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Detox Literário.

Os Meninos da Rua Paulo – Ferenc Molnár – Resenha (Gustavo Araujo)

Talvez uma das razões que nos levam a gostar de ler seja o reflexo profundo que esta ou aquela história produz em nossas próprias consciências. Quando nos vemos imersos em certa narrativa, quando nos sentimos parte dela, conhecedores da intimidade dos personagens, torcendo para que seus planos deem certo, temendo por eles, é como se ganhássemos uma nova vida, um universo paralelo além de nossa própria existência.

Possivelmente, é isso que torna os livros mais marcantes que os filmes. Nestes somos testemunhas das desventuras alheias cuja emoção representa algo puramente instantâneo; naqueles, o mergulho nos envolve, nos torna cúmplices dos protagonistas, perdura, provoca saudades, dor, angústia, medo e felicidade.

Não admira nesse sentido que certos romances se tornem imunes à passagem do tempo. Ao tratar de temas universais, explorando nossos defeitos e qualidades, falando de sentimentos nobres e também execráveis, essas obras, ao traduzirem nossos mais recônditos sentimentos, tornam-se imortais.

Em 1906, o húngaro Ferenc Molnár criou uma história sobre um grupo de meninos que após a escola se reúne num terreno amplo, que chama grund, um logar onde jogam péla e conversam sobre a vida. Certo dia, veem-se afrontados por um grupo rival, os Camisas Vermelhas, que desejam tomar-lhes o grund. O conflito é inevitável e os grupos se organizam à moda militar para a grande batalha.

Nesse contexto simples, Molnár desenvolve uma narrativa extremamente rica, num suspense bem construído. Com personagens jovens – de 10 a 14 anos – a história envolve o leitor em uma atmosfera de alianças, coragem, traições, sacrifícios e provas de lealdade. Sentimentos comuns a qualquer pessoa, que tornam a identificação imediata, especialmente para quem já se viu em situações semelhantes. Quem de nós não teve um grupo de amigos, um grupo rival, um objetivo em comum? Quem de nós não se viu decepcionado com alguém em quem se confiava? Quem de nós não foi surpreendido com um ato de coragem, com um sacrifício pessoal por um bem maior?

Molnár trata disso de forma simples e por isso mesmo pungente, descendo ao âmago daquilo que entendemos por amizade, por camaradagem, daquilo que nos faz superar nossos próprios medos porque não queremos desapontar aqueles que nos são caros. Queremos, desde sempre, fazer parte de um grupo, sentir-nos protegidos, respeitados, queridos. Não queremos estar sós, apesar de às vezes trombetearmos que não estamos nem aí para o que dizem os outros. Pura conversa. Queremos a proximidade de quem admiramos, de quem pode nos ensinar alguma coisa e daqueles que podem aprender conosco.

Por isso “Os Meninos da Rua Paulo” é considerado um livro atemporal. É o tipo da obra que toca o coração de quem lê, não importa a época, não importa o lugar. Escrito há mais de 120 anos, permanece atual, provocativo, belo e triste. Difícil não pensar em tudo o que se passou depois de seu lançamento. Duas guerras mundiais foram travadas na sequência, um contexto em que se pode imaginar soldados nas trincheiras recordando a invasão do grund pelos Camisas Vermelhas, sobre a liderança de João Boka, a devoção incondicional de Ernesto Nemecsek, o respeito angariado dos inimigos Chico Áts e dos Irmãos Pázstor.

Embora escrito originalmente para o público infanto-juvenil, “Os Meninos da Rua Paulo” chegaram aos adultos com ainda mais força, possivelmente por conta do apego que temos com nosso próprio passado. Traduzido para inúmeras línguas, lançado em diversos países, chegou ao Brasil em 1952, numa versão em português vertida diretamente do húngaro por Paulo Rónai, revisada por Aurélio Buarque de Holanda, e reeditado frequentemente. Mesmo as versões atuais mantêm a tradução de Rónai, o que assegura uma imersão muito mais fiel ao universo do grund, uma verdadeira viagem no tempo.

O livro húngaro mais famoso do mundo – que foi homenageado com uma escultura incrível em Budapeste, com a dramática cena do Eisntand, em que os Irmãos Pázstor roubam as bolinhas de gude de Nemecsek – deveria ser leitura obrigatória nas escolas, eis que reflete o que há de mais essencial no ser humano.

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5 comentários em “Os Meninos da Rua Paulo – Ferenc Molnár – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Brian Oliveira Lancaster
    11 de julho de 2017

    O Gustavo sempre resenha de um jeito que até quem não gosta de livros mais “normais” fica com vontade de ler. Mas a fila está tão grande…

  2. Fil Felix
    10 de julho de 2017

    Amizade é um dos temas universais e atemporais das histórias, assim como a eterna busca por se sentir pertencente a algo, seja um grupo, um termo, uma sigla… Não conhecia essa livro, pesquisei e vi que é curtinho, me animei pra ler. A resenha me remeteu aos tempos da coleção Vaga-Lume, das histórias de amizade e intriga que lia quando criança, e do Senhor das Moscas, que quero ler e é protagonizado por um grupo de crianças, também. Quando eu ler, volto aqui pra comentar melhor!

  3. Paula Giannini
    10 de julho de 2017

    Querido Gustavo,
    Parabéns pela resenha. É um convite à leitura, como todas as resenhas deveriam ser.
    Beijos
    Paula Giannini

  4. Jose bandeira de mello
    9 de julho de 2017

    Otima resenha. Alem das caracteristicas descritas que sublinham os valores e defeitos da personalidades infanto juvenis, chamou-me a atençao as sutis passagens protagonizadas pela turma do betume. Reunioes inoquas, para conversas tolas. Uma otima caricatura da importancia que se da nessa idade a assuntos que serao inuteis na maturidade.

  5. Antonio Stegues Batista
    9 de julho de 2017

    Muito bom. Também recordo meu tempo de adolescente, quando nossa turma se reunia para brigar com a de outro bairro, a guerra era de estilingue, pedra e pau.

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Publicado às 9 de julho de 2017 por em Resenhas e marcado , , .