EntreContos

Literatura que desafia.

TOC – Conto (Remisson Aniceto)

O Paulinho virá nesta sexta-feira e vai ficar aqui em casa até domingo  – disse-lhe a esposa. — Serão dois dias de curso.

O sobrinho do casal morava no interior e faria na capital um curso rápido de informática, pago pela empresa, para facilitar o desempenho no seu primeiro trabalho.

— Quer dizer então que ele tem esta tal baboseira de TOC? Cada coisa que essa juventude de hoje inventa… é falta do que fazer…

— Não caçoe – irrita-se a mulher.  — O TOC é um distúrbio importante e sério que precisa de tratamento e ninguém tem isto porque quer ou porque gosta. Até você tem uns traços deste transtorno e vem falar dos outros… Ou  acha que é normal comer exatamente 110 unidades de bolacha maria todo mês, divididas entre o café da manhã e da tarde, e somente nos dias em que trabalha? Pegue ali aquele livro de medicina, leia e deixe de ser ignorante, homem! –  e a mulher sai pra cozinha, resmungando.

O homem, assim que ela fecha a porta, vai até a estante, volta para o sofá com o livro, procura o índice com a letra T e, à medida que vai lendo, preocupa-se. “Será que é assim mesmo? Então todos nós temos esse negócio, que se manifesta de várias formas? Todos, menos eu”, pensa.

Sua esposa já havia explicado  – mas ele nem lhe dera atenção – que o Paulinho  tinha o exagerado hábito  de arrumar as coisas, deixando os tênis (que limpava e relimpava à mínima sujeira) milimetricamente dispostos na sapateira, com os cadarços amarrados com as pontas exatamente do mesmo tamanho; as camisas e as calças no guarda-roupas também, se a mãe  não as deixasse na ordem tamanho e de cores, lá ia ele reclamar depois de ajustá-las; a comida devia ser colocada no prato sempre do mesmo jeito: feijão deste lado, arroz daquele, carne neste canto… Estas eram algumas das diversas manifestações do TOC no rapaz, cujas “manias certinhas” a mãe via afetar seu relacionamento na escola, com os amigos, com a namorada… e agora provavelmente no trabalho. Ele também tinha pavor de cemitérios, mudava até seu percurso se houvesse um no seu caminho e, creiam, acreditava que sofreria um acidente se usasse roupas de cor verde (até as meias e cuecas que ficavam escondidas).

Estudos comprovam que a  situação agrava-se quando o portador do TOC age com agressividade, partindo para o crime, o roubo, a violência, levado pelas imagens e desejos recorrentes, contra a sua vontade. Muitas vezes demora-se para perceber o TOC ou então nem se nota este mal, atribuindo o comportamento a outros distúrbios. O tratamento médico é imprescindível.

Naquele fim de semana o homem conversou bastante com o Paulinho, e olhava-o com a máxima atenção, sem contudo tocar no assunto do TOC com ele –  seguindo recomendação da sua esposa. E então foi descobrindo que, só observando bem, é possível notar as características de quem passa por isto, afetando a pessoa até na forma de sentar, de falar, de se vestir.

“Ainda bem que estou livre disto”, pensou quando ia dormir, depois de refletir bastante sobre o assunto. Dormiu, sonhou e despertou pensando no TOC.

Na segunda-feira o contador, que era encarregado do departamento financeiro de uma grande empresa, quando ia para o trabalho  voltou do corredor do prédio e entrou no apartamento para conferir se havia desligado o ferro de passar; saiu depois de girar a chave na fechadura nos dois sentidos três vezes; retornou da porta da rua mais duas vezes, a primeira para se certificar de que apagara a chama do fogão depois de ter feito o café há mais de meia hora, a segunda para tirar de vez a dúvida sobre o ferro de passar.

Diante da demora do ônibus, ele impacienta-se. “O ônibus virá depois de passarem 20 carros… um, dois, três, quatro, cinco… vinte e quatro… epa!, perdi a conta, passei dos vinte… vou recomeçar… um, dois… quinze…” Uma senhora chega ao ponto e ele se perde outra vez na contagem. “Melhor eu fazer diferente: o ônibus virá depois que o semáforo fechar e abrir cinco vezes”.

E finalmente lá foi ele no ônibus, agora contabilizando todos os imóveis pelo itinerário – casas, lojas, prédios, estacionamentos, lotes vazios. “Todos os imóveis que houver até o ponto onde vou desembarcar serão meus. Minha família inteira e meus amigos  terão onde morar, os demais alugarei para viver de renda”. Decidiu também registrar todas as árvores, grandes e pequenas, que encontrava pelo caminho.

No escritório, calculou que  das 8h até ao meio-dia o telefone tocaria 100 vezes e, se chegasse a este número antes da hora prevista, desligaria o aparelho. Ligou para o ramal de um subordinado:

— Carlos, bom dia. Por favor, traga até a minha sala, em vinte segundos (e frisava mudando o tom da voz os vinte segundos), aquela minuta de ontem.

Soltou todos os seus cachorros sobre o pobre funcionário quando este chegou com o documento 28 segundos depois de solicitado. No restaurante, pediu um prato de macarronada com almôndegas ao molho e assim que sentou começou a contar até 200 enquanto  não  era servido; chegou aos 130 e pensando que 200 seriam insuficientes, foi diminuindo lentamente o ritmo até parcelar cada número: cento e setenta e sete e meio… cento e noventa e oito vírgula vinte e cinco…”

— Duzentos! – gritou, assustando alguns clientes que almoçavam e saiu do restaurante às pressas, irritado com tanta incompetência do cozinheiro e do garçom. Naquela última segunda-feira  de fevereiro bissexto,  mês em que faltou um dia ao trabalho,  ele não almoçou, contentando-se com uma xícara e meia de café e dois biscoitos ponto setenta e cinco; a metade da cota diária dos cinco biscoitos e meio para vinte dias trabalhados ele havia comido no café da manhã. Na sua gigantesca agenda, lá na seção Biscoitos, via-se anotado em cada mês: 110  ÷ dias trabalhados no mês ÷ 2 (m e t) = x bolachas. M e t representavam manhã e tarde. Só mesmo ele para entender as equações que representavam as bolachas fracionadas, como quando tirava quinze dias de  férias ou ficava afastado por doença uma semana. Menos dias trabalhados, menos bolachas comidas.

Depois daquele intenso dia de trabalho, saiu do escritório, voltou, a luz estava apagada, saiu, voltou, a porta estava mesmo fechada à chave, pegou o ônibus. Sacando do bolso papel e caneta, começou a contar todos os passageiros, sentados 44  e em pé 35 (inclusive ele), 79 sem  o cobrador e o motorista. Ônibus quase lotado àquela hora de pico no fim do dia.

“Daqui até em casa o ônibus demora em média 45 minutos, a partir de hoje quero ver a proporção diária de passageiros que sobem e descem a cada ponto.”

Chegou um momento em que ele enfiava a cabeça pela janela para ver quantos passageiros estavam dependurados do lado de fora da porta de entrada. E ia anotando tudo no papel amarrotado pelo amontoado de gente. Mais à frente, sentiu alguém fungando na altura da sua cintura, tentando abrir caminho. Era um anão desesperado, quase sem ar a meia altura do corredor, empurrando para chegar até a roleta.

O cobrador e vários passageiros se entreolham quando o homem diz ao anão:

— Ei, anão, em qual parada você  subiu no ônibus? Eu não te contabilizei…

E aquele homem, cujo comportamento o habilitava para ser incluído no quarto diagnóstico psiquiátrico mais frequente na população,  piorava a cada dia, com suas equações e cálculos sem razão, com sua busca diária pela simetria, com o exagero desmedido com a saúde, com a higiene, com a busca pela perfeição. Com seus atos e pensamentos compulsivos já estava deixando toda a família, o patrão e os amigos contaminados. Antes que a coisa piorasse irremediavelmente, arranjaram-lhe doutores especialistas, com sólida formação e experiência internacional, médicos que – todos pensavam – os altíssimos honorários deviam fazer jus à sua competência. Brevemente o homem deveria livrar-se do amedrontador TOC e voltar à sua vida normal.

Após alguns meses de tratamento intensivo, a atendente da clínica liga para o homem e sua mulher  e pede-lhes que compareçam para falar com o médico chefe.

— Senhora, boa tarde – o médico começa. — E você, meu amigo, vejo que está muito bem. Tenho a satisfação de dizer-lhe  que o senhor está de alta. Observando o seu comportamento durante todo este tempo e respaldado pelas informações da senhora sua esposa, filhos e amigos (sim, o médico fizera uma ampla pesquisa sobre os passos do paciente durante todo o tratamento), o senhor está curado. Todos os médicos desta clínica que o trataram são da mesma opinião. Mas quero que volte caso sinta alguma recaída.

— Não, doutor, não voltarei, pode ter certeza. Agora estou livre. Obrigado por tudo.

Despedem-se do médico e vão embora. Dentro do ônibus, conversa o tempo todo com a esposa, o diálogo era uma das estratégias recomendadas para não cair na tentação da contabilidade compulsória. Deve ser bem difícil falar com alguém e ao mesmo tempo enumerar as casas, carros, pessoas e árvores que estão pelo caminho. Na entrada do seu prédio, avisa à esposa que pode ir subindo enquanto ele recolhe a correspondência. No meio dela, há um folheto com a propaganda de um condomínio residencial, mostrando a bela escadaria de mármore da entrada. Instintivamente, pela primeira e única vez o contador decide não usar o elevador e começa a subir os degraus da escada do seu prédio, anotando-os mentalmente: “um, dois, três… meu Deus, preciso parar com isto!”. Mas em seguida dá novo rumo ao pensamento: “Ah! É a última vez que vou contar, só esta vez, prometo”.  E continua subindo e contando, passando pelo primeiro, segundo, terceiro andar, quarto, quinto  (ele nem vê a porta do seu apartamento que a esposa deixara entreaberta e continua subindo e contando), sexto, sétimo… décimo… vigésimo oitavo”.

— 448 degraus, 16 por andar! – grita, exultante, agora anotando num papel.

Às 18h sai ofegante no terraço, onde ele jamais subira. Vai caminhando para o parapeito do prédio, de onde observa os últimos 25%  do sol que se esconde, como se tivesse medo dele,  por trás de um edifício distante. Depois olha lá embaixo a larga avenida apinhada de pequeninas pessoas, carros, ônibus, motos e bicicletas.

— Prometo que agora será mesmo a última vez, querida – fala baixinho, como se a esposa estivesse do seu lado — Preciso contar quantos segundos levarei para chegar até a avenida.

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8 comentários em “TOC – Conto (Remisson Aniceto)

  1. juliana calafange da costa ribeiro
    9 de fevereiro de 2017

    Oi Remisson! Interessante falar do TOC, ao mesmo tempo com informação e humor. Mas concordo com os comentários do Fabio Baptista, em alguns momentos ficou parecendo texto de enciclopédia. Achei q nesses momentos o texto fica bastante cansativo. Talvez vc pudesse enxugar mais esse texto, tentando deixar só o q for imprescindível pra contar a sua história, q é a de um homem que tinha preconceito com a doença mas acaba ficando doente também.
    Por fim, não entendi por que ele se mata, não vi no texto nada que indicasse que ele estava sofrendo a esse ponto com a situação. Ao contrário, ele custou até a admitir.
    Gostei do jeito com q vc mostra como funciona o TOC na cabeça do doente – ‘“um, dois, três… meu Deus, preciso parar com isto!”. Mas em seguida dá novo rumo ao pensamento: “Ah! É a última vez que vou contar, só esta vez, prometo”’. Muito bom isso, é assim mesmo q a gente funciona, né? Parabéns!

  2. Claudia Manzolillo
    8 de fevereiro de 2017

    Olá, Remison! Texto muito bem construído, linguagem fluida, acompanhado o ritmo marcado do pensamento do personagem. Final condizente com o comportamento progressivamente compulsivo do contador. O tema é abordado com criatividade ao utilizar o contador. Uma das obsessões do portador de TOC é a contagem de tudo o que o cerca. O seu personagem levou isso ao extremo. Também tenho em meu livro um conto que focaliza esse tema.

  3. angst447
    7 de fevereiro de 2017

    Já escrevi um conto com um personagem dominado pelo TOC (Em três TOCs). O final do meu não foi trágico como o do seu, mas o tema é o mesmo.
    O conto está bem escrito, desenvolvimento flui, só achei que o final chegou e bateu na nossa cara muito rápido. Talvez, o intuito do autor tenha sido esse mesmo, para provocar o impacto da tragédia.
    Gostei!

  4. Fabio Baptista
    3 de fevereiro de 2017

    Olá, Remisson. Tudo bom?

    Seu conto está bem escrito, com clareza e boa gramática. Porém, não me cativou. Na minha opinião, o texto ficou com uma cara muito “didática” e em alguns momentos tive a impressão de estar lendo um livro de medicina ou algo assim. Sei que algumas informações eram relevantes para a trama, mas acredito que poderiam ser inseridas de modo mais natural. As demonstrações de TOC talvez sejam até reais, mas pareceram exageradas no texto.

    Os verbos no presente, embora corretos, ficaram meio estranhos, seria melhor, nesse caso, deixar tudo no passado.

    O final surpreende e apesar de trágico, é muito bom.

    Abração!

  5. Remisson Aniceto (@RemissonA)
    3 de fevereiro de 2017

    Obrigado Cilas, Roldão e Neusa, pela leitura e pelos comentários sempre muito interessantes. Um abraço e bom fim de semana a todos.

  6. Cilas Medi
    2 de fevereiro de 2017

    Um conto progressivo, ou seja, você vai seguindo e se envolvendo com o personagem. Infelizmente, a morte no final, mas, convenhamos, o autor fez dela uma forma correta de afirmação dele, afinal era a última vez. Parabéns!

  7. Roldão Aires
    2 de fevereiro de 2017

    Achei interessante, ao mesmo tempo que é informativo, prende a atenção pois a cada linha lida presume-se o que virá.. Voltando ao tema, acho eu amigo Remisson, que todos nós somos tocados pelo TOC.

  8. Neusa Maria Fontolan
    2 de fevereiro de 2017

    Fiquei pensando aqui com meu botões: será que tenho toque? Pensando bem, acho que não, agressividade não é minha praia. “Ainda bem que estou livre disto”
    Gostei do conto, parabéns.

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Publicado às 2 de fevereiro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .