EntreContos

Literatura que desafia.

Bruxo (Mago Merlin)

São José das Palmas-1959

Em 1959 eu morava numa chácara com a minha família, a uns 5 quilômetros da cidade. Um dos dias mais feliz da minha vida ali, foi quando meu irmão me levou para pescar num açude que tinha perto de nossa casa, mas também foi o dia em que antecedeu a uma desgraça.

Filipe me ensinou a colocar a minhoca no anzol sem espetar o dedo. Estávamos sentados na ponta do trapiche, quando um peixe enorme pulou na água. Por um momento ele ficou parado no ar, de olhos arregalados como que olhando espantado a terra, suas formas e cores e depois voltou a mergulhar retornando ao seu mundo.

Soltei um grito ao pescar meu primeiro peixe, um lambari! Filipe me mandou ficar quieto para não espantar o grandão. Ele tirou o peixe do anzol, coloquei nova isca, me sentei e tornei a jogar o anzol na água.

Logo depois o silêncio foi quebrado novamente, desta vez por um grunhido. A folhagem na margem se agitou e vi um vulto cinzento penetrar na mata.

– É o Bruxo! – exclamou Filipe.

Bruxo era um javali de mais de 80 quilos que vivia nas matas da região. Quem deu o nome a ele foi nosso pai. O animal já tinha destruído nossa plantação de batatas e até matado alguns cachorros. Papai tentando caça-lo, caiu de um despenhadeiro e morreu. Talvez tenha sido um acidente, mas eu, na época com a idade de 7 anos, ouvindo aquelas histórias imaginei que o javali era mesmo um ser malvado, que tivesse empurrado meu pai para o precipício.

Agora, dois anos depois, o monstrengo estava de volta.

– Ainda ontem sonhei com ele. – disse Felipe começando a recolher as linhas. Era cedo ainda, mas meu irmão resolveu ir embora.

– Como era o sonho? – perguntei.

– Sonhei que um velho feiticeiro tinha raptado Judite e a levado para uma cabana nas montanhas. Lá ele transformou ela em um javali.

– Então, ele era o Bruxo e queria casar com Judite?

– Talvez. Peguei um avião teco-teco e voei até a cabana do feiticeiro. Ao chegar lá encontrei o velho morto. O javali tinha matado ele. Coloquei os livros de magia do feiticeiro numa maleta, com a esperança de encontrar as palavras mágicas para fazer ela voltar ao normal, depois a peguei e fui embora.

– Conseguiu desfazer o feitiço?

– Não sei. Mamãe me acordou para ir trabalhar.

– Ainda bem que foi um sonho, né? – peguei a fieira de lambaris e segui meu irmão. – Quando é que você vai se casar com Judite?

– Ainda é cedo para falar nisso, nós estamos recém namorando!

Eu não gostava da ideia de Felipe se casar e ir embora. Ficaria sem meu companheiro de aventuras. Eu nem imaginava que dali a algumas horas, meu irmão também morreria por causa daquele javali.

Bruxo sumia no início do outono e só voltava no verão. Filipe tinha jurado matá-lo para vingar a morte de nosso pai. Naquela mesma semana ele preparou um alforje com água e mantimentos, pegou a espingarda, munição e partiu. Mamãe pediu para ele não ir sozinho, mas não adiantou. Foi um lenhador que encontrou o corpo dele recostado numa árvore. Tinha sido ferido na perna e sangrado até morrer. Não se soube a causa do ferimento, mas presumiu-se que tenha sido o javali. Sofremos muito pela morte de Felipe.

Também pensei em vingança, mas eu era apenas um garoto de 9 anos! Um grupo de amigos saiu atrás do bicho, mas ninguém conseguiu mata-lo. Quando o inverno chegou, o animal sumiu. Todo mundo achava que ele estava morto em algum lugar, mas eu desconfiava que o Bruxo voltaria para me assombrar. Volta e meia eu tinha pesadelos.

—————————————————————————————————

Passaram-se 18 anos. Depois da morte de minha mãe, vendi a chácara e fui morar na capital. Todo ano nas férias voltava à minha terra natal para passar uns dias na casa de um tio e visitar o túmulo de minha família. Em 1977 não foi diferente. Quando voltei do cemitério recebi um recado para ir urgente ao hospital conversar com Gregório Cavilha, que estava internado. Gregório foi amigo de Filipe. Ele estava com câncer de esôfago e tinha poucos dias de vida. Quando cheguei ao quarto onde ele estava, a filha dele me recebeu. Falou em voz baixa.

– Meu pai soube que você estava na cidade e pediu que o chamasse. Ele quer te contar uma coisa. Só não deixe ele se canse demais. Vou aproveitar para tomar um café. Volto depois.

A moça saiu e eu me aproximei do leito. Gregório, ligado aos aparelhos, me olhou com um olhar febril e esboçou um sorriso. Me sentei na cadeira ao lado e ele disse:

– Você é bem parecido com Filipe! A última vez que te vi foi no enterro da tua mãe.

– Isso mesmo! Naquele mesmo ano fui para a capital. Foi há uns dez anos!

– É. Como vai a vida lá?

– Vai se levando. Fiquei sabendo que o senhor queria falar comigo.

– Pois é! Eu te chamei para te contar uma coisa que não contei pra ninguém.

Gregório tomou fôlego e continuou: – Um dia antes do Filipe sair pra caçar, ele me procurou na olaria e perguntou se eu ia pra cidade. Respondi que sim e ele me deu uma carta pedindo que a entregasse para Judite, na pensão. Falou que tinha que se preparar para caçar o javali. Queria pegá-lo antes que o animal saísse da região. Me ofereci para acompanha-lo, mas ele recusou ajuda. Quando teu irmão saiu, peguei o envelope, enfiei numa fresta da parede, lavei as mãos e troquei de roupa. Quando fui embora esqueci a carta. Como era um fim de semana, chegando na cidade fui direto para um bar. Naquele dia bebi demais, tiveram que me levar pra casa. Quando me lembrei da carta, foi só no dia seguinte.

Gregório fez uma pausa respirando fundo e continuou: – Me arrependi por não ter entregado a carta. Teu irmão tinha falecido e eu fiquei com vergonha de falar com alguém sobre o assunto. Acho que Judite exigiu que Filipe assumisse o namoro antes que ela fosse embora e a carta seria uma resposta. Uma resposta que a moça não teve!

Gregório me lançou um olhar triste. – Eu não posso pedir perdão a Filipe, mas peço a você, irmão dele.

– Com certeza meu irmão já lhe deu o perdão. Não se preocupe com isso. Não se culpe. O que aconteceu com a carta?

– A olaria foi desativada. Está abandonada, mas o envelope deve de estar lá onde deixei, num vão da parede ao lado do tanque.

Ergui-me e segurei a mão dele, uma mão fria de dedos finos e veias salientes.  – É melhor o senhor descansar agora. Obrigado por me contar

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Saí de manhã cedo da casa de meu tio. Disse que iria dar uma caminhada para relembrar os velhos tempos. Segui por uma trilha pela margem do rio até a olaria. A fábrica de tijolos e telhas, muito antiga, continuava de pé, com sua estrutura de madeira de cedro ainda em bom estado. O antigo dono morreu e a viúva não teve condições de continuar o negócio. Ainda havia tijolos para serem cosidos nas prateleiras. Encontrei o tanque no outro extremo do galpão.  A carta estava entre a coluna de madeira que sustentava o teto e a parede do vestiário, logo acima do tanque como Gregório havia dito. Tive que arranjar um graveto para tirá-la dali. O envelope estava amarelado pelo tempo e roído nas bordas. ” Para Judite Santos. Pensão Castilhos”. Diziam as letras e eu fiquei emocionado ao reconhecer a escrita de meu irmão. Limpei as teias de aranha e coloquei no bolso. Estava voltando pelo mesmo caminho, quando ouvi um barulho. Logo reconheci o ronco do javali e o nome veio à minha mente, Bruxo!  

O grunhido vinha de dentro do forno. Peguei o atiçador e avancei com cuidado. Fiquei com receio da fera me atacar, mas o som que ele fazia não era de ameaça, parecia mais um gemido. Me aproximei um pouco mais até avistar a fera. Bruxo estava deitado com um ferimento grave em seu dorso, provavelmente causado por um tiro de espingarda. Eu podia mata-lo, enfiando o ferro pontiagudo na sua barriga. Naquela hora não tive raiva nenhuma. O que eu via ali era apenas uma fera selvagem, movida por instintos. Ele não tinha mais forças mas ergueu a cabeça, me olhou e tornou a deitar. Larguei o ferro e deixei-o morrer em paz.

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Quando voltei para a capital, passei a procurar por Judite. Um dia depois de Filipe sair para caçar, ela deixou a pensão e não tivemos mais notícias dela. Judite não tinha família, trabalhava como governanta numa pensão e como havia ganhado uma bolsa de estudos, mudou-se para a capital. Eram as únicas coisas que eu sabia. Seria difícil encontrá-la, mas eu estava decidido a entregar a carta.

Na lista telefônica havia 9 mulheres com o nome de Judite Santos. Telefonei para cada uma delas e nenhuma era a que eu procurava. Imaginei que ela tivesse casado e mudado o sobrenome. Havia outras sete mulheres chamada Judite que poderiam ser ela, mas me veio a dúvida, será que ela vai querer falar sobre um namoro de 20 anos atrás? “O primeiro amor fica registrado nas páginas do Tempo com letras de ouro”. Dizia minha mãe.

Para encurtar a história, quando encontrei o número do telefone de Judite, liguei imediatamente disse quem eu era e marcamos um encontro num café, no centro da cidade.

Eu estava um pouco tenso quando entrei no estabelecimento. Judite foi namorada de meu irmão e eu iria entregar uma carta que deveria ter sido entregue há 20 anos!

Havia algumas pessoas nas outras mesas e a única mulher sozinha vestindo blusa azul, estava sentada num canto. Eu não me lembrava das suas feições, pois a tinha visto uma vez apenas quando Filipe a levou para conhecer a chácara. Na época eles estavam recém namorando.

Judite estava na casa dos 40 anos. Me deu um abraço e me convidou para sentar. Começamos a conversar sobre o tempo, ela me contou que tinha casado e se divorciado. Falamos sobre nossas atividades atuais e só depois de uma pausa para o café, mencionei a carta.

– A última vez que me encontrei com Filipe, disse a ele que viria para a capital e o convidei para vir morar comigo. Ele disse que responderia depois, pois tinha algo urgente para fazer. Insisti dizendo que eu partiria dali a três dias, com ele ou sem ele. Meu maior sonho era ser veterinária e eu não podia perder a bolsa de estudos. Como ele não apareceu, achei que tinha decidido ficar.

Ela fez uma pausa e me olhou, intrigada. – Não estou entendendo porque ele mandaria uma carta, só agora, quase vinte anos depois!

Ela não sabia que Filipe tinha morrido. Quando contei toda a história ficou chocada. Falei que eu lamentava muito, tirei o envelope do bolso entreguei e me despedi. Eu não queria saber o que meu irmão dizia, se pedindo para ela esperar uns dias enquanto ele caçava o javali, ou se desculpando, argumentando que não a amava o suficiente para ir junto. Acho que a primeira opção é a certa, Filipe nunca deixou de cumprir uma promessa, mesmo com o risco de perder um grande amor. Se ele não estivesse alucinado por uma vingança, não teria morrido. Enquanto Judite abria o envelope e lia a carta, paguei a conta e me dirigi para a saída. Parei na porta por um momento e vi quando ela tirava um lenço da bolsa para enxugar as lágrimas.

Saí do café satisfeito por ter cumprido minha missão. Quando criança eu não gostava da ideia de perder meu irmão para Judite e agora, de certa forma, eu os reunia, arrancando assim, um espinho que me incomodava.

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Um comentário em “Bruxo (Mago Merlin)

  1. angst447
    20 de maio de 2017

    Olá, autor, tudo bem?
    O título do conto não entregou o enredo, apenas despertou a curiosidade se a trama abordaria feitiçaria ou não.
    O tema proposto pelo desafio foi abordado, mas não na sua totalidade, já que mencionou mais o javali do que o homem misterioso da mala. Mesmo assim, considerei cumprida a missão.
    Há algumas falhas de revisão:
    Um dos dias mais feliz > um dos dias mais felizes
    caça-lo, > caçá-lo
    acompanha-lo > acompanhá-lo
    mata-lo > matá-lo
    tijolos para serem cosidos > tijolos para serem cozidos
    havia 9 mulheres > havia nove mulheres
    sete mulheres chamada > sete mulheres chamadas
    Também senti falta de algumas vírgulas pelo texto todo.
    O ritmo do conto é bom, a história prende a atenção, mas vai perdendo a força pelo caminho e apresenta um final sem impacto.
    Boa sorte!

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Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.