EntreContos

Literatura que desafia.

Espectro (Temple Grandin)

O ranger da madeira velha reclamava os passos pesados nos longos degraus da escada, a subida era sem pressa, como se quem subisse estivesse em dúvida se o faria ou não, ouvia-se um longo suspiro no último degrau, o de número treze – sim, eu contava –, contava um após outro, sempre no mesmo horário, com o mesmo espaço de tempo.  

Inerte, apoiado ao umbral da porta, olhava-me sem piscar, um olhar que embora estivesse fito em minha direção, atravessava-me perdido na atmosfera nostálgica que circundava o ambiente.

Os dias se arrastavam com o meu corpo preso à cama, lento, sem vontade, virando as estações apenas pela ordem natural dos ciclos, onde metodicamente o amanhecer  destravava o ferrolho das janelas  e de leve o vento assanhava as cortinas em finas ondas sobre a vidraça. Mas hoje, o sol não iluminou apenas o quarto, e eu pude observar traços de um rosto que me fizeram chorar nos escombros dos meus sonhos. A barba já grisalha no queixo escondia a cova pequena, mas eu sabia que estava lá, assim como também sabia a causa da magreza que andava disfarçada por um sobretudo. Mas foi o pousar da mala, e o brilho dos gomos polidos de uma corrente pesada que me fizeram ter a certeza que a hora havia chegado, e o medo veio a superfície.

***

Não ganhei da vida, mas aprendi bons bocados com ela, porque a cada rasteira, a mesma me dava ferramentas para reerguer-me, e apesar de todas as desvalias, não imaginei, nem por um momento de reflexão qualquer, que um dia estaria aqui, com a vida nas mãos daquele que há quarenta anos me enlutou, sim, eu não fui à luta, permaneci com o peso dos trajes sombrios que devoraram minha lucidez por um longo período, e essa aproximação foi como o remover de uma lápide, veio numa lufada quente de lembranças, de momentos empoeirados, camuflados numa semente envelhecida, cuja sombra da mais ínfima nuvem seria capaz de  trincar a casca na ameaça de brotar.  A emoção afluente desaguou nos olhos e abriu caminhos úmidos na sequidão do meu ser, encharcando o peito com a saudade de quando o meu corpo era desejado, dos bailes, namoros e planos…                                                                                                                                                    

Fui a noiva mais linda de Moema, um casamento planejado, uma casa escolhida a dedo e depois de anos de união, a decisão mais importante: ter um filho. E eu amei desfilar com aquele barrigão, fui a todas às consultas de pré-natal, atravessamos quarenta semanas de gestação vendo exames, ultrassons e ouvindo que estava tudo bem. Escolhemos cada detalhe do enxoval, pintura, berço, roupinhas, brinquedos e sonhos, sonhávamos mesmo antes de dormir, imaginávamos o rostinho, os dedos, a cor dos olhos, onde estudaria…

Na manhã em que Bento, com o rosto encostado na minha barriga, sentiu pela primeira vez nosso filho mexer, não sossegou até encontrar uma camisa diminuta do São Paulo, dizia que seu filho teria nome de anjo e seria pé quente – ao contrário do pai.  A criança nem tinha nascido e já tínhamos todo um futuro idealizado, ele iria muito mais além do que teríamos conquistado como escritores.

***

A chegada do bebê foi festejada por toda a família, o cheiro de lavanda que inundava a casa perfumou os melhores momentos da minha vida, foi um divisor de águas, eu estava vivendo a plenitude da maternidade, completamente entregue a um serzinho que ainda nem reconhecia o som da nossa voz, mas que já tinha se tornado o centro do universo.  Aguardamos ansiosamente por todas aquelas fases que os bebês passam, a primeira mamada, ficar firme no colo, o primeiro sorriso, o sentar sozinho, começar a engatinhar, os primeiros passinhos, e é claro, ouvir o primeiro “mamãe” e “papai”.

O fato do bebê não sugar o seio não trazia preocupação, na verdade, eu tinha medo que ficassem flácidos, então tratei de oferecer um “mingauzinho de panela” feito com muito amor. Quando dava a mamadeira e o acalentava em meu colo, lembro que cheirava o cabelinho e tinha vontade de guardar aquele aroma num potinho.  Rafael era uma criança tranquila, não chorava para comer, não fazia “birra” para sair do berço e eu me exibia dizendo que sabia bem como cuidar de uma criança.

Tinha muitas coisas que eu queria ter vivido com o meu filho, mas logo depois dos dois anos o Rafa bateu suas asas e voou para longe, onde nem a nossa voz, nem o nosso abraço o alcançavam. Eu não soube administrar o sentimento de perda, aquela ausência me bagunçava toda por dentro, queria o meu filho de volta, queria o seu olhar nos meus olhos, e esse desespero me fez algumas vezes gritar o seu nome, como se a histeria fosse capaz de emergi-lo das profundezas em que se encontrava. Tudo o que eu queria era ter forças para içar a âncora, mas nunca foi uma questão de força.

A falta da aceitação me empurrava para fora de uma realidade que eu não queria enfrentar, batia em portas de especialistas querendo respostas, soluções a curto prazo, e mais que isso, eu queria um culpado. Em casa as visitas foram minguando, sem festas, sem amigos e familiares. O choro era rotineiro, e eu já não reprimia a cabeça que batia insistentemente na parede; pelos corredores, eu fingia não ver os pés, que descalços, andavam atrapalhados pisando nas pontas, também fechava os olhos para os carrinhos virados, com as rodas girando para cima, e me controlava para não surtar com as gargalhadas que brotavam do nada. As severas perturbações do Espectro me definhavam.

***

Meses mais tarde engravidei novamente, não fora planejada, com a cabeça em outro mundo, eu não planejava mais nada, a contragosto suspendi o cigarro, hábito que havia retomado logo após a partida do Rafael, o que me deixou mais ansiosa, pois me privava dos cinco minutinhos de fuga, onde eu esvaziava a mente enquanto via a fumacinha se dissipar.

Os bebês nasceram sadios, mamavam “como se não houvesse amanhã”, queriam colo o dia inteiro, erguiam os braços para quem se aproximasse do berço, corriam pela sala, derrubavam e metiam tudo na boca. Apesar do desgaste, era um alivio perceber as diferenças entre eles e o irmão mais velho. As risadas retornaram ao nosso lar, contudo, os gritos do Rafa estavam presentes, assombrando, ecoando em minha mente.

A convivência foi ficando mais difícil, os gêmeos tomavam toda a minha atenção, o Bento precisou trabalhar fora, já que não havia mais tranquilidade para escrever seus romances em casa. Os objetos fora do lugar, os horários desregulados e a ausência do pai transformaram de vez o anjo em demônio. A quebra da rotina fez o Rafa regredir nas pequenas coisas que havíamos conseguido estabelecer. O barulho que as crianças faziam junto com todos os outros: o da televisão, o do chocalho, do cachorro que latia, o “tic-tac” do relógio pareciam reverberar em sua cabeça, e quando isso acontecia, ele se machucava, se mordia.  Alheio a tudo, rodava em torno de si com aqueles dedos nervosos que pareciam nunca se cansar. Bento me evitava, já não me buscava na cama, e eu cansada, tardei a perceber a falta de desejo do meu marido por mim, não o culpo, eu estava sempre queixosa, desgrenhada, sem brio, sem vigor. De repente não éramos mais um casal, só pessoas que dividiam o mesmo espaço, mas não os mesmos sonhos.

O matrimonio ruiu com as cobranças, de uma hora para outra, tínhamos mais defeitos que virtudes, ele não era mais o “cara” que me arrancava sorrisos bobos no meio da tarde, e eu já tinha perdido o viço da juventude, foi quando o Bento se engraçou por uma infame “blogueira” metida a “booktuber”.

Peguei os gêmeos e voltei para a casa da mamãe, voltar para a casa dos pais não é fácil, pior ainda é quando a bagagem inclui filhos. Deixei o Rafa com Bento, visitei-o poucas vezes, bem menos do que deveria e bem mais do que a vontade permitia. Numa dessas visitas percebi que as orelhas do meu filho estavam muito machucadas, nervoso, ele as puxava quando estava com fome, e estapeava o próprio rosto quando queria ser levado ao jardim, de modo que sempre estavam inchados e arroxeados, essa era uma das maneiras que usava para se comunicar, ferindo o próprio corpo. A ausência de estímulos era como uma jaula que alongava as suas barras, afastando-o do convívio social, aonde dia após dia, a humanidade do Rafa se perdia, abrindo passagem para um animal selvagem, coberto apenas por um tênue véu de civilização, cuja presença causava desconforto, dada a aparência descuidada e o comportamento indócil. Duas naturezas coabitavam um mesmo corpo; uma, silenciosa, com movimentos repetitivos; outra, bruta como um javali, uma fera contida por remédios. Ambas seguiam numa ascendente e letal inimizade, onde uma existia apenas para consumir a outra.

Foi nesse período que vi numa vitrine de loja um manequim vestido com um casaco, gorro e óculos de aviador, ele segurava uma maleta decorada com tachinhas, e da alça pendia uma corrente para ser puxada, imaginei que não daria muito certo por causa das rodinhas, temia que o Rafael fosse passar mais tempo girando as roldanas da maleta que olhando as borboletas no jardim. Mas eu comprei, e se ele não estivesse tão magro por causa do inquietante costume de comer só coisas pastosas – às vezes, nem parecia o mesmo menino que passava a mão no chão e lambia – o casaco não fecharia os botões.  Então, usei a roupa e os assessórios para estabelecer rotinas, dando mais uma forma de linguagem para ele mostrar, sem se machucar, o que queria. Colocava o gorro em sua cabeça, alisava as abas que desciam até o pescoço, e oferecia comida, o mesmo eu fazia com o casaco e os óculos de aviador, vestia-o, e íamos para o jardim, isso se repetiu por muitos finais de semana, mas depois que o pai levou uma outra mulher para debaixo dos lençóis que outrora me abrigaram, eu nunca mais voltei lá.  

Enterrei minha mãe, casei meus filhos, algumas vezes enganei a solidão com fracassadas aventuras amorosas, mas a verdade é que nenhum outro homem se encaixaria no espaço que tinha o tamanho certinho do Bento, mas isso, ele nunca ia saber, porque nem o AVC que me aprisionou nessa cama foi capaz de diminuir o meu orgulho. Depois do acidente vascular fiquei sob os cuidados de um Home Care, os gêmeos tinham família e carreira para cuidar, e eu, bem, eu tinha me tornado uma velha enferma, com a língua embolada e movimentos limitados – em companhia de uma enfermeira que estava ali para higienizar, medicar e alimentar o meu corpo e não para ouvir desabafos de uma escritora mal sucedida.

Até que comecei a receber as visitas do Rafa, o pai trazia pela manhã e o buscava à noite, Bento nunca subiu as escadas, o que me dava certo alivio não ser vista assim, no fundo queria vê-lo, só que o orgulho, ah… o orgulho, me fazia contar os passos na escada só para ter a certeza que era o Rafa quem subia mesmo,  porque desde que as visitas começaram, não houve uma só vez que faltasse o suspiro no último degrau – o de número treze –, mas hoje, o Rafa veio diferente, tinha uma maleta em sua mão esquerda, na direita, os  gomos da corrente que alisava para acalmar aqueles dedos sempre tão sinceros, dedos que não escondiam nenhum sentimento. A visão da mala rasgou a cortina da minha ignorância, foi como uma missiva endereçada ao meu entendimento. Depois de tantos anos pude compreender que não perdi uma criança para o autismo, perdi uma criança porque a que esperei nunca chegou a existir, e ali, reencontrei o meu primeiro filho.

Ele abriu a mala, tirou o gorro e o óculos de aviador, colocou-os em mim, pegou das mãos da enfermeira o meu desjejum, alimentou-me; depois em seus braços, desci as escadas e passamos a manhã olhando silenciosamente as borboletas no jardim.

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15 comentários em “Espectro (Temple Grandin)

  1. Evandro Furtado
    25 de maio de 2017

    Olá, autor. Sigamos com a avaliação. Trarei três aspectos que considero essenciais para o conto: Elementos de gênero (em que gênero literário o conto de encaixa e como ele trabalha/transgride/satiriza ele), Conteúdo (a história em si e como ela é construída) e Forma (a narrativa, a linguagem utilizada).

    EG: Drama. A atmosfera é sombria e triste, com a personagem principal servindo como esse fio condutor de melancolia. O conto passa perto de fazer chorar, bem perto mesmo, o que indica o bom trabalho realizado.

    C: A história, no começo, é confusa, mas, aos poucos, vai se desvelando e revelando seus significados. Os personagens vão se construindo. Essa é uma estrutura interessante adotada pelo autor. A impressão é de um quebra-cabeça sendo montado aos poucos.

    N: A narrativa adotada é formidável. A primeira pessoa foi a escolha perfeita, considerando que confere um caráter intimista e aproxima o leitor do drama da personagem-narradora, fazendo com que se penetre em suas dores e tristezas.

  2. Marco Aurélio Saraiva
    25 de maio de 2017

    Caramba… um conto profundo, que pede para ser lido com atenção. Trata de sentimentos muito fortes e muito humanos, difíceis de interpretar para quem nunca passou pelo que a personagem passou.

    ===TRAMA===

    Muito boa. Excelente, na verdade. Um verdadeiro drama; a jornada da mãe pela aceitação do filho autista, e o suplício eterno de quem tem que lidar com esta situação pelo resto da vida.

    Tudo foi muito bem colocado. Todos os detalhes foram narrados. O conto tem uma breve passagem de tempo: começamos no presente, vamos para o passado e encontramos a personagem de novo no presente, para enfim alcançar o final.

    No caminho, sentimos a angústia dela, seus sofrimentos, seus sentimentos e suas iluminações. Você fez muito bem em narrar estes sentimentos: enquanto lia, senti um certo vazio interior, como se toda a minha vida passasse rápido demais, e sem pontos altos o suficiente. Foi uma sensação estranha, que só um escritor que sabe o que está fazendo consegue inspirar nos seus leitores.

    A trama é bem fechadinha e sem pontas soltas. Parabéns!

    ===TÉCNICA===

    Sua técnica é linda. Parece que você estava realmente inspirado(a) na escrita deste conto, jogando nele uma parte da sua alma. Infelizmente, o texto também está um pouco confuso, com frases longas demais e alguns erros de digitação, mas quem presta a devida atenção vê o brilho escondido nestas linhas de difícil leitura.

    O início é muito arrastado, mas o meio engata e a leitura segue fluida.

    Achei MUITO confuso o sentimento de perda da mãe. O pensamento óbvio era que ela havia perdido o filho na morte, e que ela estava ficando louca, com a presença da alma penada do filho a atormentar-lhe o dia-a-dia. Não fosse a sua explicação no final, de que Rafa era, na verdade, autista, eu jamais teria pescado isso. Essa confusão é boa, no sentido de que você realmente passa o sentimento da personagem: para ela, o filho havia morrido. Ela cuidava agora de uma “coisa” que não lhe agradava, tomava todo o seu tempo e tornava a sua vida miserável. Mas confusão tem também o lado ruim, que é o problema que vem com qualquer leitor confuso: aposto que vai ter gente que não vai pescar esse detalhe, estragando toda a experiência da leitura.

    Por fim, a chegada à aceitação da personagem no final, como uma espécie de redenção, é muito boa, e dá vontade de chorar.

    ===SALDO===

    Muito positivo, mesmo com as falhas na revisão e a confusão proposital imposta ao leitor. Para mim, depois que entendi que Rafa não estava mesmo morto, o sentimento foi mais de “iluminação” do que de “raiva”.

    Parabéns pelo excelente conto!

  3. 25 de maio de 2017

    Bom

  4. Priscila Pereira
    25 de maio de 2017

    Oi Temple, que texto emocionante!!! A linguagem está poética e cheia de sentimentos. A estória é clara e os personagens​ são marcantes. Ótimo conto. Parabéns!!!

  5. Gustavo Castro Araujo
    25 de maio de 2017

    É um texto belíssimo, de uma sensibilidade ímpar. Chego a pensar se a autora passou por algo assim na realidade, ou se esteve próxima a alguém que viveu essa experiência. O que se observa é a vida da personagem narradora, com suas conquistas e desilusões, alguém cuja existência revelou-se sofrida, mas resignada, contente, ao fim, com o pouco que lhe restou. O enredo me lembrou muito do Khaled Hosseini (especialmente em “O Silêncio das Montanhas”), com a realidade por vezes cruel prevalecendo sobre tudo o que sonhamos. A verossimilhança é evidente e por isso o conto choca. Quem é pai ou mãe certamente há de se identificar com a trama, seja pelo fato de viver algo parecido ou pelo fato de temê-lo. É um texto, enfim, que fala ao coração e que por isso, talvez, termine por alijar certa parte do público leitor. De todo modo, digo que funcionou comigo, por abordar muito bem esse conflito de sentimentos, isto é, por explorar exemplarmente a psicologia da narradora.

    Bem apropriada, aliás, a alusão a Temple Grandin, a cientista acometida por Asperger e que se tornou referência na área de abate de animais, fielmente retratada no excelente filme de mesmo nome, protagonizado pela ótima Claire Danes.

    O único senão do conto é a pouca alusão que se faz à imagem do desafio. Dá para pensar que o texto já existia e que foi adaptado para se enquadrar na proposta. Nada contra essa estratégia (eu mesmo já fiz isso um par de vezes), mas aqui a menção ao homem e ao javali metafórico ficaram fora do contexto, ou melhor, poderia ter sido substituída por qualquer coisa sem que o fio da meada se perdesse.

    De todo modo, como eu disse, o conto é tocante e merece ser bem avaliado apesar da fuga ao tema.

    Parabéns!

    • Gustavo Castro Araujo
      25 de maio de 2017

      Só complementando… O final foi de arrebentar. E olha que eu sou experiente nessa área. Não se faz isso com os outros!! Suor nos olhos!

  6. Mariana
    25 de maio de 2017

    Eu sou a orgulhosa mãe do Max, um menino autista. O texto me fez chorar e, desculpa, eu não vou conseguir fazer um comentário imparcial ou não dizer o quanto de raiva e perturbação me causou essa mãe. Enfim… Apenas um erro eu percebi (assessórios). Você mexeu comigo.

    • Temple
      25 de maio de 2017

      Mariana, abraço da Temple!

  7. Andreza Araujo
    24 de maio de 2017

    Olá, autor(a)! O texto é muito belo e me deixou com os olhos cheios de lágrimas ao final. Contudo, achei o ritmo um pouco lento, mas não sei se havia outra forma de contar essa história, pois ela emociona exatamente porque conhecemos todos os seus detalhes através dos olhos da mãe.

    As cenas onde descreve o autismo são bem reais, chega a dar um nó na garganta. Entretanto… cadê a imagem do desafio? Ok, teve mala, roupa de aviador e corrente, mas cadê o cenário e o javali? O animal foi usado metaforicamente numa passagem do texto, mas não era a mesma cena da imagem…

    Usar a roupa para “conversar” com o filho foi genial, e o final quando Rafa volta e faz o mesmo com a mãe inválida é de arrepiar. Mas não dá pra deixar de fora que o desafio foi parcialmente atendido. Uma pena que isto tenha acontecido com um texto tão bom, pois serei obrigada a tirar alguns pontinhos. 😦

  8. Sick Mind
    24 de maio de 2017

    A frase de abertura não é ruim, mas ficou tão extensa que, quando cheguei a primeira vírgula, respirei fundo para continuar. A maioria dos parágrafos são recheados com uma quantidade grande de palavras para dizer coisas simples. Uns dez anos atrás, eu teria adorado ler algo tão longo, porém, já não sou esse leitor.

    Ter buscado não usar a imagem do tema do concurso de forma literal, foi a melhor parte do texto. Mas o javali… algo de simbólico a ele passou batido por mim, mas não é culpa do autor(a), sou eu que não presto para ler dramas tão apelativos.

    A revisão parece legal. Tem início, meio e fim. Mas esse realismo e essa vida em que personagens apenas se casam, tem filhos, são alegres ou tristes, me desanimou um bocado. O autismo foi o ponto de quebra da história, sem ele o texto não me passaria emoção alguma.

  9. angst447
    24 de maio de 2017

    Olá, autor, tudo bem?
    O título do conto é quase uma pegadinha. Ao ler espectro, já pensei logo em fantasma, o que não deixou de ser retratado na sua narrativa. No entanto, depois da leitura, pode-se fazer a associação com o O Transtorno do Espectro Autista (TEA), ou Autismo. E lá está o espectro de novo. Ainda segundo a Wikipédia,”no âmbito científico um espectro é uma representação das amplitudes ou intensidades.”Portanto, o título com apenas uma palavra revela mais complexidade do que imaginamos a princípio.
    O tema proposto pelo desafio foi abordado, embora o javali em si não tenha aparecido. Talvez em metáfora, sendo o filho idealizado pela mãe, Rafael (nome de anjo – Deus curou), relacionado a figura do javali (onde se esperava um porquinho, surgiu um estranho javali). O homem da mala também é Rafael. Um amplo espectro.
    O conto está bem escrito, com passagens que namoram a poesia e outras que nos levam à reflexão.Bom ritmo, leitura flui bem.
    o medo veio a superfície.> o medo veio à superfície.
    Boa sorte!

  10. Eduardo Selga
    24 de maio de 2017

    O pilar fundamental para a literatura de qualidade está presente neste conto, qual seja, a habilidade no trato com as palavras. Não falo do malabarismo vocabular, que a depender do modo como se usa é instrumento perfeitamente válido, e sim da sutileza ao explorar os sentidos dos vocábulos, construindo desse modo atmosferas.

    Falo especificamente da maneira como o personagem Rafael é demonstrado pela narradora-personagem. A partir de certo ponto, têm-se a sensação de que ele teria falecido logo após os dois anos de idade (“Tinha muitas coisas que eu queria ter vivido com o meu filho, mas logo depois dos dois anos o Rafa bateu suas asas e voou para longe, onde nem a nossa voz, nem o nosso abraço o alcançavam”). No entanto, próximo do fim descobrimos que o bater de asas e o voar para longe são figuras de linguagem para designar, ocultamente, o território inóspito do autismo. O que, ao fim e ao cabo, do ponto de vista da narradora-personagem, ela que idealiza tanto a maternidade, significa morte. Do filho e dela. E disso temos uma boa dimensão quando o(a) autor(a) usa frases como “[…] e me controlava para não surtar com as gargalhadas que brotavam do nada”, em que há a nítida sugestão de que a criança é um fantasma, ou, como no título, um espectro.

    Essa palavra (“espectro”), inclusive, merece atenção. Está grafada com inicial maiúscula e está posta numa frase que sugere seu sentido no campo da física (“as severas perturbações do Espectro me definhavam”). A maiúscula, por um lado, concede uma pessoalidade à palavra, como se nomeasse um sujeito (Rafael, portanto); por outro lado, como essa grafia não é usual, a menção a “severas pertubações do Espectro” nos encaminha à Física, tendo força para sugerir o seguinte: a personagem é afetada pelo ambiente, alterado pela saudade do menino “morto” pelo autismo.

    De maneira leve, mesmo porque é um assunto delicado a ponto de ser considerado tabu em nossa sociedade, o conto aborda um tema que, narrativamente, dá muito pano para manga: o desejo sexual envolvendo mãe e filho, como podemos ver em “[…] mas a verdade é que nenhum outro homem se encaixaria no espaço que tinha o tamanho certinho do Bento, mas isso, ele nunca ia saber […]”.

    Como o tema não é o objeto primeiro do conto, o espaço a ele concedido pareceu-me adequado. Entretanto, num futuro e possível tratamento a ser dado ao texto, sem as amarras da quantidade de palavras, se esse aspecto tiver maior destaque a narrativa terá muito a ganhar, pois está nítida a necessária habilidade do(a) autor(a) para realizar tal abordagem.

    Entendo que o trecho “[…] e eu pude observar traços de um rosto que me fizeram chorar nos escombros dos meus sonhos” está mal construído, não obstante gramaticalmente esteja correto. É que ME FIZERAM, por estar no plural, está se referindo a TRAÇOS, mas a proximidade de UM ROSTO junto a ME FIZERAM dá a sensação de que a ação de fazer no plural foi executada pelo rosto, no singular. Seria interessante reconstruir o trecho, de modo a eliminar a ambiguidade e sensação de erro.

  11. Ricardo Gnecco Falco
    22 de maio de 2017

    Olá autor/autora! 🙂
    Obrigado por me presentear com a sua criação,
    permitindo-me ampliar meus horizontes literários e,
    assim, favorecendo meu próprio crescimento enquanto
    criativa criatura criadora! Gratidão! 😉
    Seguindo a sugestão de nosso Anfitrião, moderador e
    administrador deste Certame, avaliarei seu trabalho — e
    todos os demais — conforme o mesmo padrão, que segue
    abaixo, ao final.
    Desde já, desejo-lhe boa sorte no Desafio e um longo e
    próspero caminhar nesta prazerosa ‘labuta’ que é a arte
    da escrita!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

    *************************************************
    Avaliação da Obra:

    – GRAMÁTICA
    Só senti falta de uma crase aqui: “…e o medo veio a superfície.”. De resto, não percebi nada que me ofuscasse a leitura além das lágrimas.

    – CRIATIVIDADE
    Não reside na história, mas sim na FORMA com que a história é contada. E também na adaptação da foto-tema do Certame, que utiliza-se do poético para adequar a história à imagem proposta.

    – ADEQUAÇÃO AO TEMA PROPOSTO
    100%. Não tem O cara da foto, ou A mala da foto, ou ainda O javali animal da foto. Mas trajes, mala e principalmente javali estão presentes na narrativa; de forma poética, porém válida. E até mais interessante justamente por fugir do óbvio. Já li uns trocentos contos em que o narrador fica descrevendo a MESMA imagem vista na foto do Certame… Poucos, raríssimos, foram os/as autores/ras que se permitiram quebrar aquelas correntes e se libertaram do óbvio. Parabéns para estes autores/as, como é o caso aqui! Irão todos ganhar um pontinho extra por este ato de coragem e liberdade poética! 😉

    – EMOÇÃO
    Pura. Diria até que em demasia… Mas o/a autor/a entende do riscado, não deixando o texto correr em momento algum para o perigoso lado do simples dramalhão. É uma história triste; fato. Mas uma história muito bem contada e o/a autor/a manteve por todo tempo o domínio da pena.

    – ENREDO
    Galera a rodo falando que o filho (o primeiro, o Rafa) morreu de verdade… Rs! Foi, é claro, o que eu pensei no início, quando o/a próprio/a autor/a queria que eu pensasse isso, dizendo apenas que o menino de dois anos havia sido levado para longe… (e no final a própria mãe reconhece que este corte foi realmente uma morte, simbólica). Depois, é até uma surpresa quando percebemos que o menino, na verdade, não morrera, mas sim iniciara os indícios de seu autismo. (novo parênteses: penso que nem seria necessária a afirmação posterior sobre o autismo, mas creio que o/a autor/a não quis arriscar um não entendimento disto por parte dos leitores — visto que até o fazendo ainda tem gente pensando que a criança havia morrido de fato). A condução da trama/história é muito bem executada e, não fosse o drama em demasia, teria ficado perfeita. Mas, algo me diz que o/a autor/a curte essa parte… 😉 Parabéns pelo trabalho!

    *************************************************

  12. Olisomar Pires
    21 de maio de 2017

    Tema: Adequação inexistente.

    Criatividade: normal. Criança autista com mãe desequilibrada pelo fato, e que o abandona vivo, se enche de remorsos e auto-piedade.

    Enredo: estilo poético, numa linha de tristeza e loucura crescente. As partes do texto se conectam, está bem conduzido, embora os primeiros parágrafos sejam muito lentos.

    Escrita: Não notei erros. O lirismo está presente forçando a emoção.

    Infelizmente, para mim, não funcionou. É um bom texto, com carga dramática, mas um tanto excessivo, meio forçado.

    Impacto: baixo.

    O jeito dramalhão não se justifica relatado em primeira pessoa, talvez se estivesse em 3ª pessoa não onisciente o impacto poderia ter sido maior.

    Boa sorte.

  13. Lucas F. Maziero (@lfmlucas)
    20 de maio de 2017

    As ideias deste conto estão mal distintas. Creio que houve falha na adequação da figura do homem e do javali.

    E também, o marido não desconfiava que a ex-esposa visitava o filho morto?

    Chegando ao final, eu já não sabia se o Rafa era o javali ou o homem com os óculos de aviador.

    No entanto, no que concerne à escrita, nada do que reclamar.

    Parabéns!

    P.S.: É só a opinião de um leitor. O que eu achei deste conto não tira nem acrescenta o valor que ele tem ou que merece. Um abraço.

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.