EntreContos

Detox Literário.

A estranha família Levin – Conto (Angelo Rodrigues)

Esse é um pedaço da história da família Levin, ou o que restou dela. Lamento que o passar dos anos que distanciam os fatos deste relato possa me ter feito incorrer em alguma distorção excessiva da verdade. Mas não façam caso a isso, eram olhos de menino.

O ano de 1954 foi marcante, principalmente pelo que se passava no mundo de um menino de seis anos. A guerra havia terminado e isso nos era um alívio. Embora minha família houvesse sofrido bastante, havia o conforto de saber que não vivíamos sob tantas ameaças. Papai, longe do mundo que conhecia, de sua terra, de seus amigos, estava conseguindo terminar de acertar seus negócios depois de tantos anos de dificuldades, onde quase perdemos tudo. Vira quase desaparecer sua família; muitos que se foram para sempre, alguns que se perderam nas sucessivas fugas, perseguições; poucos se reintegraram. Mamãe saiu da guerra muito abalada e creio que nunca tenha se recuperado totalmente. Vivia sob medos terríveis, o que era razoável no passado, embora nos anos posteriores ao conflito o medo era algo a ser abandonado. O medo que por anos se acumulara nela havia se incrustado, o pavor que tinha por quase tudo era uma espécie de sua segunda pele, suja e negra, sem que pudesse ser lavada ou escovada por sorrisos e alegrias. Ao contrário de papai, que apesar de todas as dificuldades sempre permaneceu afável, mamãe se tornara contrita, nervosa, elétrica, arredia ao retorno à normalidade; havia posto seus desacertos a serviço da eficiência doméstica, a meu serviço e cuidados, de papai e de Jaron, meu irmão mais velho.

Nessa época Jaron estava já bem adiantado na escola, porque ele é mais velho que eu exatos seis anos. Essa diferença não é grande quando se é adulto, mas, quando criança, ela parece enorme, tanto assim que Jaron nunca via motivos para estar comigo, me acompanhar ou me deixar acompanhá-lo em suas incursões pelo mundo adulto. Achava que eu era um bobo, um banana, como ele dizia. Tinha coisas melhores para fazer do que brincar com um pirralho sem graça e desengonçado como eu. Ele costumava ficar jogando cartas na casa de seus amigos ou fumando nas esquinas, conversando ou desafiando com xingamentos aqueles que os repreendiam pelas ruas.

Esse garotinho ao qual mamãe tanto dispensava eficiências era eu, Yael Levin, um menino de seis anos que não entendia absolutamente nada do que significava haver nascido judeu, pequeno e magricelo, ainda inábil com as coisas dos meninos da sua idade, nascido no recente pós-guerra. Inábil porque no rol das eficiências de mamãe, estava escrita e sublinhada a tarefa da proteção extrema, sempre procurando pôr-me a uma boa distância de qualquer outro menino da minha mesma idade, por mais que eu manifestasse a vontade de brincar ou apenas estar com eles, aprender com eles como ser um menino de seis anos. Dizia sem perceber o óbvio, que Jaron era meu irmão mais velho, que eu deveria confiar nele, que Jaron supriria com folga qualquer outra amizade de que eu precisasse. Jaron por sua vez sempre tinha planos diferentes daqueles imaginados por mamãe e neles infelizmente eu nunca fora incluído. “Cai fora garoto”, era o que ele dizia quando mamãe nos deixava a sós, e se afastava de mim ou me dizia que fosse brincar longe dele. “Se manda, pirralho!”, era o que eu ouvia. Eu andava em busca de me enturmar com ele e ele se especializara em afastar-se de mim. Quando mamãe retornava, Jaron sempre tinha no rosto a cara da bondade extrema, de companheiro afável; sempre fora cínico.

Mas estávamos na América, as coisas já não pareciam tão difíceis como antes, longe disso. Tínhamos a paz necessária a começar novamente a vida. Papai nos conduzia, ele era o nosso caminho. Morávamos próximos a uma Base Militar onde havia muitos soldados e comecei a perceber que o fim da guerra não fez cessar a animação dos militares, ao contrário, havia um movimento cada vez maior de tropas, veículos e aviões que sobrevoavam de forma cada vez mais regular o espaço azul sobre nós. A América parecia haver tomado gosto por tudo aquilo que acabara de ocorrer; creio que passaram a viver uma prontidão interminável quando decidiram que a guerra seria algo que viera para permanecer, se não no combate aberto e cáustico, ao menos na atenção que dispensariam a um aforçuramento permanente, num claro e objetivo aviso de que seriam intolerantes e hostis com os divergentes. O que para mim era algo que incomodava, para mamãe funcionava como uma âncora de segurança, uma redoma, uma óbvia proteção de que nada do que houve conosco voltaria a se repetir estando em meio a tantas forças amigas.

Mas vamos deixar um pouco de lado as coisas e as consequências da guerra, porque se bem compreendê-la em muito explica o Homem, mais ficamos confusos sobre nós mesmos, e se sobre a guerra pensamos a fundo, tudo parece perder o sentido, ou antes, nunca ter havido qualquer sentido. Quero falar do porquê aquele ano foi tão importante para mim: perto de nossa casa veio morar uma garotinha que se chamava Lídia Sarkissian, linda como nenhuma outra e capaz de encher o coração de um menino. Mamãe continuava com sua pele encrustada de medos e, diante de qualquer novidade, por menor que fosse, se mostrava arredia. Insistia em dizer que Lídia era algo de negra, talvez uma cigana, alguém da qual eu também não deveria me aproximar, embora isso nunca me tenha ficado claro, pelo menos quando eu tinha apenas os meus seis anos; depois compreendi melhor, mas, enfim, já não dava mais importância ao fato de que Lídia pudesse ser uma menina negra, cigana, judia ou armênia ― era isso que ela era, uma menina morena, uma linda menina armênia de seis anos ―, e era tão expatriada quanto nós que éramos judeus: sua família tinha os mesmos problemas pelos quais a nossa também passara e ainda passava, em diásporas que nunca terminavam.

Mesmo depois de tudo bastante esclarecido sobre quem era Lídia, minha amiga continuou sendo uma menina armênia, cigana e negra, enfim, aos olhos de mamãe Lídia era exatamente isto: uma pessoa na qual não se deveria confiar, tudo o mais eram detalhes ― a cor da pele e dos cabelos, o nome, a origem ― que ao invés de não importar tornaram-se essenciais a um desvalor. “Não quero você com essa menina…”, dizia. Eu olhava o rosto de mamãe e via sua boca rija e amarga, sua língua seca se mover na direção de palavras que se transformavam em farpas, seus olhos azuis pálidos espremidos entre as pálpebras. Não conseguia ver sentido naquilo que me era dito, pois Lídia era perfeita, linda, sua pele era de veludo, seus cabelos negros eram de puro carvão, seu sorriso era uma fruta madura e sua voz um convite a tudo. Lídia tinha mais viço e vida que todos nós, os Levin, pálidos e sem graça, de olhos claros e cabelos finos e escorridos.

Após longos dias de observações mútuas, um de cada portão de casa, eu e Lídia nos tornamos amigos, não obstante os amuos e protestos de mamãe. Eu não a via como menina; Lídia não me era uma menina, era somente Lídia, que gostava de ficar comigo e brincar o quanto fosse possível e nossos pais permitissem ― e mamãe teimava em não permitir ―; embora eu sempre escapasse em busca de estar com ela. Perto de nossas casas havia um bosque ― naquele tempo ainda havia bosques, embora esse de que falo fosse o grande fundo do quintal de sua casa ― onde podíamos brincar do que quiséssemos. Lídia era boa de brincar, sabia se divertir e me fazer feliz com o que dizia em sua língua ainda um pouco atrapalhada. Ela se especializara em subir em árvores, coisa que eu não tinha qualquer habilidade, tremia só de vê-la como um macaquinho se estirando leve por entre os galhos e ficar lá de cima zombando dos meus receios. Era quando eu sentia uma vergonha feliz, porque Lídia estava comigo e nada me envergonharia mais do que perdê-la por alguma tolice, muito menos por inveja de suas habilidades. Tinha sobressaltos quando pensava no quanto transgredíamos as regras de mamãe estando com Lídia a brincar sob os perigos das árvores. Lá de cima ela recolhia frutas e jogava para eu pegar. É verdade que às vezes, de propósito, deixava que algumas me acertassem, mas acho que isso era só para a gente poder rir um pouco.

Nossas aventuras duraram pouco, talvez um ano, porque logo fomos para a escola: estudar, fazer os deveres de casa, os banhos sem necessidade e sem fim e os sapatos apertados que colocaram um basta na vida de criança. Nunca soube se casual ou não, ficamos na mesma sala de aula, tínhamos a mesma idade, talvez por isso. Embora não houvesse mais tantas brincadeiras nas árvores e no bosque, tinha agora Lídia ao meu lado por um longo tempo. Não era tão bom quanto estar a correr no quintal de sua casa, entre as árvores, mas estar de uniforme escolar com ela já era algo para nunca mais esquecer.

Naquela época, se algo de bom havia em meu irmão Jaron, era estabelecer com ele alguns acertos para que eu escapasse em direção a casa de Lídia, deixando-o livre para vadiar com os amigos de sua mesma idade, correr de bicicleta pelas ruas pavimentadas entre os quarteis ou fazer arruaças pela vizinhança, importunar os velhos dos bairros; gostava disso. Era quando abdicava sem culpa do que já abdicara havia tempo, quando não queria estar comigo.

Um pouco antes de completar oito anos, tia Zivah disse à mamãe que eu estava ficando gordinho demais, que minhas pernas estavam muito cheinhas e acabaram por me levar ao médico, à sala limpa que cheirava a álcool do dr. Benjamin Pavez, um homem simples e religioso, que acompanhou nossa família por toda a sua vida. Ele me olhou, olhou de novo, ficou apertando minhas pernas, e, ao final, disse que eu estava intumescido, com edemas, inchando dia após dia, que eu estava com uma doença nos rins chamada nefrite, algo que ao ouvir imediatamente associei com satisfação confusa às histórias egípcias, e por instantes cheguei ao regozijo: “Estou com Nefertiti”, disse com um sorriso esperançoso de que nada daquilo fosse algo ruim, mas dr. Pavez cuidou de explicar o que me ocorria; não era nada bom.

Aqui cabe um breve comentário acerca dr. Pavez. Mamãe insistia com papai dizendo que, a despeito de todos os modos e assertivas de nosso bom médico, com seus quipás, castiçais de shabat feitos de prata, shofar de antílope e coleções de estrelas de Davi, o dr. Pavez não era um judeu de verdade, longe disso, era um fingido, talvez um árabe disfarçado, talvez um nazista bem infiltrado que escapara, como nossa família, em direção à América. Suas ganas em prová-lo um falso judeu começavam pelo nome, que se dividia em ser e não ser: se aceitava bem o nome Benjamin como um bom nome judeu, imaginava que Pavez não o fosse ― certamente árabe, certamente um nome inventado por um alemão mal-intencionado, dizia ―, e o sobrenome, para mamãe, era o que de fato importava. Papai, como sempre, pouco dava importância ao que ouvia de mamãe. “Não diga isso, Sarina. De que importa o que o homem seja, judeu ou não? Que nos cuide bem, apenas, e traga de volta a saúde de Yael”, insistia papai. Mamãe remoía-se, vendo naquele homem de modos e maneiras absolutamente gentis, um misto de salvação e ameaça iminente.

Depois do diagnóstico e dos remédios, mamãe pôde exercer sua neurótica eficiência ao cuidar de mim. Papai exercia sua planificada paternidade dizendo “Quanto custa?”, “Cuide disso” ou “Isso passa, sempre passa, porque a vida é assim…”. Tinha hábito de dizer coisas que não ajudavam nem consolavam, mas davam uma perspectiva que, de modo geral, apontava em direção a coisa alguma.

Com a vida financeira quase refeita, papai ia retomando suas antigas amizades. Seus amigos chegavam com suas famílias, todos ajudados por papai a se estabelecerem na América, perto de nós, alguns deles ajudando em seus negócios, outros estabelecendo os seus próprios; absolutamente gratos e aliviados por estarem ali, a salvo e seguros. Nos finais de semana nossa casa se enchia desses amigos. Suas esposas traziam coisas para serem preparadas na cozinha de mamãe e almoçavam conosco, depois os homens jogavam cartas até o final da noite e conversavam, lembravam de histórias, riam, choravam quando as lembranças eram daqueles que ali não estavam, às vezes ficavam para o jantar quando muito havia sobrado do almoço. As esposas conversavam, contavam coisas, experiências, falavam dos filhos, dos progressos que tinham na América. Mamãe cumpria o ritual da recepção a que se sentia obrigada e era nítido o desgosto que tinha com tudo aquilo; homens, mulheres, conversas, alegrias e risos, tudo parecia não lhe ser de agrado. Tinha sempre uma desculpa para estar longe de todos, parecendo querer amuar-se solitária e distante, em pensamentos cada dia mais abstratos. Por aqueles dias a boa desculpa era estar ao meu lado, cuidando de mim. Com isso eu via meu quarto se encher de mulheres curiosas que me afagavam o corpo com olhos tristes ― é certo que ficavam assim por poucos momentos ―, como se meus dias me fossem contados, um a um, todos em direção ao Mundo da Verdade; a minha morte lhes parecia certa. Algumas dessas mulheres, as mais curiosas e determinadas, penetravam a fundo no assunto Nefrite: apertavam minhas pernas com as pontas dos dedos e se maravilhavam com o côncavo que deixavam nos edemas que me cobriam. Os homens, sempre risonhos por conta do que bebiam, entravam em meu quarto, diziam alguma tola graça, por óbvio alguma coisa que de modo geral eu não compreendia, e voltavam à mesa da sala onde papai, além do jogo que corria silencioso, ouvia a música que amava. Um deles, da porta do quarto, contrito, disse-me “E o Todo Poderoso formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas a alma da vida”. Certamente me avisava de que ao pó eu logo voltaria, que me reconciliasse com esse mundo; aos oito anos. Esse amigo de papai devia ter bebido além da conta.

Foi nessa época que apareceu em nossa casa um amigo de papai de nome Samuel Rubin Roizenblit, entre todos, o único solteiro; mas esta história fica para mais tarde, pois ainda pouco falei de tia Zivah e sem saber dela, pouco vale falar de Samuel. Por enquanto basta dizer que tia Zivah era um pouco gordinha e sem outra família que não a nossa. Vivia solitária em sua casa que parecia ser feita para abrigar uma boneca, tantos eram os enfeites que tinha. Cheia de bibelôs, tinha um cheiro delicioso de alecrim macerado e postos em saches de algodão. Se tinha um epíteto que valesse lembrar, estava na origem do que dizia a mamãe: “Maridos não são bons companheiros, sempre resmungões ou bêbados”. Dizia que preferia a mim e a Jaron e insistia em nos lembrar que papai era uma exceção a todos os outros homens, que mamãe havia dado muita sorte em tê-lo como marido, por pouco beber e nunca resmungar. Com a vinda para a América, tia Zivah conseguira trazer consigo três pinturas escondidas em um tubo de papelão, uma delas era de Johannes Vermeer, cuja venda permitiu que tivesse uma vida bastante confortável.

Doente ― aos olhos de mamãe eu também estava às portas da morte ―, experimentei por longos meses a ausência do sal nas refeições, onde os pratos de grãos ao suco de laranja, da batata cozida ao suco de maçã ou de algum tipo de macarrão ao suco de uva, tentavam compensar a falta total de gosto das refeições. Mamãe tinha tanta vontade de que eu não me decepcionasse com a comida, que punha sobre ela um suco qualquer que lhe desse algum sabor; tornava tudo ainda pior. Jaron por essa época sentiu-se livre de suas mínimas incumbências. Poucas vezes entrou em meu quarto, talvez uma ou duas vezes, nunca se solidarizou com o que me ocorria, ou mesmo não se tenha dado conta com o que se passava em nossa casa; estava livre, pelo menos por aqueles dias. O tempo que não passava na escola, passava na rua com os amigos, esquecido completamente, sem as rédeas de mamãe que a mim se dedicava. Não eram poucas as queixas que chegavam dos vizinhos ou da escola falando das impertinências de Jaron; nada importava, mamãe não tinha olhos para nada além dos cuidados que dispensava ao doentinho.

Eu não entendia porque não podia caminhar e era carregado para todo lado. Punham-me sentado em algum canto confortável da casa e logo chegava Lídia ― por esse tempo mamãe relaxara suas implicâncias com minha amiga ― para jogar algum jogo de tabuleiro comigo. Ela me ensinou a jogar damas, víspora e varetas. Um dia começou a me ensinar a jogar xadrez e concluiu que era muito complicado o jeito com que o cavalo se movia e desistiu. Acho que ela também não sabia nada de como jogar xadrez, mas tinha tanta vontade de estar comigo que ia inventando coisas; acho que também inventou que entendia de xadrez.

Tia Zivah um dia apareceu em meu quarto com um monte de revistas em quadrinho e isso fez disparar definitivamente em mim um desejo que nunca mais cessou: eu e Lídia queríamos ler e fazer revistas em quadrinho para sempre. Tínhamos preferência por Krazy Kat e Felix the Cat. Aquilo ganhou tanta importância que havendo um gato malhado de três cores de nome Damian na casa de Lídia, ela passou a chamá-lo de Krazy, como líamos nas revistas. Seu gato nem ligou, porque continuou não atendendo a nenhum de seus comandos de sentar, deitar ou rolar sobre si, menos ainda atendia a seu comando de ficar quieto quando o animal queria disparar para bem longe dela. Disse-me um dia que havia voltado a chamá-lo de Damian, porque achava que ele não havia gostado do seu novo nome, e passou a sumir por dias, perdido em outros quintais.

Não lembro qual dos amigos de papai tinha uma coleção de livros ilustrados com histórias de Natal, ou sequer se fora realmente um de seus amigos, talvez um vizinho ou um parente de Lídia. Era um inverno particularmente frio. Um dia eu não tinha nada e no outro chegou lá em casa um monte daquelas maravilhas com histórias incríveis. Aquilo foi mágico, porque ficou sendo Natal em minha casa por muitos meses seguidos, até que terminássemos de ler e ver todas aquelas histórias. Creio que tenha gostado mais de A Christmas Carol, de Dickens, mais ainda pela maneira com que mamãe enfatizava as maldades de Ebenezer Scrooge quando, à noite, lia para mim antes de dormir. Era quando eu lamentava por não ter Lídia ao meu lado, deitada e quentinha, enquanto mamãe falava com aquela voz bonita, que se transformava em algo horrível ao falar na voz assombrosa do velho Scrooge. Um dia me dei conta de que em nossa casa nunca havia Natal, que ele só chegou até nós após eu haver adoecido. Perguntei se mamãe acreditava em Natal e ela disse que não, que nada daquilo nos pertencia, mas que eu não me preocupasse nem um pouco, porque todas aquelas histórias eram muito bonitas, e isso era o que importava. Fiquei feliz por ela não me haver privando de conhecer Dickens, que continuei lendo pelo resto da vida. Quando adulto pude entender a grandiosidade do significado do que ela fizera não me privando de algo tão bonito por conta de dogmas religiosos, algo tão caro a ela e que abrira mão para me ver feliz.

Já nessa época mamãe já não conseguia ter controle sobre Jaron. Dizia que ele era coisa para meu pai resolver, mas papai chegava em casa sempre tão extenuado e de pouco ânimo que nunca resolvia nada, só queria sentar em sua poltrona e ouvir as músicas que amava: Darius Milhaud, Berthold Goldschimidt e Arnold Schoenberg. Era desse último que papai mais gostava, particularmente quando ouvia algo bastante passional.

Muitas vezes papai voltava do escritório com seu amigo Samuel Rubin Roizenblit; o solteirão, era como o chamávamos. Ele trazia sempre consigo um violino que tocava após o jantar, entre o café e o charuto que fumava com papai. Era visível que tinha os olhos sempre a vadiar entre o arco, as cordas e a atenção que dispensava aos olhos de tia Zivah. Se ela gostava, se não gostava, se queria que repetisse, se tinha algum pedido especial a fazer para que ele tocasse uma música qualquer que fosse de seu desejo. Tia Zivah, aos poucos, deixava crescer um carinho por Samuel que dispensava saber o tipo e a qualidade da música que ouvia, queria ouvir e mais ser tocada por ela. Papai pouco dava conta do que se passava entre aqueles olhares trocados entre o amigo e a cunhada, pois nunca se interessava pelas músicas que Samuel obtinha do violino, algo sempre meloso e romântico, que por lapso ou ignorância, nunca levava ao arco algo que fosse de Milhaud, Goldschimidt ou Schoenberg. Objetivamente não eram músicas para que papai ouvisse, eram para que tia Zivah se apaixonasse; estavam ambos, aos poucos, se entendendo, bem aos poucos, e o violino era a voz tímida de Samuel Rubin Roizenblit confessando seu amor por minha tia, também solteirona como ele.

Como chegam às crianças as doenças, elas vão, quando vão por não serem definitivas. O Mal de Nefertiti, como passei a chamar a minha nefrite, após cerca de meio ano havia desaparecido completamente, e, como se precisassem comprovar o fato, os muitos exames provavam, e mais ainda havia provas, pois eu voltara a ser um menino magricelo, uma prova definitiva; nenhum edema, nada de côncavos nas pernas quando me apertavam, e me apertavam sempre que queriam provar o fim da doença. Se houve algo de bom naquilo tudo foi o fato de mamãe se mostrar mais tolerante com Lídia. Já não eram decorrentes de fuga meus encontros com ela em seu quintal, em sua casa. Brincávamos o quanto fosse possível, porque, não obstante as permissões, não eram de liberdade plena, mas vigiada. Lídia, por óbvio, continuava uma negrinha, uma cigana, alguém fora do núcleo de pertencimento de mamãe; Lídia se tornara alguém tolerável, apenas.

Jaron crescia conforme cresciam suas rebeldias. Mamãe envenenava a vida de meu irmão, tornando-o uma cobra, um demônio. Fazia relatórios de suas atividades e exigia que papai lhe aplicasse corretivos. Queria que o endireitasse, que o tornasse algo que definitivamente não era. Jaron, por seu turno, estava sempre disponível a exercer sua cara de “Isso é tudo mentira, me deixem em paz”. Mortificado, às vezes papai batia em suas pernas com um cinto de couro, o que só fazia piorar as coisas nos dias seguintes, que seriam de longas fugas, cigarros, amigos, carteados, aborrecimento aos velhos que encontrava pelas ruas e brigas de socos na escola. Outras vezes papai preferia acreditar em Jaron e os abraçava, a ele e a mamãe, pedia para que tudo aquilo terminasse, que tivessem juízo, os dois, que se acalmassem. Creio que nesses dias apenas pensava em terminar com aquelas permanentes agonias e descansar na poltrona ouvindo as músicas que amava. O amigo Samuel Rubin Roizenblit, entre conversas reservadas e em voz pequena com tia Zivah, aconselhava papai alguns métodos para administrar um adolescente; tudo inútil e desnecessário, papai pouco o ouvia, pouco ouvia qualquer coisa que não fosse música. Samuel fazia-se já parte anexa, por afeto, de nossa família. Nessas noites de algum arrepio de nervos, evitava tocar, apenas conversava reservado com tia Zivah. Creio que bem sabia que a sua música, tocada apenas para os ouvidos da enamorada, não tinha qualquer efeito sobre papai.

Certamente que papai sabia do estado emocional de mamãe, embora não a quisesse magoar confrontando-a em seus permanentes excessivos. Jaron também sabia disso, sem palavras, claro, apenas movido pelas evidências, embora tivesse ao menos um fiapo de certeza de que mamãe enlouquecia aos poucos. Não tinha qualquer disposição em entregar a condução de sua vida a alguém que perdera o controle sobre si mesma. As árvores do quintal, os pássaros, as paredes, as portas, se dedicassem algum tempo e atenção ao comportamento de mamãe, saberiam de sua acelerada e progressiva derrocada da alma. Tornara-se uma mulher de providências, de atos e consequências. Passara a ser movida por estranhas convicções, certificando-nos de que tudo que nos havia ocorrido durante a guerra tinha origem na falta de iniciativa do seu povo, na falta de antecipação aos fatos. Dizia que se algo fizéssemos por antecipação, causando-lhes algum mal ao abdicar da nossa evidente passividade, tudo teria sido diferente, poupando-nos de tantos sofrimentos. Com certeza eram as boas lembranças de seus pais, de outros irmãos, que cobravam dela alguma providência impossível, algum sofrimento de sua alma que a eles pudesse dedicar. Decidira-se por não se querer vulnerável e definhava em pensamentos que giravam rápidos como redemoinhos de areia em sua cabeça, cada vez mais vulnerável ao passado que arrastava dentro de si, permitindo que o presente fosse tomado por lembranças ruins.

Lídia crescia comigo, ao meu lado. Já tínhamos doze anos e definitivamente ela passara a ser algo mais que Lídia, fazendo-me sentir coisas feitas para guardar e sentir uma insabida vergonha, principalmente dela. De mim não escondia, apenas não compreendia ou fingia não compreender. Seus cabelos negros se haviam alongado em ondas soltas, disponíveis ao vento e faziam-na ser ainda mais bonita do que sempre fora. Seus dentes branquíssimos e bem arrumados na boca estavam sempre disponíveis ao riso que era fácil, mas nunca tolo ou inoportuno. Seu sorriso era ainda a mesma fruta madura de quando tínhamos seis anos, sua voz continuava a ser um convite irrecusável, a tudo. Aprumava o corpo e já tínhamos quase a mesma altura.

Com doze anos eu havia tomado uma decisão definitiva. Não sabia bem o que isso significava, mas pusera na cabeça que seria um escritor. Por certo que pensava em Charles Dickens, em A Christmas Carol, The Chimes, The Cricket on the Hearth, The Battle of Life ou até mesmo em David Copperfield. Havia criado um espaço, um lugar seguro e acolhedor a ser habitado no futuro, e tinha certeza que o habitaria com Lídia, que escreveríamos histórias, todas lindas de ler e ouvir.

No verão de 1960, quase ao final, brincávamos no bosque de seu quintal e eu insistia que definitivamente haveria de subir em árvores, ser um macaquinho. Lídia me olhava ainda descrente de minhas habilidades, e com razão. De mim não duvidava, mas seu olhar me dizia que aquilo era coisa para meninas, isso, mas meninas como ela, e não para um menino desajeitado como eu, um magricelo inábil, o que tornava ainda mais tenebroso e urgente aceitar o desafio. Acompanhei-a aos poucos, subindo pelos galhos, contorcendo-me entre os ramos até atingir o mais alto dos ramos, aqueles mais finos e moles, frágeis. Lá de cima olhava Lídia. Podia acompanhá-la como tanto e sempre desejara. Agora colhia frutos e olhava bem lá de cima e tinha a visão que sempre fora só de Lídia. Estava feliz.

Bem, eu caí e toda história a partir da queda é algo que conheço de ouvir, porque quando acordei estava deitado numa cama de hospital cercado por mamãe, papai e os pais de Lídia. Todos choravam. Lídia não viera com os pais, ficara em casa. Creio que mamãe tenha deixado claro que não queria vê-la por perto; que a culpava pelo que me ocorria. Tinham os olhos tristes como se alguém houvesse morrido, como se observassem sem palavras um morto de doze anos. O morto não era eu, claro, embora a queda daquela árvore só me trouxesse uma enorme dor nas costas que não passava de jeito algum.

Tia Zivah chegou logo em seguida e trazia consigo o solteirão Samuel Rubin Roizenblit, sem o seu violino, mas com flores e balões de gás bem coloridos. Tinha os olhos tristes e vermelhos de tanto chorar e um enorme sorriso no rosto. Imaginei que tivesse acabado de ouvir alguma música melosa tocada pelo solteirão, que logo após o Mal de Nefertiti que me atacou, tornou-se noivo de tia Zivah, um noivo informal. Conto depois com mais detalhes o que é essa coisa de noivo informal, explicando o que juntava e o que separava o solteirão Samuel de tia Zivah. Bem, por enquanto quero falar dessa dupla capacidade de tia Zivah, a de parecer triste e alegre ao mesmo tempo me fazendo ficar sem entender como lhe ser solidário; se ria ou se chorava com ela. Era tão boa comigo que eu sempre queria sorrir ou chorar no mesmo ritmo do seu coração. Não que fosse chorona, não, ela só chorava quando se lembrava de seus pais, dela e de mamãe, que não vieram para a América por não sobreviveram à guerra. Jaron não gostava muito de saber dessas coisas, de desculpas ou explicações acerca de tia Zivah. Dizia que ela era uma completa idiota, com aquele jeito de rir o tempo todo. Fugia dela, afastava-se, era arredio a qualquer carinho que viesse de tia Zivah. Jaron já havia completado dezoito anos e era um homem feito, e em sua vida não havia mais cintos que lhe batessem nas pernas ou reprimendas de mamãe. Em sua vida só havia os amigos, as fugas, os cigarros e os jogos de cartas, como sempre. Creio que Jaron também tenha tomado uma decisão bem cedo na vida e agora ocupava no seu futuro o espaço que havia desenhado para si havia anos. Durante todo o período em que passei internado no hospital Jaron foi até lá apenas uma vez. Tinha ao lado um sujeito estranho, efeminado, com uma cara pedante e indiferente ao fato de estar ali em visita, pouco se importando com o que me ocorria. Achei-o um sujeito esquisito, temível e odioso, algo que me levou associá-lo imediatamente ao Sr. Scrooge, de Dickens, mais jovem e menos curvado pelos anos.

Depois de algum tempo, chorando ao lado de papai, mamãe falou que eu nunca mais poderia andar. Disse-me isso e começou a chorar de forma tão compulsiva que a consolei como pude. Papai tinha os olhos como os de tia Zivah, vermelhos e embaciados, mas não dizia outra coisa que não o seu perpétuo e inamovível “Vai passar, vai passar… sempre passa…”, embora soubéssemos pelos médicos que não passaria, que eu nunca mais andaria novamente.

Num daqueles dias, em visita com os pais, Lídia me contou que mamãe culpava seus pais pelo que me havia acontecido em sua casa, que eu não havia sido cuidado como deveria, essas coisas que a gente sabe que não levam a nada e que, acima de tudo, não correspondem à verdade, porque ninguém consegue mesmo deter uma criança de doze anos quando ela quer fazer alguma aventura ou uma grande burrada como a que fiz. Galhos finos talvez seja o melhor epíteto para aquela história toda.

Lídia estava triste; acho que também sentia que seu desafio me causara a queda. “Ah, se não tivesse te desafiado” com aquele olhar…, mas era o olhar de Lídia e isso era um desafio tão grande que eu não poderia desapontá-la. Naquele dia, no silêncio do quarto e com um pouco mais de doze anos, descobri que a amava e a amaria para sempre.

Tia Zivah fazia permanente plantão no hospital. Transformou meu quarto em uma extensão de sua casa. Até onde pôde, encheu tudo de coisas alegres, colocou nas paredes alguns cartazes bonitos, manteve um vaso sempre cheio de flores sempre vivas e brancas, trouxe revistas, almanaques e tantos livros que eu precisaria ficar para sempre deitado ali, numa cama de hospital, para que pudesse terminar de os ler. Assim, por interesse ou desfastio, dediquei-me a ler tudo de que mais gostava, sem hora, sem compromisso e, infelizmente, sem Lídia. Não me tomava o desespero, ao contrário, talvez por fortaleza, talvez por ignorância, sentia-me confortável com a atenção e o carinho de tantos. Os olhos de tia Zivah já não choravam e isso era muito bom porque me dava a certeza de que meu coração pulsava no mesmo ritmo que o dela, ou pelo menos procurava que assim o fosse. À noite, talvez por não ter clareza do que havia ocorrido, sonhava. Num deles eu flutuava, não chegava ao chão, em outro eu caía e abria um enorme buraco no chão que virava uma sepultura onde eu era enterrado. Em torno da cova o lugar se enchia de parentes e conhecidos. Em outro eu não caía, continuava sobre os galhos finos. Esse talvez fosse o mais assustador, porque algo me dizia que eu acabaria caindo, mais cedo ou mais tarde. A expectativa era terrível, antes cair de uma vez. Mas como vêm, os sonhos passam. Nunca mais sonhei com a queda.

Após três meses no hospital voltei pra casa e fui posto numa cadeira de rodas metálica e reluzente ― o “Quanto custa?” de papai parecia se haver afrouxado completamente, e pouco se importara com o dinheiro, contanto que me desse conforto. Ela era toda brilhante e acolchoada e havia um lugar muito bom para pôr os pés. Mamãe falou que nada do que houve comigo havia afetado o movimento de minhas mãos e braços, que continuavam normais, que eu poderia ser o escritor que quisesse, que escrevesse histórias para que todo mundo as lesse. Dava para perceber que ela falava tudo isso sem alegria, que se controlava, sem convicção, que estava ainda mais abalada com tudo aquilo, que definitivamente havia perdido o controle sobre nossos destinos e isso a aterrorizava. Cada palavra que dizia, ao contrário de suas intenções, parecia despejar sobre mim toda sua amargura pelo que estava ocorrendo. Acho que a compreendia e a odiava ternamente pelo que fazia, pelo modo como fazia, porque mentia afetuosa e desnecessariamente, ainda que fosse para me trazer algum conforto. Talvez tenha sido essa conversa com mamãe que me fez efetivamente entender que eu não era mais o mesmo: estar deitado sobre uma cama de hospital e saber que não poderia andar não tinha o mesmo peso de saber, já fora da cama, em minha casa, que haveria de ficar sobre uma cadeira para sempre. Era algo ruim, ruim e desconfortável, mas também compreendia que era algo a ser superado a cada dia, todos os dias, pelo resto de minha vida.

Toda vez que eu perguntava por Jaron mamãe desconversava, não queria tocar no assunto e eu não entendia o porquê. Continuava gostando de Jaron, ainda que não o visse mais, ainda que sentisse sua indiferença por tudo o que passava conosco. Jaron havia partido, ido embora, morava ainda em nosso bairro, mas não em nossa casa.

Aquele foi um ano perdido na escola e pouco estive com Lídia nos poucos meses que se seguiram à queda. Havia os ressentimentos, os ódios pronunciados por mamãe em direção à minha amiga, e particularmente à sua família. Acertado pelas habilidades e benevolências de tia Zivah, Lídia ia até nossa casa para conversar comigo ou jogar algum jogo. Ela tinha preferência pelo jogo de varetas. Estar tão perto dela naqueles dias me fazia gostar ainda mais de sua companhia. Eu gostava de ficar olhando seu rosto enquanto jogávamos. Gostava de seus cabelos negros, sua pele morena e viçosa tão perto de mim. Sempre quis esticar minhas mãos até ela e acariciar seu rosto, tocar seus cabelos e, não obstante não ter energia para tanto, sentia que Lídia teria um lugar no espaço que eu havia reservado no futuro de escritor de histórias maravilhosas.

Tia Zivah mudou-se para nossa casa passando a morar no quarto que fora de Jaron, que logo se transformou em algo bonito e embonecado, alegre e com cheiro de alecrim. Trocou os lençóis e as fronhas sempre amarfanhados por estampas alegres, limpou os cantos inacessíveis criados pelas tralhas de Jaron, trouxe alguns de seus bibelôs, emplumou as janelas com cortinas coloridas e pronto, era uma pequena casa de tia Zivah. De certa forma ela ia assumindo, pouco a pouco, o papel que mamãe deixava de desempenhar como matriarca que falia aos poucos porquanto se mostrasse distante de tudo, envolta em pensamentos circulares e insabidos por nós. Papai continuava ouvindo Schoenberg como sempre fazia, indiferente a tudo, ao mundo que o cercava naquela casa. Havia, finalmente, criado em torno de si, com a música que amava, uma área de proteção invisível e intransponível: sentado em sua poltrona nada o atingia, e era quando realmente os negócios iam bem, eu ia bem, Jaron ia bem e mamãe, principalmente mamãe, estava ótima. Tia Zivah, nem se fala, ia sempre bem, porque era de sua natureza ou fazia ser de sua natureza contornar os problemas, mais ainda ao lado do solteirão Samuel. Finalmente o epíteto de papai “Isso passa, sempre passa, porque a vida é assim…” havia alcançado o estado da arte, porque realmente tudo passa, bem ou mal, tudo passa, uma vez que o tempo arrasta tudo sob si, indiferente à dor ou à loucura de cada um.

O longo noivado de tia Zivah com o solteirão Samuel Rubin Roizenblit já passava de quatro anos e creio que ela abandonara definitivamente a convicção de que os maridos não eram bons companheiros por serem sempre resmungões ou bêbados. Seu amado Samuel não resmungava, pouco bebia, era delicado, cortês, gentil, perfeito, ou quase; não casava. Era definitivamente um solteirão convicto. Descobria-se em fracos lampejos as fragilidades de Samuel quando buscava explicar os motivos de não firmar compromisso definitivo com tia Zivah; harpeava-se em desculpas e acordes, sonoro e risonho, dizendo serem todos motivos arredios à sua vontade, embora nenhuma das explicações que dava se sustentava com amparo na verdade. Tia Zivah fora tocada pela benevolência extrema das mulheres que têm no amor um doce refúgio, que a tudo aceitam ou toleram, sempre dispostas a compreender o incompreensível. Era evidente que tia Zivah mortificava-se por amor; queria casar, talvez ter um filho se ainda houvesse tempo. Esperava que a fruta de Samuel Rubin Roizenblit um dia madurasse e caísse em seu colo. Sentia que um dia ela maduraria, um dia cairia; esperava com paciência. Tia Zivah estaria sempre embaixo da árvore a esperá-la, ao tempo, vendo seu tempo se esvair aos poucos. Não sabíamos todos que também havia em Samuel uma mãe que o amava, que não o libertava ao casamento que, segundo ela, só poderia ocorrer após sua partida em direção ao Mundo da Verdade.

Em decisão tomada entre papai, mamãe e tia Zivah, deixei a escola em que estudara com Lídia. Seria educado em casa por um preceptor que papai contratara. Para cursos mais avançados, disseram-me, pensariam depois, quando chegasse a hora. Traçavam meu destino e isso era ao mesmo tempo confortável e desagradável, talvez mais triste que outra coisa. Ficava-me a perspectiva de que todos estavam cuidando de mim ao mesmo tempo em que eu começava a me sentir ― ou me fazerem sentir ― efetivamente inválido para as coisas dos homens. Eu queria pensar que apenas não podia andar, apenas isso, mas, de resto, o mundo ainda era o mesmo, tinha o mesmo tamanho, e eu, também o mesmo, ou quase o mesmo, para as coisas do mundo. Assim eu queria pensar com todas as forças que tinha, mas tinha poucas, aos doze anos.

Algum tempo depois Lídia foi até nossa casa e nos disse que seu pai estava mal, acamado. Pedi a tia Zivah que o fôssemos visitar. Era a primeira vez que uma pessoa de minha família os visitava e aquilo tinha o som do perdão onde nunca houve culpa, desnecessário, embora pudesse eliminar o horrível peso do constrangimento e da tristeza que recaíra sobre os pais de Lídia, que mamãe, com seu sabido desgoverno, estabelecera como definitivo. Aquilo foi muito bom porque tia Zivah tinha o dom, o poder de transformar as pessoas em algo melhor do que elas eram ou de lhes sacudir o espírito para que emitissem luz a partir de alguns esfregões ou polimentos na alma.

Era um daqueles domingos em que nossa casa se enchia de amigos de papai e conosco foi o solteirão Samuel levando seu violino já fora do estojo. Eu gostava de Samuel, ele sorria no mesmo compasso de tia Zivah, viviam numa frequência de proporções áureas, de entendimentos e cortesias sem limite. Na sala de sua casa o pai de Lídia pediu que Samuel tocasse um pouco. Na juventude Samuel fizera parte de uma orquestra de meninos de sua cidade, creio que na Romênia. Ele era bom e conhecia algumas músicas folclóricas da Armênia. Os pais de Lídia se emocionaram muito ao ouvi-lo tocar, seu arco era rápido, seus dedos hábeis como exigem as músicas folclóricas, geralmente muito animadas. Creio que todas as gentilezas de tia Zivah e Samuel não foram o bastante para animá-los por muito tempo. Nunca soube os motivos que levaram o pai de Lídia a permanecer engolfado em tristezas. Havia aprendido a conviver com isso quando observava os amigos de papai, que flutuavam rápido entre a alegria eufórica e a prostração estremada quando mergulhavam em lembranças recentes. O mesmo devia acontecer com os pais de Lídia.

Quando fiz quatorze anos Jaron foi me visitar depois de quase dois anos afastado. Havia um bolo preparado por tia Zivah, muito bonito e cheio de glacê branco e azul com umas pérolas nacaradas e comestíveis (mas não eram gostosas, só enfeitavam). Bem no centro do bolo ela havia colocado duas velas brancas com os números um e quatro. Lídia estava contente e me havia trazido um presente, um livro de Lewis Carrol que já não lembro qual, se a Alice do espelho ou das maravilhas. Tia Zivah, além do bolo, me havia comprado novos livros de Dickens e papai trouxe, em cima da hora de cortar o bolo, uma máquina de escrever Hermes 3000, novinha, cor de abacate, bonita como eu nunca tinha visto. Mamãe me deu um abraço e um beijo, apertou muito meu rosto contra seu peito, mas infelizmente já não saia para fazer compras, preferiu dizer que a máquina de escrever era o presente que davam ela e papai. O solteirão Samuel deu-me um violino, o seu segundo violino, que acabei por passar longos dias arranhando o arco contra as cordas sem conseguir nada que valesse a pena ouvir. Desisti quando percebi que irritava mais a mim e aos outros do que me dava algum prazer.

Jaron tinha pressa (Lídia me contou), pois aquele seu amigo esquisito havia ficado do lado de fora da casa, encostado a um poste iluminado aguardando enquanto fumava e penteava compulsivamente os cabelos para trás com um pente que guardava no bolso de trás da calça. Jaron já tinha vinte anos, estava alto como um bambu, e usava um topete enorme, engomado, que fazia com que cada fio de cabelo ficasse em seu lugar, todos penteados para o alto e para trás como se fossem arrumados por ele fio a fio, algo que o descompunha um pouco por conta das orelhas de abano que tinha e que se acentuavam com aquele penteado. Disse-nos que formara um conjunto de rock com amigos e pretendiam se assemelhar ao que fazia Elvis Presley. Creio que tudo o que fizeram com o conjunto se tenha resumido ao topete alto. Por aqueles dias havia saído um novo disco de Elvis, Blue Hawaii, e Jaron, pelos cantos da casa, olhava pelos relógios a hora de partir e cantava Rock-A-Hula Baby enquanto estalava os dedos:

Rock-a-hula, rock-rock-a-hula

Rock-a-hula, rock-rock-a-hula

Rock-a-hula, rock-rock-a-hula

Rock-a-hula, rock-rock-a-hula

Rock-a-hula, rock-rock-a-hula

Rock-a-hula, rock.

 

Disse-nos que era o cantor da banda. Talvez fosse mesmo o que lhe coubesse, pois nunca aprendera a tocar um instrumento. Cantava com uma voz que se fazia assemelhada à de Elvis, embora desafinasse até no Rock-a-hula, rock-rock-a-hula. Fiquei torcendo para que ele se acertasse com seus amigos. Era Rock, afinal, e Jaron, com sua tão acesa rebeldia era um bom candidato ao sucesso; mas não foi, acabou tomando outros caminhos.

Mamãe ouvia e já não ligava ao que Jaron fazia. Antes que fosse embora de nossa casa pôs um canivete em minhas mãos e pediu que o guardasse, que não contasse para ninguém que ele o havia dado a mim, e que eu, um dia, poderia precisar usá-lo. Não pude imaginar no que pensava quando fez aquilo, hoje imagino que pensasse na progressiva loucura de mamãe ou na apatia de papai. Deu-me um beijo no alto da cabeça ― descobri que bebia acima do normal, porque minha cara foi tomada por um bafo morrinhento de álcool que às vezes eu sentia quando alguns amigos de papai vinham até nossa casa para jogar cartas e falar das desgraças da guerra ― e foi embora sem se despedir de ninguém, nem da coitada da Lídia que não tinha nada a ver com as esquisitices da estranha família Levin. Assim que ele saiu guardei o canivete em uma gaveta e carinhosamente o esqueci; não achei que precisaria dele.

Naquele mesmo ano, alguns meses depois do meu aniversário, o pai de Lídia faleceu. Ela não soube me dizer o motivo, só sabia que ele continuou na cama depois daquele dia em que o visitamos e nunca mais se recuperou. Disse-me apenas que se havia transformado em um homem triste, desolado, cujo único desejo era olhar o teto ou a parede do quarto, quando resolvia mudar de posição sobre a cama em que sempre permanecia. Algumas vezes cheguei a me convidar para ir à sua casa, mas Lídia desconversava dizendo que os deixássemos viver como podiam. Um pouco depois, a família de Lídia ficou sem recursos financeiros e as coisas foram rolando ladeira abaixo. Chegando aos dezesseis anos, Lídia abandonou a escola e foi trabalhar numa confecção de roupas para senhoras; creio que de um amigo de sua família, nunca soube ao certo.

Papai já tinha arranjado um bom lugar para eu escrever bem ao lado da janela do meu quarto, que dava para a rua. Era importante ficar naquele lugar porque havia a luz do dia e uma janela que me permitia ver quando Lídia passava indo à escola ou ao trabalho. Sempre que passava me olhava na janela e eu acenava para ela. Alguns dias passava um pouco mais cedo que o necessário e entrava em meu quarto para conversar. Dizem que nada que nos acontece em pensamentos deixa de marcar nosso rosto, nossa pele, nosso sorriso. Lídia tinha claramente as marcas do que lhe acontecia, embora tivesse o cuidado de nunca dizer uma palavra que pudesse me trazer tristezas. Era ainda a macaquinha que subia em galhos e me dava um sorriso esperançado, ainda que curto e pronto a morrer logo em seguida. Perguntava sempre como eu estava, como me sentia, e quando o tempo sobrava ficávamos lendo o que eu vinha produzindo de literatura. Era quando voltávamos a ser novamente amigos de infância.

Tia Zivah, quando via que Lídia vinha chegando, corria para recebê-la, abraçá-la, como se fosse a primeira vez que a visse após um longo tempo de ausência. Deixava-nos a sós por alguns minutos e vinha logo em seguida, apressada, trazendo alguma coisa gostosa para que comêssemos, um suco, alguma coisa boa que conseguisse improvisar na cozinha.

Mamãe já não saía do seu quarto, e quando percebia a presença de Lídia, acendia seu inútil rancor contra ela, e isso era algo que se juntara ao indelével pavor sujo e negro que se havia incrustado sob sua pele viciada em lembranças e sofrimentos. Estava definitivamente tomada por algo que não discernia em si e a engolfava em tristezas, em morte antecipada. Parecia que algo que se movia dentro dela a fazia querer envelhecer, largar-se aos poucos cuidados, à reclusão de seu quarto, ao desânimo para com a vida da qual abdicava. Havia emagrecido, encovara-se sobre si. Era triste vê-la no estado em que estava e por isso ou por saber exatamente disso, passava o dia trancada em seu quarto sem que soubéssemos o que fazia; talvez nada fizesse ou apenas fizesse circular em redemoinhos lentos alguns pensamentos traiçoeiros e inúteis. Aferrava-se mais e mais a uma doença que era mais de aborrecer que de matar; sucumbia, minguava, encolhia, embora tomada ainda de raízes vivas.

Um dia mamãe me perguntou, entre alguns balbucios tolos, o que significava não poder andar, nunca poder andar. Percebi que sua pergunta podia ser a resposta para muitos pensamentos que lhe corriam pelos nervos, porque ela também não andava, estava parada, ainda que de pé, num mundo mínimo de pensamentos circulares e desconexos, inválida para as coisas do mundo. Disse a ela que não andar, ficar sentado sobre uma cadeira de rodas, era como ter um descanso inútil, às vezes doloroso, lastimável, embora soubesse que o mundo continuava a ter o tamanho que sempre teve, que estava feliz em poder escrever meus textos, ver Lídia e tia Zivah, papai, às vezes Jaron, frequentemente o solteirão Samuel, que não saía lá de casa. Não tive coragem de dizer que estaria feliz por vê-la, não, não como estava, como se portava diante do mundo que apequenara tão brutalmente, tomada por medos e rancores. Definitivamente o mundo tem o tamanho que damos a ele. Se o tememos ou o odiamos, ele só nos devolvera temor e ódio. Mamãe finalmente se apegara a isso e colhia os frutos negros de seus medos e ressentimentos.

Os negócios de papai iam bem, muito bem, ele dizia. Havia que se ter habilidade quando se queria obter respostas verdadeiras de papai, e isso nunca podia ser feito enquanto ele estivesse ouvindo Schoenberg, porque nessas horas o mundo era maravilhoso e tudo ia bem, as perspectivas eram infinitas e ele, então, era um homem inabalável. Às vezes estremecia quando os aviões militares passavam sobre nossa casa e o impediam de ouvir a música de que gostava. Creio que tudo que nos estava acontecendo o fragilizou profundamente como o homem daquela casa ao tempo em que o fortaleceu no mundo exterior, dos negócios. Pouco nos víamos, porque estava sempre em viagens, em reuniões e quando estava em casa ouvia música ou permanecia desconectado de todos nós por meio de longos telefonemas que, segundo ele, nos tornavam mais prósperos. O solteirão Samuel o acompanhava, era solidário, tentava chegar até ele, trazê-lo novamente até nós, mas não tinha êxito. Todas as vezes em que estava em casa dormia na sala ouvindo música e nunca mais foi ao quarto de mamãe. Duas coisas, algum tempo depois, passou a me ocupar o pensamento: uma delas era que papai mantinha contato com Jaron e o ajudava financeiramente ― acho que as ineficazes surras de cinto nunca deixaram de assombrá-lo ―, a outra era que ele habitava uma outra vida fora de nossa casa, não sabia quão subterrânea pudesse ser essa sua vida, mas passei a acreditar que fosse qualquer outra que obliterasse as tristezas que sentia por estar entre nós.

As frequentes reuniões desapareceram após a morte de um dos amigos de papai. Parece que alguns eventos são elos que se desfazem e desligam laços que perderam o sentido de existir. As reuniões já não tinham o efeito que causaram em nossas vidas no passado, tornaram-se ritos que cumpríamos em reverência a uma união que já não era necessária. Todos estavam com suas vidas ajeitadas, com novos compromissos, novos interesses. Tudo além disso tornara-se subsidiário e pronto ao abandono. A morte que ocorreu foi um marco e nos libertou de continuar com aquilo. Em mamãe não provocou assombro, porque já não participava, afrontando-nos com sua ausência, trancada em seu quarto. Tia Zivah ficara também com o encargo de governar tais desatinos; ela e Samuel tornavam-se o papai e a mamãe da nossa casa.

Um dia particularmente difícil foi quando vi pela janela que Lídia havia voltado para casa de braço dado com um sujeito que tinha um aspecto arrogante, que mostrava uma valentia irônica e desnecessária, como se afrontasse por precaução algum rival invisível. Andava como se descesse uma ladeira, fincando os pés no chão para não escorregar para a frente. Tinha um chapéu na cabeça levantado que priorizava cobrir a nuca e não a testa. Em resumo, uma descrição que comporta a verdade, a inveja e o ressentimento. Vê-lo ao lado de Lídia punha por terra um desejo nunca revelado a ela, um tolo desejo de que ela viesse habitar comigo um espaço no futuro que, parecia, eu teria que ocupar sozinho. Creio que nesse dia Lídia disfarçou sua presença e se pôs ao lado do rapaz de modo a que eu não a visse. Era seu primeiro namorado, pelo menos o primeiro que me deixou saber ao trazê-lo até sua casa.

No dia em que Jaron completou vinte e seis anos ele foi nos visitar. Estávamos todos em casa, inclusive papai. Tia Zivah preparou o mesmo bolo que havia feito quando completei quatorze anos ― acho que era o único que ela sabia fazer. Papai e Jaron conversavam e pareciam não ter ressentimentos aparentes. Em alguns momentos riam de coisas tolas, mas sei que é assim que começam os desenlaces de sentimentos muito embolados; vão se desenrolando aos poucos por meio de pequenas coisas e, de repente, tudo fica claro e surgem os sorrisos de verdade. Mamãe ficou sentada na sala indiferente a tudo ou a nada, alheia. Não comeu o bolo de tia Zivah nem bebeu do uísque que papai havia trazido. Disse que seus remédios não permitiam. Estava melhor e conversava um pouco comigo e com tia Zivah, embora, às vezes olhasse para o solteirão Samuel como se não o conhecesse. Samuel tocava, girava em torno de mamãe, sorria com afeto, dizia coisas; mamãe apenas o olhava. Talvez já se houvesse esquecido de Samuel ou tivesse construído para ele um pensamento obliquo qualquer, talvez se houvera transformado em um mouro, um turco, um negro, um cigano, ou apenas um parvo que dançava com um violino nas mãos.

Parecia que papai e Jaron eram apenas velhos conhecidos de uma outra vida da qual guardavam algumas poucas lembranças, que tentavam esquecer com módicas gentilezas. Em torno de mamãe sempre pairou o silêncio sobre o que lhe ocorria, suas doenças de entristecer e não matar. Vivia sua inócua singularidade, seus remédios, de muitos dias passados inteiros em seu quarto ou tardes silenciosas com tia Zivah ou noites de choro abafado, sob cobertas. Papai continuava com seu epíteto de que tudo passa, cedo ou tarde tudo passa, não adiantando fazer caso das desgraças, grandes ou pequenas.

Creio que esse foi o último dia em que papai dormiu em nossa casa. Minhas dúvidas sobre a vida que escolhera haviam terminado. Ainda mantinha contato conosco, nos visitava com frequência, mas apenas isso, nem uma palavra sobre o que lhe ocorria ou sobre as decisões que tomara acerca de nós. Nunca deixou de manter a família, mas não nos queria mais como companhia. Foi se afastando de todos nós com uma gradualidade cartesiana, pensada, algo que deveria acontecer sem que percebêssemos ou fizéssemos caso. Eram os negócios, as viagens, as viagens, os negócios, uma vez na semana, duas, três, uma semana, um mês, dois, como se não nos quisesse causar a dor da ruptura por descobrir que ele nos abandonava definitivamente. Não queria tornar aparente a fratura a partir da qual se pudesse dizer “foi aqui, bem aqui, que ele nos abandonou para sempre…”. E ninguém disse ou quis ver a ruptura que se evidenciava a cada dia que não chegava para o jantar. Soubemos alguns anos mais tarde que vivia com a mulher do amigo que falecera, que tanto frequentara nossa casa nos dias mais felizes. Tudo isso indicava que papai não perdera a esperança de viver, de ser feliz de alguma maneira, talvez à sua maneira. Julia, a viúva com quem passara a viver, era realmente adorável. Seu epíteto de que tudo passa, tudo deveria passar, cedo ou tarde, se realizava com Julia. Ele fizera com que tantos desacertos se tornassem seu passado ao ir embora começar uma nova vida. Tudo havia passado para ele.

Algum tempo depois Lídia casou com Eznik Topalian, isso, o sujeito que andava como se caminhasse descendo uma ladeira e batendo os pés no chão para não escorregar. Meu ressentimento se havia consolidado, era forte e controlado. Achava-o detestável, um sujeito que não a merecia, mas que a havia conquistado e nisso havia mérito. De Lídia só obtinha o vigoroso silêncio de quem não tem uma boa explicação para o que lhe ocorria, e acerca de Eznik não me dizia uma palavra, findando qualquer assunto com um sorriso mortificado quando eu a inquiria com alguma sutileza ou assoladora curiosidade.

No ano em que completei vinte e dois anos publiquei meu primeiro livro ao qual dei o nome de “Lucas, que tinha oito anos completos”, que brincava nos jardins de seu avô e se metia em confusões com lagartas, coelhos, tartarugas, elefantes, hipopótamos, barcos a vapor… subia em árvores e descia delas em segurança. Foi o primeiro de uma série de aventuras que fiz viver por meio do menino Lucas, por meio de mim mesmo, quando lembrava das aventuras com Lídia no bosque que ficava no fundo de seu quintal.

Assim que recebi o livro da editora, pedi que Lídia viesse vê-lo comigo em minha casa. Estava muito feliz por fazê-la saber que ali estavam todas as coisas pelas quais passamos em nossa infância. Lídia chegou e tinha o rosto ferido pelos dias de tristeza que vivia. Creio que, se o motivo de eu a haver chamado não fosse tão importante, teria arrumado uma desculpa para não me ver, para não deixar que eu a visse no estado em que estava. Disse-me, nesse dia e pela primeira vez, que Eznik era algo de família, não dela, que nunca lhe havia dispensado o amor que um marido merecia. Eznik, enfim, era uma herança de cultura, nunca um amor.

Jaron também veio, papai também veio. Samuel não veio porque em nossa casa já estava. Todos vimos o primeiro livro que eu editava. Jaron estava acompanhado de um amigo, outro amigo, um negro tão alto quanto ele, não aquele que parecia com o Sr. Scrooge. Seus cabelos não estavam mais ensebados por algum produto, eram naturais e lambidos como sempre, suas orelhas haviam sumido sob os cabelos e estava bonito como eu queria que estivesse. Seu amigo, sem muito conforto por estar entre nós, ficou a um canto vendo o livro, folheando-o enquanto eu o observava e podia ver que gostava, porque, quando ele via alguma ilustração ou algum trecho engraçado dava pequenos sorrisos animados. Papai estava mais gordo e simpático; parecia feliz e não tinha sua pressa habitual. Sentou em sua poltrona e não ligou o rádio ou pôs Schoenberg para tocar na vitrola. Ouvia-nos falar ou falava alguma coisa amistosa, como se não quisesse estar em outro lugar que não ali e conosco, havia recolhido sua aura musical de proteção e estava sereno. Mamãe mantinha-se distante de tudo e folheava o livro sem ver as páginas, creio que fizesse isso para não olhar nos olhos de papai, pois desmoronaria se o fizesse. Tia Zivah, que estava cada vez mais perfeita em sua docilidade, passeava por entre nós como se fosse um cordão, uma longa fita que nos unia, entrelaçava-nos com algo vigoroso e nos tornava um feixe de lenha, unidos e inquebrantáveis. Dessa vez ela não chegou a fazer o bolo azul do qual todos gostávamos. Jaron nos disse que havia abandonado o conjunto de Rock. Agora cantava Blues, pois envolvera-se com um grupo de negros que, dizia, eram os melhores. Tocava contrabaixo, bateria, improvisava. Estava aprendendo a tocar saxofone. Disse-nos que tinha jeito com os instrumentos. Conversou com o solteirão Samuel, pediu conselhos acerca de partituras. Estava aprendendo. Seu hábito de fumar lhe dera uma voz grave e profunda, pausada. Havia se transformado.

A mãe de Samuel Rubin Roizenblit havia completado noventa e dois anos no mês anterior e mandara avisar a todos que desconhecia o caminho até o Mundo da Verdade. Tia Zivah já não ligava a que não casassem. Samuel não bebia, não resmungava e estava sempre presente. Adorava sua música e a idade de ter os filhos havia passado; não ligava mais a isso.

Alguns meses depois, pude ver pela janela que um pequeno carro de mudanças chegou a casa de Lídia. Vi que Lídia veio até ao portão e recebeu três homens vigorosos com seus chapéus desabados e enterrados na cabeça. Logo em seguida eles começaram a retirar coisas da casa, trancaram novamente o caminhão e foram todos embora. Alguns minutos depois chegou um táxi e Eznik, com duas malas de mão, deixou a casa e seguiu na mesma direção do caminhão que havia partido. Lídia ficou em pé ao portão, ao lado de sua mãe. Quando percebeu que eu a via e lhe sorria, acenou com a mão de forma vigorosa, como se me dissesse estou aqui, viva e com doze anos novamente.

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4 comentários em “A estranha família Levin – Conto (Angelo Rodrigues)

  1. Fil Felix
    28 de janeiro de 2018

    Olá, Angelo! Um conto que é quase um pequeno romance. É uma história adorável, uma família que não tem tanto de estranho, não tanto quanto há estranhez em todas as famílias. Eu gostei da maneira como percorreu no tempo, indo da infância do protagonista até o lançamento de seu primeiro livro, saindo do tradicional e de como imaginaríamos (levá-lo até a velhice). Um outro ponto interessante é que, mesmo com as desgraças (a doença, o acidente), o garoto não é depressivo, a história não cai na melancolia, como também é de se esperar. A linguagem é calma e segue lentamente, sim, mas não cai num ritmo triste.

    Os personagens, até por conta do tamanho do conto, acabam se desenvolvendo bem e o leitor se afeiçoa melhor. Temos a mãe depressiva, que mesmo após a guerra e sendo judia, é racista e preconceituosa. O pai que tenta levar a vida da maneira que dá. O irmão rebelde e que se afasta, partindo com o namorado. A tia e o Samuel, que também ajudam na questão central da trama (de que tudo passa, até mesmo o desejo de casar). Também não deixa de ser uma história infanto-juvenil, do amor do protagonista pela Lidia, atravessando doença, acidente e vários anos. É bastante delicado como mostrou essa passagem do tempo, de como tudo, realmente, passa. Pessoas morrem, mas a vida continua. Como pro marido, que preferiu abandonar a família e buscar sua felicidade. Aqui, me lembrou da Laura Brown em As Horas (meu livro preferido), que faz algo semelhante. De como a mãe, apesar de tentar apagar muitas coisas, ainda sabe que foi abandonada e evita olhar pro marido no final. Enfim, um contão de uma vida, ou uma parte dela. Muito bom.

    • Jose Angelo
      3 de março de 2018

      Oh, Fil, que legal a tua leitura tão atenta. Muito obrigado. Comecei a ficar com más intenções de dar continuidade à novela e transformá-la em um romance. Quem sabe?
      Valeu pela atenção de não só ter lido como também fazer seu comentário tão gentil e fino.
      Legal você ter gostado.

  2. Regina Lopes Maciel
    12 de janeiro de 2018

    Olá Ângelo, tudo bem?
    Li seu conto,mas tive que fazê-lo em etapas, pois o achei grande para ler em uma tela de computador (sou acostumada com os livros). De uma forma geral está bem escrito, com pequenas correções a serem feitas (aquelas coisas que nos passam despercebidas quando batalhamos num texto). Diferente de outros contos aqui do site, este eu tive mais facilidade para ler.
    Um abraço,
    Regina Maciel

    • Jose Angelo
      3 de março de 2018

      Obrigado pela leitura, Regina. Fico feliz por você haver lido e comentado.
      Procurarei melhorá-lo fazendo as correções.

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Publicado às 11 de janeiro de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .