EntreContos

Detox Literário.

Contemplação (Pedro Luna)

A canoa navegava lentamente sobre as águas barrentas e caliginosas do Rio Vermelho, desviando aqui e ali de plantas e troncos, seguindo o curso que penetrava no interior da floresta. Ainda bem que o canoeiro enxerga bem, pensou Wade, pois ele mesmo não conseguia ver nada. A escuridão da noite encontrava afago naquela região. Já fazia pelo menos duas horas que tinham passado pelas últimas luzes dos casebres à beira-rio, e, pelo menos três, desde que tinham deixado Hanói. Ali, as sombras e o silêncio eram a única companhia.

Wade sentiu uma pontada nas costas. Suas pernas estavam dormentes. A canoa era desconfortável e instável, e o marasmo estava começando a irritá-lo. Se não fosse a promessa de Wireman, ainda lá em Nova York, de que tudo ia valer a pena, já teria dado ordem para o canoeiro dar meia volta e regressar a Hanói. Dessa forma, esfregou as coxas e se espreguiçou para disfarçar o cansaço. Olhou pela milésima vez ao redor, tentando enxergar algo no completo breu, e, de repente, sentiu a respiração parar ao distinguir alguns pontos luminosos no horizonte. É ali, pensou, eufórico. Aos poucos, a canoa foi se aproximando desses pontos luminosos, que tremulavam e iam aumentando de tamanho. Wireman havia dito que seria impressionante, e mesmo assim, Wade ficou boquiaberto com o cenário que se transfigurou na sua frente. No meio da floresta, enormes casarões de madeira com até três andares tinham sido erguidos lado a lado, dividindo espaço com as árvores, e eram iluminados por tochas e balões lanterna coloridos. Pessoas andavam por todos os lados. Vietnamitas com seus chapéus Nón Lá enormes, gringos, altos e loiros, usando ternos, mendigos e crianças, prostitutas. Faziam uma algazarra infernal naquela cidade construída no meio do mato, um verdadeiro formigueiro humano.

Ao ver tudo aquilo, o coração de Wade disparou. Que tipo de prazeres maravilhosos desfilariam diante dos seus olhos assim que desembarcasse? Será que a experiência chegaria perto dos relatos excitados de Wireman?

O canoeiro atracou em uma passarela de madeira que entrava no rio e servia como cais. Imediatamente, alguns vietnamitas surgiram e ajudaram Wade a subir. Falavam todos ao mesmo tempo, mostravam objetos que pareciam ser feitos de ouro e prata, pediam dinheiro. Wade enfiou a mão no bolso para preservar a carteira e começou a negar gentilmente as ofertas, usando as poucas palavras que conhecia na língua deles. Virou-se para o canoeiro buscando ajuda, mas visualizou a embarcação sumindo ao longe, mergulhando novamente nas trevas. Agora, estava por sua conta, sozinho naquele formigueiro barulhento.

Com gestos apressados, ele afastou os vendedores ambulantes e atravessou a passarela de madeira até chegar em uma clareira que servia como praça da cidade. Algumas prostitutas se materializaram ao seu redor, esfregando as mãos nas suas costas, enrolando os dedos em seus cabelos. Wade se interessou por duas delas, mas sorriu e se desculpou, dizendo que estava com pressa. Não tinha ido até ali para ter algo que poderia ter em qualquer lugar do mundo. Queria algo diferente, algo exótico. A casa dos balões vermelhos, tinha dito Wireman, é lá que você vai querer estar, e Wade andou por entre a multidão, desviando de vendedores, de barracas de comida, atento a esse detalhe. Logo distinguiu o tal casarão, decorado com os balões rubros. Na porta, um negro enorme com uma cicatriz que atravessava o rosto fazia vezes de segurança.

— Americano? — perguntou ele, ao ver Wade se aproximar.

— Sim.

— Para americanos, vinte dólares a entrada.

Wade entregou o dinheiro ao segurança, que se afastou e empurrou a porta de madeira, liberando a passagem. O interior do casarão era sombrio, barulhento e abafado. Pessoas andavam por ali como se fossem fantasmas, seus vultos deslizando pelos cantos, iluminados apenas por fracas chamas de lampiões. Uma música estranha tomava conta do ambiente, mas também era possível ouvir barulho de vozes e de gritos femininos, que vinham de algum lugar ali dentro. Wade passeou por uma ampla sala de estar, onde alguns sujeitos sentados em um sofá se divertiam bebendo e cortejando moças vietnamitas. Uma delas possuía uma argola entre as narinas, como um boi, e encarou Wade enquanto ele passava. Adiante, ele notou um certo movimento vindo de um corredor e foi conferir. Atravessou uma parede de corpos que urravam e riam como loucos, e finalmente chegou a porta de um quarto. Lá dentro, uma orgia se concretizava. Uma moça era chupada por outra, que por sua vez era penetrada por um anão disforme e peludo. No pescoço do anão, uma coleira estranguladora, ligada a uma corrente era manipulada por outra mulher, que cavalgava um homem mascarado. No outro canto do quarto, um sujeito enorme e musculoso penetrava sem piedade um outro homem, que recebia no rosto jatos de urina e cuspes de dois anões. Ainda havia espaço para uma pequena banheira, onde algumas mulheres tomavam banho junto a uma cobra gigante, e se beijavam lascivamente enquanto o animal passeava por seus corpos. Um diversificado espetáculo que parecia agradar a plateia ávida, olhos curiosos e impressionados, mas para Wade aquilo não era novidade. Já tinha visto orgiais piores na Iugoslávia. Um pouco decepcionado, ele voltou a enfrentar a massa de corpos e decidiu arriscar um outro quarto.

Dessa vez, se deparou com uma pequena sala de tortura sado, onde mulheres loiras, que pareciam americanas, espancavam um velho, usando chicotes e cassetetes. O velho estava nu e amarrado a um tronco, e o seu pênis estava preso a uma espécie de mecanismo que o espremia. Wade pôde ver um filete de sangue saindo de dentro da glande. Os homens na plateia riam a cada nova pancada que o prisioneiro recebia na barriga ou nas pernas, e o próprio sujeito gemia de prazer enquanto sua pele era esfolada.

Mais do mesmo, pensou Wade, e decidiu voltar a sala de estar. De repente, lembrou de uma outra instrução de Wireman: suba as escadas, vá até a sala de porta dupla, é preciso pagar mais alguns dólares. Ele encontrou a escadaria e chegou ao segundo andar. Sentiu um forte odor de incensos, e, como se guiado por eles, trilhou um caminho entre pervertidos que agarravam mulheres, tipos mascarados que desfilavam de quatro, crianças cegas, e até mesmo um grupo de monges que assistia silenciosamente a uma cena de zoofilia. A porta dupla ficava no fim de um corredor, e dois sujeitos orientais e de terno, que fizeram Wade recordar dos Yakuza que conhecera anos antes, faziam a segurança.

— O show vai começar em dez minutos — disse um deles, ao ser indagado. — Custa cem dólares.

— Do que se trata? — perguntou Wade. — Quero saber se vale a pena.

O outro segurança sorriu, revelando duas sinistras fileiras de dentes dourados.

— Se eu contar você não vai acreditar, patrão.

Wade pagou o ingresso e os homens abriram as portas, revelando mais uma sala ampla e espaçosa. As extremidades do recinto estavam mergulhadas na escuridão, mas no centro dele havia uma espécie de palco, iluminado por tochas amarradas em estacas.

— Encontre o seu lugar e aguarde — sussurrou um dos seguranças, antes de fechar a porta.

O silêncio era absoluto. O cheiro dos incensos espalhados, também. Wade percebeu que haviam cadeiras posicionadas ao redor da sala, e alguns espectadores já sentados. Podia ver as silhuetas de seus corpos camufladas nas sombras, mas não os seus rostos. Discretamente, andou pelo recinto até achar uma cadeira vaga e se sentou. O homem que estava ao seu lado, a uma distância de um pouco mais de um metro, acendeu um cigarro, esclarecendo a parte inferior do seu rosto.

— Aceita um cigarro, amigo? — o homem perguntou, em inglês.

Wade ficou surpreso. Normalmente os que procuravam aquele tipo de diversão não costumavam interagir uns com os outros.

— Obrigado, mas eu não fumo.

— Que surpresa, um americano — disse o estranho. — Somos companheiros de casa, amigo. Moro na França, mas nasci em Los Angeles. De qual estado você veio?

Wade não respondeu. Não estava confortável em conversar com alguém que não podia ver o rosto. O sujeito percebeu a tensão no ar e riu.

— Perdoe-me, companheiro. Não quis me intrometer na sua vida. É que sempre fico ansioso antes do show começar, e aí falo pelos cotovelos.

— Você já viu esse show? — perguntou Wade.

— Claro, claro — disse o estranho. — Já é a terceira vez que venho ao Vietnã. Esse show já vi umas dez vezes. Você está estreando?

— Sim. Vim por indicação de um amigo. Mas ele não me explicou do que se trata.

— Entendo — riu o sujeito. — Acredite, a surpresa é o melhor caminho, amigo. Relaxe, tenho certeza que vai gostar. A propósito, o meu nome é Victor. Victor Strauss.

A mão do estranho surgiu. Wade ponderou, e decidiu selar o cumprimento. A verdade é que não conversava com ninguém há dias.

— Wade Williams. É um prazer.

Uma porta se abriu próximo ao palco, deixando uma corrente de vento entrar e tremular as chamas. Wade ouviu Strauss se ajeitar em sua cadeira, e soube que o show ia começar.

Primeiro, entraram duas orientais trajando roupões. Se movendo com leveza, elas subiram no pequeno palco e delicadamente começaram a se despir, desatando os nós, deixando cair os roupões, revelando sua nudez. Eram magras e esguias, mas de uma simplicidade atraente. Uma delas deitou na superfície do palco, enquanto a outra se agachou e mexeu dentro do roupão, tirando de lá um bisturi prateado, que fez questão de mostrar a todos os presentes. Usando o bisturi, ela pegou a mão da companheira e fez uma pequena incisão em seu mindinho. Em seguida, começou a puxar lentamente a pele do dedo, fazendo a moça gemer e arfar.

Wade não se impressionou com aquela cena, afinal, já tinha visto uma sessão de esfolamento ao vivo. Mas logo ele notou que algo diferente acontecia. Quanto mais tinha a pele dos dedos e da mão arrancada, mais a moça começava a manifestar espasmos corporais similares ao que as mulheres apresentavam durante um orgasmo. Seus ombros se remexiam, as pernas se moviam inquietas, o quadril se elevava. Ela mordia os lábios com força, mas sempre deixava escapar um grito de prazer quando o bisturi penetrava em seu corpo e a cirurgiã continuava esfolando. Não havia dúvidas, a mulher estava gozando, mas não eram simples orgasmos. O modo como ela se contorcia, o modo como tentava agarrar algo invisível no ar, era como se estivesse sendo possuída por alguma força sobrenatural. Quando a cirurgiã puxou uma tira de couro que chegou quase até o cotovelo da moça, ela deu um grito estridente e um líquido esguichou por sua vagina.

Wade ficou sem fôlego. Porra, isso é muito autêntico, ele pensou. Olhou para o lado para buscar a reação de Strauss, mas o outro continuava escondido sob as sombras. Mesmo assim, Wade conseguiu notar a presença de um certo movimento frenético vindo do vulto de Strauss, além de ouvir sua respiração ofegante. Com certeza o homem estava se masturbando.

No palco, a cirurgiã deixara de lado o antebraço da companheira, já inteiramente sem pele, e agora fazia um corte lateral em sua testa, um pouco abaixo do início do couro cabeludo. Filetes de sangue escorreram sobre o rosto da moça, que abriu a boca para receber o néctar, e lamber os próprios lábios. Wade não podia acreditar. Como alguém suportava aquele nível de dor? E pior, conseguia sentir prazer com aquilo?

Agora, a cirurgiã usava as duas mãos, lentamente, puxando a pele facial da companheira para baixo, como se estivesse despindo a cabeça de sua roupa, como se estivesse retirando uma máscara. Aos poucos, os músculos do rosto da moça começavam a aparecer, e ela ainda reagia, tremendo, gritando, jorrando pela fenda entre suas pernas. O pênis de Wade ficou duro, e ele não conseguiu conter a vontade de tocá-lo. Abriu o zíper de sua calça e começou a se masturbar, ao som do êxtase absoluto ao qual chegava aquela desconhecida. A cirurgiã já havia retirado a pele até o nariz, e a esfolada tremia como se estivesse tomada por um ataque. Wade também tremia, sentindo as têmporas prestes a explodirem. Por fim, gozou, e no palco, quando a cirurgiã finalmente tinha retirado toda a pele facial do rosto da companheira, as coisas pareciam que iam chegar ao fim. A esfolada já não tremia, nem gemia, agora arfava baixinho, como um cão machucado, parecendo entregue. A cirurgiã levantou e fez um sinal para a escuridão. A porta novamente se abriu, e um homem surgiu carregando uma pistola. Em um ato de profunda misericórdia, ele encostou o cano da arma na testa da esfolada e atirou. Era isso. A cirurgiã pegou o roupão no chão e o vestiu novamente. Em seguida, disse em várias línguas que a pele da amiga estaria disponível no leilão que aconteceria logo mais. Como se nada tivesse acontecido, desceu do palco e sumiu na penumbra.

Wade se recompôs, enxugando o rosto suado com um lenço, e escutou a risada de Strauss.

— O que achou, companheiro?

— Impressionante — disse Wade. — Já me deparei com bastante coisa nesse mundo, mas nunca tinha visto alguém sofrer tanto e sentir prazer com isso.

— Dizem que é o melhor tipo de prazer — disse Strauss. — Aquele que você sente antes da morte. Essa mulher era muito corajosa. Se sacrificar assim, em nome do desejo. Respeito esse tipo de coisa.

A porta dupla se abriu, e os espectadores começaram a deixar a sala. Wade seguiu Strauss, e estava curioso para ver como era seu rosto. No corredor, a luz dos lampiões, descobriu que Strauss era mais velho, e gordo. Um homem de cabelos brancos, de semblante tranquilo, sempre com um sorriso no rosto.

— Me acompanha em uma bebida? — ele disse, acendendo um cigarro.

— Tudo bem — disse Wade.

No bar, que ficava no andar de baixo, eles tomaram whisky e conversaram sobre os lugares que conheceram em suas viagens pelo mundo, em suas buscas pelo exótico. Wade tentava ser econômico nas informações que passava, mas Strauss falava sem o menor pudor e insistia a todo momento que seria bom se no futuro eles fizessem algumas viagens juntos, pois ele conhecia lugares incríveis, onde poderiam ver coisas ainda mais chocantes, incríveis. Insistiu tanto, que Wade lhe deu o seu cartão com o telefone do escritório em Nova York. Strauss agradeceu e disse que entraria em contato assim que descobrisse novos destinos interessantes. Por fim, ele propôs que encerrassem a noite em um casebre que ficava ao norte, onde ele conhecia o proprietário.

— Ele tem uns meninos lindos lá. Os rostos limpos, perfeitos. Mas se você pagar bem, pode bater se quiser.

***

Nos meses seguintes, Strauss ligou duas vezes. A primeira, quando Wade estava em uma reunião na Trump Tower, e não pôde atender. A secretária lhe deu o recado. Na segunda, ele estava presente no escritório e pôde atender. Após uma breve conversa, onde Strauss pedia a opinião de Wade a respeito de uma viagem a Iugoslávia, os dois trocaram e-mails.

Passaram-se outros meses, em que Wade cumpriu com êxito a sua rotina de empresário do setor imobiliário. Meses em que ele fingiu amar a esposa e os filhos. Meses em que jogou golfe com Wireman e os outros sócios aos finais de semana. Mas em uma manhã, como sempre acontecia, ele despertou e sentiu aquela necessidade familiar, aquela ânsia por aventuras, pelo misterioso, pelos prazeres alternativos que o mundo podia oferecer a alguém com muito dinheiro. Estava na hora de outra viagem, só precisava escolher o destino. Talvez Wireman pudesse lhe dar mais alguma dica, falaria com ele depois.

Quando chegou ao escritório e checou seus e-mails, ficou surpreso ao ver que havia uma mensagem de Strauss. Ela dizia:

HEY, COMPANHEIRO. VOCÊ ACREDITA EM FANTASMAS?

***

O avião pousou em Odessa, Ucrânia, por volta do início da tarde. Wade e Strauss encontraram o guia, um sujeito silencioso chamado Nikolai, em um bar famoso na cidade por vender bebidas de todo o mundo. Em meio a doses de Horilka, os três combinaram os detalhes do pagamento, e cerca de meia hora depois, estavam dentro de um carro, percorrendo uma estrada que cortava vastos e impressionantes campos de plantações.

Wade nunca havia estado na Ucrânia, e esse foi um dos fatores que o levaram a aceitar o convite de Strauss. Após ler o e-mail que o amigo tinha lhe enviado, Wade ficou curioso o bastante para dar corda no assunto. O que ouviu despertou seu lado mais cético, mas também uma pequena fagulha de interesse.

Segundo Strauss, existia uma pequena cidade próxima a Odessa, chamada Lenintal, que recentemente tinha sido palco de uma tragédia. Em uma noite chuvosa, oito pessoas de uma mesma família tinham sido assassinadas na casa em que viviam, em uma fazenda um pouco afastada do centro. No dia seguinte, quando um parente foi até o local, encontrou os oito cadáveres, amarrados e degolados. A casa estava toda revirada, e o mais intrigante: em cima da mesa da cozinha, haviam deixado um porco morto. O caso chamou a atenção da imprensa. A polícia suspeitava de um ataque de fanáticos religiosos a família, que era seguidora do judaísmo, mas no fim das contas os crimes não foram solucionados. Todos se esqueceram daquele caso, mas isso não significou o fim. Meses depois, a nova família que havia se mudado para a casa alegou que a mesma estava sendo assombrada pelos espíritos dos mortos, e acabaram abandonado a residência. A história chegou aos ouvidos de alguns caçadores de experiências paranormais, que realizaram expedições até o local. Um deles foi Elói Lorrane, um pintor francês amigo de Strauss, que visitou a casa em busca de vestígios desses espíritos. Segundo Elói, a experiência tinha sido muito forte, e ele podia alegar, com a mais absoluta certeza, que a casa era assombrada. Em uma conversa com Strauss, ele sugeriu que o amigo visitasse Lenintal o mais depressa possível, antes que a história dos fantasmas explodisse no mundo inteiro, e a mística do lugar se perdesse para sempre.

— Eu já vi de tudo nesse mundo — disse Strauss, fumando dentro do carro. — Mas ver um fantasma? Jesus, seria incrível.

Wade assentiu, mas continuou focado na janela, observando os campos verdes passarem a toda velocidade. O aquecedor do carro estava com defeito, e ele mantinha as mãos dentro dos bolsos do casaco.

— Você duvida de toda essa história, não é? — disse Strauss, voltando-se para o banco de trás. — Ah, caro Wade, você é muito cético para alguém que também já viu coisas impressionantes.

— É verdade que já vi — disse Wade. — Agora… assombrações já são um outro departamento. Não boto muita fé nesse tipo de coisa, Victor. Não me custou nada vir, mas sou sincero: acho que vamos dar com os burros na água.

— Relaxe, companheiro — disse Strauss, tragando e deixando a fumaça sair pelos cantos da boca. — Confio na palavra do meu amigo Elói. Ele é ainda mais cético que você. Se disse que viu algo, é porque viu.

— Bem, logo descobriremos — disse Wade.

Strauss riu e apagou o cigarro no cinzeiro da porta. Depois ficou pensativo, também olhando a paisagem.

— É sempre nublado por aqui? — perguntou.

— O inverno está chegando, mas no verão é diferente — disse Nikolai. — Nem sempre vemos o cinza em cima de nós.

— Até que enfim ouvimos sua voz — brincou Strauss. — Vamos, entre na discussão. O que acha dessa história da casa fantasma? É real? Ou pura bobagem? Não se preocupe, não mandaremos você dar meia volta.

O guia deu de ombros.

— Eu levo pessoas até lá, mas não entro na casa nem se me pagarem o triplo. Não sei se são os espíritos, mas existe uma energia ruim ali, senhor. A gente sente de longe.

— Interessante — riu Strauss, sacando a carteira para um novo cigarro. — Mal vejo a hora.

No banco de trás, Wade começou a sentir uma leve inquietação. Sim, era cético quanto a todo aquele roteiro, mas não podia negar que certa expectativa por visitar um lugar dito como assombrado existia.

Lenintal era realmente uma pequena cidade de camponeses, com poucas casas, uma escola, um restaurante e um posto de saúde. O carro atravessou a cidade em menos de dois minutos, e Wade notou poucas pessoas nas ruas. Algumas delas encaravam o carro parecendo estarem com raiva, os semblantes fechados. Isso lhe deu um pequeno calafrio.

Após deixar a cidade, Nikolai engrenou por uma estradinha de terra que cortava algumas plantações e depois penetrava em um bosque fechado. Na medida em que avançavam, as árvores nas laterais da estrada pareciam querer engolir o carro, obscurecendo o caminho. O guia estava certo, pensou Wade, já posso sentir a energia ruim. Mas será que não era apenas a atmosfera sugerindo coisas em sua cabeça? Minutos depois, o carro parou. Nikolai desligou o motor e apontou para uma trilha aberta que penetrava no bosque.

— É aqui. Seguindo essa trilha. A casa fica no fim do caminho.

Ele remexeu nos bolsos da jaqueta e retirou um molho de chaves, que entregou para Strauss.

— A amarela abre a porta principal. Quando voltarem, não esqueçam de trazer a chave, pois precisarei entregar para o responsável. Escutem com atenção: vou esperar aqui durante duas horas. Se não vierem, vou embora sozinho Não ficarei aqui durante a noite.

Wade e Strauss desceram do carro. O ar estava gélido, embora as árvores bloqueassem o efeito do vento, amenizando o frio.

— Esse silêncio — disse Wade, enquanto os dois seguiam pela trilha.

— Inquietante, não? — sorriu Strauss. — Veja, ali está.

A casa surgiu no meio de uma enorme clareira. Era uma construção simples, de dois andares, feita inteiramente de madeira, mas o aspecto sujo e de abandono lhe dava um ar sombrio. As janelas de vidro estavam imundas. A varanda, cheia de folhas secas. Havia um playground com um balanço quebrado à direita, um outro detalhe macabro.

— Quer fazer as honras? — perguntou Strauss, erguendo o molho de chaves.

Wade pegou as chaves e se encaminhou para a porta. Que porra estava acontecendo, pensou, a cada passo que dava, mais vontade tinha de ir embora. Não queria demonstrar que estava com medo, mas era exatamente assim que se sentia. Como podia, um sujeito com olhos que já tinha visto de tudo, atrocidades, insanidades, estar com medo de uma simples casa?

Segurando a respiração, ele enfiou a chave amarela na fechadura e a girou. A porta destrancou e Wade deu um leve empurrão. Por um terrível momento, achou que veria os corpos da família assassinada, mas a sala estava vazia. Ele suspirou, aliviado. Strauss passou ao seu lado e entrou.

— Então foi aqui que aconteceu.

A sala estava vazia, com exceção de algumas estantes de madeiras, ainda forradas com livros. O chão, sem tapete, não tinha manchas de sangue, mas estava bem sujo. Wade deu alguns passos ali e sentiu o ar pesado. Olhou para o corredor que levava até a cozinha, mas depois desviou os olhos, por medo de ver alguém olhando de volta. Strauss examinava os livros, retirando a poeira das capas. Em seguida, se dirigiu até a escada.

— Vou olhar lá em cima — disse. — Você vem?

— Vou ficar aqui um pouco — disse Wade. — Depois encontro você.

Strauss subiu, seus passos fazendo ranger os degraus. Wade esperou ficar sozinho e saiu para a varanda. Do lado de fora, sentou no batente e pegou um galho de árvore que estava ao lado. Ficou batucando com o galho em seu joelho, tentando se distrair, mas começou a se sentir o homem mais estúpido do planeta. É só uma casa, disse a si mesmo, é só uma maldita casa. Envergonhado, ele arremessou o galho longe e se levantou. Entrou novamente na casa, atravessando o corredor escuro a passos firmes e decididos, olhando rapidamente para os quartos que estavam com as portas abertas, até chegar a cozinha.

O cômodo estava abafado, e fedia bastante. Wade abriu alguns armários, procurando a origem do cheiro, mas todos estavam vazios. Na geladeira, desligada, havia apenas uma garrafa com água. Quando se aproximou da mesa circular, que ficava no centro da cozinha, notou que o cheiro ali era mais forte. Imediatamente, lembrou da história de Strauss, sobre o porco morto, e os pelos do seu braço ficaram arrepiados. O medo, o medo estava tomando conta de si novamente. Alguma coisa estava errada. Precisava sair dali depressa. Ele deu meia volta, mas quando chegou ao corredor, viu uma menina parada ao lado de um dos quartos.

Wade congelou. Sentiu uma pressão no peito, como se uma mão estivesse apertando o coração, e as pernas ameaçaram desabar. A menina estava parcialmente escondida nas sombras, mas deu um passo a frente, revelando-se. Wade gemeu ao ver que o pescoço dela estava aberto por um profundo corte, e que o vestidinho amarelo que usava estava embebido em sangue. Ela o encarava com olhos frios, sem vida, que pareciam fazer o tempo parar.

— O que você quer? — ela sussurrou.

Wade abriu a boca mas não conseguiu falar. Sentia um peso nos ombros, uma espécie de pressão na cabeça. A presença da menina estava desencadeando aquelas reações. Foi então que ela deu mais um passo adiante.

— O que você quer? — ela repetiu a pergunta.

— Eu… não sei — disse Wade, fazendo esforço para formar as palavras. — Não sei.

— Eu acho que você sabe — disse a menina, e depois levou a mãozinha ao pescoço. — Eu acho que você veio aqui para ver. Me diga, você quer ver?

— Na… não – disse Wade. — Não quero.

A menina balançou a cabeça.

— Ah, eu acho que você quer. Tenho certeza que sim.

Ela enfiou os dedos no buraco em seu pescoço e começou a movimentá-los, espalhando sangue, fazendo soar um barulho repulsivo. Wade fechou os olhos. Agora tremia inteiro, perdendo cada vez mais o controle do próprio corpo. Quando abriu novamente os olhos, na esperança de se deparar com o corredor vazio, viu a menina ainda ali, mas agora ela tinha a companhia de um homem. Um velho, de pele pálida, o pescoço completamente destroçado.

— Você quer ver o que eu vejo? — perguntou o velho, com sua voz fúnebre. — Quer enxergar como um morto? Eu posso ajudar.

Dito isso, ele fez uma pinça com os dedos, os enfiando dentro da órbita esquerda, e retirando o próprio olho.

— Tome — disse o velho, estendendo o braço. O olho inerte na palma da sua mão. — Ponha em você. Veja o que eu vejo. Veja o que nós vemos. Talvez isso sacie os seus desejos.

Wade percebeu que ia desfalecer e usou as suas últimas forças para tentar escapar. Gritando, ele se lançou contra os fantasmas e acabou passando por dentro deles. A sensação foi horrível, mas agora o caminho para fugir estava aberto. Correndo, ele atravessou a casa e saiu disparado pela porta. Ainda pôde ouvir Strauss gritando em algum lugar: Wade, Wade, espere. Mas ele não ia esperar. Correu como se estivesse sendo perseguido, sem olhar para trás, e quando chegou ao carro, abriu a porta e se jogou lá dentro. Nikolai assistiu a cena assustado, as mãos agarradas ao volante.

— O que houve? — perguntou. — O que aconteceu?

— Vamos embora — gritou Wade. — Vamos, ligue o maldito carro. Rápido.

— Mas e o outro? — disse Nikolai. — O seu amigo ainda não voltou.

Strauss. Strauss. Wade sentiu vontade de arrancar com o carro dali e deixar o parceiro, afinal, a maldita ideia tinha vindo dele. Mas não podia fazer isso. Tampouco ia deixar o carro e ir procurá-lo.

— Certo — disse, deitando no banco e tentando retomar o fôlego. — Vamos esperar… vamos esperar.

Quando fechou os olhos, viu os fantasmas da menina e do velho, e por isso ficou com eles abertos.

***

Strauss voltou cerca de meia hora depois. Vinha caminhando tranquilamente, fumando um dos seus cigarros. Quando entrou no carro, deixou o cansaço e a decepção saírem na forma de um longo suspiro, e fez um sinal para que Nikolai saísse dali.

Wade permaneceu em silêncio, fitando o vazio, a cabeça encostada no vidro. Não conseguia lembrar de nenhum outro momento em sua vida em que tivera menos vontade de falar. A todo instante, sua mente voltava para a cena na cozinha, e ele tentava controlar, lutar contra isso.

Quando o carro parou na frente do hotel, em Odessa, os dois se despediram de Nikolai e desembarcaram. Em silêncio, subiram para os seus quartos, que ficavam no mesmo corredor. Antes de se separarem, no entanto, Strauss puxou Wade pelo ombro e perguntou, muito sério.

— O olho. Você o pegou?

— Não — disse Wade. — Não peguei.

— Ah…

Ficaram encarando um ao outro, os semblantes cansados, exauridos.

— E você? — perguntou Wade.

Strauss olhou para a própria mão.

— Eu peguei o olho. Ainda posso senti-lo aqui na palma da minha mão. Eu… eu olhei através dele, Wade. Eu… eu vi o mundo dos mortos.

Ao ouvir aquelas palavras, Wade sentiu uma enorme tristeza, uma vontade de ir embora e chorar. Mas dentro de si ainda restava uma fagulha de curiosidade.

— E o que você viu, Strauss? — perguntou. — Como é? Como é o mundo dos mortos?

Strauss respirou fundo, pensou um pouco, e depois disse, entristecido:

— Não é bom, companheiro. Sinceramente? Não é nada de mais.

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47 comentários em “Contemplação (Pedro Luna)

  1. Pedro Luna
    11 de novembro de 2017

    Eu acho que o conto ficou mais do mesmo. Em relação ao terror, eu quero ser surpreendido, quero ver coisas diferentes e perturbadoras, chocantes, e acho que o conto não satisfez o meu desejo interno.

    Em relação ao final, achei sacanagem tanto suspense pelo tal mundo dos mortos e você não diz do que se trata. Me senti meio roubado. Posso estar errado, mas talvez o autor não seja habituado ao estilo do terror. Ah, e na realidade são dois contos, um meio que nada a ver com o outro.

  2. Renata Rothstein
    11 de novembro de 2017

    A primeira parte do conto justifica a segunda, e o título também.
    A primeira pela busca doentia e voyeur de cenas bizarras, incomuns. A segunda pela entrega do olho do fantasma, em q Wade, sempre em busca de vivências inusitadas, vê a morte, em que não há nada demais – palavras dele.
    Muito bem escrito, boa sorte!

  3. Pedro Paulo
    11 de novembro de 2017

    Olá, entrecontista. Para este desafio me importa que o autor consiga escrever uma boa história enquanto em bom uso dos elementos de suspense e terror. Significa dizer que, para além de estar dentro do tema, o conto tem que ser escrito em amplo domínio da língua portuguesa e em uma boa condução da narrativa. Espero que o meu comentário sirva como uma crítica construtiva. Boa sorte!

    O conto nos introduz a Wade, um homem de diversas perversidades sexuais. Ele já viu de tudo e se encontra entediado, insaciável. O ceticismo e o desinteresse são bem evidentes na personagem, mérito da autora, que nos deu esse conto em uma escrita exímia, prática e ao mesmo tempo com descrições acertadas, como na cena inicial, que me deixou realmente perturbado. Sobre essa cena, compreendo que serviu como uma introdução ao protagonista e o seu novo amigo, mas acredito que ficou longa e elaborada demais, confiando que a autora teria conseguido nos apresentar a natureza sexual de Wade sem nos colocar diante da cena, mesmo tão bem escrita como foi. Por isso, a segunda parte da história é a que realmente fica pertinente ao desafio, aventurando o protagonista em mais uma tentativa de atender aos desejos obscenos de sua alma, ao encontro de fantasmas. Não há nada de complicado ou inovador no conceito de casa assombrada, a escrita uma vez mais fazendo o seu papel em nos colocar diante de uma cena terrível, na qual o protagonista de personalidade bem consolidada ajuda a dar impacto, o terror dele valendo ainda mais por ser um homem tão difícil de se impressionar. Desse modo, é uma ótima leitura, minha única ressalva sendo que a leitura poderia ter economizado no começo, não pelas cenas perturbadoras, mas pela necessidade à história central que o conto quer passar. Também gosto do fato de que o conto se encerra com os dois homens saindo e medindo a experiência, sem uma tentativa de puni-los de alguma maneira, deixando essa aventura menos previsível e mais ordinária, ao mesmo tempo em que não foi.

  4. Rafael Penha
    10 de novembro de 2017

    Olá autora,

    Achei o conto muito interessante. A linguagem me pareceu um pouco cansativa no início, mas na segunda parte e no final realente me prenderam.

    O detalhamento das cenas é vívido e excelente, nos imergindo na situação.
    As personalidades foram muito bem exploradas, criando personagens realmente humanos e críveis.

    O terror me pareceu fraco num primeiro momento, mas depois aflorou melhor.

    O final ficou bem em aberto, mas sem dúvida, inova.

    Excelente conto.

  5. Marco Aurélio Saraiva
    10 de novembro de 2017

    =====TRAMA=====

    Sinceramente, no início achei que o conto seria apenas um texto gore, tentando despertar o mais profundo sentimento de asco no leitor, mas terror mesmo, nenhum. Depois que entendi que toda a sequência introdutória era apenas um prelúdio do que estava por vir, o conto me fisgou e acabou se tornando um dos melhores do desafio.

    Que história!

    Você fez um exelente trabalho construindo Wade e Strauss. A sequência introdutória, além de apresentar ambos os personagens entre si e aos leitores, também introduz a ambientação do conto. Dali em diante, você estava em território conhecido e “brincou de escrever”.

    A sua história tem referências em Hellraiser, onde as pessoas buscam pelo prazer supremo, e de O Albergue, onde os ricaços gastam rios de dinheiro em busca de prazeres bizarros e proibidos, geralmente envolvendo a morte de terceiros inocentes. Foi uma leitura muito boa, que me prendeu do início ao fim. Me fez sentir asco e medo na intensidade correta.

    Acho que o que mais brilha aqui são os personagens. Isso fica claro no final quando, após toda aquela sequência de bizarrices, Strauss fala que “o mundo dos mortos não era nada de mais”. Engraçado: por mais que ambos sejam pessoas que beiram o repugnante (por gostar do tipo de prazer que viram no Vietnã, por exemplo), não consegui conter o desejo de ler outras histórias desta dupla improvável de amigos.

    =====TÉCNICA=====

    Sua escrita é muitíssimo boa. Você escolhe as palavras corretas e consegue ambientar muito bem o leitor. Quase não vi erros. A sua leitura flui muito bem, em um ritmo constante, mantendo o leitor preso à história. Algumas coisas me incomodaram, as quais citarei em breve, mas no geral a sua escrita é excelente. Parabéns!

    Vamos aos incômodos:

    1) Algumas vezes você deixa claro que “este momento aqui deve ser aterrorizante ou medonho”, usando palavras explícitas. por exemplo, no trecho abaixo:

    ” A varanda, cheia de folhas secas. Havia um playground com um balanço quebrado à direita, um outro detalhe macabro.”

    Você não precisava falar que o playground era “outro detalhe macabro”. Deixe que o leitor chegue nesta conclusão ele mesmo. Há outros exemplos disto no conto, mas não anotei.

    2) Em alguns lugares você repete palavras de forma desnecessária, como nos exemplos:

    “…pois ele conhecia lugares incríveis, onde poderiam ver coisas ainda mais chocantes, incríveis…”
    “O medo, o medo estava tomando conta de si novamente.”

  6. Evandro Furtado
    9 de novembro de 2017

    Um conto bastante impactante, que traga o leitor e o faz imergir na leitura. A primeira parte, mais focada no horror propriamente dito, é a melhor. As descrições são fantásticas e o autor faz muito bom uso do body horror pra impressionar. A segunda parte opta por um por uma caminho diferente. Ela ainda aterroriza, mas falta aquela paixão doentia da primeira parte. O final, especificamente, é frustrante. Ainda assim, um conto poderoso. Eu leria tranquilamente um livro entitulado “As Maravilhosas Aventuras de Wade e Strauss: Inocência Vermelha”, ou algo assim.

  7. Daniel Reis
    7 de novembro de 2017

    Prezado entrecontista: seu texto já me mandou de cara ao dicionário – caliginosas foi uma escolha perfeita, ainda que pouco usual. Mas, independente dessa primeira pedra no caminho, achei a sua técnica realmente impecável, prendeu a minha atenção do começo ao fim. E o fim, ah, o fim é dos meus! Não sei se alguém já comentou, mas me lembrou muito o ritmo do Joseph Conrad. Parecem duas histórias, uma de horror, outra de terror, em sequência. Acho somente, como ponto a ser analisado, estranho que uma pessoa vá encontrar outra, relativamente sua pouco conhecida, num país distante, com base num “convite”. De qualquer forma, um dos meus preferidos. Boa sorte no desafio!

  8. iolandinhapinheiro
    5 de novembro de 2017

    Olá, autor. Vamos lá

    Falaram muito do seu conto, então vim aqui cheia de expectativas. A primeira parte realmente me surpreendeu. A cena do esfolamento chegou a me lembrar um filme que assisti há um tempo, Mártires. Onde uma garota é esfolada para que posso contemplar a perfeição divina. Enfim, cada doido com a sua mania. Essa primeira parte ganha a gente pela criatividade, pelo insólito, não é exatamente o terror que eu aprecio, mas é uma espécie de terror gore bem mais refinado que a maioria que existe por aí. Eu odeio gore e consegui ter prazer na leitura: ponto para vc.

    Imaginei que ia gostar muito mais da segunda parte. Casa assombrada, família assassinada, etc. Mas o autor cometeu dois erros: o primeiro foi esticar muito a ida até a casa, com detalhes desnecessários, a segunda foi não ter falado mais sobre o crime em si. Ficou meio túnel do terror de parque de diversão, com os mortos querendo chocar os visitantes. Se não tivesse a segunda parte, a primeira ia segurar muito melhor o conto. Enfim.

    Parabéns pela enorme criatividade, por nos colocar em lugares estranhos e assustadores, e pela iniciativa de escrever o conto.

    Abraços.

    Iolanda.

  9. Gustavo Araujo
    5 de novembro de 2017

    Rapaz, este conto já me ganhou no início, ao traçar a ambientação no Vietnã. Acho que você conseguiu emular muito bem a ansiedade, a curiosidade e a busca pelo prazer desconhecido do protagonista. Eu me senti ao lado dele, no meio da selva, experimentando aquele exotismo extremo. Pode ser que algumas pessoas se sintam desconfortáveis com isso, mas para mim, soou totalmente verossímil, não apelativo – ao contrário, demonstrando que o protagonista é alguém que procura o improvável, o inconcebível. Em suma, essa primeira parte serve precisamente para nos dar a exata noção de quem é o personagem principal e por que, enfim, ele decide ir atrás de um fantasma de verdade na segunda metade do conto.

    Essa segunda metade, na real, não ficou à mesma altura da primeira. A culpa é da natureza deste desafio. Saímos da selva vietnamita (tão bem explorada e tãop bem vinda para oxigenar as ideias por aqui) e caímos na mesmice da casa mal assombrada. Não que sua ambientação neste caso não tenha sido competente. Foi, é claro, mas depois de trocentos contos com essa temática, o conto fica com gosto de comida requentada. De todo modo, achei bacana quando os fantasmas apareceram – a criança a o velho que oferece o olho. Essa parte deu uma levantada no astral outra vez, que foi crescendo até as últimas linhas, afinal o porra do Strauss pôs o olho, viu como é o mundo dos mortos, e nós, leitores, estávamos ávidos por saber o que ele diria a respeito disso. A saída foi ótima, caro autor. Você ganhou meu respeito definitivamente nesse arremate.

    No geral, portanto, um conto muito bom. Parabéns!

  10. Rose Hahn
    4 de novembro de 2017

    Jacqueline, um contaço! Gostei da ambientação em Hánoi, fugiu dos lugares comuns, e vc. brinda o leitor com ricas descrições sem desviar do foco principal. Eu, particularmente, não gosto de filmes e livros de terror, horror, violência, mas as cenas apresentadas aqui, principalmente do esfolamento, remetem a uma apreciação diferente, a estética da violência, muito usada por Tarantino em seus filmes, que aliás sou fanzona. Na descrição dos dois sujeitos orientais e de terno, que fizeram Wade recordar dos Yakuza, lembrei de uma cena de Kill Bill. A sua escrita é muito boa, envolvente, notei poucos deslizes na pontuação. No “esclarecendo a parte inferior do seu rosto”, sugiro “clareando”. Indo na contramão da maioria dos comentários aqui, de que seriam dos contos, pelo fato da inserção dos fantasmas, não enxerguei dessa forma. Acho que a morbidez dos personagens era tamanha, que não se contentavam mais com os prazeres das aberrações humanas, e foram em busca de algum prazer proporcionado pelos mortos. Talvez o final pudesse realmente surpreender, a morte deles, sei lá, mas de qualquer forma manteve a equidade ao mantê-los no mesmo lugar de onde vieram, prontos para mais uma aventura. Ah, em “Strauss voltou cerca de meia hora depois. Vinha caminhando tranquilamente, fumando um dos seus cigarros”, o tranquilamente não está de acordo para quem acabou de ver um fantasma. No mais, parabéns pelo texto.

  11. Luis Guilherme
    4 de novembro de 2017

    Bom diaa, amigo, tudo bem?

    Esse desafio é especial pra mim, uma vez que amo o genero. Por isso, tenho lido os contos com bastante expectativa. Dito isto ,vamos ao seu:

    Olha, seu conto tem dois momentos bem distintos e que acho que não casaram muito bem, é como se fossem duas histórias diferentes, e não entendi muito bem sua opção de casá-las.

    A primeira parte é bem chocante, devo admitir. Me senti mal lendo e não via a hora de terminar (mas não me refiro àquela pressa de quando a história é muito ruim). Simplesmente a história é muito pesada e angustiante, e não é meu tipo de história – mas isso não é culpa sua.

    Prefiro, particularmente, um terror mais psicológico e trabalhado por meio do desconhecido, ao invés de cenas explícita de dor e tortura, que buscam chocar o leitor. MAs devo dizer que você trabalhou esse aspecto de forma grandiosa. Que leitura angustiante!

    Já na segunda parte, ocorre uma mudança brusca no enredo e os homens, que se conhecem em sua busca pelo prazer extremo, acabam decidindo visitar uma mansão mal-assombrada. Hein? Não entendi muito bem de onde surgiu esse desejo na dupla.

    Porém, a segunda parte achei mais interessante. Gostei bastante da ambientação e da relação com os mortos. Gostei também da oferta do velho: seu olho capaz de ver o mundo dos mortos.

    E aí, pintou aquela expectativa: o que ele vai ver no mundo dos mortos? E ele acaba não vendo, pq foge. Fiquei um pouco frustrado, talvez tanto quanto o Strauss rsrs.

    Enfim, é um conto com duas metades que meio que não casam, uma com um bom gore/tortura/aflição, outra com uma hstória mais tradicional de terror-assombração, mas que não evoca em nenhum momento os eventos da primeira metade. Porém, é um bom conto.

    O que eu sugeriria (note que é só uma opinião como leitor, não tenho o direito de te dizer o que fazer com seu conto): suprimiria a primeira metade, ou separaria em dois contos separados, e trabalharia a segunda metade, dando uma melhorada no desfecho. Eu, particularmente, gostaria MUITO de enxergar a visão pelo olho do velho, acho que seria o clímax do conto. Quem sabe não seria esse mundo dos mortos o próprio mundo de loucura e dor que é trazido na primeira metade, ein? heheHE

    Parabéns e boa sorte!

  12. Fil Felix
    3 de novembro de 2017

    Sexo costuma ser um enorme tabu, principalmente o que foge do tradicional papai-e-mamãe (num conceito amplo do termo). Então o autor já foi bem ousado em trazer um sexo incomum, o mundo dos fetiches, tudo muito visual, muito cru e palpável, forçando o leitor a imaginar cada cena, cada ângulo, cada posição que, muitas vezes, jamais pensaria que existisse. Ou gostaria de pensar assim. Claro que o texto vai além, mostrando o prazer a todo custo, o derradeiro orgasmo. O gozo pela dor. O que, pra mim, foi o grande ápice do conto. E entendo como muita gente não curtiu tanto isso. Tem duas obras que curto muito e que falam desse prazer, que é o romance nacional Santa Clara Poltergeist e a HQ 100% do Paul Pope, ambas falam de como veremos e sentiremos o sexo no futuro, sempre indo nessa direção do gore. Voltando pro terror, senti um tanto do Albergue aqui, o tédio dos ricos em busca de diversão, pagando por isso, o escalpelamento. Toda essa discussão do limite entre a dor, o desejo e o prazer, que é tão tênue, e que foi super bem narrado, poderia ter se estendido e dominado todo conto.Levantar questões e figuras de linguagem, como a moça que morre em nome do prazer. Prazer esse, diga-se, que surge à flor da pele, literalmente. Adorei.

    Mas ao entrar na segunda parte, nos deparemos com uma história tradicional de fantasma dentro de uma casa mal assombrada, que destoa completamente do início. Uma mudança abrupta que, particularmente, acho que tirou muito do brilho do texto.

  13. Pedro Teixeira
    29 de outubro de 2017

    O conto é bem escrito, e traz uma premissa pra lá de interessante. As imagens são construídas com competência. Na parte inicial, vieram à minha lembrança Apocalypse Now e, na cena da orgia, o episódio “Ideologia”, de ” O Estranho Mundo de Zé do Caixão.” As descrições cruas incomodam e criam uma atmosfera perturbadora.
    Senti falta de mais unidade. Não consegui me convencer do interesse dos personagens pela casa assombrada. O perfil deles parecia levar a outras coisas. Mesmo assim, a cena da menina e do velho na casa é muito boa.
    As muitas repetições do adjetivo “maldito” num trecho curto incomodaram um pouco. Também estranhei essa expressão aqui:esclarecendo a parte inferior do seu rosto – não seria clareando?
    O final me frustrou um pouco, esperava algo com mais impacto. No geral, é um bom conto.

    wade percebeu que haviam – havia( nos sentido de existir, é impessoal)

  14. Antonio Stegues Batista
    28 de outubro de 2017

    ENREDO:Bom enredo, fugindo um pouco do comum. Mas acho que temos aqui duas histórias que foram unidas para atingir o limite mínimo de palavas. É estranho que Wade sinta mais medo de fantasmas do que daquelas cenas de sadomasoquismo.

    PERSONAGENS: Gostei da característica de cada um.

    ESCRITA: Simples, mas correta. Autor tem boa imaginação e capacidade para boas descrições e ideias originais.

    TERROR; Só na primeira parte, a segunda parece que foi feita em cima da hora e até o final foi apressado. Com certeza esse conto merece uma continuação. Boa sorte.

  15. José paulo
    27 de outubro de 2017

    Um conto muito bem escrito, de facil entendimento e que nos poe presos a leitura. Porém duas características ficaram muito claras para mim: 1- O autor (a) não eh adepto ao terror…e aqui escreve, penso, como um desafio para si mesmo. Signos como casa mal assombrada e zumbis.. especialmente crianças, estao prá lá de batidas nesse meio..e esse texto não mostrou nenhum diferencial que o fizesse relevante. 2- A obrigatoriedade de se fazer um texto com 3000 a 5000 palavras levou o autor (a)a criar a parte 1. Não vejo outro sentido para ela a não ser como enchimento. Como conto gostei por ser muito bem conduzido. Abraços e boa sorte.

    • Pedro Luna
      13 de novembro de 2017

      Pô, José, tu errou em tudo cara. E ainda disse que as coisas ficaram claras pra ti..kk. 1 – Eu sou louco por terror. Gosto desde menino. Até tatuagem do Stephen King eu tenho. 2 – A parte 1 não foi uma obrigação. Por mais que tenham achado que enchi linguiça, o conto foi muito bem pensado e a escrita fluiu muiiiito tranquila. Nunca tive dificuldades para escrever muito. Nunca. Jamais encherei linguiça. As duas partes se complementam, é fácil de ver. Abração.

  16. Fernando.
    27 de outubro de 2017

    Minha cara Jacqueline, que história você me traz. Que terror mais absurdo você me apresente nessa casa vietnamita, amiga? Achei um tanto inverossímil a cena do escalpelo e da morte. Sim, sei que há gente que tem prazer na dor, mas sabendo que se irá morrer… Há tanta loucura, perversidade e aberrações no mundo que, quem sabe, seja possível, mas não me entrou bem na cabeça. A viagem à Ucrânia e a casa mal assombrada realmente se inserem em um tipo de terror que sinto mais palatável. Mas quero lhe dizer, Jacqueline, que você escreve muito bem, uma escrita líquida que flui bastante leve, apesar do tema tão escabroso. Na minha leitura esta segunda parte estaria como que como uma espécie de “punição” a Wade pelo seu pecado? Será? Resumindo, o conto que não me chocou em sua primeira parte, me ofereceu o verdadeiro terror na segunda. Abraços de parabéns pela sua criatividade e competência.

  17. Lolita
    26 de outubro de 2017

    A história – Ricos entediados procuram prazer no que há de pior. São duas histórias conectadas pelo tédio e superficialidade dos personagens. É um conto mais profundo do que descrições gratuitas de sangue.

    A escrita – Muito boa e envolvente, os quadros das orgias são tenebrosos. A cena da retirada da pele então foi realmente assustadora. Aconselho apenas a troca de expressões como “patrão” e “porra”, não combinaram com o refinamento do texto.

    A impressão – Um gore refinado, curioso o resultado e também excelente. Parabéns e boa sorte no desafio.

  18. Vanessa Honorato
    26 de outubro de 2017

    Se eu pudesse escolher, leria apenas a segunda parte. Prefiro o terror/ suspense propriamente dito do que misturado com outros gêneros. É um conto que desperta curiosidade e ao mesmo tempo antipatia pelo personagem supérfluo. Fiquei com uma raiva danada da resposta de Strauss, eu também queria saber o que ele viu…

  19. Rafael Soler
    26 de outubro de 2017

    O texto me pareceu ser uma junção de dois contos distintos, ambos com suas qualidade e defeitos. A primeira parte realmente me deixou incomodado pelo gore, o que se encaixa perfeitamente no tema de terror, mas talvez o(a) autor(a) tenha ido longe demais nas descrições.
    A segunda metade conta uma história clássica de casa assombrada e trás o peso do vaio existencial dos personagens, retratado na primeira parte, mas é tranquilo demais e tem um final leve, quando comparado com a primeira parte do texto.
    A gramática é boa e as descrições são bem visuais, mas a estrutura do texto não me agradou.

    Um bom texto, mas que tem um começo tão forte que o final acaba perdendo o impacto.

  20. Jorge Santos
    25 de outubro de 2017

    Olá.
    O seu conto revela maturidade na escrita e é tecnicamente correcto, mas o desconforto gore da primeira parte perdura pelo resto do conto. Há um excesso visual que eu teria evitado. Em contraste, o desfecho é muito soft. Creio que o autor deveria ter procurado manter constante a tensão, deixando um desfecho inesperado. Pelo menos era isso que eu, enquanto leitor, estava à espera.

  21. Fheluany Nogueira
    25 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – São dois núcleos dramáticos, mantendo os mesmos personagens e o mesmo objetivo: busca do prazer em bizarrices e perversidades. A primeira cena me pareceu inverossímil. Por que a mulher cometeria suicídio assim? Se a situação era mortal, como saberia do prazer? Acho que não estou conseguindo me explicar, mas de qualquer forma foi chocante, tipo — “Acredite se Quiser”. A segunda parte ficou morna.

    Terror e emoção – Há terror no sadismo, na morte. Na outra história, há sobrenatural, assombrações, menos perturbadora, mais ilógica

    Escrita e revisão – Texto bem escrito, pequenos deslizes de linguagem (crase, repetições), narrativa segura, fluente, interessante, prende o leitor, adequado ao desafio.

    Parabéns. Abraços.

  22. Luiz Henrique
    25 de outubro de 2017

    É um conto feroz, embora pouco cansativo, em virtude de sua ex-tensão, poderia ter sido mais curto. Teria surtido o mesmo efeito, sendo um pouco mais sintetizado. Entretanto o enredo é muito bem estruturado, firme em suas proposições. São horrores por demais horripilantes (perdão pela redundância), mas é assim que seu conto passa a emoção, para não dizer indigestão, visto as cenas de tão grande repugnância. Uma história de autêntico viés à alma humana, infelizmente. É um conto que denuncia as mazelas do homem. Muito bom.

  23. Leo Jardim
    25 de outubro de 2017

    # Contemplação (Jacqueline)

    Autor(a), desculpe-me por não ter tempo para formatar o comentário melhor. Em caso de dúvida, é só perguntar.

    📜 Trama (⭐⭐⭐⭐▫):

    – leitura rápida e ágil, li num pulo
    – a primeira parte acabou sendo grande demais, pensando na trama completa
    – a cena da casa é muito boa, cria a tensão nas medida certa
    – o fim, porém, acaba sendo fraco, encerra o texto sem impacto

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫):

    – muito boa
    – narra com facilidade
    – cenas muito nítidas
    – personagens bem desenvolvidos
    – foco maior na ação

    – *balões lanterna* coloridos (balões-lanterna)
    – Se não vierem, vou embora sozinho *ponto* Não ficarei aqui durante a noite.

    🎯 Tema (⭐⭐):

    – a parte da casa faz o texto ficar adequado, mesmo sendo curta

    💡 Criatividade (⭐⭐▫):

    – personagens e cena inicial bastante criativos
    – alguns elementos comuns

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫):

    – texto prende muito a atenção
    – cena final, depois da casa, tirou o impacto. Talvez fosse melhor deixar em aberto

  24. Evelyn Postali
    24 de outubro de 2017

    Caro(a) Autor(a),
    Quero desver o que li… Não. Não é ruim. É bom. Porque está dentro do tema e conseguiu me prender na leitura. Gostei da escrita. Ela flui, vai num ritmo bom. Sem percalços. Não vi erros de gramática ou estrutura. Gostei do equilíbrio entre diálogo e narração. Boa sorte no desafio.

  25. Eduardo Selga
    23 de outubro de 2017

    Separada a narrativa em suas partes, são dois contos, com identidades bem distintas; juntos, como se apresentam, é uma ainda incompleta novela, gênero que é maior que o conto e menor que o romance, mas cujos episódios giram sempre em torno de um personagem. Isso complica a avaliação, pois se trata de um desafio de textos pertencentes ao gênero conto.

    O primeiro tem mais substância que o segundo, por uma questão de originalidade de enredo. É muito interessante a ideia do esfolamento como espetáculo e, acredito, a partir daí poderia ter sido continuado o conto sem necessidade de um segundo núcleo dramático posto de modo a configurar, como já disse, uma novela.

    A primeira parte não é apenas estética: também traz um elemento ideológico que, tendo sido intencional ou não, merece maiores observações.

    A guerra declarada pelos EUA ao Vietnã, uma dentre várias que o império norte-americano declararia nas décadas seguintes do século XX, foi um divisor de águas na percepção da “legitimidade” de uma guerra e na descoberta que o império pode ser vencido. Não à toa, há muitos romances e contos que remetem ao conflito, do qual os EUA insistem em se dizer vencedores, e isso se reproduz no imaginário e nas produções artísticas e da indústria cultural, com personagens e enredos que favoreçam os a visão norte-americana dos fatos.

    Nesse conto, temos um show de horrores em território vietnamita, narrativamente bem construído, ao qual dois norte-americanos assistem com diferentes graus de prazer. Não há uma situação de guerra, mas o espaço ficcional adotado e os personagens adquirem força simbólica, e o esfolamento acompanhado de prazeres (do americano e da esfolada) lembra a Síndrome de Estocolmo ou o prazer em servir a quem lhe destrói.

    Insisto, para que não se diga que estou vendo fantasmas: isso é uma interpretação a partir dos símbolos que estão no conto, em que os americanos são o seu país; a casa de shows com coisas bizarras no Vietnã é a guerra; o show é o povo vietnamita, a partir da perspectiva norte-americana.

    O que liga ambos os núcleos dramáticos é o prazer pelo sofrimento alheio, ou seja, o sadismo. Na primeira parte, explicitamente; na segunda, nem tanto, como se vê no seguinte trecho:

    “— Eu acho que você sabe — disse a menina, e depois levou a mãozinha ao pescoço. — Eu acho que você veio aqui para ver. Me diga, você quer ver?
    — Na… não – disse Wade. — Não quero.
    A menina balançou a cabeça.
    — Ah, eu acho que você quer. Tenho certeza que sim”.

    A atitude da menina fantasma assemelha-se à mulher do show, no sentido de fornecer ao espectador prazer pela explicitação do que normalmente causaria horror.

    Em “[…] acendeu um cigarro, esclarecendo a parte inferior do seu rosto”, embora ESCLARECENDO não esteja rigorosamente errado, teria sido melhor CLAREANDO ou sinônimo, porque a palavra usada remete muito mais a tornar claro (no sentido de evidente).

    Em “[…] as portas abertas, até chegar a [À] cozinha” e “Nikolai assistiu a [À] cena assustado” faltam o sinal indicativo de CRASE, e na segunda frase também faltou VÍRGULA antes de ASSUSTADO.

    O(a) autor(a) apresenta um vício de linguagem que parece adquirido de filmes norte-americanos dublados em Português: o uso repetido do adjetivo MALDITO(A). Macacos me mordam!

    • Pedro Luna
      13 de novembro de 2017

      Não foi só você que sugeriu que eu trocasse o esclarecendo por clareando, mas eu não vejo problema em usar palavras diferentes para evocar o mesmo significado. É bom sair um pouquinho do padrão. Mas valeu pelo comentário, Selga.

  26. Edinaldo Garcia
    23 de outubro de 2017

    Olá, autor.

    Primeiramente gostaria de dizer que detesto ler comentários. Não me fundamento com coros de “ai, fulano não gostou também não vou gostar” ou vice-versa, “ai, fulano fez um comentário divertido vou fazer também” Quando me proponho a ler algo ou até ver um filme, eu não crio ideias e expectativas pré-estabelecidas. Tento entrar na trama e procurar experimentar aquilo que o autor está me propondo, portanto não fico martelando em minha cabeça frases do tipo: “se fosse eu faria assim”, “escreveria esse trecho desta maneira”, “faria com essas palavras”. Creio que um diretor de cinema não assiste a um filme pensando: “Se fosse eu teria filmado assim”, “teria feito de outro jeito”. Quando fazemos isso corremos o risco de criticar boas obras e elogiar obras muitos superficiais. Quanto blá, blá, blá hein!

    Mas porque estou entrando nesta parte?
    Seu conto foi muito chocante na primeira parte. Se eu já viesse com uma ideia já estabelecida certamente não iria gostar.

    Escrita: É muito boa. Simples, direta, sem firulas. Quando o enredo começa no barco, imaginei que a estória se passaria no norte ou nordeste brasileiro, mas logo vimos que se tratava de um trama que se passava em outro país, cujo personagem principal é norte-americano, foi aí que torci o nariz. Não gosto de contos americanizados, mas, para minha surpresa não foi. Você deu um toque especial e a narrativa nem soou artificial neste sentido. A primeira parte eu gostei bastante. O conto foi muito bem ambientado. Se tinha a intenção de causar desconforto com todas aquelas estranhas orgias, conseguiu. Já a cena do espetáculo para mim saiu exagerada demais, e o desconforto deu lugar a um: hã? Mas isso não tira o brilho inicial da obra. Já a segunda parte, para mim, não combinou em nada. Dois caras acostumados a vivenciar coisas tão bizarras indo procurar fantasmas, que é algo tão distante da realidade, tão preso em crenças. Os caras estão acostumados com orgias sangrentas, assassinatos ao vivo e tudo mais, e de repente viram um para o outro e dizem: vamos ali procurar uns fantasminhas!

    Terror: É um conto de terror.

    Nível de interesse durante a leitura: Fiquei totalmente envolvido na trama, mesmo a segunda parte ter sido mais lenta e suave do que a primeira.

    Veredito: É um bom enredo, com algumas lacunas que incomodariam um leitor mais exigente com verossimilhança ou que tenha o vício de ler com ideias pré-montadas e tenha dificuldade de esvaziar a cabeça e mergulhar naquilo que autor está propondo. Eu, particularmente, gostei bastante.

  27. werneck2017
    23 de outubro de 2017

    Olá,

    Um texto muito arrojado e com uma premissa muito boa que é o preenchimento do vazio existencial. Ele nunca é preenchido, por mais que os horrores dos homens se desdobrem. O homem é insuperável nas suas mazelas e atrocidades. A primeira parte do conto é horror puro, causando repulsa, causando asco. Apenas acho que a vítima não se submeteria a isso de plena vontade, por maior prazer que pudesse sentir. Fora esse detalhe, a minúcia do desenvolvimento da cena de esfolamento é magistral.
    Na segunda parte, mais amena, traz uma tristeza sobre a condição humana e sobre a reflexão a que estamos todos condenados. Há alguns erros, já descritos pelos colegas, então não retornarei a eles.
    No mais, um excelente texto. Parabéns e boa sorte no desafio.

  28. Andre Brizola
    23 de outubro de 2017

    Salve, Jacqueline!

    Acredito que seu conto tenha horror E terror. São dois momentos distintos, entretanto. Não é um problema de fato, visto que, amarradas as pontas, ambos podem se complementar perfeitamente. Mas, tenho que confessar, não encontrei essa amarração.
    A primeira parte do conto é horrível, no bom sentido. Tudo muito bem descrito, para nosso tormento. Essa violência controlada, calculista, temperada com a pornografia rude do diversos ambientes do local é muito asquerosa. Masturbação e assassinato, inclusive, eu só havia visto em Irreversível, de Gaspar Noé (um filme que não recomendo a ninguém). Se você queria que o leitor se sentisse muito incomodado, bem, você conseguiu! Ponto mais que positivo.
    Mas não entendi a razão de pegar tão mais leve na segunda metade do conto. Tirando algumas cenas gore leves com a garotinha degolada, achei tudo muito clássico e corriqueiro.
    Veja bem, é ótima a ideia de mostrar que enquanto vivos podemos ter contato com coisas muito piores do que o mundo dos mortos nos promete. Mas não achei que ficou homogêneo o suficiente. Mas, a criatividade é inegável, e isso vale muito!

    É isso! Boa sorte no desafio!

  29. mariasantino1
    22 de outubro de 2017

    Olá, autor (a)! Boa tarde.

    Eu fiquei um bocadinho frustrada quando o conto deu uma amainada e passou para o lance de fantasmas, mas você tem muito jeito com as palavras, tem uma força narrativa e consegue ser bem convincente a ponto de permitir que nos envolvamos outra vez com a trama. Gostei das pinceladas acerca da vida do Wade e, também fiquei reflexiva quanto ao desfecho e sobre ter os desejos saciados, porque, veja só o outro, já viu tanta coisa e experimentou tanto que agora nada mais lhe causa emoção.
    Acho que você é novo aqui no desafio (só acho) e gostei muito da fidelidade ao universo criado.
    Muitos parabéns pelo trabalho.
    Nota máxima.
    Sucesso!

  30. Lucas Maziero
    22 de outubro de 2017

    Narrativa cativante, um dos poucos contos até agora que satisfizeram o meu gosto quanto ao estilo. Creio que a trama foi bem conduzida, de forma a não fazer o leitor perder o interesse. Assim me senti.

    No começo do conto Wade me pareceu um sujeito bom caráter, mas conforme fui descobrindo aos poucos o que ele buscava, percebi a marca da boa construção narrativa me revelando que Wade na verdade é um pervertido milionário (não algo com o que nos indentificamos, mas que nos incomoda enquanto estamos em sua pele). Com a curiosidade sempre crescente a cada parágrafo, assim acompanhei este conto, contemplando.

    As cenas foram bem descritas, na medida certa, e o terror se concentrou mais em chocar do que em meter medo (e medo é algo que o terror não possibilita, em minha doida e errônea opinião).

    De todos os prazeres mundanos que a dupla Wade e Victor experimentaram, só restava mesmo experimentar o sobrenatural. Quanto a esse novo prazer, considero a ideia boa, apesar de ter preparado o leitor de que encontraríamos fantasmas, e isso estragou um pouco o suspense. Porém as cenas finais, como todo o resto, foram bem narradas, embora o impacto não seja forte.

    Gostei do final. Se o mundo dos mortos não é nada de mais, o que resta então para esses dois experimentarem?

    Parabéns!

  31. angst447
    22 de outubro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio.

    E (estilo) – Linguagem limpa, sem floreios, focando nas descrições,mas também valorizando os diálogos. A escolha por descrições de cenas tão… ai, nem sei como defini-las, causou-me muita agonia. Um terror mesmo!

    R (revisão) – Alguns erros passaram, poucos como já apontaram os colegas. A decoração de balões vermelhos me deixou intrigada. Não seriam lanternas vermelhas? Acho que combinariam melhor com o ambiente oriental.

    R (ritmo) – A narrativa corre devagar, acelerando-se um pouco com os diálogos. Mas no geral, o ritmo é mais lento do que eu gostaria.

    O (óbvio ou não) – Não encontrei um terror óbvio, nem “pressenti” o final.

    R (restou) – Uma aflição danada daquela esfolação toda. Isso deve ser um ponto positivo, sem dúvida.

    Boa sorte!

  32. Anorkinda Neide
    22 de outubro de 2017

    Olá!
    Não li muitos contos até agora, mas foi o primeiro com uma cena realmente grotesca, terrível e difícil de ler, por óbvio, por ser muito bem escrita, a do show de esfolamento, aliado ao prazer, inclusive.
    Realmente acho que nada ‘pior’ Wade poderia encontrar no mundo! rsrsrs
    Eu gostei dos personagens, vc constrói muito bem o seu conto.
    Mas eu vou entrar no coro de que a segunda parte foi péssima, sorry…
    Caiu em qualidade, mas o pior, os personagens mudaram completamente… Caras tão descolados em ver e praticar barbáries viajam horrores pra ver fantasma? Em qualquer esquina tem fantasmas!! haha
    Bem, e os fantasmas em questão puco fizeram pra aterrorizar esta dupla.. se o conto fosse somente focado nestes fantasmas, tudo bem, mas o q antecedeu tirou o brilho no sobrenatural.
    Uma pena.
    Abração ae e boa sorte!

  33. Paula Giannini
    20 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Se seu conto fosse um filme assistido por meu marido em casa, eu torceria o nariz. Não costumo gostar de cenas de tortura. Entretanto, diante da atual crise de moralismo da plateia de plantão, encarei seu conto de peito aberto. E, por incrível que pareça (para meu espanto), gostei.

    Existe estética no terror, no horror, na violência, embora esperemos todos de joelhos que tais coisas não ocorram na vida real. Desconfio, entretanto, ainda de joelhos, que o terror da vida real pode ser milhares de vezes pior que o da ficção.

    A premissa, dois milionários entediados em busca de prazeres a cada dia mais exóticos e terríveis, é, também infelizmente, algo que de fato ocorre no mundo real.

    Seu trabalho é ousado e parece uma espécie de manifesto contra o puritanismo que toma conta da literatura e das artes em nossos dias. Digo isso por perceber que o(a) autor(a) buscou no mais oculto de nossa sociedade, ou talvez de nossas almas, aquilo que os tais homens entediados experimentam na ficção.

    Na primeira parte do conto deparamo-nos com o protagonista percorrendo diferentes quartos do local que visita. A cada cômodo descortinado, o(a) autor(a) confronta o leitor com um tipo de “prazer proibido e perverso”, como se em uma espécie de camada do inferno, como na Divina Comédia. Assim, os tais prazeres do mal vão ficando piores, à medida que o personagem passa para uma nova sala. O ápice de tal confronto se dá com a terrível (e muito bem construída) cena do esfolamento. Aqui, o autor não faz concessões, não mede palavras, não poupa quem lê de detalhe algum. Nessa cena, somos obrigados a “assistir” a violência como ela é.

    Confesso que, quando a cena do esfolamento terminou pensei, Deus o que pode vir de pior agora, já que os dois homens pretendem continuar a busca por seus prazeres? Nesse instante o(a) autor(a), no entanto, segue sugerindo ao leitor que faça tal reflexão.

    O que pode haver de pior e mais sórdido na alma humana?

    Assim, não satisfeitos com o assassinato com requintes de tortura que acabam de presenciar, nos deparamos ainda com o seguinte diálogo entre os dois: “— Ele tem uns meninos lindos lá. Os rostos limpos, perfeitos. Mas se você pagar bem, pode bater se quiser.” E entendemos que, obvia e infelizmente, ninguém pretendia ir ao tal local para beber.

    Creio que o(a) próprio(a) autor(a) se deparou com a questão acima.

    O que pode haver de pior?

    Pode, e muito, mais uma vez repito, infelizmente. No entanto, o que poderia ser o mais lúgubre? O que poderia trazer a esses dois homens aquilo que buscam? E o que buscam afinal? O prazer pelo prazer? Ou a necessidade infinda de “sentir”? A grande questão para esses dois, pelo que entendo, é a de alguém que, com todos os seus prazeres satisfeitos em um mundo onde tudo é permitido, onde não se precisa lutar por nada, onde se é o “rei” na sociedade. Ou seja, ambos se deparam com a eterna busca pelo “sentir”. Ou, indo além, a busca por preencher de algum modo o vazio existencial de suas almas.

    Nesse momento, o(a) autor(a), na tentativa de ir além, nessa busca aparentemente sem fim, oferece aos personagens justamente o fim. Ou seja o confronto com a morte, ou melhor com o mundo além dela.

    E o que há lá?

    Bem, um dos dois personagens ousa espiar e descobre, para o seu mais completo “tédio” ou talvez desespero, que nem o que há no além túmulo será capaz de satisfazer o seu desejo por “sentir”. Nada será capaz de preencher o seu vazio existencial, pois, de certa forma, ele é o próprio vazio. Ou uma metáfora para ele. Ou uma metáfora para o vazio de nossa sociedade.

    Bem, essa é a minha interpretação para seu conto. Se não for nada disso, veja até onde sua arte pode chegar, ainda que minha interpretação não seja tão grande coisa assim. 😉

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.
    Paula Giannini

    • Pedro Luna
      13 de novembro de 2017

      A sua interpretação foi perfeita. Captou o que eu quis dizer. Achei engraçado como as reações ao conto se parecem com a do próprio personagem. Após verem tanta desgraça (parte 1), consideraram a segunda parte morna. Curioso.

      • Paula Giannini
        13 de novembro de 2017

        Oi, Pedro, que bom que entendi. rsrsrsr Gostei!!! Louca para ler mais. 😉

  34. Ana Maria Monteiro
    20 de outubro de 2017

    Olá Jacqueline. Não sou a primeira a dizê-lo:são dois contos com os mesmos personagens, e ambos a puxar para o terror.
    Preferi o segundo por todos os motivos, incluindo a adequação ao tema. O primeiro, caso fosse concebível, enquadrar-se-ia em horror, mas não em terror.
    Só que o primeiro, além de despertar nojo de todas as formas que conseguiu imaginar, penso, não faz sentido. Você explorou a linha dos filmes snuff, mas incluiu prazer na vítima. Mesmo supondo que tal seria possível, isso nunca ocorreria da forma descrita, pois, para chegar ao ponto descrito, a “atriz” que morre em direto, já teria que estar fisicamente marcada por experiências anteriores. Seria o prazer obtido nessas experiências que a levaria a ir até ao fim. Assim, do nada, dispor-se a morrer daquela forma por prazer, não faz o menor sentido e torna-se inverosímil.
    O segundo conto está mais dentro do tema proposto, com a história dos fantasmas e tal; como o seu personagem refere: “assombrações já são um outro departamento.”
    Penso que tenha recorrido a este método do dois em um para chegar ao mínimo de palavras, mas acabou escrevendo duas histórias independentes e em que nenhuma delas complementa a outra.
    Poder-se-ia alegar que a primeira história serve para realçar o contraste dos personagens fanfarrões, que já viram toda a espécie de horrores mas, confrontados com o sobrenatural, se comportam como qualquer outra pessoa; mas para isso,não precisava contar a primeira história, bastariam meia dúzia de frases.
    A nível de escrita e ortografia, além da ausência de duas crases, houve duas frases em que a pontuação atrapalhou e tive que reler ambas, pois o ritmo emprestado pela ausência o presença de pontuação alteraram o sentido a meio da frase. São estas: “um negro enorme com uma cicatriz que atravessava o rosto fazia vezes de segurança”, em que, à primeira vista parece que é a cicatriz quem faz as vezes de segurança; e esta: “Que porra estava acontecendo, pensou, a cada passo que dava, mais vontade tinha de ir embora.” onde deveria ter separado o “pensou” do “a cada passo que dava” de forma criar duas orações distintas, o que não sucedeu e obrigou uma vez mais à releitura da frase para entender.
    Então temos um conto bem escrito, bem narrado e que atende parcialmente à proposta. Digo parcialmente, não pela falta de terror, mas pelo facto de serem dois contos distintos, não atingindo nenhum deles o número de palavras necessário.
    Esta constatação, no entanto, não diminui os méritos do autor. Houve criatividade e boa escrita.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  35. Fabio Baptista
    20 de outubro de 2017

    Texto muito bem escrito e certamente um dos que mais me prenderam a atenção no certame. Controle narrativo perfeito, ótimas ambientações e descrições. Na parte gramatical, raros deslizes.

    – chegou a porta
    – decidiu voltar a sala
    – a luz dos lampiões
    >>> faltou utilizar a crase

    – lugares incríveis, onde poderiam ver coisas ainda mais chocantes, incríveis
    >>> teria evitado a repetição de incríveis

    – O inverno está chegando
    >>> Fazer esse alerta não deu muito certo para o Ned Stark hauhauha

    – com olhos que já tinha visto de tudo
    >>> tinham

    – algumas estantes de madeiras,
    >>> madeira

    – agora ela tinha a companhia
    >>> cacofonia e rima involuntária

    O começo da trama me deixou com medo… não pela história que, apesar de muito bem contada, gerou mais aflição (do tipo unha riscando lousa) do que medo, mas pela similaridade com uma história do Constantine que postei aqui há um tempo, com exatamente a mesma premissa: um lugar de devassidões sexuais, onde a cada andar as bizarrices aumentavam, culminando numa sala secreta onde… bom, na minha história havia uma prostituta possuída lá.

    A cena da mulher sendo esfolada é excelente, muito visual (até demais! huahua). Não me convenceu muito um cara dar o cartão para o outro numa situação daquelas (principalmente antes de terem lavado as mãos kkkk), mas segue o jogo…

    Esse plot de caras ricos e entediados que saem “caçando emoções” é muito bom. Talvez eu até tivesse partido para essa linha se conseguisse participar dessa vez. Enfim… a premissa abre margem para várias possibilidades. Não que o(a) autor(a) tenha feito uma escolha ruim, a casa mal assombrada é até interessante, mas acabou ficando muito aquém da excelente primeira parte. Talvez se tivesse trabalhado melhor o mistério sobre o olho que vê o mundo dos mortos… não sei.

    Normalmente gosto de anti-climax, mas aqui não funcionou muito bem comigo.

    De todo modo, um conto muito bom, sobretudo em sua primeira parte.

    Abraço!

  36. Miquéias Dell'Orti
    18 de outubro de 2017

    Olá,

    Que texto você me trouxe, hein?!

    Apesar de achar as duas partes bem distintas (inclusive, achei a primeira superior à segunda), ambas estão muito bem construídas. Talvez um ou outro deslize, uma vírgula ou uma passagem que pudesse ser enxugada, mas isso é irrisório diante da qualidade do texto.

    Como eu disse, gostei, particularmente, mais da primeira parte. A cena das duas orientais é repulsiva, horrenda (no bom sentido, nesse caso), mas o que mais me chamou atenção foram suas descrições, eu as achei simplesmente perfeitas, as imagens que você trouxe do vilarejo vietnamita, da casa de “entretenimento” e até as estradas gélidas e cinzas da Ucrânia ficaram ótimas, me senti transportado para esses lugares.

    Tomando a liberdade de dar um baita pitaco, talvez, devido a essa diferença de entre as partes, você pudesse pensar posteriormente em dividir essa história em dois contos distintos.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  37. Paulo Luís
    17 de outubro de 2017

    Quantos parágrafos iniciais até começar a trama, propriamente dita? Um conto com quase 5000 palavras, quando poderia ser resolvido com muito menos. Isso só cansa, e, de certa forma, aborrece o leitor que, em detrimento de suas tantas outras qualidades, o conto venha a ser prejudicado. Mas diante a grandeza do seu conto, desconsidere tal alusão. A escrita muito bem desenvolvida. Um enredo arrojado, o qual sustenta toda a trama com dois fortíssimos argumentos: os horrores dos homens; e os do além. Muito embora não seja eu um adepto da literatura do terror, pois em nada essas figuras grotescas de fantasmas me atingem, (ele fez uma pinça com os dedos, os enfiando dentro da órbita esquerda, e retirando o próprio olho). às que assustam de fato, para mim, são aquelas dos homens vivos, (puxando a pele facial da companheira para baixo, como se estivesse despindo a cabeça de sua roupa), isso sim arrepiam de verdade, se é que de fato existem esses horrores. Mas devem existir sim, pois a alma humana é alojamento, tanto para atos nobres, quanto aos vis. Parabéns! Seu trabalho é digno das melhores notas, pelo menos, de minha parte, será.

  38. Ricardo Gnecco Falco
    17 de outubro de 2017

    Olá! Segue abaixo o resultado da Leitura Crítica feita por mim em seu texto, com o genuíno intuito de contribuir com sua caminhada neste árduo, porém prazeroso, mundo da escrita:

    GRAMÁTICA (1,5 pts) –> Sim, escrever é a arte de cortar palavras… Mas sem se esquecer de cuidar das que foram poupadas! Ou seja, uma boa e atenciosa revisão é FUNDAMENTAL — e não apenas para este quesito — em um texto, ainda mais em um trabalho que estará concorrendo com os de outros escritores… Você neste trabalho demonstrou ter sido bem cuidadoso com a revisão. E poucos contos até aqui (estou vindo do último postado em direção ao primeiro, este é o 5º ou 6º conto lido) se saíram bem neste quesito. Parabéns!

    CRIATIVIDADE (2 pts) –> Este é, sem a menor sombra de dúvida, o quesito MAIS IMPORTANTE (e consequentemente possuidor do maior peso em sua nota final) de todos… Se inovação pode ser considerado sinônimo de criatividade, então você foi criativo aqui. Juntou dois tipos diferentes de terror: uma mais animalesco/humano (próximo ao horror) e outro mais fantasmagórico, aproximando-se do suspense.

    ADEQUAÇÃO ao tema “Terror” (0,5 pt) –> Como estamos em um Desafio TEMÁTICO, não tem como avaliar sua obra sem levar em consideração este “pequeno” detalhe, rs! Assim sendo, mesmo eu o tendo valorizado apenas com meio ponto, ao final do somatório isso poderá representar a presença (ou não) de seu trabalho lá no pódio e, caso você seja uma pessoa competitiva… Pode ficar tranquilo em relação a este quesito! Há terror em sua obra. E de dois tipos diferentes… Rs!

    EMOÇÃO (1 pt) –> Beleza! Imaginemos que você escreveu tudo certinho… Sem erros de pontuação, acentuação, troca de caracteres, conjugação, sentido… Teve uma belezura de ideia para a sua história; inovadora, inédita, daquelas que só vislumbramos em nossas mentes uma vez na vida… Tudo dentro do tema proposto pelo Desafio e tal… Pronto! É pódio na certa, correto? Bem… A escolha que você fez, colocando na primeira parte os pensamentos e interposições do personagem como se “ditas” pelo próprio narrador, (ex: “Ainda bem que o canoeiro enxerga bem, pensou Wade, pois ele mesmo não conseguia ver nada.”), sem aspas ou travessões, cortou um pouco o sentido de ‘dualidade’ normalmente encontrado (e esperado) em obras literárias. Sei que é uma questão de gosto isto, mas realmente me incomodou durante o começo da leitura e, consequentemente, tirou um pouco de emoção da experiência feita (projeção). E o interessante é que, na teoria, poder-se-ia imaginar que, trazendo as interações para próximo (dentro, fundindo-se) da fala do narrador, um sentimento maior de intimidade seria obtido como resultado, o que (pelo menos para mim) não se comprovou. Mas o texto está bem escrito e a(s) história(s) é(são) boa(s), podendo esta ser apenas uma excentricidade minha, enquanto leitor. Portanto, se achar que não tem nada a ver o que eu escrevi aqui, deixe estar… 😉 Até mesmo porque depois você abandona este recurso e os diálogos vão trazendo de volta a agilidade e a “imagem” das cenas finalmente vão surgindo na tela de nossa mente sem o desnecessário filtro inicial. Ambientar personagens como ocupantes de locais famosos e diretamente relacionados a personalidades conhecidas internacionalmente foi uma boa escolha e que amenizou o distanciamento gerado na primeira impressão de leitura.

    ENREDO –> Se você for bom em Matemática (como aliás todo escritor de ficção gostaria de ser…), vai ter reparado que a soma dos pontos totais dos quesitos prévios já atingiu o limite de pontos da nota máxima a ser atribuída aos trabalhos do presente Desafio (5,0), conforme as regras estipuladas pelo nosso Anfitrião aqui no EntreContos! Portanto, como já levei em conta o Enredo da história ao avaliar (e notificar) a Criatividade da sua obra, este quesito aqui será utilizado apenas para demonstrar como eu, enquanto leitor, enxerguei o seu texto… Sua história na verdade são duas; uma boa e outra mais ou menos, onde o terror se faz presente ora de forma explícita (e animal), até certo ponto repugnante, e outrora de maneira etérea e sem muito sentido (ou justificação). Doentio, mesmo, foi esse surgimento em sua mente da ideia de juntar (e demonstrar) dois estilos de terror/horror em um mesmo trabalho, rs!

  39. Olisomar Pires
    15 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: médio.

    Narrativa/enredo: dupla de homens ansiosos por aberrações e maldades encontram mais uma sob o aspecto sobrenatural.

    Escrita: boa, não notei erros que travassem a leitura.

    Construção: Sinceramente não entendi tanto tempo gasto com a primeira parte e tanto capricho nas atrocidades se elas não levam a nada, exceto dar a entender que os personagens não tem valor moral. Mas isso podia ser demonstrado com 03 parágrafos.

    A segunda parte ficou prejudicada pois não se sabe nada da história das mortes, quem são as vítimas, porque assombram a casa e com qual objetivo, o que fazem depois de assustar os visitantes, enfim, pareceu-me que foram colocados apenas pra justificar o tema.

    De um modo geral o texto choca na primeira parte, é insosso na segunda.

  40. Angelo Rodrigues
    15 de outubro de 2017

    Cara Jacqueline,

    Seu conto flui bem, sem qualquer dificuldade de compreensão ou entraves que dificulte a leitura. Alguns problemas, mas de pouca relevância. Tal como casa fantasma, quando deveria ser casa assombrada.
    A inclusão de algumas figuras precisam ser melhor estudadas. Quando você colocou que a família era “seguidora do judaísmo”, acredito que pisou em terreno minado. Diferentemente de outras religiões, o judaísmo – justo o judaísmo – se dá de forma distinta do “seguir”, dado que tem contornos mais intrincados, familiares, heranças seculares, salvo àqueles que, professando outras religiões, convertem-se ao judaísmo. Resumindo, não creio que fique bom dizer que uma família seria “seguidora do judaísmo”, salvo isso tenha uma explicação plausível.
    Na passagem onde você coloca que havia um porco morto sobre a mesa daquela família, com todos mortos em volta, não consigo imaginar a sua intenção, mas certamente não seria outra se não a indicação de que ali ocorreu um ato de crueldade religiosa, quando os “matadores”, evidenciaram a relação de um porco com uma família judia, querendo manifestar impureza. São detalhes, intencionais ou não. Mas, se colocados ali, por quê? Pontas soltas no processo construtivo? Tudo em um conto, tudo mesmo, tem que empurrar a trama adiante, caso contrário, tire ou dê um novo rumo.
    Dois homens que acabaram de se masturbar – um ao lado do outro – vendo uma mulher ser esfolada e morta, se convidam para tomar uma bebida, fiquei pensando se poderia haver horror maior que esse. Só faltava um deles querer um aperto de mão. Vaderetrosatanás!
    O conto, ainda que bem escrito, me pareceu uma colagem de duas histórias com os mesmos personagens, dado que a primeira, meio sado meio criminosa apenas, não explica a segunda. Por que diabos, aqueles caras, por gostarem de assistir atrocidades, iriam querer ter contato com fantasmas? Não acredito que ambos os “distúrbios” caibam na mesma “doença”, e por isso, a primeira parte não cola na segunda.
    Fiquei torcendo para que Mister Wade não tentasse estuprar a pequenina fantasma. Puxa, foi um alívio quando a menina saiu incólume, protegida pelo velho. Protegida? Ele não arrancou os olhos dela?, ou foi dele mesmo? Saltei.
    Confesso que, ao contrário do proposto pelo desafio, seu conto me produziu alguma repulsa na primeira parte, mas não senti terror na segunda.
    Como se costuma dizer, todo mentiroso contumaz sempre mostra um grande apreço pela verdade, assim como seus protagonistas, machões pra cacete quando a desgraça é com os outros, acabam virando “mocinhas” diante de fantasmas (pelo menos Mister Wade agiu assim. Talvez Mister Strauss tenha desmaiado dentro da casa).
    Cara Jacqueline, acredito que as duas partes possam virar contos bem legais. Juntos… sei não…

    Boa sorte e obrigado por nos deixar conhecer seu trabalho.

  41. Regina Ruth Rincon Caires
    14 de outubro de 2017

    Texto bem escrito, sem deslize de linguagem, redação firme. Na realidade, estamos diante de duas histórias. Há terror, há sadismo, sofrimento, flagelo, morte. A primeira história é diretiva, incisiva no sentido da lascívia, libidinagem, de enredo forte. A cena da morte da moça, sendo esfolada até à morte é chocante, doída. Um desconforto, uma agonia. Ah! Interessante o uso do verbo penetrar! A segunda história, que vive o sobrenatural, com assombrações, mortes, decapitação, apesar de apavorante é menos conturbada. Mais ilógica. Enfim, é um texto, no geral, de escrita muito fluente, interessante, prende o leitor, cumpre o exigido pelo desafio.

    Parabéns, Jacqueline (ou Jacque)!

    Boa sorte no desafio!

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Publicado às 13 de outubro de 2017 por em Terror e marcado .