EntreContos

Literatura que desafia.

Como Nascem os Monstros (mA)

Click

 

Do que fui testemunha naquele quarto, jamais pude dizer palavra. Eu era muda. Não surda ou cega, mas apenas muda. E quieta. Ou melhor, paralisada. A mim não foi dada a dádiva do grito no momento do desespero, tampouco a capacidade da fuga, no instante exato do pânico. Não. Tudo o que eu podia fazer era assistir, impotente.

E inerte, porém jamais omissa, presenciava a chegada daquilo que, inominável, surgia na noite sem pedir licença, deixando-se entrever apenas, através de uma brecha no véu com que me cobria os olhos.  

Deixe a luz do quarto acesa, papai.

A menina choramingava baixinho no instante em que ele, o pai, escorregando a mão para dentro do quarto, alcançava o interruptor na parede.

 

Click

 

Deixe a luz acesa.

Dizia quase em um sussurro de medo confesso. Tinha pânico das sombras e da noite, e daqueles sons terríveis. Roncos que, partindo do quarto ao lado, insistiam em se manifestar no exato instante em que ela, menina, descobria o quanto, realmente, estava só.  

Deixe a luz…  

Ainda tentava implorar, sem suspeitar que é justamente a claridade que permite que se projetem os vultos em uma parede branca. Mais que isso, que sem luz não haveria manifestação alguma daquilo que os humanos entendem em chamar de sombras.

Deixe…

Era tudo que conseguia dizer antes que a porta se fechasse em um baque firme, abandonando-a na cama, envolta em cobertas e na mais terrível escuridão.

Nesse instante, a garotinha se certificava de estar bem enrolada em sua manta. Pés, cabeça, corpo, tudo apertado em uma espécie de casulo, seguro firme com as duas mãos pelo lado de dentro. A respiração ritmada. O ouvido em riste. E o calor aumentando aos poucos a temperatura naquele envelope de pano, insinuando pequenas gotas de suor que brotavam tímidas, primeiro nas mãos, depois na testa, para em seguida, caudalosas, escorrerem pelas costas, ensopando a camisola de flanela.

Quem sabe, cogitava, devesse colocar o nariz para fora de seu refúgio. Só o nariz. Desse modo, poderia sentir um pouco do ar fresco que circulava no exterior de seu esconderijo. E assim o fazia, cuidadosamente. Só o nariz. Mas, os olhos teimando em espiar o medo, lembravam-se logo daquele breu terrível que a envolvia em um outro casulo, ainda mais opressor que o de sua fortaleza de cobertores. Seu quarto.

Assim, era preciso que se enchesse de uma coragem urgente, a fim de conseguir insinuar a mão para fora da coberta. Uma só. E abrir espaço por um caminho já há muito conhecido, alcançando o fio que ficava ao lado de sua mesinha de cabeceira.

 

Click

 

Só então, apertando o botão, suspirava.

E pela fresta no tecido, um fio de luz amarelado e débil me revelava, finalmente, aquele seu inexprimível olhar.

Era nesta hora que ele surgia.

Sempre.

O Monstro.

A inominável criatura sem rosto que nos visitava todas as noites.

Todas.

 

Click  

 

Mas pela manhã não.

Pela manhã erámos outras, as duas. Eu sem utilidade alguma e ela, a menina, um anjo doce a brincar sentada no topo mais alto de sua casinha improvisada na árvore.

Durante o dia, de nosso quarto, com a janela escancarada, eu conseguia espiar os seus brinquedos de panelinhas e historietas cantadas baixinho, no ouvido de suas bonecas. Quem saberia dizer que segredos confessava ali tão doce e meiga criança?

Papai?

Eu a via buscar no adulto que passava apressado e carregado de compras, a certeza cúmplice de que tudo estava bem. Ela olhava para o pai e acenava em um gesto rápido, quase de animação. Ele, por sua vez, devolvia-lhe o aceno, sem interromper o que fazia. E suspiravam. Ele, imaginávamos, pelo peso das compras em suas mãos. Ela, por supor que em seu mundo, ao menos nessa hora, tudo parecia bem. Tudo em seu lugar. Papai no trabalho e cuidando da casa. A menina entretida em seu modo de brincar. E eu, espiando atenta, o movimento do quintal. Tudo certo. Tudo como deveriam ser as coisas no pequeno mundo de uma criança.

E assim era.

Ou ao menos durante o dia.

Na casa da árvore não havia lugar para monstros ou roncos assustadores. Ali, caminha, mesinha, cadeirinha, pratinho, fogão. Réplica perfeita de sua vida em um mundinho particular onde ela era a mamãe. E protegia a todos prometendo-lhes sempre que, ao contrário do que fizera a sua, jamais desapareceria dali.  

 

Click

 

O primeiro sinal da aproximação da aberração, era o silencio. No quarto ao lado, antes invadido por roncos capazes de fazer tremer toda a casa, uma espécie de vácuo antecedia o ranger das primeiras tábuas do assoalho. Uma a uma, as madeiras gemiam, denunciando a proximidade cadenciada daqueles passos.

Um, dois, três…

Ela contava baixinho.

Um a um, pouco a pouco, eles vinham.

Quatro…

Mais altos.

Cinco.

Mais próximos…

Seis.

E sabíamos que, embora lentos e arrastados como os pés de um velho em seus chinelos pelo chão, aproximavam-se mais excitados e ansiosos. A cada noite mais. A cada segundo. A cada passo.

Mas era só quando a maçaneta girava que a pequena se agarrava ao lençol em uma tentativa vã de, em uma batalha contra a criatura, impedir que esta lhe arrancasse a proteção. E apertava os lábios, os olhos e as unhas, com tal vigor, que o resultado, muitas vezes, era o de fazer com que o sangue brotasse fácil das palmas de suas mãos.

Sete, oito, nove…

E nada mais podia ser feito.

Por que não trancava a porta ou gritava, ou fugia buscando esconderijo em outros cantos de sua casa? Jamais saberei ao certo. Talvez imaginasse que ninguém escapa das garras de seu destino. Talvez temesse que a onipresença da criatura, penetrasse furiosa os espaços ocultos de sua vida, o buraco da fechadura. Fazendo-se presente em cada canto e ainda mais furioso. Ainda mais demorado. Ainda mais.

E então se rendia.

Contando novamente, não mais os passos, mas dessa vez o tempo, abstraindo-se dele e daquilo que havia de mais lúgubre em sua existência. O inominável.  

 

Click

 

A primeira coisa que a abominação fazia, era passar por mim com os seus dedos apressados, na tentativa vã de me desligar. Não queria luz. Talvez quisesse ocultar nas trevas, aquilo que fazia. Talvez tentasse apenas esconder seu rosto feio. Trazia o peito nu e a cabeça coberta com a própria camisa.

E era horrendo. Tanto quanto nos parece aquilo que não podemos enxergar. Ou mais.

Passava-me os dedos. Mas na pressa de obter o que vinha caçar, atrapalhava-se.

Click

 

E voltava a me ligar em um descuido, iluminando tudo, com raiva.

No atropelo, virava a menina de costas em sua cama e retirava da cabeça a camisa ensopada de um suor pegajoso que me nauseava a alma, jogando-a sobre mim.

Me encobria a visão, sem imaginar sequer que, naquelas horas, eu só teria meus olhos para ela.   

E para os vultos infames que minha própria luz projetava na parede branca.

E assim era, durante todo o verão.

E em todas as noites.

E há muito tempo.

Em todas.

 

Click

 

Exceto em uma.

Naquela noite algo estava diferente. Chovia e um forte vento batia na janela, fazendo a persiana dançar com força contra o vidro. Era verão, mas o inesperado frio pegou a todos desavisados.

Papai fez sopa.

E a menina deitou mais cedo.

Deixe a luz…

Papai deixou.

Naquela noite, não houve roncos no quarto ao lado, tampouco passos excitados no ranger das tábuas corridas e velhas. Só o vento. E o bater contínuo da persiana contra o vidro, fazendo com que a pequena se levantasse e fosse até a janela.

Dali, ela podia divisar o pátio encharcado e a árvore com sua casinha, balançando forte e sem trégua. Puxou o fio da persiana a fim de amarrá-la firme, impedindo que se chocasse ao basculante com tanta violência.

E foi nesse instante que o encontrou.

Envolto em muita poeira, o papel se enrolava no vão entre o trilho e a vidraça. Puxou a ponta do canudo com um grampo de cabelo e o desenrolou. Era um bilhete, eu especulava enquanto a via examinar seu conteúdo.

Um desenho.  

No rodapé, a assinatura.

Com amor, mamãe.

Pude ver quando aquelas pequenas mãos trêmulas depositaram o papel sobre a mesinha onde eu ficava.  

Um desenho.

Mamãe fora embora há mais de um ano. Diziam que morreu, que sumiu, que não se falasse mais nela. Mas a menina sabia que não. Fora embora e apenas isso. Saíra pelo portão do pátio, carregando maleta e se detendo apenas por um minuto para olhar para trás. Para o quarto da pequena. Para ela. Para mim. Rápida e pálida. Para nunca mais.  

Com amor, mamãe.

E agora, aquele desenho era tudo que tínhamos dela. Riscos esquemáticos em forma talvez de um mapa. Talvez de um tesouro. Quem sabe, o caminho para uma saída secreta que nos salvaria das garras da besta. Talvez, apenas riscos desconexos, atestando em sua loucura o real motivo da fuga. Talvez.

 

Click

 

Naquela manhã, a pequenina não foi até a árvore. Chovia ainda mais e papai, sempre zeloso, não queria que sua filhinha ficasse doente ou com febre.

Ficou no quarto.

Algo, de fato, estava diferente.

Pude ver quando a criança puxou a cadeira e abriu cuidadosamente a gaveta de sua escrivaninha. Ali, algo que, quando a mãe ainda vivia com ela, costumava ser o maior de seus tesouros. Seu brinquedo preferido em todo o mundo. Lápis de colorir, estilete para fazer a ponta, borracha e papel.

Na época, costumavam ficar sentadas por horas a fio. Juntas, desenhavam de tudo. Coisas lindas, anjos e fadas. E outras coisas. Bichos que, naquele tempo, eram os únicos monstros presentes na vida da pequenina. Minúsculos insetos, aranhas que eclodiam de ovos depositados em teias inacessíveis, grudadas ao teto alto da casa.

A garotinha temia aqueles ovos negros e cabeludos. E a mãe ensinava-lhe que ali, dentro dos ovinhos, viviam apenas pequenos bebês. Bichos de oito patas que eclodiriam para a vida no momento certo. Aranhas que povoavam histórias, que povoavam ilustrações. Monstrinhos de uma espécie sem veneno e cujo único mal era o de atrair mosquitos e outros seres alados, que grudavam em suas teias a fim de alimentar e proteger seus bebês.   

Puxou uma folha em branco. Uma só. Se me perguntassem por que ela deixara de desenhar após a partida de mamãe, eu diria não saber. Talvez aquilo a deixasse triste. Talvez tivesse perdido o sentido, a graça. Talvez, não tivesse mais um adulto com quem se conectar através da cor.   

O desenho.

Esticou o bilhete enigmático ao lado da folha branca.  

Com amor, mamãe.

Contornou as letras com os dedinhos e puxou o lápis de dentro do estojo. Um a um. Vermelho, preto, marrom.

E desenhou.

No papel, como em um surto furioso, fazia brotar figuras sombrias. Pai e filhinha de mãos atadas, iluminados por um sol marrom. Em um outro, mamãe segurava sua maleta no portão. Tinha os olhos tristes pintados de vermelho. Depois desenhou seu quarto, escuro. E sobre a mesinha, ao lado da cama, eu, com uma luz tremulante e coberta por uma camisa. Pelo buraco da fechadura, o peito nu e cabeludo do monstro. E, em fim, em um espasmo, desenhou a criatura. Não uma aranha, mas aquela sem cabeça e vertendo suor pelo pescoço, em um esguicho pútrido, violento, inumano.

Foi então que, súbita, puxou para si o bilhete da mãe para mais perto de si e se deteve por alguns minutos, examinando-o. E começou a reproduzi-lo. Primeiro uma cópia, depois outra, e outra mais, para, em seguida, produzir uma variante sem fim de desenhos em cores e tamanhos diversos.

Aquele esquema parecia-lhe uma espécie de recado em código. Um mapa. Uma teia de amor deixada pela mãe a fim de lhe dizer algo.

Mas o quê?

Na trama, viam-se linhas retas formando caminhos, em um tipo de labirinto. Lembrava da história que a mãe contava sobre Ariadne, a heroína que escapara do intrincado espaço, esticando um fio que percorria o caminho até a saída. Seu caminho.

Um labirinto era uma espécie de teia.

Sua vida também.

Cogitava hipóteses, desenhando suas réplicas repetidas vezes e com pequenas variações. Por vezes, o final de uma linha se unia a outra, por outras, a borracha abria um novo caminho onde, antes, havia uma linha contínua. Em certos trechos, traços inclinados formavam um padrão de sobre desce, como em um monitor de coração e vida.

Nesses monitores, sabia pois já vira com seu avô, a morte era representada por uma linha reta. A vida pelo sobe e desce das inclinações.   

Mas o que tudo aquilo queria dizer?

Com amor, mamãe.

Segurou firme o estilete a fim de apontar o lápis. E passando a lâmina diversas vezes pela madeira, tinha o olhar distante, quase fugidio.

E não pareceu perceber quando, descascando toda a lapiseira, restou-lhe apenas um pequeno cotoco de madeira já sem ponta alguma. Tampouco percebeu que a chuva já cessara há algumas horas. E que, no horizonte, aos poucos, o arrebol já se insinuava tingindo o céu com seus tons avermelhados.

 

Click

 

Já estava escuro quando, sentando-se ao meu lado, trocou a lâmina do estilete por uma outra. Nova. Mais afiada. E puxou, delicadamente o bilhetinho da mãe, para perto de minha luz.

 

Click

 

Desligou-me.

O fim de tarde, ainda permitia que a claridade penetrasse o espaço. Caminhou até a porta e fez algo terminantemente proibido naquela casa. Trancou a fechadura, dando um único giro na chave, resoluta.

Pude perceber que tremia quando puxou a tomada que me conectava à parede. E, pela primeira vez em muitos anos pude notar que sorria. Não o sorriso escancarado da criança inocente, que vive seus dias sem preocupações ou temores. Não. Era um sorriso nervoso. Desses de quem sabe que em seu mundo, existe algo a se temer, algo de que se fugir.

Esticou o fio e, com cuidado, passou o estilete entre o canal que o dividia em duas metades. Dois polos separados e distintos entre si. Um positivo, o outro, negativo. E desencapou um deles. Depois o outro. Em seguida, abrindo o parafuso com a ponta do estilete, não teve problema algum para me desmontar o interruptor. E encaixou ali, a parte desencapada de um dos fios. Um só. Separou o outro com a habilidade de um cirurgião.

Trabalhava lenta e precisamente, a respiração acelerada, os olhos arregalados, as mãos firmes e atentas.

Quando se deu por satisfeita, o trabalho por terminado, já era noite.

Levantou-se com um ar estranho. Algo nela estava mudado, algo que não saberia dizer se era bom ou ruim. Caminhou até a porta e, em um movimento único, girou a chave liberando a tranca.

 

Click

 

Tomou seu banho.

Deitou em sua cama.

E esperou.

Deixe a luz do quarto acesa, papai.

Não deixou.

E aguardou o momento de me apertar o botão, a fim de me manter acesa, como em todas as outras noites daqueles hediondos verões. Naquela, porém, não precisaria se enrolar em lençol ou proteção alguma. Naquela noite, sabia muito bem o que fazia. Como se protegeria.

Na palma da mão, apertava com força, seu amuleto. O bilhete de mamãe dobrado dezenas de vezes, em um pequeno quadrado.

E esperou ansiosa o momento em que os roncos no quarto ao lado cessariam, acompanhando atenta cada passo arrastado no ranger forte de nosso longo corredor.

Sabia que não tinha mais volta.

Um, dois…

Não havia mais tempo para voltar atrás. A fera já vinha em seu encalço.

Três, quatro…

Finalmente o pegaria e poderia, enfim, contar tudo a papai, sem temer que desacreditasse dela. Talvez, quem sabe, a mãe pudesse voltar a viver com eles e seríamos, os quatro, felizes para sempre.

Cinco, seis, sete…

Olhou-me apreensiva temendo, talvez, a falha ou o medo no momento final.

Oito, nove…

E a maçaneta girava, afastando a porta e abrindo-a lenta, em direção à parede.

Dez.

A aberração estava lá. Presente e assustadora, como nunca. Parecia intuir que algo diferente pairava no ar daquele aposento.

Passou por mim a mão apressada e pude sentir, naquele átimo, o suor frio que escorria por entre os pelos de seus dedos de demônio. Retirou a camisa molhada, pronto a atirá-la sobre mim.

Mas minha luz já estava apagada.

E foi nesse instante que aconteceu.

Em um golpe rápido, a menina rolou para baixo da cama, empurrando a luminária em direção ao demônio.

Pude sentir quando, no susto, seu polegar firme, sua garra de abominação, apertou-me o interruptor. E então, em um terrível puxão, pude sentir que se agarrava a mim. Firme. Frenético. Em pânico. Em dor. E o nosso mundo explodiu.

Curto-circuito.

 

Um corpo humano começa a perceber a passagem de uma corrente elétrica a partir de 1 mA.

 

Quando atinge 14 mA, a eletricidade é capaz de excitar os nervos a tal ponto, que lhes provoca contrações musculares permanentes, criando um efeito de agarramento que impede a vítima de se soltar do circuito.

 

O corpo humano é sensível à corrente elétrica. Seus efeitos, no organismo humano, passam rapidamente das contrações simples para as violentas, das queimaduras leves para as severas. E, logo, a dor terrível evolui para a morte. Nem sempre, antes disso, a vítima perde os sentidos.

 

Click

 

Naquela noite, a criança sabia o que estava fazendo.

Naquela noite, quando o curto-circuito se precipitou, ela saiu de seu quarto fechando a porta, tentando não se preocupar com os urros lancinantes de bicho atrás de si. Não sabia dizer o que sentia. Medo, coragem, um misto de alívio e desespero.

Talvez, quem sabe, sentisse pena da coisa.

Talvez não sentisse nada.  

Mas, de algum modo, sabia exatamente aquilo que precisava ser feito. Sabia do que precisava. Sabia como. E o pior, sabia o porquê.

E esperou até que tudo fosse silêncio.

Naquela noite, chamas altas consumiram seu quarto. E o monstro.

 

Click

 

O dia já clareava no momento em que os bombeiros arrombaram a porta da casa.

Encontraram a menina, já não mais uma criança, sentada na sala, olhando para o teto, absorta. E tiveram dificuldades para lhe abrir as mãos cerradas, segurando firme o bilhete da mãe. Um elaborado circuito elétrico desenhado fina e caprichosamente com lápis de colorir.

Em seu quarto, restos mortais de um demônio carbonizado. No chão do aposento, ao lado da cama, grudada à luminária, a única coisa que sobrara da besta carbonizada. A arcada dentária.

Do depoimento da pequena, não conseguiram apreender muita coisa.

Quem conseguiria?

Apenas eu comungava com ela cada momento de agonia e de dor.

Tudo o que compreenderam foram frases soltas, ditas entre um soluço e outro.

Que o monstro, por algum motivo, só aparecia no verão.

Que quando tudo começou, tinha apenas 7 anos.

Quando pode se livrar do horror somava no dedo e ao todo, 12 anos.

E finalmente, dito em uma voz fria de quem entende que a vida real pode ser milhares de vezes mais feia e dolorosa que a da fantasia. Que na casa, naquela noite, não havia adulto algum.   

E que, naquele instante, ali mesmo, nascia um monstro.

Não pude ver minha garotinha, tampouco me despedir de seu amor, mas sei o que vi e jamais esquecerei daquele olhar, no momento exato em que, antes de fechar a porta, finalmente conseguimos encarar os olhos da agora suplicante abominação.

Era papai.

No teto da sala, só a menina percebeu quando a pequena aranha rompeu o ovo.  

 

Click

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27 comentários em “Como Nascem os Monstros (mA)

  1. Evandro Furtado
    20 de outubro de 2017

    Esse é um daqueles contos tão brilhantes, mas tão brilhantes, que fica difícil comentar. Ele começa leve, tranquilo, com uma narrativa cadenciada de um modo que se torna até entediante. Mas isso tem um motivo. O autor está preparando o solo, arando a terra. Não é um processo interessante de se ver, mas é importante para que se plante e, consequentemente, para que se colha. E a colheita, quando vem, é daquelas que dá orgulho. O modelo é quebra-cabeça, ou seja, as peças são entregues lentamente. O autor é capaz de causar surpresa. O plot twist é bem construído e bem amarrado. Quando ele vem, a gente lembra do que leu anteriormente e faz a ligação, e é aí que você percebe o domínio de construção de trama. Aquela cadência lenta do começo é quebrada por uma porrada, daquelas bem dadas, no estômago. O impacto, dessa forma, se intensifica. A revelação incomoda. Pior, ela apavora. A resolução, evoca o surgimento de uma criança maligna, daqueles filmes de terror dos anos 50. E tudo isso contado sob a perspectiva de um abajour. Já sabe o que vem a seguir, certo?

    Ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooutstanding!

  2. angst447
    17 de outubro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio.

    E (estilo) – Conto muito bem escrito. Linguagem clara, mas com um tom que encobre o terror em uma nuvem de suspense.Inovou ao colocar um abajur como narrador e cúmplice da menina. Em alguns momentos, as duas personagens se mesclam.

    R (revisão) – Alguns errinhos passaram, nada grave, como já apontaram os colegas. Encontrei um pode no lugar de pôde no finalzinho: “Quando pode se livrar do horror” > Quando pôde se livrar…”

    R (ritmo) – Ótimo ritmo,a narrativa ágil deixa a leitura fluída. Os clics funcionaram como gatilhos para tomar de fôlego.

    O (óbvio ou não) – O narrador já corta qualquer obviedade. Já o monstro ser o pai fica logo claro para o leitor. Por isso, acredito não ser necessária a revelação final.

    R (restou) – Um aperto no peito pela menina com a infância roubada, pega na teia como um frágil inseto. Violada em corpo e alma por alguém que deveria ser o seu protetor. Um horror mesmo.

    Boa sorte!

  3. werneck2017
    17 de outubro de 2017

    Olá,

    Um texto bem escrito, com domínio da técnica, gramática e inusitado pela escolha do narrador ser um objeto inanimado. Os clicks funcionam bem, marcando o tempo, psicológico e real. O tema abordado – a pedofilia, já utilizado em outros textos, é por si só um terror, tanto para as personagens quanto para o leitor, e muito apropriado para o desafio. Quanto aos erros gramaticais, já foram muito comentados e não me prestarei a comentá-los aqui. Felicito a autora pela originalidade e por nos prestigiarmos com um conto denso, emocional e reflexivo. Parabéns.

  4. mariasantino1
    15 de outubro de 2017

    Boa tarde!

    Então, o seu conto se diferencia dos outros que li, porque você deu espaço para o suspense. A inserção do click, clik aumenta a curiosidade e você também descreve bem as sensações, fazendo com que o leitor se coloque lá no quarto (impotente como a luminária). De alguma forma eu senti que cada click foi um piscar e abrir de olhos e nesse intervalo um mundo todo se passou. Achei as reflexões muito bem colocadas: […] voz fria de quem entende que a vida real pode ser milhares de vezes mais feia e dolorosa que a da fantasia… Não o sorriso escancarado da criança inocente […] Não. Era um sorriso nervoso. Desses de quem sabe que em seu mundo, existe algo a se temer, algo de que se fugir.
    Um bom conto, enfim.
    Parabéns e boa sorte.

  5. Luis Guilherme
    15 de outubro de 2017

    Boa tarrrde, tudo bão?

    Esse desafio é particularmente especial pra mim, uma vez que amo o gênero, por isso, estou lendo os contos com bastante expectativa.
    Dito isto, vamos ao seu conto:

    Sua escrita é muito boa. Criou uma atmosfera de tensão e mal-estar. De alguma forma, me conectou com a coitada da menina.

    Achei interessante que a história tenha sido contada por um abajur, ou algo do tipo. Primeira vez que vejo algo assim.

    Como disse, a escrita é bem boa. Mesmo gramaticalmente, não vi nada que chamasse atenção, um ou outro errinho de revisão insignificante.

    Devo dizer que apenas pelo nome do conto imaginei do que se tratasse. Mas como o abuso à menina é retratado logo de cara, a pista no título não tirou a graça.

    O desenvolvimento do enredo também é bom. Apesar de a história não ser muito complexa, tendo poucos acontecimentos, o clima é pesado, e acaba prendendo na leitura. A repetição no texto criou um bom efeito, um efeito de loucura, talvez. Me lembrou o conto “A viagem de Alice”, que também utilizou muito bem esse recurso nesse desafio.

    Enfim, a narrativa é mais conduzida pelo clima tenso e claustrofóbico do que por grandes reviravoltas, uma vez que pra mim não houve nenhuma surpresa ou plot twist na história. Sinal que sua escrita crua e o clima tenso que você empregou atingiram seu objetivo.

    Parabéns e boa sorte!

  6. Lucas Maziero
    15 de outubro de 2017

    Caramba, que belo conto! Soube mexer com algumas emoções, a raiva pelo absurdo cometido com a criança, e o desespero causado pelas vezes cometidas. Um interessante terror nos foi apresentado.

    Demorou para que eu apreendesse o que estava acontecendo, quem era aquele ser muda, mas que via e ouvia. Decerto era um abajur, se não estou ruim nas minhas suposições (hehehe).

    Pouco a pouco, talvez como deve ser, mas não o único método de que gosto, o terror da pobre menina ia sendo revelado, e eu não vou dizer que de primeira não suspeitei do pai, porque era óbvio. Mas mesmo assim, acompanhar o sofrimento, o momento que antecede o horror, acompanhei tudo e o autor soube conduzir muito bem a parte em que cabe ao leitor descobrir o que a história diz sem dizer.

    Só não entendi por que a mãe não pôde resgatar a filha, ao contrário, deixou a ela um plano para dar fim ao sofrimento e acabar com o papai-monstro. Outra coisa que ficou obscura: como assim “E assim era, durante todo o verão.” ?

    Achei desnecessário revelar que era o Papai, nós já havíamos descoberto.

    Em suma, é um bom conto, boa gramática, criatividade nota mil.

    Parabéns!

  7. Fheluany Nogueira
    14 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – Geralmente, quando avaliamos um conto, procuramos ver se personagens e ambiente estão bem apresentados, se há conflito, marcação de tempo e um final impactante. Todos os elementos foram muito bem explorados aqui. A narrativa conduzida pela luminária-testemunha deixou o texto original e interessante, mesmo nos momentos em que escorrega para a onisciência. E os “cliques” foram um recurso surpreendente.

    Terror e emoção – É o terror humano da crueldade do abuso sexual. O epílogo causou muita empatia, pois formou um retrato pesado da realidade que se prefere sempre ignorar. Pareceu-me aberto — a menina fora transformada em um monstro e poderá maltratar outras pessoas.

    Escrita e revisão – Alguns deslizes com a Língua, já comentados e que não prejudicam em demasia a fluidez e entendimento do texto.

    Parabéns. Abraços.

  8. Antonio Stegues Batista
    11 de outubro de 2017

    ENREDO; Menina abusada pelo pai.Regular.

    PERSONAGENS: Um abajur como narrador é algo inusitado, mas no caso de fantasia infantil, é aceito naturalmente. O abajur não cria vida, tampouco é possuído por alguma entidade espiritual, é uma metáfora, onde nele a menina se espelha, porque ele é um meio que ela encontra para matar o monstro que a apavora.

    ESCRITA: Muito boa, apesar de alguns errinhos na construção das frases. Achei o Click muito legal, me fez lembrar de um filme com Adam Sandler. Click é o ruido do interruptor de energia, que acende e apaga o abajur. Achei um bom recurso estético-estrutural do conto, que também é uma metáfora, fazendo parte inseparável do narrador, no caso, o abajur que afasta as trevas com sua luz, mas no entanto, não pode impedir o ataque do monstro, que ao final e por fim, acaba sendo parte integral do motivo da morte dele. Veja bem que às vezes escrevemos algo tão certo que nem imaginamos tantas interpretações, no entanto, como uma lei natural, não agradamos a todos, gregos e troianos.

    TERROR: Regular. Horrível o ato em si. Terror mais da personagem do que do leitor. É o que eu acho. Boa sorte.

  9. Edinaldo Garcia
    11 de outubro de 2017

    Escrita: Muito boa. Bem desenvolvida. Eu particularmente nunca tinha lido um texto cujo narrador é um objeto inanimado (pelo menos não me lembro). No começo gostei bastante, achei genial, mas confesso que me perdi mais para o final, por ter cenas além do campo de visão da luminária, nada demais.

    Terror: Para mim não tem problema o texto trabalhar pedofilia, apenas porque outros já fizeram. Você não iria deixar de enviar o seu texto só por isso. Não concordo com esse conceito de que os autores que postam por último não podem recorrerem a temas já abordados (desde que não seja cópia). Gostei bastante do terror, seu texto possui uma tensão muito grande (ponto muito positivo).

    Nível de interesse durante a leitura: Total. O conto é extremamente bem escrito, bem ambientado. Eu confesso que a revelação do monstro ser o pai foi meio: Ah!!! Nos primeiros parágrafos já sabíamos disso e eu esperei uma surpresa no final.

    Língua Portuguesa: Excelente. Revisões, lógico que são necessárias, mas só para engrandecer ainda mais a obra. Muita coisa já foi dito

    padrão de sobre desce. – Errinho de digitação (eu mesmo erro pra caramba na digitação pelo fato da mente estar agitada)

    Nesses monitores, sabia pois já vira com seu avô, a morte era representada por uma linha reta. – Esse pois depois de sabia está deslocado. Pois depois do verbo e conjunção conclusiva e não explicativa. O correto seria: “pois sabia”.

    Desses de quem sabe que em seu mundo, existe algo a se temer, algo de que se fugir. – essa vírgula depois de “mundo” está errada.

    Separou o outro com a habilidade de um cirurgião. – garota de 12 anos?

    Penso também eu que uma garotinha de 12 anos não é tão menininha assim como o texto sugere, mas enfim…

    sem temer que desacreditasse dela. – nela.

    a eletricidade é capaz de excitar os nervos a tal ponto, que lhes provoca contrações musculares permanentes – essa vírgula depois de “que” truncou o período.
    .

    Veredito: Conto excelente.

  10. Ana Maria Monteiro
    10 de outubro de 2017

    Olá, mA. Parabéns pelo excelente conto. E obrigada por nos poupar às descrições do horror que se revela sem ser mostrado. Muito bem escrito, muito bem conseguido, muito bem visto, muito bem “iluminado”. Entendi cedo quem era o narrador, mas fiz a leitura num trago único, presa pelo fio condutor a que soube ligar-me.
    Notei um deslize ou outro que nem mereceria referência, mas entendo que, numa escrita tão boa, é grave não comentar a mais leve “mancha”. E por isso o farei. Fui ver e eliminei os apontados pelos colegas, assim sobraram-me apenas a falta de três acentos agudos e uma vírgula que me “incomodou”. Um verdadeiro feito. Nunca comento vírgulas, eu própria tenho dificuldade em lidar com elas. E mesmo as crases, costumo deixar passar porque já estou habituada a que sejam bastante ignoradas.
    Mas vamos lá. Onde acho que falta crase. Neste três casos: “até a janela”, “a pequenina não foi até a árvore.” e “o caminho até a saída.”
    A vírgula que teria gostado mais se lá não estivesse, esta: “Talvez, apenas riscos desconexos”.
    Não tenho mais nada a apontar ou a sugerir. Achei o final um pouco apressado (não sei se estaria próximo do limite de palavras), mas não excessivo, penso que não necessariamente todas as vítimas se transformam em monstros e acho que ter morto o seu algoz não teria transformado em um (se algo a transformou foi a violência anterior, porque o assassinato foi apenas a libertação), mas é uma possibilidade.
    A frase final, o eclodir do ovo da aranha, esse fruto que nasce após tanto labor, foi perfeito. Tal como o conto eclodiu, a história, a personagem e até o narrador.
    Como se não bastasse a excelente qualidade da escrita e do argumento, o conto está perfeitamente enquadrado no desafio.
    Parabéns. desejo-lhe boa sorte no desafio.

  11. Nelson Freiria
    10 de outubro de 2017

    Nada como um abajur contador de histórias, não é mesmo? Confesso que demorei um pouquinho para pegar essa, até pq esses os CLICKs constantes me remeteram a aquele maravilhoso filme do Adam Sandler.

    Achei o conto mto interessante. Técnica boa, ritmo mto bom, enredo bem pensado com figuras bem colocadas, apesar do tema difícil. Talvez o único problema que vi, foi que a previsibilidade da situação retirou um pouco do suspense do final.

    Não notei erros. Mas um pensamento ficou: se o abajur “morreu”, aquele último “click” nunca aconteceu.

  12. Rafael Soler
    9 de outubro de 2017

    O texto é fluído, dinâmico e impactante, abordando de forma excelente o tema proposto. O que mais me chamou atenção foi a escolha da luminária como narradora da história, no comecei fiquei confuso, mas assim que entendi o que se passava, adorei.

    Achei que faltou um pouco mais de desenvolvimento na trama da mãe da protagonista, não que seja necessário para o entendimento do texto, mas acho que aprofundaria um pouco mais o drama do conto.

    Gostei muito desse!

    😀

  13. Andre Brizola
    9 de outubro de 2017

    Salve, mA!

    Acho que a primeira coisa que chama a atenção em seu conto é a opção pela narrativa do ponto de vista da luminária. Causou-me certa confusão no início, mas assim que passei dessa fase ficou bem fácil de entender os motivos dessa escolha. A leitura se mostrou fácil, com alguns toques estilísticos bem bonitos, como em “Já estava escuro quando, sentando-se ao meu lado, trocou a lâmina do estilete por uma outra. Nova. Mais afiada. E puxou, delicadamente o bilhetinho da mãe, para perto de minha luz.” Achei muito legal, num parágrafo curto como esse, separado pois dois “clicks”, uma menção à “lâmina do estilete” e ao “bilhetinho da mãe”, como uma junção do bem e do mal sob a luz (literal) do narrador.
    Se você me permite uma crítica, acho que esse é o conto dentre aqueles que tratam de violência sexual, com o menor grau de terror, pra mim (e aqui tenho que especificar melhor: dentre aqueles cuja violência realmente ocorreu, pois há aquele do pai desejando a filha, que não considerei como terror…). Acabei sendo levado pela situação de revolta/vingança contra o abusador, e isso me afastou da tensão. Mas achei o final muito bem sacado, e está muito condizente com a narrativa e o enredo.
    Veja bem, não disse que ele é o pior dentre os contos sob essa perspectiva da violência sexual, e sim o com o menor grau de terror, ok?

    É isso! Boa sorte no desafio!

  14. Paula Giannini
    9 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    O tema é pesado. Mas, ao menos eu penso assim, arte e literatura também são feitos para reflexão, para o confronto com os nossos piores fantasmas. E por que não? A arte nos torna mais humanos, ainda que nos mostre a pior faceta de nossa sociedade. Aquela que escondemos sob o tapete.

    Há alguns anos eu li “A Cura do mal pelo Doutor Neruda”. O Neruda aqui não é o cultuado poeta, mas um psicólogo, especialista em abuso infantil e que viveu, ele mesmo, na própria pele, com essa terrível realidade. O Dr. Neruda foi abusado pela mãe durante toda a infância e narra sua história no livro, além de refletir sobre os casos em consultório, levantando ao leitor a seguinte questão. Existe cura para um horror tão cruel? E a resposta é mais triste do que supomos: Não.

    Nesse sentido, acho interessante notar o título do conto, assim como seu desfecho. Como nascem os monstros? Pelo que entendo, monstros não nascem, são fabricados. Como a menina desse conto. Ela sofre o horror, vai ao inferno, mata o pai e, projeta em si mesma o “monstro” da parede. A aranha.

    Outro ponto interessante aqui foi a escolha narrativa. Adoro escolhas de focos narrativos. rsrsrs Aqui, quem narra é a luminária, que no início se declara muda, mas não omissa. Assim, o click funcionaria como uma espécie de onomatopeia para o som da luz ao se acender e apagar. Como uma cadência que alude à luz e sombra (“E para os vultos infames que minha própria luz projetava na parede branca. “), bem como, indo um pouco além, ao terrível movimento daquilo que o próprio pai faz com a filha.

    A voz narrativa, também parece por vezes se mesclar à da menina, em um recurso no qual, ao passo que a luminária narra na terceira pessoa onisciente, ela também, por vezes, conta na primeira pessoa aquilo que sente.

    O final, oferece ao leitor, ao menos para mim, uma espécie de catarse ao permitir que o abusador seja morto. Mais que isso, morto através das “mãos” da própria narradora. A luminária, a eletricidade, sob pseudônimo de mA.

    Creio que já me alonguei demais. O Entre Contos revelou em mim o gosto pela leitura crítica. 😉

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  15. Paulo Luís
    9 de outubro de 2017

    Mais um belo conto nesta leva do desafio. Criativo, e de certa for-ma, sui generis, para não dizer inusitado, mas também, mais um conto que narra o famigerado tema da pedofilia. Embora visto por outro anglo, daí seu mérito. Uma escrita corrida sem percalços. Sem atropelos na gramática.

  16. Eduardo Selga
    9 de outubro de 2017

    A voz narradora é, em minha opinião, o grande destaque desse conto. O(a) autor(a) faz algo bem curioso: quem narra é a luminária instalada ao lado da cama da menina, mas, vez por outra, parece que a voz da personagem assume por brevíssimos instantes, ou a luminária se põe no lugar dela. um exemplo:

    “Papai fez sopa.

    E a menina deitou mais cedo.

    Deixe a luz…

    Papai deixou”.

    A segunda frase parece ser da luminária, mas as outras não.

    A despeito de ser um recurso perigoso, na medida em que poderia propiciar confusão em quem lê, entendo que funcionou bem, causando uma estranheza que faz perguntar: qual sua função? -afinal, a gratuidade em literatura não é aconselhável.

    Se a violação sexual é um trauma para uma mulher adulta, imagine em se tratando de uma criança. Considerando esse elemento, o trecho inicial “Do que fui testemunha naquele quarto, jamais pude dizer palavra. Eu era muda. Não surda ou cega, mas apenas muda. E quieta”, narrado pela luminária, talvez seja a projeção da voz da menina no objeto. Uma saída psicológica da criança. Nesse caso, quem narra de fato é ela.

    Esse comportamento esquizofrênico pode ser resultado de uma personalidade violentada quando ainda em construção. Assim, quando se lê “E que, naquele instante, ali mesmo, nascia um monstro”, o monstro que foi parido é ela própria, ao matar outro monstro, o estuprador.

    A metáfora da aranha merece atenção. Não se trata apenas de uma planta de circuito elétrico lembrar uma teia: a personagem organiza uma teia a partir da luminária, aguarda sua presa e finalmente a captura. Nesse sentido, o trecho “No teto da sala, só a menina percebeu quando a pequena aranha rompeu o ovo” ilustra o “monstro” estrategista em que ela se tornou após longa gestação.

    Do ponto de vista do discurso, em determinado momento é dada uma explicação “técnica” para que o leitor não considere inverossímil a morte do homem. A coexistência do discurso literário com o não literário não é um problema, principalmente porque, observando bem, é literário, afinal quem o faz é uma luminária. Acaso objetos elétricos conhecem fundamentos da eletricidade? Não, mas aí temos outra vez a demonstração de que é a projeção da personagem na luminária.

    Talvez seja até mais do que isso, se considerarmos a “adulteza” das informações: pode ser o discurso da mãe inserido no papel onde há o mapa elétrico.

    Em “[…] puxou para si o bilhete da mãe para mais perto de si e se deteve por alguns minutos […]” houve uma falha de revisão que permitiu passar a duplicação do SI.

  17. Fernando.
    8 de outubro de 2017

    Olá, mA, mais um conto que me faz sentir tomar um soco no estômago. Essas histórias de abuso das crianças mexem comigo. Depois de quatro filhos, já adultos, curto a maravilhosa fase de avô, com os também quatro netinhos e você há de sentir o quanto este tema me é chocante. Muito bacana essa sua ideia de envolver o abajur como narrador. Uma bela de uma sacada. Isto fez com que algumas vezes eu tenha perdido o fio da meada, ou o fio da luminária que a menina manuseará tão bem, nos seus doze anos, para dar fim ao terrível monstro. Afora isto, achei tudo bem interessante. Um conto pesado, como disse e bem contado. Não notei problemas na escrita, a não ser algumas palavras que não são do meu gosto e que teria trocado, mas aí é questão de gosto pessoal. Meu abraço.

  18. Angelo Rodrigues
    8 de outubro de 2017

    Salve, mA,

    texto bem escrito, ideia interessante a inclusão da narrativa passar pelo abajur.
    Confesso que a mudança permanente do narrador me confundiu bastante. No início imaginei que a narrativa pulasse de um lado para o outro segundo o fato de estar ou não o abajur ligado, ou seja, com o abajur ligado, ele seria o narrador, quando desligado, seria a menina narrando. Só que ele continua narrando quando a menina o desliga e coisa e tal, em outros momentos também.
    Algumas outras coisas acredito que possam ser revistas. Falo de algumas.
    – no início há uma afirmação peremptória de que a menina é muda, “Eu era muda. Não surda ou cega, mas apenas muda. E quieta.” (isso me pareceu, muito depois, que era o abajur narrando). Uma passada de perna no leitor que acredita que ela era realmente muda, só que não, pois começava a falar com o pai. Acho que isso não ajuda na fluência do texto.
    – “entrever apenas através de uma brecha.” Entrever através merece uma revisão.
    – “uma brecha no véu COM QUE me cobria os olhos.” também merece revisão, creio, porque me forcei a ler “uma brecha no véu com o qual cobria meus olhos.” ou “uma brecha no véu que cobria meus olhos.”
    – notei uma falta de explicitação do narrador quando ele pula de um lado para o outro “a inominável criatura … que NOS visitava todas as noites”, parecendo ser o abajur a narrar. Em outros momentos era uma narrativa onisciente.

    Cara mA, achei a ideia legal, mas confesso que fiquei indo e voltando a partes do texto em busca de me certificar de que estava ou não no rumo certo para consolidar uma compreensão. Pode ter sido falta de sensibilidade minha para mergulhar no texto, mas… sei não, suei feito a garotinha sob as cobertas para compreender quem era quem, quem narrava, quem era narrado.

    A escrita flui, mas não a compreensão, não percebi fluência na narrativa, dado que me fez ir e voltar para fixar compreensão. Confesso que me senti com dificuldades na leitura.

    Boa sorte e obrigado por nos deixar conhecer seu texto.

  19. Fabio Baptista
    7 de outubro de 2017

    Tive que dar uma “respirada” nas leituras para conseguir avaliar com imparcialidade. Quando terminei de ler pela primeira vez, logo que foi postado, confesso que pensei “pqp, mais um conto abordando pedofilia…”.

    Lendo novamente o texto, percebo que se avaliasse nesse clima, teria cometido uma injustiça. Sim, ele aborda pedofilia, assunto já saturado dentro do desafio. Mas merece ser analisado, assim como todos os outros, como se fosse o primeiro texto postado (isso é humanamente impossível, mas tento chegar o mais próximo desse esquema de avaliação).

    Enfim – o texto é muito bom. Aborda um tema pesado sob uma perspectiva diferente (a luminária/abajur) de um modo lúdico, onde o pai vira o monstro. A técnica madura torna a leitura fácil, com boas construções e sem perder o ritmo.

    Alguns apontamentos:

    – sem suspeitar que é justamente a claridade que permite que se projetem os vultos
    – gotas de suor que brotavam
    – ar fresco que circulava
    >>> não foi algo exagerado, mas alguns “que”s poderiam ser eliminados, dando ainda mais fluidez á leitura. Nos exemplos:
    – sem suspeitar que é justamente a claridade que permite projetarem-se os vultos
    – gotas de suor brotando
    – ar fresco circulando
    (Alguns são impossíveis de tirar mesmo e outros ao contorno acaba ficando pior. Exagerar nesses verbos terminados em “ando” também pode deixar o texto carregado… é um equilíbrio difícil de se encontrar).

    – uma espécie de casulo, seguro firme com as duas mãos
    >>> tenho dúvidas quanto ao emprego desse “seguro”, me soou estranha essa frase.

    – Ou ao menos durante o dia.
    >>> tiraria esse “ou”

    – silencio
    >>> silêncio

    – E era horrendo. Tanto quanto nos parece aquilo que não podemos enxergar. Ou mais.
    >>> gostei dessa parte

    – Exceto em uma.
    >>> gostei também, essas frases curtas funcionam como ótimos ganchos

    – em fim
    >>> enfim

    – O bilhete de mamãe dobrado dezenas de vezes
    >>> tá aqui é muita chatice, eu sei, mas tenho que observar… é impossível dobrar um papel mais do que 6 vezes.

    A trama não tem muito segredo, mas foi bem executada. O recurso do “click” foi legal no começo, mas em determinado ponto começou a cansar. Talvez diminuir um pouco as aparições do dito cujo. A parte que explica como funciona o choque foi bem didática, mas essa informação se mesclou de forma orgânica à narrativa, não ficando com cara “enciclopédica” (termo que usei em outro conto e o autor ficou bravo comigo rsrs).

    A inclusão da aranha, sendo bem sincero, ficou com cara de filler para chegar ao limite. Posso ter perdido alguma referência, mas vi esse elemento um pouco deslocado do restante.

    O presente da mãe foi uma boa sacada e a vingança, catártica.

    Gostei!

    Abração.

  20. Regina Ruth Rincon Caires
    7 de outubro de 2017

    Como é comum na minha linguagem diária: MISERICÓRDIA!!! Que texto pesado!

    Prometo que avaliarei o conto com muuuuuuito respeito, com o respeito que o trabalho merece (e o autor também).

    História muito bem narrada, a construção do conto é perfeita. Interessantíssima a técnica do “click” como um relógio a marcar o tempo. Tempo real e tempo psicológico. Marca o ritmo, a gradação da intolerância, da revolta deixando o rastilho de pólvora. Em algum momento o fósforo seria riscado…

    Escrita fluente, coerente, coesa. Linguagem clara, excelente.

    O pavor, incrivelmente descrito nestes parágrafos que seguem abaixo, é de uma realidade impressionante:

    “Pés, cabeça, corpo, tudo apertado em uma espécie de casulo, seguro firme com as duas mãos pelo lado de dentro. A respiração ritmada. O ouvido em riste. E o calor aumentando aos poucos a temperatura naquele envelope de pano, insinuando pequenas gotas de suor que brotavam tímidas, primeiro nas mãos, depois na testa, para em seguida, caudalosas, escorrerem pelas costas, ensopando a camisola de flanela.
    Quem sabe, cogitava, devesse colocar o nariz para fora de seu refúgio. Só o nariz. Desse modo, poderia sentir um pouco do ar fresco que circulava no exterior de seu esconderijo. E assim o fazia, cuidadosamente. Só o nariz. Mas, os olhos teimando em espiar o medo, lembravam-se logo daquele breu terrível que a envolvia em um outro casulo, ainda mais opressor que o de sua fortaleza de cobertores. Seu quarto.
    Assim, era preciso que se enchesse de uma coragem urgente, a fim de conseguir insinuar a mão para fora da coberta. Uma só. E abrir espaço por um caminho já há muito conhecido, alcançando o fio que ficava ao lado de sua mesinha de cabeceira.”

    Apesar de não ser um tema que me deixe confortável (sofro muito com a leitura), é uma narrativa que prende o leitor. Com raiva, com amargura, com tristeza, com revolta, com tudo, a gente quer saber o que vai ocorrer, se o crápula vai ser morto, se vai ser preso, se vai ser esquartejado, se vai ser linchado… Misericórdia, isso mexe com os sentimentos…

    Parabéns, mA! Ave Maria!!!

  21. Olisomar Pires
    6 de outubro de 2017

    Mais um conto sobre essa real violência maldita e repugnante contra a inocência.

    No meu entender totalmente deslocado nesse desafio, apesar de bem escrito.

    • mA
      6 de outubro de 2017

      Quer dizer, amigo, que tortura com animais pode, matar e esquartejar mulheres também, mas sobre crianças não devemos falar?
      Terror real ou sobrenatural é terror.
      Entrei no desafio para ter meu texto comentado por sua qualidade ou não na literatura.
      Deixemos os leitores sensíveis do lado de fora. Aqui somos escritores.
      Aguardo sua avaliação sobre a qualidade textual, ainda que já saiba que me dará uma nota a seu gosto pessoal.
      Garanto que avaliarei seu conto com o respeito que merece.
      Um grande e carinhoso abraço.
      mA

      • Olisomar Pires
        6 de outubro de 2017

        Há uma diferença essencial entre “terror” e “horror”.

        Minha avaliação está dada: seu conto, apesar de bem escrito, não se enquadra na categoria “terror”, mas é só minha opinião.

        Há quem assim não considere, não fico discutindo isso.

        Outro abraço.

    • Olisomar Pires
      11 de outubro de 2017

      Impacto sobre o eu-leitor: alto.

      Narrativa/enredo: criança é submetida ao pior tipo de crime possível, por fim vinga-se de forma bastante impressionante.

      Escrita: muito boa, não notei erros fáceis.

      Construção: todo o conto está bem elaborado, as partes se conectam tranquilamente e o clima criado é envolvente trazendo o leitor para o drama da personagem.

      Entretanto, conforme já anotado em outros comentários, não considero que o texto se refira ao gênero “terror” de acordo com o pedido no desafio. Não senti ou visualizei esse tema como leitor. Drama, angústia, revolta, sim.

      Peço desculpas por minha primeira reação. O autor tem razão nesse ponto: seu texto deve ser analisado com respeito.

  22. Lolita
    5 de outubro de 2017

    A história – Garota abandonada pela mãe sofre abusos de figura da familia e se defende como pode (impressão de familiaridade que me causou).

    A escrita – Boa e fluida, foca na ação. O recurso dos clicks não me agradou, mas as passagens são interessantes.

    A impressão – Curiosa, ainda mais se o autor for um dos que dias atrás criticaram o meu trabalho e a minha pessoa com gosto. Mas meus parabéns pela ótima escrita e muita boa sorte no desafio

    • mA
      6 de outubro de 2017

      Quer dizer, amigo, que tortura com animais pode, matar e esquartejar mulheres também, mas sobre crianças não devemos falar?
      Terror real ou sobrenatural é terror.
      Entrei no desafio para ter meu texto comentado por sua qualidade ou não na literatura.
      Deixemos os leitores sensíveis do lado de fora. Aqui somos todos escritores.
      Aguardo sua avaliação sobre a qualidade textual, ainda que já saiba que me dará uma nota a seu gosto pessoal.
      Garanto que avaliarei seu conto com o respeito que merece.
      Um grande e carinhoso abraço.
      mA

    • mA
      6 de outubro de 2017

      Não entendi sua “impressão”, amiga. Qual a relação de meu texto com o seu? Ainda não comecei a avaliar os contos, mas garanto que o farei com o devido respeito.
      Um grande e cordial abraço.
      mA

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Publicado em 5 de outubro de 2017 por em Terror.