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Detox Literário.

Caninos Brancos, de Jack London – Resenha (Pedro Paulo)

Antes de mais nada, faz-se merecido um parágrafo dedicado aos aspectos técnicos da edição pela qual tive acesso à obra. É um livro produzido dentro do selo “Clássicos” da Penguin, associada à Companhia de Letras. A publicação é recente, de 2014, mas traz um romance escrito em 1906 por Jack London – pseudônimo de John Griffith London –. A tradução é excelente e foi feita pela Prof.ª Ma. Sônia Moreira. Além do mais, esta edição é introduzida pelo escritor e tradutor Daniel Galera, que merece atenção por escrever uma análise pertinente sobre a relação entre o ser humano e o cachorro, pondo em relevância a dualidade atribuída aos caninos, colocados entre o melhor amigo animal do humano e a besta selvagem, associada à figura do lobo. A edição também conta com notas finais de Andrew Sinclair, que conclui o livro nos dispondo uma breve biografia do autor, algo bastante útil para pessoas como eu, por exemplo, que com certeza irei atrás de outras obras de London. A capa – muito bonita, por sinal – foi elaborada pelo ilustrador “Kako”.

A estória que nos é contada é sobre a personagem que intitula a obra: Caninos Brancos. É um lobo que nasceu na floresta, mas foi domesticado e forçado dentro dos domínios dos humanos, passando de uma dinâmica simples e cruel para as complexas relações da “civilização”, que não incluem só os humanos, mas também outros animais, e conseguem ser tão violentas quanto a vida selvagem. Mas London não escreveu só sobre Caninos Brancos, escreveu a partir da sua perspectiva, e foi isso que me atraiu para a leitura.

Quis saber como o autor conseguiria assumir o ponto de vista de um animal – dispensando, portanto, grandes conflitos morais e éticos – sem deixar a história monótona. Mas Caninos Brancos não teve uma vida monótona. Em primeiro lugar, é necessário dizer que London fez muito bem em “calcular” os limites da perspectiva canina, narrando as situações em que se encontrava o lobo e, ao mesmo tempo, nos deixando bem a par de como o animal percebia e reagia ao que lhe acontecia, delimitando muito bem a percepção de Caninos Brancos dentro dos seus instintos lupinos. Em nenhum momento London abandonou essa técnica, descrevendo o que se passava na cabeça do lobo com elementos compreensíveis ao leitor humano. Portanto, muitas vezes se lê trechos como o seguinte: “mas Caninos Brancos não entendia nada disso, porque ia para além do que sua mente pensava”, repetição que eventualmente se torna irritante, mas que de modo algum chega a verdadeiramente atrapalhar a leitura.

Com isso levado em conta, o leitor também se acostuma a estar na pele de um lobo e lê a obra bastante ciente das leis universais e particulares às quais Caninos Brancos obedecia, consciente ou inconscientemente, sempre a partir do instinto e da experiência vivida. Portanto, embora o lobo tenha feito uma grande jornada, o mais envolvente da história é o desenrolar do crescimento de Caninos Brancos e a sua formação enquanto um lobo domesticado, algo que London, sempre destacando a influência das circunstâncias e regrando sua obra com um naturalismo no qual “o meio” sempre prevalece, desenvolveu muito bem. Ele constantemente define esse poder das circunstâncias como o moldar de um barro, como no trecho abaixo, quando fala da relação de Caninos Brancos com o seu primeiro dono, o violento Castor Cinzento:

“Se possuísse a chumbada da afeição e do amor, Castor Cinzento poderia ter sondado as profundezas do íntimo de Caninos Brancos e trazido à tona todo tipo de qualidades bondosas. Mas as coisas não tinham sido assim. O barro de Caninos Brancos fora moldado de modo que ele fosse como era: soturno, solitário, frio, feroz, o inimigo de todos os seus semelhantes.” (p. 182)

E agora que mencionei um dos seus donos, aproveito para escrever que, embora passemos a maioria da leitura na perspectiva do lobo, os humanos desempenharam um grande papel na história. Quando foi retirado da floresta pelo seu primeiro dono, o índio Castor Cinzento, o protagonista foi batizado e teve que se acostumar a uma nova série de regras que, do mesmo modo de antes, precisavam ser cumpridas para que ele permanecesse vivo. Era isso ou morrer, fosse pelo abandono, por ser considerado inútil pelos humanos, ou como vítima dos outros cachorros, que, entendendo-o como um lobo, nunca deixariam de encará-lo como uma ameaça. De um modo ou de outro, Caninos Brancos estaria sempre sobrevivendo, quase nunca com qualquer folga e quase sempre dependendo do seu lado mais selvagem e violento. Mas, mesmo assim, ele seria domesticado.

Há um certo ponto da história em que ele conseguiu fugir, quando assistimos atônitos ao pânico que assumiu o lobo ao se ver desacostumado à floresta. Só vivera nela enquanto filhote, amparado pela mãe. Amedrontado, ele fugiu e voltou para a aldeia. Caninos Brancos era um lobo domesticado e os humanos – que ele tinha para si como deuses – sempre fariam parte de sua vida. Eles realmente participaram bastante na moldagem do seu “barro” e, sendo assim, são referenciados nas partes e capítulos que London se utilizou para dividir a obra. Então a parte três, “Os deuses do mundo selvagem”, e a parte quatro, “Os deuses superiores”, são assim intituladas porque se referem à percepção de Caninos Brancos sobre os humanos com os quais se encontrou e, especialmente, com os donos pelos quais passou: o deus tirânico, o deus louco e, enfim, o deus amoroso.

Por através desses “deuses” pelos quais o lobo passou, vemos a construção de uma personagem complexa e única, um lobo que jamais poderá ser um cachorro, mas que também nunca será parte de uma alcateia, nas florestas do extremo Norte estadunidense. A violência e a inexistência de espaço para o desenvolvimento de quaisquer sentimentos que não fossem ódio e medo foram os elementos definidores da personalidade de Caninos Brancos e da sua posição entre humanos e cachorros, os seus semelhantes. Sempre um lobo solitário e agressivo, vemos a situação piorar quando todo aquele ódio foi estimulado e direcionado em rinhas pelo seu segundo dono. Mas então Caninos Brancos conheceu o seu terceiro e último dono, aquele que desconstruiu as suas compreensões acerca dos humanos e o apresentou a um mundo que em que ele podia dispensar dor e violência no dia-a-dia. Foi o dono que o ensinou a amar.

Concluo a resenha recomendando este livro a qualquer um que queira se aprofundar em fatores de construção de personagem. O efeito colateral talvez seja o mesmo que agora me ocorre: você pode acabar vendo um cachorro na rua e pensar que sabe o que se passa na cabeça dele. Ainda não me atrevi tentar comunicação, pois o medo de ser mordido é maior.

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Publicado às 12 de janeiro de 2018 por em Resenhas e marcado , , .