EntreContos

Literatura que desafia.

Espectro (Lee Rodrigues)

O ranger da madeira velha reclamava os passos pesados nos longos degraus da escada, a subida era sem pressa, como se quem subisse estivesse em dúvida se o faria ou não, ouvia-se um longo suspiro no último degrau, o de número treze – sim, eu contava –, contava um após outro, sempre no mesmo horário, com o mesmo espaço de tempo.  

Inerte, apoiado ao umbral da porta, olhava-me sem piscar, um olhar que embora estivesse fito em minha direção, atravessava-me perdido na atmosfera nostálgica que circundava o ambiente.

Os dias se arrastavam com o meu corpo preso à cama, lento, sem vontade, virando as estações apenas pela ordem natural dos ciclos, onde metodicamente o amanhecer  destravava o ferrolho das janelas  e de leve o vento assanhava as cortinas em finas ondas sobre a vidraça. Mas hoje, o sol não iluminou apenas o quarto, e eu pude observar traços de um rosto que me fizeram chorar nos escombros dos meus sonhos. A barba já grisalha no queixo escondia a cova pequena, mas eu sabia que estava lá, assim como também sabia a causa da magreza que andava disfarçada por um sobretudo. Mas foi o pousar da mala, e o brilho dos gomos polidos de uma corrente pesada que me fizeram ter a certeza que a hora havia chegado, e o medo veio a superfície.

***

Não ganhei da vida, mas aprendi bons bocados com ela, porque a cada rasteira, a mesma me dava ferramentas para reerguer-me, e apesar de todas as desvalias, não imaginei, nem por um momento de reflexão qualquer, que um dia estaria aqui, com a vida nas mãos daquele que há quarenta anos me enlutou, sim, eu não fui à luta, permaneci com o peso dos trajes sombrios que devoraram minha lucidez por um longo período, e essa aproximação foi como o remover de uma lápide, veio numa lufada quente de lembranças, de momentos empoeirados, camuflados numa semente envelhecida, cuja sombra da mais ínfima nuvem seria capaz de  trincar a casca na ameaça de brotar.  A emoção afluente desaguou nos olhos e abriu caminhos úmidos na sequidão do meu ser, encharcando o peito com a saudade de quando o meu corpo era desejado, dos bailes, namoros e planos…                                                                                                                                                    

Fui a noiva mais linda de Moema, um casamento planejado, uma casa escolhida a dedo e depois de anos de união, a decisão mais importante: ter um filho. E eu amei desfilar com aquele barrigão, fui a todas às consultas de pré-natal, atravessamos quarenta semanas de gestação vendo exames, ultrassons e ouvindo que estava tudo bem. Escolhemos cada detalhe do enxoval, pintura, berço, roupinhas, brinquedos e sonhos, sonhávamos mesmo antes de dormir, imaginávamos o rostinho, os dedos, a cor dos olhos, onde estudaria…

Na manhã em que Bento, com o rosto encostado na minha barriga, sentiu pela primeira vez nosso filho mexer, não sossegou até encontrar uma camisa diminuta do São Paulo, dizia que seu filho teria nome de anjo e seria pé quente – ao contrário do pai.  A criança nem tinha nascido e já tínhamos todo um futuro idealizado, ele iria muito mais além do que teríamos conquistado como escritores.

***

A chegada do bebê foi festejada por toda a família, o cheiro de lavanda que inundava a casa perfumou os melhores momentos da minha vida, foi um divisor de águas, eu estava vivendo a plenitude da maternidade, completamente entregue a um serzinho que ainda nem reconhecia o som da nossa voz, mas que já tinha se tornado o centro do universo.  Aguardamos ansiosamente por todas aquelas fases que os bebês passam, a primeira mamada, ficar firme no colo, o primeiro sorriso, o sentar sozinho, começar a engatinhar, os primeiros passinhos, e é claro, ouvir o primeiro “mamãe” e “papai”.

O fato do bebê não sugar o seio não trazia preocupação, na verdade, eu tinha medo que ficassem flácidos, então tratei de oferecer um “mingauzinho de panela” feito com muito amor. Quando dava a mamadeira e o acalentava em meu colo, lembro que cheirava o cabelinho e tinha vontade de guardar aquele aroma num potinho.  Rafael era uma criança tranquila, não chorava para comer, não fazia “birra” para sair do berço e eu me exibia dizendo que sabia bem como cuidar de uma criança.

Tinha muitas coisas que eu queria ter vivido com o meu filho, mas logo depois dos dois anos o Rafa bateu suas asas e voou para longe, onde nem a nossa voz, nem o nosso abraço o alcançavam. Eu não soube administrar o sentimento de perda, aquela ausência me bagunçava toda por dentro, queria o meu filho de volta, queria o seu olhar nos meus olhos, e esse desespero me fez algumas vezes gritar o seu nome, como se a histeria fosse capaz de emergi-lo das profundezas em que se encontrava. Tudo o que eu queria era ter forças para içar a âncora, mas nunca foi uma questão de força.

A falta da aceitação me empurrava para fora de uma realidade que eu não queria enfrentar, batia em portas de especialistas querendo respostas, soluções a curto prazo, e mais que isso, eu queria um culpado. Em casa as visitas foram minguando, sem festas, sem amigos e familiares. O choro era rotineiro, e eu já não reprimia a cabeça que batia insistentemente na parede; pelos corredores, eu fingia não ver os pés, que descalços, andavam atrapalhados pisando nas pontas, também fechava os olhos para os carrinhos virados, com as rodas girando para cima, e me controlava para não surtar com as gargalhadas que brotavam do nada. As severas perturbações do Espectro me definhavam.

***

Meses mais tarde engravidei novamente, não fora planejada, com a cabeça em outro mundo, eu não planejava mais nada, a contragosto suspendi o cigarro, hábito que havia retomado logo após a partida do Rafael, o que me deixou mais ansiosa, pois me privava dos cinco minutinhos de fuga, onde eu esvaziava a mente enquanto via a fumacinha se dissipar.

Os bebês nasceram sadios, mamavam “como se não houvesse amanhã”, queriam colo o dia inteiro, erguiam os braços para quem se aproximasse do berço, corriam pela sala, derrubavam e metiam tudo na boca. Apesar do desgaste, era um alivio perceber as diferenças entre eles e o irmão mais velho. As risadas retornaram ao nosso lar, contudo, os gritos do Rafa estavam presentes, assombrando, ecoando em minha mente.

A convivência foi ficando mais difícil, os gêmeos tomavam toda a minha atenção, o Bento precisou trabalhar fora, já que não havia mais tranquilidade para escrever seus romances em casa. Os objetos fora do lugar, os horários desregulados e a ausência do pai transformaram de vez o anjo em demônio. A quebra da rotina fez o Rafa regredir nas pequenas coisas que havíamos conseguido estabelecer. O barulho que as crianças faziam junto com todos os outros: o da televisão, o do chocalho, do cachorro que latia, o “tic-tac” do relógio pareciam reverberar em sua cabeça, e quando isso acontecia, ele se machucava, se mordia.  Alheio a tudo, rodava em torno de si com aqueles dedos nervosos que pareciam nunca se cansar. Bento me evitava, já não me buscava na cama, e eu cansada, tardei a perceber a falta de desejo do meu marido por mim, não o culpo, eu estava sempre queixosa, desgrenhada, sem brio, sem vigor. De repente não éramos mais um casal, só pessoas que dividiam o mesmo espaço, mas não os mesmos sonhos.

O matrimonio ruiu com as cobranças, de uma hora para outra, tínhamos mais defeitos que virtudes, ele não era mais o “cara” que me arrancava sorrisos bobos no meio da tarde, e eu já tinha perdido o viço da juventude, foi quando o Bento se engraçou por uma infame “blogueira” metida a “booktuber”.

Peguei os gêmeos e voltei para a casa da mamãe, voltar para a casa dos pais não é fácil, pior ainda é quando a bagagem inclui filhos. Deixei o Rafa com Bento, visitei-o poucas vezes, bem menos do que deveria e bem mais do que a vontade permitia. Numa dessas visitas percebi que as orelhas do meu filho estavam muito machucadas, nervoso, ele as puxava quando estava com fome, e estapeava o próprio rosto quando queria ser levado ao jardim, de modo que sempre estavam inchados e arroxeados, essa era uma das maneiras que usava para se comunicar, ferindo o próprio corpo. A ausência de estímulos era como uma jaula que alongava as suas barras, afastando-o do convívio social, aonde dia após dia, a humanidade do Rafa se perdia, abrindo passagem para um animal selvagem, coberto apenas por um tênue véu de civilização, cuja presença causava desconforto, dada a aparência descuidada e o comportamento indócil. Duas naturezas coabitavam um mesmo corpo; uma, silenciosa, com movimentos repetitivos; outra, bruta como um javali, uma fera contida por remédios. Ambas seguiam numa ascendente e letal inimizade, onde uma existia apenas para consumir a outra.

Foi nesse período que vi numa vitrine de loja um manequim vestido com um casaco, gorro e óculos de aviador, ele segurava uma maleta decorada com tachinhas, e da alça pendia uma corrente para ser puxada, imaginei que não daria muito certo por causa das rodinhas, temia que o Rafael fosse passar mais tempo girando as roldanas da maleta que olhando as borboletas no jardim. Mas eu comprei, e se ele não estivesse tão magro por causa do inquietante costume de comer só coisas pastosas – às vezes, nem parecia o mesmo menino que passava a mão no chão e lambia – o casaco não fecharia os botões.  Então, usei a roupa e os assessórios para estabelecer rotinas, dando mais uma forma de linguagem para ele mostrar, sem se machucar, o que queria. Colocava o gorro em sua cabeça, alisava as abas que desciam até o pescoço, e oferecia comida, o mesmo eu fazia com o casaco e os óculos de aviador, vestia-o, e íamos para o jardim, isso se repetiu por muitos finais de semana, mas depois que o pai levou uma outra mulher para debaixo dos lençóis que outrora me abrigaram, eu nunca mais voltei lá.  

Enterrei minha mãe, casei meus filhos, algumas vezes enganei a solidão com fracassadas aventuras amorosas, mas a verdade é que nenhum outro homem se encaixaria no espaço que tinha o tamanho certinho do Bento, mas isso, ele nunca ia saber, porque nem o AVC que me aprisionou nessa cama foi capaz de diminuir o meu orgulho. Depois do acidente vascular fiquei sob os cuidados de um Home Care, os gêmeos tinham família e carreira para cuidar, e eu, bem, eu tinha me tornado uma velha enferma, com a língua embolada e movimentos limitados – em companhia de uma enfermeira que estava ali para higienizar, medicar e alimentar o meu corpo e não para ouvir desabafos de uma escritora mal sucedida.

Até que comecei a receber as visitas do Rafa, o pai trazia pela manhã e o buscava à noite, Bento nunca subiu as escadas, o que me dava certo alivio não ser vista assim, no fundo queria vê-lo, só que o orgulho, ah… o orgulho, me fazia contar os passos na escada só para ter a certeza que era o Rafa quem subia mesmo,  porque desde que as visitas começaram, não houve uma só vez que faltasse o suspiro no último degrau – o de número treze –, mas hoje, o Rafa veio diferente, tinha uma maleta em sua mão esquerda, na direita, os  gomos da corrente que alisava para acalmar aqueles dedos sempre tão sinceros, dedos que não escondiam nenhum sentimento. A visão da mala rasgou a cortina da minha ignorância, foi como uma missiva endereçada ao meu entendimento. Depois de tantos anos pude compreender que não perdi uma criança para o autismo, perdi uma criança porque a que esperei nunca chegou a existir, e ali, reencontrei o meu primeiro filho.

Ele abriu a mala, tirou o gorro e o óculos de aviador, colocou-os em mim, pegou das mãos da enfermeira o meu desjejum, alimentou-me; depois em seus braços, desci as escadas e passamos a manhã olhando silenciosamente as borboletas no jardim.

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56 comentários em “Espectro (Lee Rodrigues)

  1. Wilson Barros
    23 de junho de 2017

    O estilo é aquele Machadiano, das memórias póstumas, que mais tarde foi retomado por Murilo Rubião mas inova ao alongar os parágrafos em trechos separados por vírgulas, o que desloca o conto da simples prosa para a prosa poética, artística. Já vi recurso parecido no clássico de Manuel Puig, “O Beijo da Mulher Aranha”. O conto tem momentos líricos, singelos, meigos, enternecedores, adoráveis A questão do autismo foi descrita de uma forma marcante, profunda. Um conto muito bom.

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .