EntreContos

Literatura que desafia.

Mais uma história (Blondie)

Não saberia dizer como tudo começou e, talvez, nunca me reconheça como personagem desta história. Toda vez que tento revisar o enredo traçado, arrasto comigo a tempestade de lembranças.    

Sigo, convertida a uma fé sem nome, desatando os nós invisíveis do acaso. Ainda me encanto com o tecer de mensagens, na urgente procura de alguma veracidade. Busco nas palavras transmutadas em sonhos, aqueles olhos que tingiram meus dias com cores tão imprevistas.   

Ele surgiu, assim, como um impulso na madrugada. Um risco no meio de tantas possibilidades. Não tão belo como se esperava, nem tão forte como o desejado, mas quem pode julgar o que é ainda segredo?

Às vezes, penso que tudo foi apenas um sonho a se desfazer nas sombras do esquecimento. Seu nome verdadeiro, eu desconheço. Alguns o chamam de “aquele homem”, mas a maioria o conhece como… Bem, talvez seja melhor começar contando a história do javali.

Logo na subida do Morro das Pedras, morava uma família: Dona Odete, uma matrona de ares afáveis, seu filho Joca e uma garotinha de olhos enormes e ossos sobressaltados. Aninha devia ter cerca de sete anos e era louca por bichos.

Não sei se foi bem assim que aconteceu, mas tentarei combinar as peças disponíveis da melhor forma possível.

− O que é isso, tio?

− Ora, é o que me pediu pro seu aniversário. Esqueceu?

− Um cofrinho?   

− Mas você não queria um porquinho, criatura?  

− Mas era um porco de verdade, tio! Daqueles vivinhos, sabe?

Fato é que o Joca decidiu arrumar o tal porco. Não ia faltar com a sua palavra e decepcionar uma criança. Tinha lá seus contatos e não tardaria a encontrar o que Aninha tanto desejava. Cada ideia! Um porco como bicho de estimação!

Foi Agnaldo, da rua de baixo, quem trouxe o animal, enrolado em uma manta encardida. Joca mal olhou para o embrulho, que pesava mais do que o esperado. Aquilo teria de servir.

Dizem que Aninha ficou tão contente ao ver algo se movendo entre as dobras da manta suja, que mal conseguiu agradecer ao tio. Ah, o bicho não era lá muito bonito, nem parecia com aqueles porquinhos fofos e rosados dos desenhos animados, mas era seu. Batizou-o de Quinzinho.

Semanas se passaram e o porco foi adquirindo um aspecto cada vez mais disparatado. Aninha tratou de defender o seu Quinzinho do olhar crítico da avó e de todos que estranhavam a aparência do animal. Será que era o “cão” que sua avó tanto falava? Era bem feinho, mas ainda assim uma criatura de Deus. Ou não?

Foi quando entrei na história. Não encontrei propriamente um conto de fadas, mas não há como rasgar páginas já escritas. Lá estava eu, uma garota de dezenove anos, cheia de vida, em busca de aventura. Ou melhor, de encrenca.

Conheci o morro através do programa de voluntariado da faculdade. Resolvi participar do projeto mais por rebeldia do que por altruísmo. Meu trabalho resumia-se em conhecer as famílias carentes que se empilhavam nos morros, para melhor conhecer suas necessidades básicas.

Uma tarde, quando estava trabalhando na área demarcada pela ONG, esbarrei em Aninha. A garota vinha, desembestada, atropelando todos pelo caminho.  

− Calma, menina, por que está correndo atrás desse bicho feio?

− O nome dele é Quinzinho. – Disse pondo as duas mãos na cintura e concluiu − E não é feio!

Olhei para ela, procurando por uma deficiência que justificasse aquele disparate. Pude sentir os olhos da menina pesando sobre mim, marejados por lágrimas de raiva.

− Desculpe, mas se ele não é feio, nem sei… Tudo bem, é como dizem: quem ama o feio, bonito lhe parece. – E forçando o meu melhor sorriso, ofereci ajuda. − Vamos atrás dele?

Fomos subindo pelas trilhas que perdiam o sentido e escasseavam habitação. Quinzinho, sempre na frente, parecia conhecer o caminho por instinto.  

Chegamos a uma espécie de túnel, formado por um emaranhado de árvores e outras plantas. Ao fundo, podia-se notar uma pequena casa, muito simples, isolada como se pertencesse a um outro mundo. Atravessamos a passagem de mãos dadas.   

− Fico com ele! Agora, vocês duas, fora daqui!

A voz surgiu forte e um tanto rouca, do jeito que ficam as vozes quando são pouco ouvidas. Impossível ignorar o homem que segurava Quinzinho nos braços. Alto, de proporções fora dos padrões, portando roupas cinzentas, quase invernais. Parecia um aviador daquelas histórias que meu avô Rubens gostava de contar, pondo-se sempre como personagem central. Talvez, os óculos grossos, de armação bastante pesada, tenham me passado essa impressão um tanto distorcida.

− Vamos embora daqui, Aninha. Depois, resolvo isso.

Sim, eu estava com medo, apavorada com o que senti naquele momento. Uma mistura de sensações difusas e crescente desatino. Sabia que precisava sumir dali o quanto antes.

Aninha voltou chorando pelo caminho, temendo pelo destino do seu bichinho de estimação.

− Ele é feio, sim, tia, mas olha, é um filhinho de Deus. − Pausou a fala só para fungar. − E aquele lá… sei não… Vai acabar assando o pobre.

− O sujeito é mesmo bem esquisito. Você ficou com medo?

− Ah, não tenho medo de bicho-papão, não. – Respondeu, parando um pouco de fungar. − Ele é conhecido por aqui, tia. É o Téo Tosco.

Dias depois, Aninha ainda chorava pelo seu porquinho e eu resolvi tentar uma negociação.  Talvez, tivesse errado permitindo que Quinzinho ficasse com aquele homem. Talvez, fosse culpa minha ter me deixado contaminar pelo seu olhar.

− Ora, ora, mas tem gente sem juízo neste mundo!

Senti a garganta secar na mesma hora. Assim mesmo me aproximei, erguendo o queixo em desafio. Estava para nascer quem me fizesse desistir de uma batalha justa.  

− Podemos conversar?

Contrariando minhas expectativas, ele puxou uma cadeira, limpou o assento com a palma da mão e fez um gesto para que eu me sentasse. Não pude recusar o convite, já que ele parecia ser homem de poucos rodeios e raras delicadezas.

− Meu nome é Paula e trabalho na …

− Naquela ONG lá no pé do morro, sei. Já te vi por ali. – Disse, mantendo o olhar firme e a voz baixa.  – E o que quer por aqui?

− Aninha me pediu para pegar o bichinho dela de volta.

− O que uma menina faria com um bicho desses?

− Ela gosta muito desse porco aí.

− Porco?− Ele me olhou espantado. − É um javali!

Prestei atenção ao animal e não notei grande diferença. Criada em uma redoma, minhas referências de animais limitavam-se aos filmes da Disney. Se não era rosa e fofo, ficava aquém do meu conhecimento.

Ele riu. Alto o suficiente para me fazer encolher na cadeira. Tinha dentes lindos, só conseguia pensar nisso. Tirou os óculos e pude ver que ele não era tão velho assim. Calculei que, de banho tomado, passaria por uns trinta e cinco anos, no máximo.

Coçou os olhos e passou as mãos sobre as faces cobertas por uma barba tão cerrada que se assemelhava a musgo. Tudo ali era estranhamente pegajoso, apropriado a um deslocado conto de terror.

− Melhor você ir agora. Até chegar ao chão, leva o entardecer.

Sua voz manteve um tom suave, que me fez sentir a poesia nas palavras e no olhar. Difícil definir o que se estabeleceu entre nós naquele instante. Quando o silêncio pousou asas, nos desnudamos de quaisquer verdades. Aflitos, agarramos o momento como se apresentou. Não haveria melhor sorte do que aquela.

Téo levou-me até o começo da trilha e esperou que eu me distanciasse.

Ele sabia e eu também. Estava claro que voltaria. E voltei.

Com a desculpa de obter notícias do “porco” Quinzinho, passei a me encontrar com Téo quase diariamente. Ele não questionava meus motivos e eu não fazia perguntas sobre coisa alguma. Àquela altura, só desejava ficar ali, sem raciocinar sobre o que estava sentindo. Era jovem e a insensatez me era permitida.

Aos poucos, larguei meu trabalho na ONG, afastei-me da faculdade e fui ficando cada vez mais lá em cima. Não me preocupei com família, estudo ou trabalho. Estava vivendo em outro mundo, quiçá em outro universo.

Téo cedeu cama, privacidade e desejo. Cozinhávamos juntos e relíamos o silêncio um do outro. Quinzinho, o javali, crescia muito rápido e ostentava espetacular forma selvagem. No entanto, era bastante dócil na presença de seu dono, como se os dois pudessem se comunicar. Era tudo bem estranho para mim, mas mesmo assim, me apeguei também ao bicho.

Passei tanto tempo com aquele homem que acabei por ignorar o seu aspecto rústico. Na verdade, não custei muito a apreciar as suas maneiras tão peculiares. Téo já havia percebido que eu preferia andar de mãos dadas a tê-las atadas às costas. Assim como eu aprendi a decifrar todas as notas que vinham dele. Memorizava cada franzir de testa e o tom do discurso monossilábico que emitia cada vez que ficava contrariado.

Tive de descer o morro algumas vezes, me afastando do encantamento para buscar um pouco da minha própria vida. Foi assim que tomei conhecimento dos boatos. Diziam que Téo havia sequestrado uma jovem da zona sul. Logo, entendi que estavam falando de mim. A loira da ONG, ouvi uma mulher comentar com outra:

− Uma dessas vagabundas que vêm aqui mais para infernizar nossa vida do que ajudar. Tomara que ele tenha dado fim nela, mesmo. Essas patricinhas pensam que são quem?

Tivemos nossa primeira e última briga naquela tarde. Ele decidiu que já era hora de eu voltar para casa e seguir meu destino.

− Mas minha vida é isso aqui!

− Não pode chamar isso de vida, menina. – Téo estendeu os braços orientando meus olhos pelo ambiente. − Olha isso! O que há aqui nem é futuro, nem presente. Já se veste de passado e não presta como caminho para ninguém.

− Vou ficar.

− Se você não for embora, eu terei de ir. – Disse com a voz trêmula como se escondesse alguma intenção a mais.

Ignorei a ameaça de Téo. Eu sabia que, da maneira dele, queria que eu ficasse. Sabia que precisava de mim. Concordei comigo mesma: ele me amava.

Mas Téo não era homem de ameaças vãs. Durante a noite, acordei e percebi que estava sozinha. Espiei pela janela e pude ver a silhueta gigante desembaraçando a escuridão. Pensei em chamá-lo, mas minha voz secou na garganta, sem fuga.

No meio daquela noite fria de julho, com as botas sujas de lama e a alma destituída de esperança, Téo partiu.  Coberto com as vestes mais pesadas que alguém pudesse escolher e o olhar camuflado pelos óculos grossos, ele se foi. O andar desengonçado denunciava seu trajeto com passos chacoalhando o mundo a sua volta.

Vesti uma capa por cima do pijama e calcei minhas galochas. Fui atrás dele, esperando que desistisse de me abandonar. Mantive uma distância cautelosa, até poder decidir o que faria. Ele continuava a caminhar por uma trilha que eu, até então, desconhecia.

Tentei enxergar uma saída, mas senti o vazio abrir as asas sobre mim. Chamei pelo nome, pelo desejo, pelo amanhã. Ergui os olhos sob a benção da lua. Ela estava ainda lá. Nos olhos dele.  

− Você fica aqui. – Escutei a voz dele ecoar pela mata.

Parei, quase em pronta obediência e, então, pude observar melhor o quadro que se desfazia a cada passo.  Téo carregava uma mala e puxava Quinzinho, preso por uma corrente. O javali acompanhava o ritmo de seu dono, sem qualquer resistência.

A lua, fatiada em minguante declaração, trazia tênue luz àquele adeus. Téo se virou por um breve momento e sorriu. Ou julguei que o fez. Guardei aquele sorriso como quem esconde a adaga de um cúmplice.

Nunca mais soube dele.

Às vezes, retorno ao morro. Subo pela encosta e sigo até a passagem escondida. Mas, sempre paro no mesmo ponto, na mesma encruzilhada em que os nossos destinos se desapegaram.

Ali, ainda posso crer. Nas histórias que contei para mim mesma. Em Téo e o seu javali.

Anúncios

3 comentários em “Mais uma história (Blondie)

  1. Andreza Araujo
    22 de maio de 2017

    O início do conto, apesar de bem escrito, não me despertou o interesse imediato pela leitura. Pensei que seria apenas uma história sobre uma menina e seu animal de estimação, o que achei meio raso como premissa. Mas então o foco muda completamente, passa a ser uma história sobre Téo e a loira, e não mais sobre uma criança e seu porquinho.

    E mesmo carregado de simplicidade, foi emocionante! Continuei lendo com atenção para enxergar o final da história, que se descortinava, aos poucos, através de uma narrativa quase poética de tão bela.

    O final é triste, mas esperançoso, pois a narradora volta para o local onde eles se viram pela última vez, trazendo a ela as imagens dessa despedida, como se pudesse vê-lo outra vez ou esperar que ele retornasse. Imagino que ele tenha ido embora porque não queria se apegar a ela, sendo que já a amava. Fiquei com vontade de saber mais sobre a vida e os sentimentos desse homem misterioso, mas a graça do conto é exatamente esta.

  2. Mariana
    21 de maio de 2017

    E de uma imagem tão bruta surge um conto tão doce! Parabéns Blondie, escreveste uma linda história sem cair na pieguice dos romances e amores impossíveis. A menina Aninha é adorável e Téo exala dignidade. Não encontrei problemas gramaticais ou de concordância, a escrita desceu como um copo de leite morno. Certamente já é um dos meus favoritos por aqui, nota 10!

  3. Anorkinda Neide
    21 de maio de 2017

    Olá! Que lindeza, hein!!
    Tem frases maravilhosas ae, inspiração poética.. Gostei deste tom intimista, me identifico hehe
    Gostei dos personagens, ate a menina dona do porquinho foi bem ‘desenhada’, a gente consegue ‘vê-la’.
    Parabens pelo talento e por dar este papel coadjuvante ao nosso mascote javali, ele tava ficando meio exibido mesmo no protagonismo de tantos contos 🙂
    Abração.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.