de trás para frente diz a mesma coisa.” Roma me tem amor” é a mais antiga. Em texto é a primeira vez que leio. Foi uma boa ideia e ficou muito bom, duas direções para uma só história. Confesso que não tinha percebido numa primeira leitura, fiquei procurando o “experimental” até que reli a nota. Boa sorte.

  21. Ana Maria Monteiro
    4 de abril de 2018

    Olá, Dead. Boa ideia. Já conhecia, uma vez li um pequeno texto assim e, claro, senti o desafio e fui a correr fazer um também. Nem sei que destino lhe dei, há-de estar algures num qualquer momento da minha cronologia, penso.
    É muito difícil. Recordo-me de que, por não ter optado, como você inteligentemente fez, por frases curtas, tive que terminar quase todas as linhas em “que” ou “e” para dar continuidade.
    Não é possível produzir um conto longo dentro deste formato e o seu não o é. Mas tem dois princípios, dois fins e um meio. Vale a dobrar, então, não é?
    E vale mesmo. Totalmente adequado ao tema.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  22. Cirineu
    4 de abril de 2018

    Adorei! Lido de trás pra frente, da frente para trás, duas estórias, a mesma estória, não redundantes, mas complementares nos detalhes, no entendimento. Parabéns!

  23. Sabrina Dalbelo
    4 de abril de 2018

    Olá Dead Sea,

    O teu texto é primoroso. Ao contrário do nobríssimo Fabio, eu acho que frases curtas podem falar muito. Gosto das quebras, gosto do que não é dito.

    O teu texto – que não é um palíndromo – para mim, funcionou como uma possibilidade de enviar duas mensagens, já que ele pode ser lido do início ao fim e do fim ao início. Isto é, ele tem dois começos possíveis (ainda que a vida, como fazes a referência, não nos permita esse milagre).

    E é aí que o experimental nos abre horizontes, não é? Temos na literatura a possibilidade de dois começos.

    Eu imagino que não tenha sido fácil amarrar tudo porque, embora sejam curtas, cada uma das frases está ali com o seu propósito temporal.

    Pessoalmente (daí é só bobeira minha e também não sei explicar exatamente), o teu pseudônimo não me agradou… hahahahahaha… mas e daí, né?!
    Sei lá, poderia até “Sea Dead”… frescura minha.

    Outra coisa, eu acho que ficaria bem bacana encaixar o texto do “PS” no texto.
    Por exemplo: “Viver é irreversível” poderia abrir e/ou fechar o texto.

    Gostei bastante mesmo! E lembrei de Cortázar, meu ídolo, e seu “O Jogo da Amarelinha”.

  24. Paulo Luís Ferreira
    4 de abril de 2018

    Um conto inteligentíssimo, cuja forma, eu já tinha conhecimento de tal técnica de narrativa, entretanto nunca experimentado uma leitura. Um enredo conciso, mas muito abrangente quanto à inerência do tema proposto. Ótimo trabalho no sentido estrito do experimental.

  25. Fabio Baptista
    3 de abril de 2018

    Não sou muito chegado em frases curtas, mas gostei desse texto. Ele é triste e bonito e rápido o suficiente para as tais frases, praticamente versos de um poema, não começarem a me incomodar.

    Se encaixa no tema, sem dúvida. E o mais surpreendente foi constatar que ninguém ainda havia apresentado nada com essa ideia de palindromo (acho que é esse o nome). A leitura “ao contrário” não trouxe lá grandes surpresas, mas valeu.

    Bom trabalho.

    Abraço!

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Informação

Publicado em 3 de abril de 2018 por em Experimental.