EntreContos

Detox Literário.

Cicatriz – Conto (Fernando Cyrino)

Evidente que ele se distanciava. Razões não dava nenhuma. A opção que ela tomou foi a de se enganar. A frieza devia se dar por algum problema no trabalho. Chovia bastante naquela noite em que ele entrou em casa, agindo como se ela não existisse. Perguntou-lhe por quê? O silêncio pareceu gritar. Encheu a mala e partiu.

Aguardou-o por uns meses antes de se enfiar no luto. A indiferença, mais que o abandono, era o que lhe feria a alma. Naquela época achara que iria morrer. De uns tempos para cá se pegou, aqui e ali, rindo de novo.

Na madrugada a ligação do hospital a acordou. Seu número estava na carteira e necessitavam comunicar sobre o acidente: ele estava muito mal e as chances eram quase nulas. Esforçou-se para dizer que não o conhecia, mas foi inútil. A cicatriz se abria de novo.

Anúncios

14 comentários em “Cicatriz – Conto (Fernando Cyrino)

  1. Fernando Cyrino.
    19 de novembro de 2017

    oi, Luis Guilherme, tem razão na sua crítica, vou revisar. A gente escreve pouco e ainda erra. Abraços agradecidos.

    • Luis Guilherme
      20 de novembro de 2017

      Fala ai, Fernando! Nada disso! Escreveu pouco, transmitiu muito, mandou bem, e apenas algo insignificante me chamou atenção a ponto de eu ter destacado no comentário. É um conto pequeno em extensão, mas grande em qualidade =)

  2. Fil Felix
    18 de novembro de 2017

    Olá, Fernando! Abrindo a temporada off e, quem sabe, prevendo os micro contos.

    É um fragmento (ou uma cicatriz) de algo que, se não aconteceu, pode apostar que vai acontecer com todo mundo, que é a sensação de abandono e indiferença, que fica tão marcante em relacionamentos. Lidar com esse término, com a indiferença e sumiço do outro, é avassalador. E há, nas entrelinhas, essas emoções: se adaptar à nova realidade; seguir a vida; voltar a sorrir e sair; até o, também inevitável (nesse caso, trágico) retorno de contato. Como o Victor, me confundi um pouco nos pontos de vista, mas na releitura fluiu bem.

    • Fernando Cyrino.
      19 de novembro de 2017

      obrigado, Fil. Vou repensar aqui a partir dos seus valiosos comentários.

  3. Victor O. de Faria
    17 de novembro de 2017

    Se preparando para os micro contos? Gostei, tem um ar melancólico e muita subjetividade. Mas demorei a entender que se tratava do ponto de vista dela, e não dele. Talvez se reorganizasse as frases iniciais (ou limitar artigos e pronomes) soasse melhor.

    • Fernando Cyrino.
      19 de novembro de 2017

      obrigado, Victor, vou repensar a partir dos seus valiosos comentários.

  4. Marco Aurélio Saraiva
    17 de novembro de 2017

    Forte. Muito forte.

    Este tipo de sentimento é bem comum, mas as pessoas não costumam admitir muito. Eu já me senti assim, como a sua personagem: sabe, esperando que algo de errado aconteça com alguém, apenas para me ver vingado de alguma forma. Apenas para poder negar ajuda.

    Mas não adianta.

    Parabéns! Poucas palavras que falam muito.

    • Fernando Cyrino.
      19 de novembro de 2017

      oba, obrigado, Marco Aurélio. que legal que tenha gostado. Fiquei feliz.

  5. Regina Lopes Maciel
    16 de novembro de 2017

    Fernando,
    Achei legal o conto, sem muitas delongas para descrever aquilo que já sabemos como é, no dia dia das relações, e deixando a questão maior para este final bastante sensível.
    Um abraço
    Regina

    • Fernando Cyrino.
      19 de novembro de 2017

      Obrigado, Regina, fiquei feliz que tenha achado legal o conto.

  6. Wender Lemes
    16 de novembro de 2017

    Salve, Fernando! Como vai? Ler esse trabalho me lembra um pouco do desafio de microcontos: alguns preferiam apostar na sugestão da história, outros na concisão das ideias. Percebo seu conto como a mistura das duas coisas. Ao mesmo tempo em que nos é deixada essa sensação forte da ferida aberta, também temos o enredo que se pronuncia e fica no imaginário. Talvez a cicatriz não tenha sido afetada pelo choque do acidente em si, mas pela constatação de que ele ainda guardava o número de telefone dela na carteira.
    Parabéns!

    • Luis Guilherme
      16 de novembro de 2017

      Boa observação, wender!

    • Fernando Cyrino.
      19 de novembro de 2017

      pois é, Wender, este foi o meu desafio ao escrever. Era uma história bem maior, mas fui cortando, cortando, cortando, pra deixá-la mais aberta. Obrigado pelos parabéns.

  7. Luis Guilherme
    16 de novembro de 2017

    Boa noite, Fernando! Oba, vamos à temporada off.

    Com poucas palavras, vc diz mto! Quantas vezes uma simples falta de comunicação pode acabar com relações, neh?

    E depois, num jogo de orgulho, ambos deixam morrer algo que poderia ser resgatado facilmente.

    O desfecho comove.

    O único apontamento que faço: o trecho “razões não dava nenhuma” me soou um pouco estranha. Não sou catedrático de gramática, maa talvez valha a pena conferir esse trecho. Se for erro meu, peço desculpa.

    Parabens, belo trabalho!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 15 de novembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .