EntreContos

Literatura que desafia.

Vodun – Conto (Eduardo Selga)

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O giz percorrendo os feltros. Uma vida a fio esboçando corpo, boca, olhos. À tesoura seguiram-se os primeiros alinhavos com a mesma agulha que a maresia do tempo enferrujou. Logo depois, paina e trapos necessários ao enchimento. Quase riu de verdade quando mentalmente associou os trapos às tripas de um corpo. Mas não se deixou ir: voltou, compenetrada; percebera o tempo decorria, impregnado. Portanto, cautela.

A boneca estava até bonita, apesar do braço direito pendurado porque vazio. Pela sua estratégia, aquela parte do corpo seria a última, por ali empurrava os derradeiros tufos de enchimento para que fosse possível encerrar o corpo. Poderia ter usado a Singer, há anos abandonada e costurando teias e poeiras, macambúzia em seu canto mudo. Melhor não, porém. Sentia necessidade de sofrer completas as dores propriamente ditas, alinhavo por alinhavo e antes do momento aprazado. De-mo-ra-da-men-te. Relembrando as imagens, a princípio baças, sépias, do que um dia fora.

À medida que as antropomorfias do feltro recortado passaram a ganhar volume, os motivos de sua dor foram ficando mais nítidos, adquirindo cores e panos de fundo. Silenciosamente, aproximaram-se os velhos sons de lamentos; dos orgasmos manufaturados a dedo, quando os amores se esquivaram; o grito por descobrir matara seu irmão mais velho com um disparo que deveria apenas assustá-lo, fazê-lo sair de cima, poça de sangue na cama.

O passado, aos poucos, aumentou seus tons de vozes, viajou no tempo e se aproximou perigoso do cais que se chama presente. Uivou, cadáver que se desenterra a si mesmo e busca reviver, num outro tempo.

Atracou no ar a mão direita, e nela a agulha puxando a linha retesada era uma âncora ainda não ao mar, agulha pronta para a última mordida no feltro. Sua história por alguns segundos fundeou. E o silêncio se fez. Olhou em torno para ter certeza de que realmente estava sozinha naquele alto-mar, a sala. Mas quase podia sentir na pele a respiração do seu fantasma presente.

Isso tudo foi ontem. Hoje a mão direita desancora aos poucos, sai da paralisia de regente de orquestra que repentino desistisse do movimento. A agulha fecha de vez a boneca, a ferida aberta, como quem ultima um cadáver para o velório. Ato contínuo, tira do bolso uma fotografia sua de quando aos vinte anos feliz. Decepa. Pacientemente. Ao pegar a cabeça entre o indicador e o polegar, já sente leve vertigem, antegozo. Costura o membro na boneca. Agora sim, pode ser infeliz por completo.

Abdômen, coração, pernas, virilha, virilha, pernas, coração, abdômen: perfura-se, raivosa, aleatória, representada que está pela boneca de feltro. Sucessivas agulhadas, e dores deliciosas, coloridas, um sofrimento que nunca conseguira sentir antes.

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8 comentários em “Vodun – Conto (Eduardo Selga)

  1. Fil Felix
    11 de julho de 2017

    Um conto curto, que descreve um momento certeiro na vida de alguém. Alguém que vai se costurando, se construindo, se lembrando, surgindo para o leitor aos poucos, linha por linha. Visualmente muito bonito. Retrata a questão de se auto-conhecer, principalmente por ser um trabalho manual, que envolve força e maior entrosamento com a criação do que se feita por uma máquina, no caso a Singer. Ela se autoflagelar ao final remete à características depressivas. Se no conto ela utiliza da boneca de vodu, na vida real há pessoas que se machucam diretamente, a fim de se sentirem menos culpadas ou como punição.

    Um outro ponto que me chamou a atenção foi a utilização da foto para a boneca e em como essa prática é super alegórica. Isso reforça o quanto damos atenção à imagem. As vezes temos dificuldade em entender como certas culturas cultuavam a Imagem, davam forças aos desenhos, como as pinturas rupestres eram a própria caça, não apenas representações. Mas mesmo mesmo hoje, ainda damos a mesma força para elas, que surgem de outras formas (memes?). Como pegar a foto do rosto de alguém querido e furar seus olhos, gerando desconforto.

    Gramaticamente, tive uma sensação semelhante ao ler o conto do Llano do Juan Rulfo. Há algumas passagens como “e nela a agulha puxando a linha retesada era uma âncora ainda não ao mar”, o costume faz a gente procurar palavras onde não precisariam ter.

  2. Daniel
    10 de julho de 2017

    Estou escrevendo alguns contos. Ficaria muito feliz em ter o feedback dos apaixonados por leitura como eu.

    https://amostrasdetextos.blogspot.com.br/

    • EntreContos
      10 de julho de 2017

      Que tal começar comentando os contos de outros autores?

  3. Olisomar Pires
    3 de março de 2017

    Muito bom. Mesmo.

  4. Priscila Pereira
    7 de fevereiro de 2017

    Oi Eduardo, lendo o seu conto, me senti montando a boneca também. Cada pedaço dela nos mostra um pouco da história. Senti a amargura da personagem, querendo sofrer, mas não achando que o sofrimento fisico seria o suficiente, buscando assim um meio mais espiritual. Gostei bastante do modo como você desenvolveu os sentimentos da personagem. Parabéns!!

  5. Tamires de Carvalho
    1 de fevereiro de 2017

    Que lindo conto! Repleto de sentimento, curto, porém profundo. Parabéns!

  6. Ricardo Labuto Gondim
    1 de fevereiro de 2017

    Magistral.

  7. Marco Aurélio Saraiva
    1 de fevereiro de 2017

    Uau. Quando leio Selga me sinto lendo um clássico da literatura brasileira; como se as aulas de literatura e história nas escolas citassem Eduardo Selga como um dos autores importantes de época. rs rs.

    Esse conto tem tanto sentimento que fica difícil descrevê-lo. Há muito sofrimento, arrependimento e raiva. Há também reflexão.

    Conforme a costureira termina a boneca eu, como leitor, vou conhecendo a sua história. É como se a boneca fosse a sua história, que ela fazia questão de tecer com as próprias mãos. Ela pensa em usar a máquina de costura, mas desiste: como se insistisse em admitir que os seus erros eram mesmo SEUS, e não culpa de um destino ou qualquer coisa que valha. Quando por fim ela termina a boneca, eu, o leitor, também termino de conhecê-la. Então ela revela que a boneca era realmente ela e, no final, fere a si mesma.

    Arrependimento? Ódio de si mesma? Acho que de tudo um pouco.

    Um texto muito bom de ler e reler!

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado às 1 de fevereiro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .