EntreContos

Literatura que desafia.

Eleutério e o Garrafão (Zélindo)

Da pequena Jequitinhonha, no cocuruto das Minas Gerais, nasceu um Eleutério – primeira cria entre cinco que haveriam de vir. Como primogênito, esperava-se muito dele: que carregasse o legado de lavrador do pai, que cuidasse dos irmãos miúdos para a mãe, que separasse o feijão, que não se embriagasse nas segundas-feiras – mas, fosse o clamor insaciável, que não se esquecesse de sorver um gole ao santo. E de uma frase-vida tão sibilante, Eleutério formou-se humano.

Eleutério, vulgo Leléu, foi meu fiel amigo da adolescência até o acinzentar das têmporas. É triste que ele tenha encontrado seu fim no fundo de uma garrafa. Não tenho vergonha de admitir que chorei verdadeiramente sua morte e bebi por ele durante sete dias de luto. De qualquer forma, tal fim me trouxe à lembrança um dos causos que ele mais gostava de contar…

Entre tantos carnavais que atormentamos juntos, houve um específico em que meu amigo não deu as caras. Eleutério desapareceu na sexta-feira e só veio dar o ar da graça no boteco do Tuca na noite da quarta de cinzas, maltrapilho e envergonhado.

– Que é que houve, homem? – eu perguntei.

– Sabe, Zé… – e ele tinha a mania de entrecortar as frases bebericando sua cerveja – acho que esse carnaval foi o pior que eu já passei.

– Pior que o do ano passado?

– Pior, Zé, bem pior –  o copo suando na mão.

– Pior que virar sábado e domingo na cadeia?

– Pois é, pior. Cê sabe que eu tinha uma vontade danada de conhecer a Bahia?

– Sei.

– Cê sabe também que minha tia-avó tem pacto com o Demo, não sabe?

– Vai me falar que foi fuçar com ela outra vez?!

– Fui, Zé. – sua expressão era de legítimo arrependimento.

– Mas Leléu…

– Deixa eu continuar. Eu fui na Vó Binha, falei com ela que queria ir pra Bahia, mas não tinha dinheiro. Aí, ela disse que eu podia arrumar um Famaliá pra me ajudar, mas que eu tinha que fazer tudo certinho do jeito que ela falasse.

– Deus o livre, homem.

– Falasse antes. Vó Binha me passou uma receita da boa. O que lascou foi que eu não tinha o que precisava, aí tentei improvisar…

Naquele momento eu já não parava de me benzer, passava do sexto ou sétimo sinal da cruz, então ele continuou:

– Tinha que arrumar uma garrafa de vidro e um ovo de galinha preta, mas o Tuca não quis me emprestar um casco. Em casa eu só tinha garrafão de vinho e uma caixa de ovinho de codorna, então teve que servir.

– Com ovinho de codorna o Cramulhão ia subir de pronto mesmo – não consegui guardar a piada, nem Leléu o riso.

– Cê nem sabe. Botei um ovinho dentro do garrafão, tampei e deixei pousar à noite no pé da goiabeira lá de casa. Fui ver no outro dia, acredita que a garrafa tava vazia?

– Alguém mexeu no despacho?

– Que nada. Quando eu abaixei pra pegar o garrafão, vi que tinha uma coisa esquisita no fundo, igual sombra, só que sem sombra.

– Sombra sem sombra?

– É, é. Aí eu chacoalhei pra ver se mexia.

– E mexeu?

– Não reparei, quase me borrei de susto nessa hora. Ela falou comigo assim…

– A sombra?

– Não, Zé, a moça que tava dependurada na goiabeira. Ela falou: “Não chacoalha, maldito, que isso me enjoa o estômago.”.

– Moça, Leléu?

– E bonita pra dar com pau.

– Mas de onde que a danada saiu.

– Não saiu, ela ainda tava na garrafa, só que o corpo ficava de fora.

– Então a moça era um Cramulhão?

– Antes fosse uma capetinha meia estopa qualquer. A moça era o Bixo em pessoa.

– Valei-me, Santo Expedito! O Diabo é mulher?

– Não é que é.

– Até faz sentido, Leléu, minha patroa quando quer…

– É. Deixa ela ouvir, cê vai ver onde param seus tomates. Onde eu tava?

– Na goiabeira.

– Ah, é. Não. Ela que tava na goiabeira, Zé. Começou a explicar um monte de coisa difícil, parecia advogada falando. No fim das contas, Ela ia me levar pra Bahia e me trazer de volta na quarta se eu levasse o garrafão comigo.

– E levou?

– Ô, se levou.

– Mas o acordo nem foi tão ruim, então.

– Pois é, o trato foi bom, a viajem foi boa, o carnaval nem se fala, mas teve uma coisa que me deixou triste: no meio daquela muvuca danada tinha uma baianinha jeitosa de fazer gosto.

– Se enrabichou nela?

– Foi. Passei a festança inteira com ela.

– Quem diria, Leléu, cê não é disso.

– Não era, mas a danada me ganhou.

– Ainda não entendi. Por que a tristeza, então?

– Porque eu não queria voltar – Eleutério tinha mesmo o olhar sofrido dos amantes separados.

– Se gostou tanto da gaiata, por que voltou?

– O contrato era pra Lúcifer me levar e trazer de novo, esse tipo de coisa é sagrada.

– E a Diaba quer lá saber do que é sagrado?

– Uai, sagrado é sagrado, só muda o tratante. Acho que até Ela queria ficar mais, disse que tava tirando umas ideias boas dali, mas sabe como é.

– Mas já que a gente tá falando Dela, que foi que a Pata-Rachada ficou fazendo esse tempo todo?

– Olha, Zé, eu só sei o que Ela me contou na volta – pelo ar de riso no rosto de Eleutério, eu podia prever uma galhofa das boas, mas não sabia ainda o tamanho do disparate -, parece que Ela andou furunfando com uns baianos bons de muque por lá.

– Eita…

– Pois é, o pior é que engravidou.

– A Diaba embuchou?

– Embuchou os baianos.

– Igual cavalo marinho?!!!

– Pois é.

– E agora, como faz?

– Daqui a nove meses a gente vai ter história, pelo menos uns quatro anticristos.

– Conta outra, Leléu, vão sair por onde essas crianças?

– Isso Ela não disse, nem eu quis ficar perguntando.

Tive que beber muito para afogar aquela imagem, mas o causo ainda tinha uma ponta solta importante:

– E o que foi feito da Lúcifer no final das contas?

– Uai, eu tirei a rolha do garrafão e Ela foi embora.

– Sem remorso? Cê podia ficar rico nas custas da Coisa-Ruim.

– Nada, Zé. Liberdade a gente não deve tirar de ninguém. No fim, eu até fiquei com dó Dela. Não é nada do que pintam, me rendeu umas boas risadas.

– Cê vai acabar indo pro Inferno blasfemando desse jeito, homem.

– Se eu for, melhor ser amigo da dona.

E assim ele terminava.

Muitos anos se passaram desde aquele carnaval. Nenhum anticristo veio ao mundo, muito menos à Bahia. Isso não impediu Eleutério de recontar seu causo a cada roda de amigos que reunimos tantas vezes. Sejamos sinceros, eu sempre soube que aquilo era uma tremenda lorota. Meu amigo me deixou para trás, caiu na farra sozinho e, agora que partiu, eu nunca saberei por quê. Na quarta-feira de cinzas ele estava lá, entretanto, tão arrependido que precisou inventar a maior das histórias para se justificar.

Eleutério era um grande mentiroso, mas sabia ser amigo de verdade.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.