EntreContos

Literatura que desafia.

A viagem de Alice (Alice Leal)

10 de janeiro de 2017

Liberte seu ódio. A voz fala na minha cabeça. Talvez pela decisão intempestiva de meu padrasto, selada exatamente quando se deu conta de que eu não queria passar minhas férias na praia. Detesto praia. Sempre detestei. Ele sabe que odeio os micro grãos de areia roçando minha pele alva, a aspereza incomodando. Sol amarelo-mijo, quente e ventando. A água fria, por mais que meu padrasto diga que tem um efeito purificador, por mais que ele pouco se importe, é insuportável na minha pele. Sorriu satisfeito. Tinha ganhado a batalha pouco antes do jantar ser servido. Purê de batata. Tudo deveria ficar bem com purê de batatas, mas não ficou. Não há mérito algum na sua vitória: um adulto em um embate com uma pirralha de treze anos. Eu arreganho os dentes. Ele arreganha os dentes. Tinha pensado em tudo. Até mesmo o sorriso, grande e corajoso demais para uma pessoa que vive na penumbra. Nunca se expondo, sempre comendo pelas beiradas. Melhor se acostumar com isso. Nunca. Cinco anos haviam se passado desde que ele se mudara para nossa casa. Pouco antes de Daniel nascer, meu meio-irmão, um pentelho que vive me atazanando. A mesma cara do pai, o mesmo sorriso frouxo e grande demais para um rosto acanhado, como se tivesse vergonha de aparecer. Minha mãe parece feliz. Parece.  Sempre encontrando atividades para preencher os dias, pilates, natação, compras, voluntariado na igreja, compras novamente, chá das cinco com as amigas até chegar em casa à noite antes do marido vir do trabalho. Ele odeia que ela chegue depois dele. Aliás, ele odeia muitas coisas. Assim que passaram a viver juntos, ela me deu um diário. Não falei nada no início, mas jamais poderia escrever tudo o que sinto. Para minha surpresa, depois de algumas tentativas, mudei de ideia e tudo começou a fluir. Letras viraram palavras, palavras viraram pensamentos. E ideias. E desabafos. E desespero. Alegria quase nunca. É isso que estava pensando a caminho de casa depois das aulas. Ontem à noite eu consegui dormir cinco horas, mais do que tenho dormido nesses cinco últimos anos. Cinco é meu número de sorte. Ou será de azar? O mais estranho é que eu estava tão agitada quando cheguei em casa que achei que ficaria horas sem conseguir pegar no sono. Tinha decidido não fazer aquilo de novo, não depois da última vez, mas de repente eu a vi e a desejei perto de mim, perto do meu corpo. Então pensei: por que não? Não vejo porque tenho de me controlar. Muita gente não se controla. Os homens não se controlam. Nem meu padrasto. Não quero magoar ninguém, mas você tem de ser fiel a si mesmo, não é? É o que estou fazendo, sendo fiel a mim mesma. Depois do jantar, meu padrasto se atirou ao sofá macio da sala, controle remoto na mão, um copo de chá gelado na outra. O pirralho tagarelando que queria jogar videogame. Fez pirraça, fez dengo, até que a mão pesada do pai lhe estapeou a face para colocar tudo nos eixos. Minha mãe pegou Daniel ao colo e o levou para o quarto. Eu observei o homem no sofá. Foi minha vez de sorrir.

16 de janeiro de 2017

Acordei com Daniel pulando em cima de mim na cama letárgica. De um pulo, um susto. De um susto, um medo. De um medo, um ódio. Liberte seu ódio. A voz novamente na minha cabeça. Da mesma forma que penso, desejo. Da mesma forma que desejo, atuo. Dá mesma forma que dou um tapa, dou um beijo. Daniel sai chorando quarto afora. Ninguém o ouve, apressados em colocar as malas no bagageiro do carro para seguir viagem, seguir na vontade de se perder em aventuras na cidade maravilhosa. Aventuras, sim, porque o Rio padecia com a falta de verba para a segurança pública, serviços e funcionalismo, mesmo assim ‘Papai Alfredo’ – como ele queria que eu o chamasse – lá resolveu tentar a sorte. É lá que vamos curtir nossas férias, vaticinou com um mau humor ao qual eu já me habituava. Papai Alfredo sabe das coisas, minha mãe disse como uma marionete em controle, no comando devido, na coleira devida. Dou de ombros, sem dar ouvidos. Dou um passo, dou um cotoco. Querem ir para o Rio, assim seja. Depois não adianta dizer que não avisei. Alice na cidade das maravilhas. De Perdizes até o Recreio dos Bandeirantes, passei horas de tortura no carro onde Daniel pulava no banco sem parar. Papai Alfredo seguia quieto ao volante e minha mãe no banco do carona, vasculhando a internet atrás de pontos turísticos, passeios de escuna e restaurantes elegantes. Eles me levavam à loucura, quase um descontrole. Para controlar, eu a apertava no bolso da calça, um bolso fundo capaz de a conter com folga. Fria. Firme. Eu me continha, mesmo sabendo que os homens não se controlam. Não entendo porque tenho de me controlar. Estou sendo fiel a mim mesma, a essa versão de mim que ninguém conhece, nem Papai Alfredo, nem minha mãe, nem Daniel, nem meu pai biológico que fugiu sem um adeus ou explicação. Ninguém. Ela continuava no bolso. Fria. Firme. Eu a quis assim que a vi na vitrine da tabacaria do shopping numa tarde quando saí com umas amigas. Reluzente. Brilhante. Chamativa. Disse que ia comprar para meu padrasto, mas era para mim mesma. Eu era uma viciada. Melhor se acostumar com isso. Eu era um navio afundando. Um dia a água ia cobrir meus olhos, depois meu nariz, depois me envolver como um útero onde eu pudesse me renovar e renascer. Atravessamos a cidade engolindo avenidas, túneis e estradas até dar no Recreio, a meio caminho entre o mar e a montanha. Custou um pouco para acharmos a casa de dois andares que Papai Alfredo tinha alugado. Depois de estacionarmos na garagem, nos espalhamos pelos corredores da mansão, salas e saletas com cheiro de mofo e umidade. Mamãe foi abrindo todas as portas e janelas, deixando o cheiro de maresia invadir os ambientes. A casa abrigava ainda um porão aconchegante – uma espécie de saleta familiar – com um conjunto de estofados macios e aconchegantes, uma televisão com tela de cinquenta polegadas e pinturas nas paredes. Não pinturas exatamente, mas cópias de quadros como O grito de Munch, Saturno devorando um filho e Judite e Holofernes de Goya, O Juízo Final de Fra Angélico, Dante e Virgílio no Inferno de Boughereau e outras do mesmo calibre que cobriam as quatro paredes do ambiente. Adorei o lugar. Foi então que reparei o quadro de Saturno ligeiramente torto. Tive receio de mexer e ele cair, espalhando fragmentos de vidro pelo chão. Mesmo assim caminhei direto a ele, tirei-o da parede com cuidado e então reparei a fenda na parede, feita de gesso acartonado e não reboco. Pus o dedo na ferida da parede e senti uma superfície fria, parecendo ser de metal. Tentei espreitar pelo buraco, mas tudo estava escuro. Já ia colocar o quadro de volta quando algo no interior do buraco reluziu. Ao menos eu assim achei e então algo na minha pele começou a arder.

17 de janeiro de 2017

A minha pele sempre ardia quando as emoções me dominavam, de um jeito ou de outro, do melhor ou pior. Calor, suor, frio. Era parte da minha essência, da minha versão única e inigualável, fosse isso bom ou ruim. O resto da tarde de ontem passou ao largo das minhas emoções. Caminhamos todos até a beira do mar, explorando terreno, explorando nosso refúgio. Na praia de areia não tão fina, pude ver Daniel com seu pai enfrentando as ondas. Sua pele cor de pêssego, livre de manchas e rugas e qualquer outra imperfeição. O rosto tão perfeito quanto o corpo, como se tivesse acabado de pular do útero, ainda a contar grandeza sobre o lugar seguro que possuía não só ao lado de minha mãe, mas na família, ainda cheio de energia, ainda cheio de esperança. Eu já não tinha nenhuma. O mundo era um lugar inóspito, propenso a trovoadas e tempestades capazes de revirar uma alma do avesso. Papai Alfredo quis que eu tirasse a jaqueta, mas eu não quis. Sentia frio. Minha mãe insistiu. Eu estou com frio, mãe. Está doente? Não. Febre? Só quero paz, mãe. Caminhei pela areia branca, toquei as ondas com a ponta dos pés, com cuidado, receosa da água tocar-me a pele ardente. A jaqueta pesando nos ombros, o bolso pesando na mão que acariciava o objeto reluzente. Ao final da tarde, risquei o dia do calendário. Dezessete dias e nada de realmente horrível aconteceu. Dezessete dias e o mundo não está destruído. Dezessete dias e eu não me destruí. Dezessete dias e eu não destruí ninguém. À noite, perguntei a eles se poderia dormir no porão, no que eles não se opuseram. Talvez aliviados que eu ficasse realmente afastada da família, em resguardo. Eu não podia me zangar com a atitude porque eles tinham razão em desconfiar de mim. Já tinha dado motivo no passado e provavelmente iria dar de novo. No começo da madrugada, eu ainda revirava no sofá acolhedor. Passei pela cozinha para me refrescar do calor e da secura. Abri a geladeira e tomei um chá gelado. Depois, subi para o andar de cima. Passei pelo quarto de Daniel, que dormia como se fosse um anjo, depois caminhei até o quarto de minha mãe. Estanquei do lado de fora, rosto colado na porta, ao som de gemidos e rangidos da cama. Cheguei a tocar na maçaneta, mas algo me fez desistir. Você é uma bruxa, sabia?, eu ouvi Papai Alfredo dizer baixinho a ela. Talvez todas as mulheres da família abusassem mesmo de feitiço. Voltei ao porão, ainda incomodada com o calor. Então reparei no quadro torto, pensei na fenda. Retirei o quadro novamente da parede e fui arrancando pedaços de gesso com a mão. Saíam fácil, a umidade e o mofo já o tinham desintegrado em parte. Quando o buraco ficou pouco menor que o tamanho do quadro, eu olhei para dentro do buraco. Um espelho enorme podia ser visto ao fundo do vão, envelhecido pelo tempo. Não me causou espanto. Não me causou estranheza o motivo pelo qual alguém iria esconder um espelho no fundo falso de uma parede, o que me alarmou mesmo foi meu reflexo, uma alarmante aparência de doente, a tez tão pálida que já tinha adquirido uma tonalidade amarela. O sorriso repuxado de lado trazia um toque maquiavélico. Foi isso que realmente me assustou. Logo em seguida minha pele começou a arder.

18 de janeiro de 2017

Assim que acordei, quis tomar um banho de banheira. Passei pelo quarto de Daniel. Ele ainda dormia. Olhei para a criança de modo quase lascivo. Eu me aproximei dele, apertei os lábios com força sobre sua bochecha, contendo a vontade de morder com os dentes, mas não tanto que não o machucasse. Machuquei. Ele levou um susto. De um susto, um medo. De um medo, um ódio. Liberte seu ódio. A voz novamente na minha cabeça. Da mesma forma que dei uma mordida, dei um beijo. Daniel saiu chorando quarto afora. Eu corri para o banheiro, onde liguei a banheira e deixei a água subir quase até a borda. Retirei a jaqueta, retirei a lâmina do bolso e a deitei no tapete felpudo. Retirei toda a roupa, escovei meus cabelos e me olhei no espelho. Calombos e elevações na minha pele me fizeram encolher. Eram cicatrizes que eu não controlava, por mais que eu tentasse. E se multiplicavam com o passar dos dias. Eu sou uma viciada. Eu sou um navio afundando. Um dia a água vai cobrir meus olhos, depois meu nariz, depois me envolver como um útero onde eu possa renascer. Acontece. É intenso demais, a crueldade dos homens. Eu entrei na banheira, deixei a água bater devagar na minha pele, até que ela se acostumou à temperatura. Estiquei os pés, me afundei na banheira até que a lâmina de água ficasse na altura da minha boca. Então estiquei a mão para alcançar o punhal. Não ia me cortar. Queria fazer um pouco de pressão e sentir a ponta da faca pressionando meus dedos. Queria sentir aquela tensão antes do corte. Queria sentir que ainda pulso. Melhor se acostumar com isso. Eu me acostumei a subir o cadafalso e mergulhar no vazio como uma maldita enforcada sem saída. Os homens não se controlam, por mais que finjam e se iludam alegando o contrário. Ouvi pancadas do lado de fora da porta do banheiro. Minha mãe queria que eu abrisse sem demora, perguntou se eu fiz algo ao Daniel. Claro que não. Não tenho culpa se ele chora feito um bebê, gritei enquanto saía da banheira e me enxugava com a toalha. Senti como se tivesse sido pega me masturbando, mordi a parte interna das bochechas. E me vesti. Quando abri a porta, minha mãe deslizou pelo aposento que devia ser inviolado, avaliando tudo. Adolescentes não têm privacidade. Isso devia ser contabilizado como séria violação aos direitos humanos. Em seguida, ela pediu que eu acompanhasse Daniel à praia porque ela e Papai Alfredo iam fazer compras no supermercado aqui perto. Claro, sem problemas. Olha ele direito, OK? Claro, sem problemas. Você só sabe falar isso? O que mais eu poderia falar? Então eles saíram e eu levei o bastardo para a praia. Mas houve problemas: eu me distraí.

19 de janeiro de 2017

Liberte seu ódio. Pensava nisso enquanto eles faziam o sermão de praxe. Claro que eu não queria que o pirralho se afogasse. Ou queria, agora nem sei bem. Ele é prova viva do meu sofrimento, da dor que retorna do passado sem piedade. Rejeição. Rejeição. Rejeição. Rejeição. Não há encenação no meu rosto cheio de espinhas que denunciam a pouca idade, a menina que nunca está a salvo de tudo, nem dela mesma. Eu falei para você tomar conta dele. Eu tomei. Não tomou, ficou olhando esse maldito celular. Todo mundo olha o maldito celular, Papai Alfredo. Não, não todo mundo, só os irresponsáveis como você. Mãe? Seu pai tem razão, filha, você é uma irresponsável. Como pode entregar seu irmão às ondas fortes que tem por aqui? Não entreguei, não de propósito. Pois para mim, foi. Não fossem uns turistas passeando próximos, o menino teria se afogado. O olhar desconfiado do Papai Alfredo enquanto meu riso era fácil e bobo. Uma sensação de déjà vu. Já tinha dado motivo no passado e provavelmente iria dar de novo. Sem falar nos cortes pelos braços e pernas. Não sei por que nenhum dos dois ainda não se ligou que eu os mantenho sempre cobertos com mangas e calças compridas. O pior cego é uma merda. Não venci o interesse de minha mãe pelo pilates, natação, compras, voluntariado na igreja, chá das cinco com as amigas, pontos turísticos, passeios de escuna e restaurantes elegantes. Minha mãe tem muitos interesses. Eu não era um deles. Competir com todos não tem sido tarefa fácil. Então Papai Alfredo arrancou o celular das minhas mãos. Pior que um tapa. Ficar sem minhas amigas – minha conexão com o mundo – era como ficar perdida. Voltei para o porão, para a base da casa, para a base do meu novo mundo, desconhecido e inabitado, cheio de horrores pendurados nas paredes. Voltei a escrever no diário para fazer tudo passar. Não passa. Nunca passa. Liberte seu ódio latejando nas têmporas. Melhor se acostumar com isso. Enlouqueço. Então vejo o quadro de Saturno comendo seu filho e me lembro do espelho que tudo deforma.

20 de janeiro de 2017

Nem tudo deforma. Às vezes as coisas apenas são como são. Ainda é madrugada. Ainda não consigo dormir. Então vou escrever o que eu acabei de fazer, por mais que o sangue nas minhas mãos faça a caneta escorregar e eu tenha de parar de tempos em tempos. O espelho dentro do buraco refletiu uma imagem distorcida de mim, com olhos ferinos, cenhos franzidos, a boca repuxada num sorriso sarcástico. O sorriso do diabo a me dizer o que eu tinha de fazer. Depois da bronca, eu me recolhi. Sempre me recolho. Sempre me contenho, por mais que a pele arda, por mais que as palavras na minha cabeça fiquem martelando como um mantra. Liberte seu ódio. Melhor se acostumar com isso.  A madrugada trouxe um desassossego. Andei pela casa sem rumo até que fui parar no quarto de Daniel. O bastardo dormia como se nada dissesse respeito a ele. Mas dizia. O antes, o depois. O fim e o começo. Não fosse por ele e tudo seguiria o caminho normal. Não fosse por ele e minha existência significaria a alegria que deveria significar. Mas ele existia. Caminhei na madrugada até seu quarto e o olhei dormindo. Não sei como descrever meu olhar, não era de ódio, não era de desprezo, era de alerta. Ele iria tirar de mim tudo o que eu merecia ganhar. Então eu me aproximei dele, a mão tocando no bolso da jaqueta a lâmina afiada do punhal que eu havia comprado. Um presente. Para mim e ninguém mais. Um presente que me libertaria de amarras, a coleira da qual eu nunca pude fugir. O ar entrou gélido nos meus pulmões ou eu me senti gélida, agora já nem sei. Então o vi enroscado nas cobertas, chupando o dedo como se o membro lhe trouxesse segurança. Não trazia. Não havia segurança de nada nessa vida. Nem do dia que amanhece, nem na noite que chega sorrateira trazendo penumbra e sombras. A imagem de nós quatro como família nunca seria o bastante. Eu retirei do bolso a adaga afiada e me aproximei do leito com a faca em punho, roçando as pernas da calça, roçando o joelho, roçando a perna resoluta em avançar. Então olhei o pirralho de um jeito diferente: o início de minha decadência. O caminho errado que devia ser interrompido a todo custo. Aproximei-me de seu rosto angelical, seu pescoço delgado tão fino, tão limpo de marcas, tão inocente. Então, aconcheguei o punhal do lado direito de seu pescoço pequenino e pressionei a lâmina. Queria vê-lo gritar. Queria vê-lo amedrontado, mas ele abriu os olhos e sorriu para mim. Sorriu… Sorriu… Um acinte. Um riso de escárnio, talvez. Não entendi. Eu pressionei o punhal com força contra sua pele rosada e fiz um talho profundo de lado a lado. Resoluta. O sangue pulsando entre os dedos, pungente. Uma visão do inferno. Uma visão digna de Saturno devorando a aflição dantesca que tomava conta de mim. E vim dormir com a sensação opressiva de que tudo estava errado. Uma sensação de vergonha, uma sensação de que fiz algo que não devia ter feito.

21 de fevereiro de 2017

Liberte seu ódio. A voz continua a martelar minha cabeça. Eu não quero ouvir. Agora ouço mais coisas. Vaca. Vazio. Bruxa. Fico séculos embaixo do chuveiro. Reduzo a temperatura da água, esfriando-a até ficar bem gelada. A água gelada acalma minha pele e alivia a dor nas cicatrizes, nos cortes que saltam em elevação da pele que um dia foi imaculada. Ele tinha razão, a água fria é realmente purificadora. Enfiaram-me nesse hospital psiquiátrico, mas eu tenho certeza de que fui vítima do espelho e das pinturas horrendas daquele porão cheio de mofo e amargura. Eles disseram que não há nenhum buraco, assim como não há nenhum espelho, que tudo é invenção da minha cabeça. A sensação opressiva de que tudo está errado ainda persiste. Eu apenas existo, sem passado e sem futuro. Sem julgamentos. A enfermeira me estende a mão, espera que eu tome o medicamento enquanto me aguarda no corredor. Eu hesito por um momento. Então tomo o comprimido de suas mãos e o engulo com um pequeno copo de água descartável. Suas mãos são enormes. Faz sinal para que eu a acompanhe até o consultório do psiquiatra. Eu entro na sala minúscula. As mãos dele também são enormes. Passa pela minha cabeça que ele seria capaz de me esmigalhar sem muito esforço. Então tenho medo, penso no meu pescoço e nas minhas costelas frágeis. Tenho muito medo. Ele faz sinal para que eu me sente. Sinto minha pele arder, sinto meu rosto corar. Meus cabelos pretos grudam na cabeça. Esse é um homem para se temer, o início de minha decadência. O caminho errado que deve ser interrompido a todo custo. Melhor se acostumar com isso. Você não passa de uma vaca. Vazio. Bruxa. A sensação de déjà vu retorna forte. O sangue pulsando entre os dedos, pungente. Quero vê-lo amedrontado, mas ele abre os olhos e sorri para mim. Sorri… Sorri… Um acinte. Liberte seu ódio. Eu não posso me zangar com a atitude porque ele têm razão em desconfiar de mim. Já dei motivo no passado e provavelmente vou dar de novo. Liberte seu ódio fica martelando forte. Eu tento me convencer de que ele só está tentando fazer o que é certo. Eu procuro me convencer de que não se trata de rejeição. Mas sei que não é verdade…

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37 comentários em “A viagem de Alice (Alice Leal)

  1. Gustavo Araujo
    19 de outubro de 2017

    Um conto bem escrito com forte carga psicológica. O texto me atraiu pela alusão às obras de arte e, de maneira indireta a “O Retrato de Dorian Grey”, pelo reflexo da maldade no espelho talvez-imaginário. A jornada pela mente da protagonista é o que o conto tem de melhor e isso é realçado pela ótima escrita, que faz com que o leitor se apegue à narradora mas torça, também, para que ela não tenha tanto sucesso assim em matar o meio-irmão. Apenas o desfecho não ficou à altura, a meu ver, porque caiu no velho clichê do hospital psiquiátrico, ainda que dê uma recuperada no arremate, no contato com o médico. Também achei os demais personagens um tanto planos – um contraponto ao ótimo desenvolvimento da protagonista. Padrasto, mãe e meio-irmão, todos, esquemáticos demais. Um pouquinho mais de substância a eles poderia jogar ainda mais contraste sobre a nossa pequena e adorável psicopata. De todo modo, é um bom texto. Parabéns!

  2. Luiz Henrique
    18 de outubro de 2017

    É uma bela escrita, corre solta, sem entraves que trunque a leitura. O enredo muito inteligente e original, não cai na mesmice do terror pelo terror. Salientando mais o psicológico da trama urdida. Mostra com agudeza os males que assolam o indivíduo humano: o dinheiro, pois isso é bem demonstrado, visto suas falas dentro do texto: – “O que esse intruso e desgraçado, e desinfeliz meio-irmão, veio fazer aqui para dividir minha herança”. – “Não fosse por ele e minha existência significaria a alegria que deveria significar”. – “Ele iria tirar de mim tudo o que eu merecia ganhar”. – Para se chegar ao psiquiatra é um passo. É um grande conto.

  3. Evelyn Postali
    17 de outubro de 2017

    Caro(a) Autor(a),
    Se essa narrativa for de uma adolescente, no comecinho, palavras como letargia, lascivo, intempestiva… Soam muito maduras. Eu li querendo não ler, mas a escrita é boa. Só não tem muito terror para mim. Faltou algo para que esse terror psicológico fosse mais certeiro em mim. Não sei dizer o que é. A escrita é excelente. Não percebi erros enquanto lia. Tem ritmo e, mesmo os enormes parágrafos, me deram fôlego de leitura porque as frases são curtas. Boa sorte no desafio.

  4. mariasantino1
    15 de outubro de 2017

    Oi, Boa Noite!

    Puxa, como você escreve! Parabéns pelo vocabulário, porque você consegue ritmar o texto sem ser repetitivo na escolha de palavras (exceto naquelas em que tem que ser para dar o tom alterado da mente da protagonista). Tentei ler de um só fôlego e quase morro sem ar (isso não é critica).
    Você é feliz em falar das motivações da personagem, expor a válvula de escape que ela usa para se libertar com cuidado para não entregar tudo de bandeja. Não tem descrições grotescas, mas o leitor ainda se sente incomodado ao imaginar as cicatrizes de cortes, e o corte no Daniel. O melhor de tudo é perceber a mente entrando em parafuso paulatinamente.
    Não tenho ressalvas.
    Parabéns e boa sorte!

  5. M. A. Thompson
    15 de outubro de 2017

    Antes de qualquer coisa, obrigado por nos presentear com essa pequena amostra do seu trabalho.

    Gostaria de apresentar o critério de votação que usarei no Desafio “Terror”.

    Por ter participado já leva um ponto e mais um ponto por cada item a seguir:

    [ ] Gramática e ortografia aceitáveis?
    [ ] Estrutura narrativa consistente (a história fez sentido)?
    [ ] O terror está presente?
    [ ] Foi um dos contos que mais me agradou?

    Dito isto, vamos a análise:

    O CONTO
    Uma adolescente viciada e com aparente problemas psiquiátricos odeia o padrasto e mata o irmão, sob a alegação de alguma influência maligna, talvez do espelho atrás da parede.

    O QUE ACHEI
    A história se passa no Rio, mas essa coisa de porão não é comum nem no Rio, nem no Brasil. Nesse ponto eu não comprei. É uma descrição comum em filmes e livros norte-americanos com suas paredes velhas de drywall.

    Comecei a ler fiquei procurando o terror que não chegava nunca, mas você escreve bem e eu fui lendo, fui lendo até, o fim, sem sentir qualquer entrave.

    A história é boa, mantém uma tensão controlada durante todo o tempo. O final poderia ser melhor resolvido (os dois últimos dias, 20 e 21), mas está bom do jeito que está.

    Parabéns.

    GRAMÁTICA E ORTOGRAFIA
    Nada que comprometa a leitura ou a(o) faça perder pontos.

    O Terror está presente?
    Sim, não da forma como eu gostaria, mas se enquadra sim.

    Foi um dos que mais me agradou?
    Infelizmente não, mas me agradou, só não foi o que mais me agradou.

    Boa sorte no Desafio.

  6. Iolandinha Pinheiro
    15 de outubro de 2017

    Errata: Onde se lê “por mi”, leia-se “por mim”.

  7. Iolandinha Pinheiro
    15 de outubro de 2017

    Querida e invejada (por mi) Alice:

    O seu conto tinha tudo para me desagradar. Não gosto de contos do ponto de vista de adolescentes, não gosto de contos que dão pistas que se tratam de contos sobre pedofilia (até agora não sei se havia ou não entre Alice e o padrasto), não gosto de fluxos de consciência com sobreposições de frases para formar uma história, mas vc conseguiu fazer de uma maneira tão talentosa, eficiente, firme. Sua psicopata tem carisma, seus pensamentos se repetem, a dominam, praticamente a obrigam a fazer coisas ruins. Muito bom o seu conto, excelente mesmo. E tem terror. A gente fica o tempo inteiro com o coração oprimido pensando que aquela história vai acabar em merda. Puxa, estou mesmo impressionada. Parabéns, moça-rapaz-estrela ou seja lá o que for vc, seu conto me conquistou. Beijos.

  8. K.W König
    10 de outubro de 2017

    Então… O conto é muito bem escrito, creio que o autor(a) leve muito jeito para isso, parabéns, aliás repetir as frase fez seu texto ficar melhor. Mas, vamos a MINHA OPINIÃO, não foi de fato “terror” a historia é previsível, na linha 12 já da pra imaginar o que acontece. (além de matar Daniel pensei que ela se mataria) Errei a segunda parte… Mas enfim apesar de ter achado excelente a sua forma de escrever o enredo em si não me trouxe emoção alguma, uma adolescente provavelmente esquizofrênica que se corta. De qualquer forma, parabéns, mesmo não gostando do tema me prendeu lendo seu conto até o fim.

    Terror: Nenhum. Boa Sorte!

  9. Fernando.
    8 de outubro de 2017

    Caramba, que conto bacana você me traz. Essas frases curtas soaram para mim como os toques, sem dúvida que perversos, da lâmina que Alice guarda no bolso fundo da calça, a lâmina com a qual se fere e machuca (mata) em volta. Um domínio bacana da história. Você administra a tensão de uma forma bastante convincente. Essa cabeça maluca de adolescente que se sente inapropriado, recusado mesmo à existência está muito bem posto. Gostei muito da sua história, Alice. Parabéns.

  10. Pedro Paulo
    5 de outubro de 2017

    Olá, entrecontista. Para este desafio me importa que o autor consiga escrever uma boa história enquanto em bom uso dos elementos de suspense e terror. Significa dizer que, para além de estar dentro do tema, o conto tenha que ser escrito em amplo domínio da língua portuguesa e em uma boa condução da narrativa. Espero que o meu comentário sirva como uma crítica construtiva. Boa sorte!

    O aspecto introspectivo acompanha o conto do início ao fim, sendo tanto seu ponto positivo, como o negativo. As primeiras palavras que se lê são as mesmas que se repetem na cabeça durante toda a viagem, em uma promessa direta de que algo ruim vai acontecer, de que há algo de errado com ela. A narrativa, cuja escolha certeira de 1ª pessoa reforça uma constante infelicidade, também contribui para a criação de uma atmosfera opressiva em que a menina não tem muitas escolhas, tudo em uma hierarquia infeliz que parte do padrasto dela, aqui quase como um antagonista.

    A repetição é outro recurso utilizado para construir a degradação da mente dela, cada vez mais fundo ao ponto homicida. No entanto, é agora que explico onde a introspecção passa a incomodar. Boa parte da leitura capta momentos em que a narradora descreve como se sente, ao ponto de se tornar cansativo. Acredito que teria sido melhor se pudéssemos ter visto mais momentos como o tapa e a mordida no irmão. Ainda dentro da introspecção da personagem, pareceu um pouco estranho a descrição dos quadros e suas autorias por parte da narradora, considerando que é uma menina de 13 anos. Claro, não é uma menina comum, nada a impediria de pesquisá-los na internet ou simplesmente conhecê-los e, no entanto, digo que se perdeu uma oportunidade de escrever um pouco sobre o modo como ela os interpreta, dando mais profundidade ao cenário do que apenas a ambientação macabra.

    Sobre a sucessão de fatos, foi interessante a escolha de que só o irmão mais novo morreria. O “Papai Alfredo” é, sem dúvidas, o que mais tem o seu ódio, no entanto, não é tão pequeno e indefeso como o menino, suscetível e inocente demais para fugir de suas crueldades e, por extensão, da morte, o que deixa esse final coerente. O que não se desenvolve muito bem é os motivos da personagem, entremeados em seus monólogos internos. Há uma constante referência ao fato dos “homens não se controlarem”. Imaginei uma história de abuso, talvez com o padrasto, ou simplesmente uma reflexão ressentida sobre o pleno controle violento que o padrasto exerce na família. No entanto, acaba não retornando de modo efetivo à história e ficou apenas como um outro momento em que a introspecção não chega a somar em prática na história e só serve para ilustrar o rancor crescente da personagem.

    Sobre o terror, enfim: minhas avaliações neste desafio levam o tema contando o terror como um elemento que não se alcança sem o suspense e, neste conto, o mesmo consta desde o início. Como já foi abordado acima, há momentos que o recurso da repetição cansa e não constrói, mas, no entanto, a obscuridade e o mau presságio são aspectos que acompanham toda a leitura!

    Com problemas na construção, o conto ainda faz muito bem em nos levar para dentro da mente sombria e debilitada da protagonista, mesmo que por tempo demais.

  11. Angelo Rodrigues
    4 de outubro de 2017

    Olá, senhorita Alice Liddell muito doida!

    Gostei do conto, bem contado, boa pegada, com fluência madura. Tem ritmo e boas aliterações.
    Quando o conto é bom pouco há a dizer, mas tenho algumas observações.
    Não tenho certeza se o enquadraria como terror. Não sou especialista, claro, mas o enquadraria mais como suspense em torno de uma pessoa que tem características destrutivas, cheio de sinais de rejeição, auto-destruição e tal.
    Falo isso porque, desde o início, é perceptível que se está construindo algo em torno de um ódio, quase como um fenômeno de “possessão” (uma voz que fala na cabeça da personagem). Uma voz, algo que empurraria a protagonista a cometer um desatino baseado no ódio ao qual era empurrada.
    Nesse ponto você cria um pequeno simulacro, um “algo” que mantém escondido no bolso da calça. Arrasta esse “algo” por algum tempo para o revelar, mais tarde, como sendo uma lâmina, que se transforma em um punhal. Creio que você tenha criado um esconde-esconde cuja revelação não tenha causado surpresa. Não foi danoso ao conto, mas reputo como desnecessário, sem o equivalente espanto típico aos contos de terror. Imagino que a revelação, logo de princípio, imporia à personagem um caráter perigoso desde sempre. Alguém com quem o leitor deveria se acautelar, pois logo haveria algo de terrível acontecendo.
    Essas observações não desmerecem em nada o conto, mantém-se na linha do alinhamento.
    Parabéns e boa sorte com o conto. Bom de ler.

  12. José Leonardo
    4 de outubro de 2017

    Olá, Alice Real.

    É um conto onde prevalece o suspense. Mas que suspense! As duas primeiras datas já nos fazem afastar aquele receio de estarmos diante de um chiste adolescente; a personagem-narradora oscila entre a intrepidez e a loucura, foi muito bem construída, havendo aqui profundidade e verossimilhança. O foco narrativo só ajuda a sedimentar essa atmosfera de dúvida agônica. A técnica aliou-se ao estilo e nos proporcionou um texto com ritmo constante, inabalável, que correu atrás do interesse do leitor no desfecho da história e até onde a protagonista se arriscaria dentro dessa insanidade.

    Parabéns (com força) pelo resultado alcançado e sucesso neste desafio.

  13. Lolita
    2 de outubro de 2017

    A história – A primeira frase do conto me chamou a atenção, lembrando o “fire walk with me” de Twin Peaks. No entanto, a surpresa foi que o texto conta o amadurecer de uma psicopata. Gostei da personagem ser mulher e adolescente, essas figuras sempre são retratadas como homens já adultos. É interessante por apontar que o mal não tem cara.

    A escrita – O recurso de escrever como um diário funciona para a proposta, agilizando o ritmo. Li em uma sentada só, querendo saber no que as perturbações da protagonista desembocariam. O final é interessante (também triste) e a autora consegue descrever a loucura de forma convincente, algo complicado de se fazer. Se ocorreram erros de português, desapareceram na qualidade da narrativa.

    A impressão que deixou – A minha agonia com lâminas já é forte por si só, o texto em alguns momentos foi angustiante. Cumpriu a missão de me aterrorizar. Parabéns Alice!

  14. Luis Guilherme
    2 de outubro de 2017

    Olá, amigo, tudo bem?

    Considerando que gosto muito do gênero terror, esse desafio é algo que me toca particularmente, e estou muito ansioso pelas leituras.

    Vamos ao seu conto:

    Bom, muito bom!
    Adoro terror psicológico, e o seu não deixou a desejar em nada. A fórmula terror psicológico em diário de uma mente atormentada sempre funciona, né? hhahah

    Você construiu muito bem a protagonista. Muito mesmo. Toda a mágoa, o rancor, o ódio, a carência, o desejo de atenção. Uma família odiável, a rejeição do primeiro pai, da mãe superficial, o segundo filho mais amado. Tudo bem encaixado.

    Nas minhas anotações, escrevi (quando surgiu o misterioso objeto no bolso): oq será que ela comprou na tabacaria? espero ser surpreendido positivamente.

    E fui! hahaha.. achei que fosse algum tipo de arma, e ficou ainda mais possível quando notei que se tratava de uma suicida em potencial. Mas o uso da arma foi ousado e surpreendente!

    A princípio, anotei que estava achando os parágrafos muito longos. Mas quando a loucura dela e as vozes começaram a surgir, fez todo sentido.

    Os diálogos também são muito bons, e traduzem bem a mente conturbada e confusa dela.

    Enfim, gostei bastante mesmo, é bem tenso na reta final.

    Parabéns e boa sorte!

  15. Roselaine Hahn
    1 de outubro de 2017

    Alice, que contaço! É o tipo de narrativa e de linguagem que gosto pra caramba. Vc construiu uma adolescente com muita propriedade, e o terror psicológico da personagem desequilibrada está presente o tempo todo na trama. Li numa sentada, sem respirar, mastigando cada linha, uau! As repetições de frase criaram uma tensão e um efeito perturbador na leitura. Não curto o gênero terror escrachado, mas claro, não levarei em conta as minhas preferências durante a análise dos contos, mas o seu texto, na minha concepção, está na medida certa do Desafio. Parabéns, abçs.

  16. Paulo Luis
    1 de outubro de 2017

    O que não faz o dinheiro nessa roda de vida louca, todo esse aparente descontrole psíquico nada mais é do que senão a sensação da perda. O que esse intruso e desgraçado, e desinfeliz meio-irmão, veio fazer aqui para dividir minha herança. Eu estava tão bem, leve e solta, com toda a vida à frente para usufruir. Mas, que enfim só me trouxe a infelicidade, a autoflagelação. “O bastardo dormia como se nada dissesse respeito a ele. Mas dizia… Não fosse por ele e tudo seguiria o caminho normal. Não fosse por ele e minha existência significaria a alegria que deveria significar. Mas ele existia… Não sei como descrever meu olhar, não era de ódio, não era de desprezo, era de alerta. Ele iria tirar de mim tudo o que eu merecia ganhar”. Daí a psicopatia é um estalo de dedos. Essa é minha análise dos fatos arraigados à protagonista. E ressalto com louvor o estilo da escrita que é primorosa, haja vista suas repetições e seus pontos finais puncionando as ações… Meus votos são de ótimo.

  17. Fheluany Nogueira
    30 de setembro de 2017

    Enredo e criatividade – O foco narrativo, aqui, constrói a trama: a protagonista-narradora é desvendada paulatinamente através do pensamento e da ação. A técnica de diário deixou a história mais crível e interessante. A morte do irmão ficou meio previsível.

    Escrita e revisão – Trabalho muito bom; a repetição estilística criou suspense e sugeriu o distúrbio mental. Notei apenas uma discordância verbal no desfecho (têm).

    Terror – Terror ou suspense psicológico? A explicação final para o buraco na parede derrubou o único elemento sobrenatural da narrativa.

    Emoção – O medo é meio fraco: adolescente ciumenta e insana pode ser tratada. O pior já acontecera (horror).

  18. Evandro Furtado
    28 de setembro de 2017

    A forma como a personagem se desenvolve, expondo os seus conflitos internos para o leitor é, de fato, fascinante. O autor consegue desenvolver a história de um modo que o segredo da garota vai se revelando aos poucos, como um quebra-cabeças. É claro que a narrativa em primeira pessoa ajuda bastante nisso, já que aproxima o leitor dessa perturbação em seu caráter. Assim, a atitude dela não é forçada, já que, da forma como é colocada, parece apenas uma questão de tempo para que aconteça.

  19. Edinaldo Garcia
    27 de setembro de 2017

    Escrita: Qualidade literária muito boa. Gostei dos recursos linguísticos, a repetição muito bem empregada. Senti, contudo, que faltaram mais elementos para explicar a insanidade da personagem, os problemas adolescentes dela não me convenceram o suficiente para ela ter motivos para matar o irmão. Pareceu apenas mais uma menina mimada do que alguém que realmente sofre muitos abusos e devido a isso surta. Deixou muito a desejar nisso.

    Terror: O clima de tensão vai crescendo aos poucos. Tudo é ambientado lentamente e vai criando muita expectativa. Mas em determinado ponto ficou tudo previsível – estava na cara que ela iria matar alguém, como e quando não sabíamos e me surpreendeu negativamente ela matar apenas o irmão. Eu cheguei a imaginar que ela mataria a família toda ou que a trama iria caminhar para algo inesperado devido aos elementos dos quadros, a parede falsa, o espelho, achei que algo sobrenatural, insano e grandioso fosse acontecer em vez de um mera releitura simplificada de Horror em Amityville.

    Nível de interesse ao longo da leitura: Há sim algum suspense, mas nada que surpreenda ou seja imprevisível. O enredo é quase infantil, como se realmente tivesse sido escrito por uma menina de treze anos. Até a escolha da imagem não foi feliz.

    Língua Portuguesa: Excelente. Ótima gramática e ótimo domínio da linguagem literária, só achei que terror não é bem o forte do autor/autora. posso estar muito engado e ter feito um julgamento precipitado.

    Só uma observaçãozinha final: Acordei com Daniel pulando em cima de mim na cama letárgica. – Quem estava letárgica? (a cama?)

    Veredito: Não me cativou. E não que seja ruim. Só achei que faltou tempero.

  20. Eduardo Selga
    27 de setembro de 2017

    Esse conto é interessante para análise porque permite falar de dois conceitos que muitos consideram sinônimos: fluxo de consciência e monólogo interior. O segundo é uma técnica formal de narrativa (empregada aqui); o primeiro é um conceito ligado à psicologia. Na literatura, o monólogo interior pode ser portador do fluxo de consciência, ou seja, aquele estado meio caótico de múltiplos pensamos desordenados. É claro, o completo caos, como muitas vezes acontece às pessoas reais, inviabilizaria a recepção da narrativa. Assim, o que o autor faz é uma simulação, sempre atento à essência a que se propôs quando escreveu o texto.

    A utilização do monólogo interior com fluxo de consciência produz um efeito muito interessante: a humanização do personagem, na medida em que seus pensamentos são representados de maneira muito próxima ao que acontece de fato.

    Neste conto, esse efeito é potencializado pelo uso da repetição de frases, característica de certas enfermidades psíquicas. Acredito, no entanto, que o(a) autor(a) correu um risco: a não variação rítmica. Como os períodos frasais são, via de regra, curtos do início ao fim do conto, há uma possibilidade de cansaço não apenas do leitor: a própria narrativa correu o risco de esgotar-se rapidamente, passando a viver de cenas cuja finalidade é arrastar o texto. A segunda situação não ocorreu, mas acredito que a interpolação rítmica, com trechos mais lentos, evitaria que o leitor se cansasse. Porque velocidade também exaure. Mas é o tipo de decisão muito particular do autor, de minha parte não desmerece o texto.

    Ao fim e ao cabo, resta uma dúvida que valoriza “A viagem de Alice” como texto literário, mas pode prejudicá-lo como narrativa de terror: os trechos “Liberte seu ódio”, “Melhor se acostumar com isso”, “Rejeição. Rejeição. Rejeição. Rejeição”, “Vaca. Vazio. Bruxa” e “Você não passa de uma vaca” seriam vozes de uma pessoa psicologicamente adoecida ou a manifestação de uma entidade em sua psiquê? Como essa dúvida persiste, é possível o leitor entender haver pouco terror e mais suspense.

  21. angst447
    26 de setembro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio. Terror psicológico para mim é o melhor!

    E (estilo) – Estilo diário de uma jovem psicopata? Sem demarcações de diálogos com travessão. Tudo junto e misturado como convém a uma boa trama psicológica. E o autor sabe muito bem o que está fazendo.

    R (revisão) – Não encontrei nada que atrapalhasse a leitura… só aquele tem acentuado no final. Ele tem – Eles têm

    R (ritmo) – Ritmo muito bom mesmo, a leitura flui que é uma beleza. A habilidade com as palavras e imagens é notável.

    O (óbvio ou não) – O suspense foi empregado na medida certa. Fiquei pensando no que a menina carregava no bolso – uma arma? um canivete? um cachimbo para se drogar? Claro que foi fácil adivinhar que o menino seria o alvo do terror aqui. Pena. Sempre espero que poupem a criancinha.

    R (restou) – Um alívio, minha gratidão por não ter apresentado um conto massacrante que nos faz contar as linhas para acabar. Restou também uma certa invejinha. 🙂

    Boa sorte!

  22. André Lima
    26 de setembro de 2017

    Bom, eu não gosto de comentar “você deveria fazer isso, ou aquilo”, portanto comento apenas as escolhas do autor. O formato não me agrada, a narrativa contada através de cartas/diário tem que ser MUITO atraente para me agradar, como o clássico Dracula de Bram Stoker.

    A história é boa, a personagem é interessante e o terror se dá pela personagem principal, uma inovação ousada que funcionou muito bem.

    Aquilo que o McKee chama de “incidente incitante” demorou demais a vir na narrativa, o que torna o texto bem cansativo, pois o leitor vai lendo, lendo… sem saber do que se trata a história. Algumas repetições excessivas me incomodaram também, embora eu saiba que tenha sido proposital.

    Mas no geral o texto é bom, está bem escrito. O autor nitidamente tem domínio da língua. Um bom conto. Parabéns.

  23. Fabio Baptista
    25 de setembro de 2017

    Que técnica maravilhosa! Não sou fã de frases curtas, mas aqui o(a) autor(a) as utiliza com maestria, pegando o leitor pela mão e o conduzindo para dentro da cabeça dessa nossa amável psicopatazinha. Toda a visão de mundo da protagonista é muito real, detalhes tipo “Papai Alfredo” e as frases recorrentes deram o tom da mente perturbada. Os ganchos para as próximas partes em geral são muito bons, principalmente: “Mas houve problemas: eu me distraí.” – esse me tirou um sorriso e, o que mais valorizo num texto: a vontade de continuar lendo.

    A trama foge do estilão clássico início/meio/fim e faz isso de um jeito bom. Narrativas em diário tendem a ficar mais naquele esquema de fatos ocorrendo aleatoriamente, mas isso não ocorre aqui: há tensão e um fio que conduz a história com o sentimento constante de “vai dar merda”.

    O final é muito bom, reiniciando o loop.

    Só não leva nota máxima porque essa será reservada ao(s) conto(s) que conseguirem a proeza de me deixar com medo.

    Abração!

    PS: Depois de ler os comentários dos colegas… acho que uma menina de 13 anos poderia ter esses pensamentos, sim.

    • Fabio Baptista
      26 de setembro de 2017

      Ah… chatice nossa de cada dia – só notei um deslize de revisão, já no finalzinho:

      – ele têm
      >>> ele tem

  24. Andre Brizola
    25 de setembro de 2017

    Salve, Alice!

    Gostei do conto. Não sou muito fã do estilo diário, mas achei que não teria como ser contado de outra forma. O leitor tem que ser levado pelo ponto de vista da personagem, e outro tipo de narrativa talvez não conseguisse o que foi atingido aqui.
    Achei genial o lance do espelho estar atrás de uma parede falsa, de Alice ter que “escavar” para conseguir chegar ao seu eu escondido. E de querer fazer isso, de não temer o que o escuro poderia revelar. Muito bom mesmo.
    Meu único senão aqui é a idade. Talvez eu esteja desinformado, mas achei o texto contido no diário um tanto quanto adulto para uma garota de 13 anos.

    Boa sorte no desafio!

  25. Fil Felix
    25 de setembro de 2017

    Olá! O conto possui diversos acertos ao se apoiar num terror psicológico, um drama familiar levantando questionamentos muito interessantes. Gosto da coisa da psicose, abrindo várias interpretações. Pode ser uma mulher, já adulta, presa num hospital psiquiátrico e revendo sua infância todos os dias, do trauma que teve. Como também pode ser uma sequência direta, resultado das visões que ela tinha. De um jeito ou de outro, passa uma sensação bacana ao conto.

    Mas, por outro lado, o final mais “psicológico” também anula um maior impacto. Sai da história cotidiana, de vermos uma garota violenta que matou o irmão por simplesmente ser má (como em Anjo Malvado, por exemplo). Um outro ponto que achei estranho é o linguajar utilizado, bastante arrojado pra uma pré-adolescente, teve um termo ali pro gesso na parede que eu nem sabia. Mas, de maneira geral, foi uma boa ter apostado no formato de diário e em primeira pessoa, nos aproximando da protagonista e nos colocando em seu drama, aos poucos, elevando o suspense. Isso ficou muito bom.

    Em questão de simbologia, há muita coisa legal. Os quadros infernais, que ela adora e depois odeia, entregam alguns pontos, principalmente quando dá ênfase no Saturno (Cronos). Na mitologia, ele devorava seus filhos pois temia que um dia algum deles o destronasse, como havia feito com o próprio pai. Mas um dos filhos, Zeus, conseguiu escapar desse destino e mais tarde voltou para matar Cronos e resgatar seus irmãos de sua barriga. É uma metáfora para o tempo, que se encaixa aqui pela passagem dos dias, o embate entre padrasto x irmão x mãe, como ela se vê dentro da família e a derrubada deles. O buraco na parede, o espelho que a reflete deformada, as referências ao útero e ao padrasto também nos levam a crer num quadro de abuso sexual, como as passagens que reforçam a pressão da faca sobre a pele, para então sangrar. Um conto aberto à várias interpretações, o que é ótimo.

  26. Rafael Soler
    25 de setembro de 2017

    Embora o tema do conto seja batido (adolescente com problemas psicológicos), adorei o estilo da narrativa, principalmente por estarmos o tempo todo dentro da cabeça da protagonista, o que dá uma certa ambiguidade para os eventos narrados.
    A repetição de frases foi muito acertada para a representação de uma mente perturbada, dando ao texto um ar psicótico que me deixou preso do inicio ao fim.

    O que poderia ser melhor, ma minha opinião, é a questão de o final ser muito previsível. Se a história subisse um pouco mais, talvez tomando algum outro rumo, o impacto da obra seria maior.

    No geral, é uma história que eu recomendaria para amantes de terror psicológico, mas que poderia ter um final mais forte.

    😀

  27. Nelson Freiria
    24 de setembro de 2017

    Não teria como aproximar mais o leitor da protagonista, que não pelo formato de diário. Ele foi tão bem explorado pelo autor(a), que até mesmo eu que não sou chegado nesse formato, fiquei satisfeito por demais. Isso permitiu conhecer bem o psicológico da personagem e todas suas dificuldades em lidar com seus problemas… Só não consegui conectar a mente de alguém com 13 anos de idade a maneira como o diário é escrito, como algumas coisas são expressas e o conhecimento pelas obras de arte (acredito que somente uma já bastava para dar o efeito desejado). Se por um lado o conto perde em verossimilhança, por outro ele ganha em qualidade literária.

    Sobre a adequação ao tema, acredito que um certo impasse pode surgir aí. Pessoalmente, eu considerei um suspense psicológico. Suspense não é terror, mas a linha entre os dois e as sensações que causam, não são fáceis de demarcar. Por isso considerei o conto adequado ao desafio. Agora, se o autor(a) achar que não fui claro quanto a essa consideração, sugiro a comparação com o filme Cabo do Medo, de 1991, que costuma ser classificado como suspense.

    Algumas coisas que ficaram no “ar”, me lembraram de um caso consideravelmente recente de uma adolescente que se suicidou… :/

  28. Pedro Teixeira
    24 de setembro de 2017

    O conto me agradou bastante. Essa narrativa circular envolve, e o ritmo é muito bom, com frases certeiras e personagens bem desenvolvidos. No que se refere à conclusão, ela acaba sendo previsível e não traz surpresas. Ainda assim um trabalho de qualidade, bem escrito e cheio de estilo, que até me lembrou um pouco o genial Rubem Fonseca.

  29. Paula Giannini
    24 de setembro de 2017

    Querido(a) Autor(a),

    Ao optar por participar do desafio com um conto de terror psicológico, você mostrou ousadia e personalidade.

    Mais do que o terror em si, seu texto conduz o leitor através do suspense durante todo o tempo (ao menos assim foi comigo). As frases recorrentes e pensamentos repetidos, como em um ciclo, cadenciam a narrativa. Uma técnica que me agrada muito.

    É interessante notar que, ao criar tal suspense, o(a) autor(a) abre para o leitor uma grande gama de possibilidades para a continuidade do texto, assim como para seu desfecho. Dessa forma, ao menos para mim, as falas “Liberte seu ódio” e “Os homens não se controlam” apresentam ao leitor uma espécie de “promessa” em um leque de possibilidades, prendendo-o, dessa forma, ao que é lido, de modo a fazê-lo pensar no que a protagonista fará ou, pior que isso, o que, afinal, houve com ela, levando-a à esta situação de “ódio aprisionado.

    Conforme o trabalho caminha, somos apresentados à adolescente revoltada que, além de odiar padrasto e irmão mais novo, também não se sente (como a grande maioria dos jovens nessa fase) feliz consigo mesma. Ela se mutila, tem pensamentos e vozes recorrentes e negativas dentro de si, além de repreender-se por aquilo que no fundo sente ser errado. Uma típica adolescente, levada pelos pais para longe do mundo que costumava conhecer.

    Uma frase, no entanto, chamou-me atenção, desviando, talvez, minha “tensão” e atenção para outro caminho que não o que a autora (creio ser mulher) escolheu como mote. O ódio pelo irmão.

    Para mim, a construção insistente, “Os homens não se controlam. Nem meu padrasto.” parece apontar para algum tipo de abuso por parte de “Papai Alfredo”, ou , talvez, algum tipo de projeção do despertar da sexualidade da menina, naquele que só tem olhos para sua mãe. Assim, talvez aí se encontre a chave para o texto. É o ciúmes da própria mãe e seu núcleo familiar mãe + Papai Alfredo + irmão, o verdadeiro motivo do tal ódio aprisionado. Por isso o assassinato, a loucura. Dessa forma tudo se justifica e faz sentido.

    Desculpe se me estendi demais, analisando um texto do qual, obviamente, você, autor(a) entende bem mais que eu, mas aprendi aqui no E.C. que, ao falar e pensar sobre um texto, entendo-o bem melhor, descobrindo, inclusive, coisas que não havia percebido durante a leitura.

    Certamente, você possui uma verve ótima. Segura e muito cuidadosa.

    Parabéns!

    Desejo-lhe sorte no certame.

    Beijos

    Paula Giannini

  30. Lucas Maziero
    24 de setembro de 2017

    A narrativa de Alice não traz nada de novo, categorizando o conto como “mais uma história sobre uma pessoa, no caso uma adolescente, que sofre de psicose”; no entanto, o conto tem o seu diferencial no meio de tantos outros parecidos. A história segue sem contratempos o início ao fim: a antipatia de Alice ao padrasto, estendida ao seu meio-irmão, juntamente com a viagem em que fora forçada a ir, culminam em seu ato monstruoso. Só uma coisa não posso engolir, segundo as palavras da própria Alice: “Enfiaram-me nesse hospital psiquiátrico, mas eu tenho certeza de que fui vítima do espelho e das pinturas horrendas daquele porão cheio de mofo e amargura. Eles disseram que não há nenhum buraco, assim como não há nenhum espelho, que tudo é invenção da minha cabeça.”.

    As pequenas cenas em que Alice passa junto às pinturas e ao buraco com o “espelho” atrás, não reforçam o motivo de sua internação, acusado pela adolescente; portanto, ao meu ver, poderia ser melhor explorado esse motivo, sendo os objetos e a projeção de sua mente o fator determinante do clímax.

    Ademais, as muitas frases curtas e repetitivas tornam a leitura cansativa. Há de se dizer, porém, que o andamento não esmoreceu, tendo como mérito as pequenas cenas: a interação anti-social, se me posso expressar assim, de Alice com sua família na praia; o banho de banheira onde ela testa a si própria, sentindo um prazer mórbido pelo ferimento não concretizado; o beijo canibalesco em seu irmão, enfim, foram todas bem construídas. O final ficou muito manso, eu esperava uma revolta de Alice: cenas em que ela levava injeções, algum tratamento mais vigoroso para contê-la, uma vez que ela piorava a cada dia, em que a cada dia a voz falava mais alto em sua cabeça, enfim, acessórios para adornar a sua psicose, mas não, tudo termina de forma esperada, sem ao menos fazer valer esse “liberte seu ódio” com alguma atitude terrificante.

    A gente se sente oprimido lendo este conto, mas nem tanto — o que é algo esperado em um conto de terror. Enfim.

    Parabéns!

  31. Olisomar Pires
    24 de setembro de 2017

    Impacto para o eu-leitor: médio.

    Narrativa/enredo: adolescente com sérios problemas psquiátricos age ou pensa agir de acordo com eles. Enredo sem novidades.

    Escrita: muito boa, sem erros graves ou que eu tenha notado. Estilo leve. Ponto positivo.

    Construção: A excessiva introspecção da narradora-personagem priva os leitores de uma visão melhor da coisa. A escolha do texto em 1ª pessoa traz esse inconveniente se não for tratada bem, utilizando recursos que tragam os demais personagens para dentro da narrativa.

    Assim, como está, é simples um testemunho de uma mente perturbada, não podemos confiar em nada do que ela disse. Isso tira muito da carga emocional do conto.

    Houve terror? não que eu tenha sentido. Como dito, a narração não me convenceu e a partir do momento que não há elementos que corroborem a história, a suspensão da descrença não surgiu.

    “Mas ela foi internada” – quem garante ? E se o foi pode ter sido por suas alucinações, talvez tenha dito que matou o irmãozinho quando ele está vivinho da silva, talvez nem esteja internada. Enfim, acho que já entenderam o ponto que levanto.

  32. Antonio Stegues Batista
    24 de setembro de 2017

    Enredo; Batido,adolescentes com problemas psicológicos, que se tornam serial killer, começando pelos membros da família.Faltou originalidade.

    Personagens; Gostei da protagonista, muito bem desenvolvida.

    Escrita; Excelente, boas frases, não encontrei erros.

    Terror; Muito pouco, quase nada. O clima não me impressionou, nem os atos da menina. Achei que a parte do espelho escondido ficou ruim, não acrescentou nada. Podia estar na parede seria a mesma coisa.

  33. Ana Maria Monteiro
    24 de setembro de 2017

    Olá Alice. Pois aí está um conto bem contado. Um drama psicológico com suspense quase desde o início e pitadas de terror q.b.. Não me fez olhar por cima do ombro com receio de algo, mas manteve-me na expectativa sobre o que ela teria no bolso e em como se manifestariam, na prática, as suas “vozes”. O tom adolescente está presente e bem conduzido: uma adolescente doente esquizofrenia, ao que tudo indica) pensa, sente, age e fala assim. Uma adolescente não doente também é assim, sem vozes na cabeça, sem cortes no próprio corpo ou noutros. Necessitaria de conhecimentos de medicina psiquiátrica de que não disponho, para saber se essa parte dos cortes em si mesma, encaixa ou não no quadro clínico – não me parece. No entanto, nada impede que a esquizofrenia coabite com outros distúrbios mentais. Temos muito bons elementos: o espelho na emparedado; afinal inexistente na realidade palpável – mas provavelmente uma projeção bem real do seu íntimo – a doença a minar o que resta de saudável no doente, algo extremamente comum nas doenças mentais. Um doente “saudável” e inteligente, pode saber que as vozes são fruto da imaginação e, embora com dificuldade, pode chegar a contorná-las (quiçá até apoiando-se em práticas de autoflagelação em que a dor o mantém ligado na realidade). Mas as doenças mentais são vampíricas, elas querem chupar a sanidade das suas vítimas e recorrem a qualquer meio – incluindo, como é o caso, um espelho, a mais perfeita das metamorfoses do real. Além de saber escrever, acho que se saiu muito bem no tema proposto. Parabéns!

  34. Regina Ruth Rincon Caires
    24 de setembro de 2017

    Que maravilha! O leitor fica preso ao texto do início ao fim. Escrita fluente, a emoção é conduzida num crescente, a aflição segue no ritmo galopante da narrativa.
    Sensacional! A maneira voraz com que a personagem narra os fatos, os seus pensamentos, os seus desejos, as suas dores, remete à ansiedade incontrolável que escraviza aquele que é acometido de algum distúrbio da mente.
    A repetição intencional de parte do texto reforça, torna ainda mais evidente o drama vivido por Alice. Pensamento recorrente, fixação que tira a paz, elementos próprios dos transtornos emocionais e psíquicos.
    Julgo aqui, como terror, o incômodo, a aflição que senti durante a leitura. Tudo aquilo que nos tira da zona de conforto traz algum sofrimento. Terror, em seus sinônimos, significa: pânico, horror, susto, temor, medo. Senti tudo isso na leitura, e acrescento: angústia. Portanto, cumpriu a meta. Lindamente.
    Parabéns, Alice Leal! Texto muito bem escrito, bem cuidado. Fiquei com a sensação de que você é profunda conhecedora das “dores da alma”.
    Abraços…

  35. Bia Machado
    24 de setembro de 2017

    DESENVOLVIMENTO: Sem muita paciência para esse texto, representante do “grupo das histórias com tema mais batido já visto”. Desde o começo já dá pra saber que a coisa vai da forma como começou e termina do jeito que a gente achou que ia terminar mesmo. Em alguns poucos momentos a narração ganha fôlego, mas são mesmo poucos esses momentos.

    PERSONAGENS: Mais uma narradora personagem que não me deu medo.

    GOSTEI: Da autora não ter abusado dos pedaços de corpos.

    Mas…

    O QUE PODIA SER MELHOR: o enredo, pra não ser tão batido e ter mais emoção.

    DEU VONTADE: de deixar para ler amanhã.

    NÍVEL PESSOAL DE TERROR COM RELAÇÃO A ESSE CONTO: Pouco, quase nada. A parte do Daniel indefeso enquanto ela se aproxima com o punhal talvez tenha sido o único instante.

  36. Zé Ronaldo
    24 de setembro de 2017

    Caramba, velho, que terror psicológico é esse, meu irmão? Caramba, parecia que eu estava lendo Poe, na moral! Ritmo perfeito, bom trabalho com o narrador em primeira pessoa, bom trabalho psicológico com a personagem principal, texto fluente, leitura fácil. Não há erros, em minha tosca visão. Texto bem aparado, apenas o essencial, ótimo fluxo de consciência. Maravilha!

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Publicado em 23 de setembro de 2017 por em Terror.