EntreContos

Detox Literário.

Nos Eucaliptos da Santa Rita (Borropé Quintas da Luz)

Vou pedir à minha santinha
que me volte a felicidade.
De joelhos rezarei ladainhas,
porque dele sinto saudades.
(De uma cantiga antiga e triste da roça)

A doutora repare naquela pedra grande. Sim, a pontuda no meio dos eucaliptos. Pois ali, exato nela, a nossa mãe quarava roupa. Quarar, eu acho que nem existe mais e, então, a senhora nem sabe desta palavra? Ah, conhece sim, mas de papel escrito. Jamais a usou, ou escutou assim saída do interior de alguma boca.

Quero chegar mais perto, por favor, me ajude, coração segue apertado. Releve de ver uma velha, já no fusssss do restinho de ar da existência, vertendo lágrimas aqui na Santa Rita. Esta floresta toda de eucaliptos, até virar lá naquele morro, que de tão longe azulou, era parte da fazenda do Coronel Borropé Quintas da Luz. Vinha dos fundos, vizinhanças de Pirapora, seguindo adiante, até para lá do Andrequicé. Pedaços dela nadam escondidos nas funduras do lago de Três Marias. Tem noção de terras assim tão imensas? Coisas das antiguidades do meu sertão.

Desejo encontrar algum dos restinhos da casa e só tem folha seca de eucalipto fazendo esse cheirinho bom, mas que, a senhora sabe, só é do gosto de nariz humano. Será que a gente escuta algum tritritri de passarinhos? Bicho algum, nem formiga, animal tinhoso que aprecia qualquer ambiente, apruma casa debaixo desses pés assim parecidos a soldados em quartel. Tudo verde, alinhado e do mesmo tamanho. Mas num silêncio de tristeza que tem o tamanho do mundo.

A doutora me auxilia no achar algum restinho da nossa casa? Sim, qualquer pedacinho serve. Darei instrução a quem for cuidar de mim na hora fatal, para botá-lo juntinho do meu corpo, de jeito a se tornar uma terra só comigo. Não sou mais patroa dos meus joelhos. Estão duros e só vergam à custa de dor. Ah, a doutora se agacha e espanta as folhas secas na busca, pra lá e pra cá com a mão? Precisa ter medo não, já disse que aqui nem micróbio sobrevive. Piso seco que, de tão limpo, pode pertencer até a hospital, que neles tem faxineiras, toda hora, asseando. Corredores e quartos têm cheiro parecido com este.

Deixa eu ver melhor esse caco. Hum… é restinho de telha e só podia estar me esperando. Será ele o companheiro do caixão. Deixa eu encostar na pedra, a emoção aumentou o cansaço e o ar está mais preguiçoso de entrar inteiro nos peitos. Ah, nossa pedra querida foi a única a permanecer para me trazer a lembrança do passado. Tão grande e pesada, só dinamite muita é que haveria de ter competência de dar cabo dela. Então se mantém aí, estátua, Igualzinha ela vigia nos meus tempos de menina. Pois saiba, dona, que para nossos folguedos ela foi cavalo, foi castelo e até mesmo catedral.

Será que Deus considerará roubo se eu levar de recordação esse caco de telha? Daqui nunca fomos donos de nadica de nada. Tento imaginar em que parte do telhado ele ficava a me guarnecer das águas e sol forte do cerrado. Sabe que me dá gosto de pensar, que ele estava exatamente em cima do estrado no qual, antes de dormir, eu via os fios de luz da lua a fazer uns desenhos ao invadir o barraco?

Estudo mesmo, de escola, quase nunca que me deram. Aprendi aqui na Santa Rita um pouco das letras e dos números com mestre Dolezar. Esse era homem dos grandes. Haver tido ele como professor me dá uns orgulhos. Naquelas eras diziam que preto não tinha os direitos de ser orgulhoso, senhora também considera tal opinião? Meus orgulhos então eram calados, de olhar para ele com reverência e mirar as outras meninas como pobres coitadas. Era a única mocinha a tomar lição em meio aos filhos, bem menores, do patrão e dos capatazes. Professor Dolezar, nas suas vindas, apreciava pitar e prosear com papai em nossa casinha. A gente em volta e ele pôde reparar nas minhas inteligências. Disse que iria conversar com o patrão, pois que havia espaço na mesa e seria bom que eu tomasse parte nas aulas. Doutora é capaz de imaginar as alegrias quando eu soube que o Coronel concedeu aquele benefício? As permissões dele, descobri depois, não se moveram por conta da minha esperteza, mas pelo fato de que tinha os olhos estendidos para mim. Havia virado mocinha, crescera muito rápido e diziam que eu possuía altas bonitezas.

Pelos acontecimentos que se deram logo depois, senhora vai saber por que mestre Dolezar, mesmo com a minha argúcia, teve tempo quase nenhum de me ensinar. Depois que a sina do capiroto se cumpriu foi que aprendi muito. Doutora haverá de duvidar, mas já teve pessoa, das muito letradas, a afirmar que eu era dona de saberes iguais aos dela. Daquelas eras retrato algum eu possuo. Retratista vinha de vez em quando para as poses da família do patrão. Até que se oferecia, mas cobrava caro e os cobres eram suficientes só para o de comer. Nem para o de vestir sobravam. Roupa de inverno nunca tivemos. Batia o mês de junho e a gente pelejava. Mamãe mandava que o sofrimento da friagem fosse oferecido em sufrágio das almas do purgatório.

Misturo as ideias e atraso o que a senhora quer saber. Ter essa trabalheira de me tirar do asilo em Laranjeiras e viajar comigo esses setecentos quilômetros, estrada cansativa de dia todo, só por modo de assuntar essas velharias. Nem me disse do porquê desses seus desejos. Anseia escrever livro? Pois vou deixar de ser o córrego cheio de curvas que passava aqui, para ser reta no relatar. Pois o quê? Surpreendi dizendo que estamos em leito de riacho? Caso nada houvesse mudado, estaríamos dentro d´água. Pois não havia dito que mamãe lavava roupas aqui? Eucalipto, doutora, seca tudo.

Coronel Borropé, dando desculpa dos estudos, me levou para os serviços na casa sede. Larguei pais e irmãos na faina das plantações e cuidados com o gado. Para agradecer tanta bondade, papai acendeu vela na imagem da Santa. Mamãe, desconfiada e no seu jeito seco, me disse para tomar cuidado com alguma espécie de demônio que se engraçasse pelo meu corpo.

Lisandra, preta velha que jamais se esquecera de ser escrava, me segredou que eu caíra nas graças do Coronel e que se soubesse aproveitar a chance, ganharia vida melhor, podendo mesmo tirar minha família da miséria. Tive uns medos, mas saber que poderia ajudar meu povo, era algo que me dava umas esperanças de que a vida não precisava ser tão severa.

Um dia nos mandaram arrumar os trens para que dona Tetê e os filhos fossem passar uma temporada na cidade. Os carros de boi, depois de lavados, foram forrados com panos e travesseiros para que viajassem bem confortáveis. Lençóis brancos, amarrados pelas pontas, serviam de guarda sois. Estava escuro quando a comitiva de três carros, rangendo pela estrada afora, partiu. Tive umas invejas das empregadas que, só sorrisos, seguiam no derradeiro carro. Coronel e os homens pelos pastos e a gente no bem bom de fazer comida só para nós, proseando e dando gargalhadas das bobagens que as mais velhas nos contavam na cozinha.

Anoitecia quando o Coronel chegou ordenando que o banho lhe fosse preparado. Enquanto esquentávamos água, Lisandra saiu com Maria Neguinha para ajeitar bacia e toalhas. Ao voltar, a preta nos disse que o patrão dispensara a ceia, mas que desejava umas quitandas e dois copos de suco de tamarindo no quarto. Botamos numa bandeja bonita e cobrimos com um pano de linho bordado. A velha me chamou de banda e falou que tinha ordens para me arrumar. Deveria me banhar, pois seria a responsável por servir o patrão em seus aposentos. Nas minhas inocências, pouco que estranhei. Cabeça ainda de menina e estava mesmo era feliz por cumprir missão tão nobre.

Vestida na roupa de domingo peguei a bandeja. A preta velha falou que aquela era noite de festa e, maliciosas, riram alto. O Coronel vivia de cara amarrada e foi com um sorriso grande que me recebeu. Botei a comida sobre o criado e já ia saindo quando ordenou que me assentasse para comer com ele. Senhora me poupe de dizer o ocorrido a partir dali. Sinto vergonhas de haver adorado aqueles dias. Fui princesa, virei rainha, quando estávamos só nós dois ele me autorizou chamá-lo só pelo nome. Isto até que Dona Tetê retornou. Senti raiva. Eram ciúmes? A senhora acha? Coronel virou prazer escondido. Quando me queria, Lisandra me avisava para que o aguardasse no quartinho dos estábulos.

Mês passou sem sangrar. Mais uns tempos e sofria de enjoos. Ganhei ojerizas de algumas comidas e cheiros. Uma tarde, quando corri ao quintal para vomitar, escutei, em meio a risadas, alguém falar que mais um coronelzinho estava para chegar.

Então o mundo virou. A existência se tornou redemoinho fazendo desandar tudo. Escurecia, quando ouvimos gritos de socorro. Corremos e ainda pude ver papai no galope de fugir. Os capangas sem saber se iam atrás dele, ou se cuidavam do patrão. O Coronel, emborcado na cadeira de balanço, abraçava as tripas.

Lisandra me sussurrou para que botasse sebo nas canelas. Logo a patroa iria saber de tudo e só esperaria o enterro para exigir punição à traidora. Saí na correria e entrei no mato me machucando toda. Segui o regato para não me perder no meio da noite. Cheguei em casa e mamãe ganhava o mundo com as crianças: a família estava expulsa. Levando nossas pouquinhas coisas, despencamos nesse mundão de Deus. Se aqui em Santa Rita a vida era severina, a doutora pode imaginar o quanto mais dificultosa ela aconteceu fora. Os meus sentimentos naquela hora? Ah, como estavam embolados. Eu amava Borropé, estava viúva.

Depois de um dia direto de choro e de caminhar, chegamos nos arredores da cidade. A vida ia se fazer nova. Antes de prosseguirmos, mamãe deixou os meninos com a minha irmã e me levou para a margem de um rio grande. Escolheu um galho fino e o vergou, experimentando para ver se quebraria fácil. Em seguida o lavou na água corrente. Arrancou o sabugo do coité de pinga e mandou que eu bebesse tudo. Fiquei grogue e ela me deitou, abriu-me as pernas e aquilo foi enfiado em mim. Rasgava-me e a dor era demais. Dormi bêbada e no pesadelo, tão real, descobri que estava irremediavelmente só: sem homem, sem filho, sem pais e sem Lisandra. Como o destino podia fazer tanta maldade comigo?

Acordei com a cabeça no colo de mamãe, parecendo afetuosa, a me coçar. Recordei-me dos tempos de piolho. Gostava demais deles, pois ganhava os cuidados dela a me tirar, um a um, num jeito que me dava a impressão de ser carícia, os bichinhos dos cabelos. Mamãe, tão dura, de novo me fazia pequena, me acalentava. Tive umas febres e continuei com a hemorragia por mais uns dias. Conseguimos pouso numa tapera no sítio de um conhecido. A raiva que sentia de mamãe só aumentava e reparava que o ódio dela para comigo também crescia. Não nos dissemos nada. Sabíamos que não mais viveríamos juntas. Beijei meus irmãos e fui embora. Nem trinta dias tinham se passado e eu, que conhecia só a Santa Rita, agora era doméstica no Rio de Janeiro. Das bandas de cá, jamais quis ter notícias.

A doutora concorda que tudo referente àquelas eras está acabado? Tem assuntos demais para o livro. O que não consigo perceber, é se haverá alguém que vá se interessar por esses relatos tão cheios de desditas. Como é que é? Não tem livro nenhum a ser feito? Só desejava mesmo era saber a verdade sobre a história medonha que lhe segredaram sobre a sua família? Meu Deus, então a senhora é neta do Coronel Borropé Quintas da Luz?

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29 comentários em “Nos Eucaliptos da Santa Rita (Borropé Quintas da Luz)

  1. Andre Brizola
    21 de abril de 2018

    Salve, Borropé!

    O conto está muito bem escrito, e trabalha o enredo em forma de diálogo, em que o narrador conta suas histórias para o ouvinte. Fiquei com a impressão de que a história poderia tranquilamente ir adiante, mas deixar o final da forma como ficou me deixou com uma impressão positiva, como se o desenrolar a partir dali, com as duas mulheres entre os eucaliptos, ficasse às custas da minha imaginação. Não sei se foi a intenção, mas achei interessante.
    Mas, devo dizer, achei que o conto ficou muito tradicional, deixando o experimentalismo focado apenas na narração. Há quem possa dizer que não há experimentalismo algum aqui. Eu opto por considerar que está adequado ao tema, pelo menos em parte, por entender que seria possível contar essa mesma história de forma ainda mais tradicional.
    O texto é bastante requintado, embora com esse ar regional direcionando toda a conversa, mas não é pedante. Casou muito bem com a personagem narradora, que conta uma história triste e verdadeira para muitas pessoas. Um bom trabalho.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  2. Luis Guilherme Banzi Florido
    21 de abril de 2018

    boa tarrrdee! td bem por ai?

    que conto lindo! absoltamente fantastico!

    uma pena que, como ja foi muito dito por aqui, não possa dizer que se enquadre muito bem no desafio, afinal, não houve experimentalismo.

    claro que isso não tira a beleza da obra. o texto é belo, singelo, e tem uma naturalidade e familiaridade na escrita que só pode ser de uma pessoa! (não sei se posso palpitar aqui, então vou ficar só no pensamento hehehe)

    essa regionalidade do conto é muito bem vinda. soa familiar, sabe?

    a protagonista é tão carismatica que me parece minha propria avó contando alguma historia nostalgica.

    o enredo também é muito bom.

    belissimo trabalho, mas devo dizer que perde uns pontinhos pela falta de adaptação ao tema, sinto muito.

    parabens e boa sorte!

  3. Catarina Cunha
    21 de abril de 2018

    Frase chave: “A existência se tornou redemoinho fazendo desandar tudo.”
    Um belíssimo conto escrito por quem têm o domínio da escrita e intimidade com a alma sertaneja.
    Em alguns momentos perdeu velocidade. Cabe uma enxugada.
    O experimento passou longe e nota-se que não se ousou sair da zona de conforto. Desafio errado, talento certo.

  4. Jorge Santos
    21 de abril de 2018

    Conto escrito numa linguagem simples mas com regionalismos e onomatopeias que dificultam a percepção do conto, em especial de um português como eu. Também não consegui perceber a adequação ao tema. Não encontro experimentalismo nem na forma, nem no conteúdo. Vejo apenas um conto com a estrutura tradicional, bem escrito, é certo. Mas o que era pedido ia mais além. Requeria sair da caixa de conforto, passo esse que o autor não deu.

  5. Luís Amorim
    20 de abril de 2018

    Um belo enredo muito bem escrito. Embora à primeira vista possa não parecer considero existir experimentalismo, pois a linguagem narrativa não é a mais óbvia, existindo supressões aqui e ali de alguns artigos definidos o que não é muito comum hoje em dia.

  6. Higor Benízio
    20 de abril de 2018

    Um bom conto, com ótima narrativa, apesar de fazer muito drama em algumas passagens. Mas não é experimental em nada, nada mesmo. Não sei o que pensar, igual aquele conto “O menino e o diabinho” aqui do desafio, e outros. Será que estes autores (as) se fazem de bobos? Não sei, aqui fico ainda mais chateado porque o conto é bom. Uma pena

  7. Ricardo Gnecco Falco
    20 de abril de 2018

    PONTOS POSITIVOS = A (boa) escrita do(a) autor(a), que traz um regionalismo gostoso de “escutar” à narrativa apresentada.

    PONTOS NEGATIVOS = A ausência — total e absoluta — do atendimento à premissa deste Desafio Temático. Faltou somente uma coisa a este conto, e esta coisa foi exatamente o essencial a este Desafio Temático; ou seja, o Experimentalismo.

    IMPRESSÕES PESSOAIS = Uma prosa muito bem escrita, delatando um(a) escritor(a) que conhece bem do trabalho. Gostei da história, das personagens, da forma com que a história é narrada, da passagem do tempo e da transformação das expectativas, da perda da inocência, da mudança de visão de mundo, dos sentimentos contraditórios e e até mesmo da ‘pegadinha’ do final, que atende — mesmo que tangenciando o inverossímil — ao que o gênero de histórias curtas mais exige de seus criadores, que é exatamente aquele fim de história que causa um certo grau de “Ohhhh!”. Acho, inclusive, que um conto só poderia ser chamado de conto quando fosse capaz de deixar seus leitores ‘matutando’ sobre o que acabaram de ler. E aqui isso acontece. Pena, mesmo, não haver um mínimo de experimentalismo, nenhum transbordo da panela da criatividade experimental, nenhum ultraje à ordem estabelecida pela lógica, gramática, formato, conteúdo etc. Enfim… Este é um belo trabalho; um belo conto. Mas, infelizmente, postado na edição errada deste Desafio. Parabéns pelo seu dom (escrita primorosa) e vou torcer para que outras pessoas por aqui, diferentes de mim, não se importem com relação à falta do experimentalismo proposto pelo Certame.

    SUGESTÕES PERTINENTES = Ousar além do comum/ordinário; sair de dentro da ‘caixinha’ criativa. Certamente, você tem capacidade para isso! Parabéns pela escrita; perdoe-me já de antemão pela implacabilidade de meu julgamento e consequente nota (principalmente por saber que você possui capacidade e poderia ter ousado mais), e boa sorte no Desafio!

  8. Rubem Cabral
    19 de abril de 2018

    Olá, Borropé.

    Então, eu gostei bastante do seu conto: tem uma mistura muito boa de regionalismo e várias camadas de significados, a personagem-narradora foi bem construída. Você certamente tem um talento especial ao abordar tais temas, inclusive ao trazer o “falar” ao seu texto, sem estereotipar.

    Meu único “porém” seria quanto à adequação ao tema do desafio. Quem já tenha lido Guimarães Rosa, por exemplo, já leu algo semelhante. A questão do abuso de mulheres, da sociedade liderada por “coronéis” e tudo mais, também já foi bem representada em nossa literatura, então também não vejo o experimentalismo aí…

    Abraços e boa sorte no desafio.

  9. Rose Hahn
    16 de abril de 2018

    Caro Autor, alinhada com a proposta do desafio, estou “experimentando” uma forma diferente de tecer os comentários: concisa, objetiva, sem firulas, e seguindo os aspectos de avaliação de acordo com a técnica literária do “joelhaço” desenvolvida pelo meu conterrâneo, o Analista de Bagé:

    . Escrita: De escritor feito.
    . Enredo: Poético e com cheiro de pitanga do mato;
    . Adequação ao tema: Por conta do regionalismo elegante;
    . Emoção: Meu Deus, então a senhora é neta do Coronel Borropé Quintas da Luz?
    . Criatividade: Erudita, de “quarar” a alma.

    . Nota: Mais do que cê imagina.

  10. iolandinhapinheiro
    16 de abril de 2018

    Olá, autor!

    Conto interessante que nos faz querer entender onde tudo aquilo vai chegar. Particularmente eu nem gosto de linguagem regionalista e nem de relatos onde há um diálogo pressuposto onde a pessoa que fala repete a pergunta do interlocutor como acontece aqui, por exemplo: “Como é que é? Não tem livro nenhum a ser feito? Só desejava mesmo era saber a verdade sobre a história medonha que lhe segredaram sobre a sua família?” Mas isso são preferências e não se deve julgar o trabalho alheio por elas. Seu conto é bem escrito e a história é interessante. Não consegui decifrar onde está o experimentalismo e, como já foi dito aqui, deve ter sido o uso da linguagem regionalista sem erros.

    Sua história poderia perfeitamente virar uma saga da vida desta família. Já pensou em transformar seu conto em um romance?

    Um grande abraço e sorte no desafio.

  11. Mariana
    15 de abril de 2018

    Eucaliptos me assustam. Como está no conto, é a morte em forma de vida. Assim, toda a atmosfera do texto é muito triste e assustadora ao meu ver – fiquei com medo que a neta matasse a senhora no meio dos eucaliptos.
    Borropé criou uma atmosfera densa, tendo como ponto alto a cena torturante e triste do aborto. O narrar parece ser o relato de uma mulher idosa, em suas amarguras e saudades. Aliás, quarar é uma palavra que me lembra a minha falecida avó….

    Parabéns pelo lindo texto e boa sorte no desafio

  12. Priscila Pereira
    15 de abril de 2018

    Olá Barropé,
    Eu gostei do seu conto ultra regionalista. A turma me interessou, li degustando cada palavra. Geralmente não gosto muito desse tipo de conto, mas desse eu gostei. Muito bem escrito. Parabéns e boa sorte!

  13. Evandro Furtado
    13 de abril de 2018

    Um texto que realmente carrega consigo uma beleza formidável. Acredito que o ponto forte está na narrativa, muito bem estruturada e repleta de elementos poéticos. A narrativa em primeira pessoa, muda um pouco o caráter do texto, permitindo ao leitor acompanhar a história pelos olhos da personagem, e isso cria uma conexão muito forte com o enredo.

  14. Paula Giannini
    6 de abril de 2018

    Olá autor(a),

    Tudo bem?

    Ultimamente voltei ao Grande Sertões Veredas, obra que, a cada nova leitura, mais me encanta e apaixona.

    Seu conto, uma clara homenagem ao mundo Roseano, nos traz uma história real, sofrida, e, de uma brasilidade ímpar. Mais que isso, fala, ainda, da situação da mulher em nosso mundo e nosso país.

    No decorrer na narrativa, confesso que cheguei a acreditar que, ao final do texto, encontraria uma das “pretendente ou pretendidas” de Riobaldo durante sua trajetória. Jurei que me depararia, com a revelação de que aquela era uma confissão de Nhorinhá, Rosaursada ou Otacília, já velhas e amargas pelos descaminhos da vida sem aquele que preferia Diadorim.

    Quase um solilóquio, embora fale com outra pessoa o texto toma ares confessionais. Um trabalho cuidadoso, cheio de camadas e escrito com maestria, do qual eu poderia ficar por aqui falando por horas. A relação mãe e filha, o desencanto com a vida, com o amor, a pobreza extrema, a condição do homem da terra, a da mulher, os costumes arraigados do interior do Brasil, enfim, tudo no ponto, tudo perfeito.

    Um senão apenas para o finalzinho. A moça da cidade, parente do Coronel me soou um tanto quanto abrupta e destoante do todo. Mas quem liga? Eu não. O todo é infinitamente superior ao meu preciosismo de leitora boba.

    Ponto alto para a procura do tijolinho para colocar junto a seu corpo depois de morta. Uma imagem de arrepiar.

    Muito, muito bom!

    Parabéns pelo conto.

    Boa sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  15. Ana Maria Monteiro
    5 de abril de 2018

    Olá, Borropé. Que conto mais lindo. Você escreve como quem fala, como aquela pessoa simples que fala ali, quase visível para quem lê, quase corpórea. Suprema arte!
    Não discuto se é ou não experimental. Estou cansada de dizer que toda a escrita e leitura o é. Sei que não é este tipo de conto que muitos colegas esperam, uma vez que, tal qual está, ele cabe onde quer que seja.
    Não conheço esse linguajar, nunca estive sequer no Brasil, houve palavras que me eram desconhecidas, outras percebi o sentido pelo todo. Não interessa nada, porque senti tudo.
    Sempre fui leitora, escrevo há pouquíssimo tempo e tornar-me também comentadora, roubou-me um pouco o prazer geral que a leitura me proporcionava quando a procurava só para alimentar a alma.
    Agora quando estou a ler dou por mim a pôr defeito em tudo. Escrevo talvez melhor, mas perdi grande parte do meu maior prazer sem que ele tenha sido substituído a contento.
    Tudo isto, para dizer o quê? que por momentos você me devolveu esse prazer. No seu lugar isso me bastaria, nada que pudesse dizer-lhe seria mais elogioso.
    Belo e horrível misturam-se e resultam num relato vivído e memorável.
    A história é plena de atrocidades e a idosa conta-a com a suavidade e uma pureza de quem nunca perdeu a capacidade de amar.
    Venha o livro! Quero lê-lo.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  16. Fabio Baptista
    2 de abril de 2018

    A menos que algo tenha me escapado, acredito que o experimental aqui seja a linguagem regional empregada para expressar os pensamentos da narradora/protagonista. Não tenho certeza se apenas isso faz o conto se adequar ao tema, mas vou considerar que sim. De todo modo, não chegou a me surpreender, até porque em praticamente todo desafio sempre aparece um ou dois contos com esse tipo de narrativa.

    Sendo bem sincero (e bem ranzinza), eu não gosto. Frases muito curtas, supressão de artigos, jeito cadenciado de progredir com a trama… nada disso me cativa. E o texto está todo assim. Lá pelo meio pensei (não sei por que exatamente) que viria uma reviravolta de terror, mas não foi isso que ocorreu, a narrativa seguindo por correntezas pouco agitadas até o desfecho, onde houve a revelação da identidade da doutora que acabou não trazendo impacto para mim.

    Mas, dentro desse estilo que eu não gosto, reconheço que está bem escrito.

    Abraço!

  17. Cirineu Pereira
    31 de março de 2018

    A estória me pareceu um tanto sedimentada, a narrativa centrada basicamente no passado da narradora-protagonista, com episódios rápidos e quase sem referências ao estado atual das coisas. O vocabulário regionalista talvez se proponha a marcar o caráter “experimental” do texto, porém assim mesclado a termos quase eruditos concede à personagem um perfil pouco concreto. Uma narrativa linear, de dimensão quase única, sem pontos altos e até mesmo um tanto enfadonha para quem já leu coisas similares e quase pode adivinhar o autor.

  18. Evelyn Postali
    27 de março de 2018

    Nossa… É lindo. No meu entendimento, pode ser mesmo considerado um relato, e não um conto. Se bem que não posso dizer se concordo com essa divisão. Ele é muito homogêneo na forma escrita, segue meio lento, sem entraves, mas sem altos e baixos, sem conflitos, sem um momento mais intenso. Pensando nisso… Tudo nele é intenso, o que talvez encante a uns e não a outros. Está muito bem escrito. Um linguagem simples, mas cheia de riqueza de vivência. Por isso parece um relato, uma prosa, mas sem algo que chame muito a atenção. É reflexivo.

  19. werneck2017
    27 de março de 2018

    Olá,

    Um conto bem escrito e muito singelo. Capta o leitor e o leva para um universo rural e logo se estabelece uma empatia com o leitor. Uma história de abusos e de violências que se davam no interior das casas dos donos de fazendas.
    A linguagem está a serviço de uma maior verossimilhança e o parabenizo por isso. No entanto, usar a variante regional não faz do conto um texto experimental a meu ver. Da mesma forma que se usasse o ‘juridiquês’ não o faria pela mesma razão.
    Fora isso, um conto singelo e muito bem escrito.

  20. Antonio Stegues Batista
    22 de março de 2018

    Gostei do enredo, embora a história seja simples, sem muitas reviravoltas. Achei a fala, uma mistura de linguagem arcaica e moderna, mais moderna do que “caipira”, o que tira um pouco o “enlevo sertanejo”, a característica elementar do povo do sertão, da roça, do mato, da vila dos cafundós, enfim. Mas talvez isso seja porque a personagem evoluiu, saindo da roça para a cidade, adquirindo os costumes e linguajar urbano. Não vi nada experimental a não ser a experiência da linguagem, pois o resto, é bem normal. Boa sorte.

    • Borropé Quintas da Luz
      22 de março de 2018

      sr. Antônio Stegues, aqui no meio dos eucaliptos, as alegrias me vieram fortes, porque o senhor gostou desse meu enredo meio desenredado, eis que muito simples. Senhor não imagina o quanto o simples pode ser complexo nesse sertão do tamanho do mundo. Senhor considera, ou não considera a linguagem como experiência? A maneira como está colocado em seu comentário, ao qual muito agradeço, me gerou dúvidas. Careço de entender melhor esse falar do senhor, homem cheio de cultura da cidade. Gostaria mesmo que considerasse a questão da linguagem como experiência válida, mas fiquei com a impressão de que o disse que “não viu nada de experimental”. Só que, em seguida, coloca um “a não ser a experiência da linguagem”. Nonada, mas cabeça minha, meio lesada pelo tempo, não consegue acompanhar seu raciocínio. Sou-lhe grato, Borropé, seu servidor.

  21. José Américo de Moura
    21 de março de 2018

    Um conto que com certeza não deveria terminar assim, daria um livro maravilhoso, aliás, poderá sim ser um livro maravilhoso. Palavras como quarar,que há muito tempo não vejo me faz lembrar a minha mãe me mandando comprar os cubos azuis de anil na biboca do senhor Altino. Outra palavra que eu gosto de usar e os meus filhos dão risadas e dizem o certo é beleza e não boniteza, mas eu gosto de usar eu acho mesmo uma boniteza. Envie esse conto par o Maneco e ele com certeza fará dele, no mínimo um caso especial.

    Gostei muito.

    Sucesso na carreira

  22. Fernando Cyrino.
    20 de março de 2018

    Um conto interessante você me traz, Borropé (creio tratar-se aqui de uma corruptela de Beaurepaire, conheci mesmo, há bastante tempo, uma pessoa, francesa, com esse nome). Gostei da narrativa e o final surpreendente foi a “cereja do bolo” na sua história. A maneira como me contou a história realmente me levou para dentro dela. Vi-me no eucaliptal, senti cheiros, reparei na roupa sendo quarada… Estou entendendo, autor, que a questão do experimentalismo se dá na linguagem, fazendo como que uma mistura do linguajar das pessoas simples nascidas no sertão, trazidas para o meio mais urbano, cosmopolita. Falar “caipirez” sem falar errado parece ter sido a sua proposta. Sua linguagem me trouxe um toque Roseano. Com toda certeza se trata aqui de autor/autora que bebe nas águas desse grande escritor. Grande abraço

  23. angst447
    20 de março de 2018

    Um conto escrito com a alma embebida em uma vivência tão autêntica quanto o solo que sustenta os eucaliptos. Linguagem que expressa bem o universo da narradora que se faz presente em todo o seu relato. O texto prende a atenção do começo ao fim, enredando o leitor em uma rede de poesia. Não sei se é o que chamam de conto experimental, mas decerto foi uma bela experiência esta leitura.
    Parabéns!

  24. Paulo Luís Ferreira
    19 de março de 2018

    Belíssimo relato, isso mesmo! Está mais para um relato do que para o conto propriamente dito, embora de uma belíssima narrativa, que nos trás realmente muitas saudades de outros tempos, eu que vivi praticamente dentro de rios e capoeiras, andando a cavalo, jamais poderia deixar de me render a uma narrativa como esta. Principalmente levando-se em conta que esta forma de contar, — à moda Guimarães, a notar o interlocutor com suas respostas sem perguntas aparentes, ou pergunta que responde. Incluindo aí o próprio linguajar a lá Roseano — fica de fato, prazerosa a leitura. Até que toma uma reviravolta que surpreende, — não que a ladainha desses grandessíssimos calhordas, ditos coronéis, dos sertões brasileiros, já não seja conhecida; estupradores contumazes. Verdadeiros canalhas —. Quando se descobre a real intenção da narrativa e decepção final. Dando um tom de conto, afinal. Belíssimo trabalho, realmente.

  25. Regina Ruth Rincon Caires
    19 de março de 2018

    Este texto é daquelas coisas que estão no mundo para encantar. E viva a arte! Que capacidade tem o autor de expressar toda a tristeza de uma vida matuta, em palavras que se transformam num bálsamo para o leitor. Um linguajar tocante, caboclo. Sereno. E o despejamento de palavras que ficaram entaladas, por décadas, não transparece rancor, há uma resignação velada. Há a consciência de que nada pode ser mudado, o tempo passou.

    A personagem narra a história com leveza, com ternura. Amou Borropé, apesar de tudo, amou o pai do seu filho, que nem nasceu. O conto torna-se um monólogo. As perguntas não aparecem. Nem são necessárias. Tudo é falado como resposta, na sequência registrada pelo viver, fatos alinhavados pela linha da memória, pelo sentir.

    Olhe, não é conto que usa expressões matemáticas, nem conhecimentos de Física, nem equações, nem jogo de palavras, nem quebra-cabeça, mas é um conto genial. Se cumpre o tema do desafio, não importa. Mas, até aqui, foi a melhor leitura que fiz.

    Parabéns, Borropé! Por favor, continue nos presenteando com a sua escrita. É divina!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  26. Fheluany Nogueira
    19 de março de 2018

    Um texto impregnado do espírito de uma época e da alma pura e inocente da protagonista. O fluxo de consciência (ou inconsciência), a interlocutora oculta e o desfecho surpreendente constroem uma história perfeita de amor, abandono e dor, de um lado; do outro, desejos, traição e abuso. A intenção da mocinha era melhorar a situação da família , mas acabou por destruí-la. Estilo e assunto se fundem, oferecendo uma leitura cadenciada, fluida e prazerosa, com fisionomia própria. Deve ter sido uma experiência e tanto executar esse bom trabalho. Parabéns pela ideia. Boa sorte no desafio. Abraço!

  27. Angelo Rodrigues
    19 de março de 2018

    Caríssima,

    conto maravilhoso. Parabéns, de verdade.
    Adorei ler e fiquei imaginando se ler um apenas foi muito bom, dez deles daria um livro e encantador.

    Um discurso doce e bem construído que vai se aprumando, da ingenuidade da protagonista à consciência da dura vida pobre no interior (do Brasil).
    O Homem, definitivamente, é um Cão; às vezes nos afaga com o rabo, às vezes apenas nos rosna com dúvidas, outras, com dentes afiados, nos tira pedaços da vida.

    Interessantes as passagens onde são obliteradas as perguntas, dúvidas e assertivas da interlocutora oculta, onde apenas as respostas prevalecem criando um ritmo que não se interrompe em diálogos que, no caso, seriam desnecessários.

    Experimental? Como já disse aqui, acredito que toda forma de escrita é uma forma de experiência. Ler o seu conto passou-me lembranças, experimentei saudades, porque conheço muito do que li. Lembrei com muita vivacidade, de minha mãe quarando roupas no gramado de nossa casa (havia casas e nelas havia gramados), os cuidados que tinha para que branqueassem ao sol, os cuidados que pedia para que não jogássemos bola tão perto dos lençóis, fronhas e vestidos de mais cuidado. Talvez o tempo lhe tenha furtado a lembrança da trouxinha de anil em barra, tão azulzinho que dava gosto de ver.

    Valeu muito ler seu conto.

    Boa sorte no desafio.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      19 de março de 2018

      Lindeza de conto e lindeza de comentário…

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Informação

Publicado em 18 de março de 2018 por em Experimental.