EntreContos

Literatura que desafia.

O Solitário (Vertente)

O homem e seus desejos e devaneios, pensei resoluto, enquanto puxava, com algum esforço, o meu companheiro de muitas lidas e furtivas incursões noturnas. Ele sempre é o desesperado e guincha, como porco que é, quando a situação fica violenta. Eu já pesquisei, em muitas outras ocasiões, qual o motivo das pessoas se aterrorizarem com a nossa presença. Algumas gritam e saem correndo, outras ficam aflitas e apalermadas. Outras mais, puxam os seus entes que lhes dizem ser queridos, apertando em seus peitos (o das mulheres, normalmente, caídos) e endurecem o olhar como se isso nos assustasse. Eu largo um pouco a coleira para esses desenxabidos e o meu amigo, com as suas presas faz o resto. Bufa, urra, espreguiça, dilata as pupilas, balança a cabeça que pensam ser ameaçadora (só quer mesmo se livrar dos maus espíritos que essas pessoas carregam) que parece, para mim, um sorriso com as suas presas pontudas e muito do limpo, já que faço questão de passar escova com creme de primeiríssima qualidade. Ficam brancos e assim, no escuro, parecem duas lanternas anunciando o invisível ser das trevas (com luz? Vá entender a humanidade).

Não penso em nenhum momento, mudar de vida. Sei que é difícil para todos que se envolvem em confusão, motivo principal da falha de caráter da maioria que bate, esfola, mata e morre. Em todos os parâmetros conhecidos por nossa fauna, a dele, coitadinho, foi o único que escapou de uma verdadeira caçada, afinal os seus parentes e bando estavam dizimando a plantação de couve (brincadeira) de sabugo (outra brincadeira) enfim, de plantação de mandioca a milho para pipoca.

Eu sei, em todos os momentos (mais uma vez) que sempre que houver uma condição para melhorar a imagem do coitadinho eu vou fazer. Ele pede o melhor, com os olhos lacrimosos. Ao puxar pelas rédeas para que permaneça todo o tempo ao meu lado, evito, em contrapartida, ele se machucar e machucar a terceiros que zombam, gritam, batem palmas, chamam de nomes que prefiro não destacar, porque até o pensamento ele entende (melhor, ele vê e sente o meu olhar, tristonho, ao vê-lo passar por essas situações, algumas loucas de pedra que é muito para a minha cabeça de ser humano) que eu sempre o farei sentir-se querido.  

Ele precisa de ser aceito, de ser acarinhado, de ser suplantado em sua dor, acompanhando em ajudar as pessoas que gritam de dor nas madrugadas. Eu possuo essa habilidade de sentir e ele me ajuda nessas situações. Não sou melhor do que qualquer outro alguém, mas faço isso por amor à humanidade, bem diferente dos que o atormentam. Ele abaixa a cabeça, segue em frente ao ser puxado. Fica parado, esperando o meu retorno, quando entro nas casas. De madrugada, no escuro, com atenção aos detalhes. Quando me encontrar trabalhando, não fujam. Esperem que lhes diga o que irão ter que fazer para se acostumar com a escuridão da alma.

Escuridão é assim, você a perscruta com força, mas ela não se abate. Esconde-se, furtiva como uma lanterna sem energia. Você sabe o que é ser assim, para viver se esconde atrás de um motivo idiota e boçal para continuar. Não venham querer me confrontar, porque estou dentro do seu ser, sou seu espelho, sua figura, sua encarnação, sua devoção ao feio, fétido, metido, introvertido, melifico e indecente.

Venha, Bob, venha querido, você vai se satisfazer essa madrugada. Vamos ajudar a dona fininha, sabe quem é? Não, não mesmo? Pare de balançar essa cabeçorra, você sabe muito bem. É uma mulher considerada maldita, aquela que lhe deu sangue envenenado. Aha, lembrou-se. Tire uma de suas presas, deixa comigo, preciso entrar na casa dela protegido por suas garras. Garras? Você as tem, nos pés, ninguém nota porque eu soube muito bem escondê-las. Melifico, você, Bob, venha, não quero precisar puxar com mais força. Calma, não lute contra e ria com esses dentes escovados. Vá, para com isso, não faço mais que a minha obrigação. Chegamos, agora fique esperto. Sente-se. Muito bem, obrigado. Vou deixar livre. Não quero você preso a nada caso precisemos correr. Está rindo? Essa mulher é terrível, perigosa, pode nos causar danos irreparáveis. Pare de rir, seu bobo. Palhaço. Agora vou entrar. Está tudo bem, está me ouvindo? Estou em sua cabeça, balance. Calma, sem muita força. Ela está no quarto. A maravilhosa sensação de acabar com essa meliante. Sei, calma agora. Cheguei. Está dormindo, essa cabra desgraçada, mas vou salvá-la mesmo assim. Apertei, segura aí, força, estou com a mão na boca e apertando o nariz da visitante. Isso mesmo, só rosna, baixinho, não saia do lugar. O que? Quem está com você segurando? Dê-lhe um safanão, deve ser um dos asseclas. Acabou, acabei, ela está morta. A desesperança, o sufoco do desamor, a rainha da infelicidade. A Morte. Conseguimos. Agora estou voltando, ela está se desfazendo. Está rindo, estou ouvindo você sacudir na risada. Cheguei. Quem era? Quem!? Não acredito. Parece que iniciamos uma grande guerra. Como poderia prever que a Morte tinha filhos? Não sei, não enche. Vamos embora, vai anunciar a chegada do sol e você sabe que sofro de claustrofobia com ele. Bobo. Bob, deixa disso. Onde está? Deixa ver, onde está? Abra essa boca, quero ver o que restou de um dos filhos dela. Pode rir, você não presta, seu imundo. Bobagem, você é que é, menino. Bobo, Bob, você é um grande bobo. Mas eu te amo.

Está bem, vamos descansar, chegamos. Deite-se. Quer um sangue puro? Quer? Você sabe o que quer sempre, não é? Agora, deixe as cortinas fechadas. Sente-se aqui, ao lado da minha cama. Vou tirar essa capa pesada, que serve para espantar espíritos. Sabe Bob, eu ainda vou ganhar uma grande recompensa por ajudar a humanidade a ser feliz. Eu sei, sei sim. Deixa de ser chato, Bob, deite-se. Quer um carinho? Não? Você ainda me ama? Eu, um dia, ou uma noite, vou ser firme sem você. Quando você morrer. Você vai um dia. Puxe a coberta e deite. Escutei o seu resmungo. Bom dia, Bob. Quem? Chato.

Você gostou da casa que montei rapidinho? E o lanche, da manhã? Tudo bem, eu também gostei. Vamos logo, saia do seu espaço com carpete alto e quentinho. Ótimo. Agora vamos embora, porque hoje, uma exceção durante a nossa jornada, que é ficar trabalhando durante o dia. É um inferno, mas, hoje, melhor ainda, não tem sol. Vai chover sim, não chateia. Vou fechar a maleta. Quer ver, de novo, qual será a nossa casa essa noite? Muitas perguntas e você só quer ficar assim, com esse olhar meloso. Vamos logo, eu preciso chegar a tempo, sabe muito bem. Fechada, travada, está muito pesada. Ri de tudo que me fala, concordo. Sou feliz ao seu lado. Veja lá, chegamos.

— Tio, tio, por favor, minha mãe está esperando o senhor.

Que moleque chato, eu já sei que ela está me esperando. Eu sei sempre o que vou fazer no próximo dia, desse mais ainda, de lua cheia. Faço o gesto de enfado e vejo o garoto correndo na frente, mais do que aflito, um pouco descontrolado com os sentimentos. Bob, fique firme. Dessa vez vou deixar entrar na casa, está ouvindo? Com as duas condições, direto no cérebro e nos ouvidos com a minha emissão de energia, ou com a minha voz. Melodiosa, quando quer me deixar feliz. Estrondosa, quando sente que a situação irá piorar. Maravilhosa e suave quando sentir o amor transparecer e fluir pelos poros de quem precisamos ajudar.

— Então, tio, por favor, ela vai morrer?

Perguntas e mais perguntas que ficam no vento, sempre as mesmas feitas aflitivamente por toda a humanidade. Grande coisa, coisa mesmo, morrer. Morrer é morrer, desaparece de um lado e chega no outro, com cara de jumento escorraçado, assim ó, Bob. Podemos rir, mas não precisa gargalhar, é exagero e falta de respeito. Peito, de novo, das mulheres, alguns caídos, porque os filhos as sugam de tudo e as deixam sem energia, como essa criatura. Cinco filhos, olha lá, viu? Sai, moleque, do meu pé, antes que lhe de uma cacetada no cocuruto. Cocuruto, não ria, Bob, você sabe, a cabeça abestalhada de um moleque. Sabe sim, não ria e não faça mais movimento. Pronto, ela melhorou, bastou colocar a minha mão na testa. Tenho esse poder por sua causa, porque eu gostaria mais é de fechar a fábrica de filhotes sem pai. Ela faz muita força para a felicidade e acha que é no meio das pernas. Besta, sem educação, não fui eu que pensei assim, foi você, embaralhando a minha mente. Porco do mato. Porco do mato. Está bem, fique fora da minha mente, então, javali.  Sei, estou perturbando. Olha só, novinha em folha. Novinha em folha, gostou?

— Tio, por favor, doeu, porque me bateu? Não, não fiz nada, eu não fiz nada, pare de me bater.

Chora mesmo, você faz o que não presta e quem paga é a sua mãe. Criança está sempre sobre a proteção materna. Você faz ela paga a energia pouca que lhe falta logo depois. Toma no cocuruto. Aha, cocuruto novamente. Vamos, Bob, chega de dar suas presas para essas crianças, porque vão acabar comendo essa porcaria e vão cagar sangue. Besta. Para, Bob, chega, estou avisando, vou deixar você de castigo. Saiamos dessa choupana, lugar pobre e afastado de tudo e todos. Essa rua de terra, esse lodo e vala dos excrementos, essa sujeira em toda parte. Ainda bem que tenho a minha proteção para os olhos, meu capacete e capa de couro, minha bota escovada, tudo de preto. E a minha maleta com tudo que preciso. Casa, fotos, promessas, rincões de idas e voltas, promessas não cumpridas, situações de dolo e dores infindas e incontidas. Ah, Bob, já fui melhor. Estou ficando triste e desolado. Vamos. Puxo sim, você está muito barulhento com esses roncos. Gostou de ajudar diretamente? Vou deixar mais vezes, mas precisa se comportar.

— Obrigado tio. Fujam, ele vai bater na gente de novo.

Tenho pernas ligeiras, mas não vou correr atrás da molecada. Lembro que fui brincar, correndo atrás deles, para chutar uma bola de futebol e deixei o Bob sentado e alguns deles brincando de retirar as presas, uma após outra, jogar uns nos outros e aconteceu o improvável. Dois pais, aflitos, invadindo o pequeno espaço entre duas construções, que servia como campinho. Ao invés de perguntar, a atitude foi querer bater. Puro engano. Sou pequeno, mas me torno grande por dentro da capa. A maleta abre sem que eu faça o menor esforço. Dentro dela, a fúria da humanidade, invisível, subterrânea, maluca e violentíssima. Eles sentiram o horror da dor, sem sombra, sem vento, simplesmente ela, ali, em todos os órgãos e eu fazendo pequenos gestos, movimentos lisos e extemporâneos, fazendo volteios e eles sofrendo. A garotada ficou perplexa, alguns se divertiram outros choraram, porque os pais estavam apanhando de agentes invisíveis. Diria impossível eles entenderem os agentes, quem dirá invisíveis. O meu olhar debaixo do óculo de proteção, as faíscas vermelhas, inicialmente, da fúria, contida, logo se tornou mais clara, menos volumosa, mais transparente, enquanto o Bob, coitadinho, aflito, saiu de perto das crianças e correu com os dois só chegando perto deles.

Vamos, Bob, chega, deixa essas crianças. Serão futuros idiotas, não nos veem, só nos querem quando em momento de aflição. Sabem ser terríveis com os seus, piores com os vizinhos. Humanidade perdida, mas faremos o possível para que se encontrem, quando souberem procurar. Estou só, Bob, só de seres humanos. Alguns sim, claro, você tem razão, senão qual seria a minha vida sem essa esperança. Gostou? A mulher ficou bem, não foi? Até que levantou um pouquinho o peito, não foi? Adoro você. Vamos, temos mais duas mil incursões. Precisamos ser rápidos até o sol cair e a lua surgir. Somos seres estranhos, eu acho. Mais do que eu, o Bob, porco do mato. Você que é, seu bobo. Não, não tenho mais vontade desses dentes sujos que eu limpo com a melhor pasta. Até logo, vou trabalhar sozinho se continuar me olhando feio. Está bem, sempre estaremos em paz. Oi maleta, sim, sei, você foi ótima também. Não precisa ter ciúmes do Bob. Dá uma guinchada e patada nela, adora brutalidade. Ótimo, gostei, agora chega. Puxei, não faça mais. Ótimo. Adorei. Sou um solitário. Sempre. Para todo o sempre.

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3 comentários em “O Solitário (Vertente)

  1. Mariana
    24 de maio de 2017

    Um fluxo de pensamento que aponta um homem com sérios problemas de relacionamento social, um outsider. A gramática confusa e as mudanças bruscas, dentro dessa lógica, se justificam. Demorei mais de uma lida para entender o conto, admito. Mas, após deglutir o mesmo, o sabor agridoce que ficou foi agradável.

  2. Ricardo Gnecco Falco
    24 de maio de 2017

    Olá autor/autora! 🙂
    Obrigado por me presentear com a sua criação,
    permitindo-me ampliar meus horizontes literários e,
    assim, favorecendo meu próprio crescimento enquanto
    criativa criatura criadora! Gratidão! 😉
    Seguindo a sugestão de nosso Anfitrião, moderador e
    administrador deste Certame, avaliarei seu trabalho — e
    todos os demais — conforme o mesmo padrão, que segue
    abaixo, ao final.
    Desde já, desejo-lhe boa sorte no Desafio e um longo e
    próspero caminhar nesta prazerosa ‘labuta’ que é a arte
    da escrita!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

    *************************************************
    Avaliação da Obra:

    – GRAMÁTICA
    Alguns erros atrapalharam um pouco a leitura que, pela própria escolha do/a autor/a, se dá de forma já normalmente truncada. Como a história é narrada pelo próprio personagem, as possíveis falhas gramaticais e/ou de revisão também são passíveis da justificativa do proposital, como em: “…meu olhar debaixo do óculo de proteção…”; contudo, cito este por ter sido o que me soou mais dolorido.

    – CRIATIVIDADE
    Confesso sentir não ter alcançado a proposta provavelmente oferecida pelo/a autor/a, mas pareceu-me que o conto destoou dos demais enquadramentos dados para a imagem temática deste Certame e, por isso, julgo que o trabalho foi criativo.

    – ADEQUAÇÃO AO TEMA PROPOSTO
    100%. Temos mala, javali e trajes.

    – EMOÇÃO
    Para mim não funcionou muito bem. Não consegui compreender a história em sua totalidade, mas a leitura rendeu-me bons momentos; principalmente nas passagens mais cômicas, como a cena do personagem se irritando e batendo na cabeça (‘cocoruto’, rs!) do moleque chato da porra.

    – ENREDO
    Como disse, não compreendi a história. Creio (e sei que estou errado) tratar-se de algum tipo de anjo ou entidade que, juntamente do javali, leva (a Morte?) ou cura as pessoas que visita.

    *************************************************

  3. Anorkinda Neide
    21 de maio de 2017

    Coitado do solitário, gente… rsrs no finzinho deu uma dó dele…
    Sabe, não gosto destes monólogos de gente doida falando sozinha e projetando em animais ou coisas uns diálogos. Mas vc se saiu bem nesta tarefa antipática pra mim 🙂
    Consegui visualizar tudo, nao sei se entendi tudo..mas vai da minha incapacidade pra este tipo de texto mesmo. Ele era curador e assassino ao mesmo tempo? Curava quem ele achava q merecia?
    Até gostei pq de início achei q era o clichê matar pra salvar a alma, mas nao era só isso… o personagem é complexo e isso é bom.
    Consegui visualizar o javali bem bonzinho, mesmo q atacasse tb, até o javali é complexo. Nao entendi o lance das presas, elas saíam? eram comestíveis? haiuhuia me pareceu.
    Bem, é um texto legal, daqueles q fica na cabeça da gente por um tempo.
    Abração

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.