EntreContos

Literatura que desafia.

Vivos e Mortos (Waldo Gomes)

bruxa1

Era quase meia-noite. A lua trazia suas pálpebras de nuvem fechadas.  Escuridão plena. Pelo ar, a névoa amarela do pântano caminhava em silêncio e silenciando.

Num casebre esquecido do mundo, a velha cozia seu guisado, resmungando:

– Dois dias que não fala, não toma banho. Se não comesse, apostava que tinha morrido.

Ela depositou a refeição ao lado do marido, na cama dura.

– Vai comer agora  ?

Como não houve resposta, a velha cega se retirou para seu mundo, infeliz.

Pela janela aberta, um lobo entrou e jantou tranquilo.

O corpo inchava.

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91 comentários em “Vivos e Mortos (Waldo Gomes)

  1. Waldo Gomes
    28 de janeiro de 2017

    Obrigado a todos pelos comentários. Ri bastante com a questão do “cheiro” levantada.

    Vocês poderiam ter imaginado que não havia cadáver algum, o que só aumentaria a solidão da velha senhora, em fase de negação da morte do companheiro.

    ‘O corpo inchava” pode se referir ao lobo que se alimentava ou ao marido inchando sob a terra.

    Até a próxima.

  2. Lohan Lage
    27 de janeiro de 2017

    Boa premissa, mas faltou o baque final. Apesar da tentativa, não me fisgou, infelizmente.

  3. Thayná Afonso
    27 de janeiro de 2017

    Apesar dos pontos falhos, gostei muito do conto. Muito bem escrito mesmo. Parabéns!

  4. Gustavo Henrique
    27 de janeiro de 2017

    Conto macabro, bem perturbador, gostei. Boa sorte!

  5. Sra Datti
    27 de janeiro de 2017

    Olá, Krisky
    Adorei. “A lua trazia suas pálpebras de nuvem fechadas” – que linda imagem…. Você conseguiu desenvolver uma escrita mesclada, brincando com o poético, ao mesmo tempo que discorre um texto simples, de fácil compreensão, que não exige releituras.
    Só uma ressalva: a “velha” não sentia o cheiro podre do morto?
    De resto, me arrancou o riso ao final. Lobo esperto, de vez de comer a vovozinha, preferia tê-la como cozinheira, rs.
    Apreciado.
    Boa sorte!

  6. andressa
    27 de janeiro de 2017

    Não dá pra negar a originalidade, embora seja uma fato impossível de acontecer. Certamente o lobo devoraria o cadáver. Mas não ficou ruim não, boa sorte!

  7. Lídia
    27 de janeiro de 2017

    Observando a imagem, pensei que havia algo de macabro com a velha… mas não há, então achei um pouco incoerente com a história do micro.
    Pergunto-me como um lobo seria capaz de entrar sorrateiramente pela janela e se alimentar somente da comida do velho (porque não o devorou?)
    Mas não nego que gostei da sua originalidade.
    Boa sorte!

  8. Poly
    27 de janeiro de 2017

    Um conto interessante, apesar do ponto que algumas pessoas levantaram do cheiro que uma pessoa morta exalaria. Gostei do ambiente criado e das imagens, mesmo a do lobo – se encaixa na intenção e gênero da história. 😉

  9. Paula Giannini - palcodapalavrablog
    26 de janeiro de 2017

    Olá, Krisky,

    Tudo bem?

    Parece que o gênero terror impera no desafio como os que mais captam o leitor.

    Gostei muito da condução da narrativa. As imagens criadas são fortes, dá até para sentir o cheiro da velha, do morto, da solidão.

    Seu trabalho é maduro e preciso. Na medida.

    Parabéns por seu trabalho e boa sorte no desafio.

    Beijos

    Paula Giannini

  10. Jowilton Amaral da Costa
    26 de janeiro de 2017

    Pô a velha era cega e seu olfato já não prestava para nada, hein? Não dá para confundir cheiro de sujo com cheiro de decomposição. São cheiros diferentes, além do mais uma pessoa cega apura os outros sentidos, o olfato, o tato, não tinha como ela não saber que o marido estava morto. A escrita é boa, a ideia foi mal pensada, na minha opinião, claro.Boa sorte.

  11. Renato Silva
    26 de janeiro de 2017

    Muito bom. Adoro esse tipo de literatura que mexe com o horror, a desolação, aquelas noites que nunca acabam e o mórbido; também sou fã de humor negro. Só não me interesso por “gore”.

    O conto tá muito bem escrito, coeso e coerente. Aquela “piadinha” no final ficou perfeita. Só na terceira leitura pude sacar a ambiguidade da última frase, pois quem era o “corpo” que inchava: o do defunto, cheio de gases provenientes da decomposição de suas células, tecidos e órgãos ou a barriga do lobo faminto, conforme ele devorava a refeição deixada ao lado da cama?

    Este conto me lembra algo de Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, autores que gosto de ler sempre à noite, enquanto espero o sono chegar. Continue escrevendo textos do gênero, você leva jeito. Boa sorte.

  12. rsollberg
    26 de janeiro de 2017

    Achei a história bem interessante, com vários elementos bem explorados.
    Nesse tipo de conto é necessário suspender a verossimilhança (ainda que pense que ele é verossímil dentro do tipo de história) e embarcar na fantasia.
    Não é a primeira vez que um lobo engana uma velha numa espécie de fábula, porém, aqui, ainda assim, é absolutamente original.
    Realmente muito bom, um belo sopro de personalidade nesse desafio.
    Parabéns

    • rsollberg
      26 de janeiro de 2017

      Uma pequena ressalva, se me permite…
      Teria colocado em posição ainda melhor se o pequeno monologo fosse ainda menos telegráfico, Um pouco mais personalidade da personagem em sua voz. Ou seja, um pouco menos para o leitor e um pouco mais para o próprio texto.

  13. Pedro Luna
    25 de janeiro de 2017

    “Se não comesse, apostava que tinha morrido.”

    Haha, muito bom o humor negro. Era preciso ele não comer para ela achar que estava morto. Parece minha avó, que só fala em comida..kk

    Gostei bastante, só me pareceu excessivo uma pegada poética no primeiro parágrafo, que me pareceu desconexa do restante do conto.

  14. vitormcleite
    25 de janeiro de 2017

    humor negro e final surpreendente, só não gostei de mais uma cega, mas não tens responsabilidade nenhuma. Gostei da leitura mas é mais um texto que irá ficar perdido no meio desta centena do desafio e que podia ter algum interesse de ler sem limites de palavras.

  15. Douglas Moreira Costa
    25 de janeiro de 2017

    Um conto muito bom, bastante surpreendente. A imagem cria a atmosfera exata para ser desfeita ao final em uma grande sacada. Foi muito bom. A narração, voltada para um clima de terror, me agradou bastante. Imaginei o casebre úmido no meio do mato, com as paredes de madeira velha e os dois personagens ali, em condições não recomendáveis de vida. É um ótimo conto, parabéns.

  16. Andreza Araujo
    25 de janeiro de 2017

    Eu achei bacana! A velha poderia ser meio gagá além de cega. Porque um homem que não fala, não se mexe e nem toma banho é bem tenso! Haahahah Gostei do final também, com o lobo jantando o guisado (cheguei a pensar que ele ia comer o homem, mas nem sei se lobos comem defuntos, eita!). Conto interessante, meio macabro, bem criativo!
    Em tempo: também não entendi exatamente quem estava inchando e por quê.

    • Renato Silva
      26 de janeiro de 2017

      O marido já estava morto. O corpo incha quando começa a se decompor.

  17. Tiago Menezes
    25 de janeiro de 2017

    O texto é bom, de leitura fluída, e me deixou com dúvidas. Ela é cega, ok, mas não sentiu o cheiro do marido morto? O lobo entrou e jantou… mas jantou a comida que o marido não comeu, o marido falecido ou a velha que teria se “retirado”. E o corpo que inchou poderia ser de um dos mortos ou até do lobo, que acabara de jantar.
    Essas dúvidas não são um ponto ruim, eu até gostei, mas um final diferente talvez ficasse melhor. Boa sorte.

  18. Daniel Reis
    25 de janeiro de 2017

    Uma fábula de horror, mas que enseja uma leitura complementar paralela. Quem seria o lobo? O que estaria morto entre eles dois? A velha cega, é a bruxa? Enfim, um texto bastante complexo, ainda que não necessariamente envolvente.

  19. Wender Lemes
    24 de janeiro de 2017

    Olá! Os detalhes mais sórdidos são facilmente ignorados em prol dessa bela tirada. Se o lobo prefere o guisado ao corpo do homem, por que não? É muito legal como uma frase quebra toda a atmosfera criada até ali, do sinistro ao sarcástico em segundos (se não foi a intenção, me desculpe). Aliás, a imagem contribuiu muito para a atmosfera também.
    Parabéns pela criatividade. Boa sorte.

  20. Victória
    24 de janeiro de 2017

    Gostei bastante da atmosfera do conto, das ideias e das frases empregadas. É um conto bem macabro de final surpreendente. Quanto à inverossimilhança, prefiro me ater ao fato de que é um conto sobrenatural.

  21. Simoni Dário
    24 de janeiro de 2017

    A senhora além de cega não sentia cheiros também. Fiquei pensando se lobos nào comem pessoas mortas, mas acho que sim. Enfim, foi esse tipo de curiosidade que o conto me despertou, foi divertido e sem muitas pretensões.
    Bom desafio!

  22. Lee Rodrigues
    24 de janeiro de 2017

    Eu gostei do seu conto, gosto do que me arranca alguma reação, e o seu me fez rir, não sei se essa foi a intenção da autora. Quanto a coisa de ter perdido a verossimilhança, perdeu, algumas detalhes escorregaram do real para o Trash, mas eu entendo como a sua forma de contar. E me lembrarei de ser uma velha resmungona e não apenas comilona. rs

  23. Srgio Ferrari
    24 de janeiro de 2017

    No começo eu fiquei ressabiado com a primeira frase, quase como se ela fosse excessiva, mas no fim fiquei satisfeitíssimo. Ótimo.

  24. Fil Felix
    24 de janeiro de 2017

    Um conto muito bom que prima pela simplicidade. Confesso que não tenho essa facilidade, sou muito exagerado, e você apresenta uma ótima história sem muitas firulas e que foca no que é essencial: a velha, a comida, o marido e o lobo. Tudo se encaixa perfeitamente e temos aquela surpresa gostosa ao final. A imagem ajuda a criar a personagem na mente e não entrega o que vai vir (assim como o título), o que também é ótimo. Apesar de surgirem questões mais “realistas”, como ser difícil conviver com um corpo morto há dias; não acaba atrapalhando a narrativa, que caminha pela estrada das fábulas de terror.

  25. catarinacunha2015
    24 de janeiro de 2017

    MERGULHO inocente no terror. O IMPACTO reside na bizarrice do cotidiano hilário. Ri muito com este conto. Me lembrou os inofensivos filmes de susto.

  26. Tom Lima
    24 de janeiro de 2017

    Me lembrou as versões originais dos contos de fadas, antes de serem suavizados por ai… Mas diferente dos contos, não tem uma lição a ser aprendida.

    A forma está muito boa, a ambientação foi ótima, um belo trabalho com esse limite de palavras. Mas achei um final meio vazio. Ela não vê que o homem morreu porque o lobo entra toda noite pra comer. Um tanto sem sentido, sem graça. Mas está muito bonito.

    Parabéns.

    Abraços.

  27. Felipe Teodoro
    23 de janeiro de 2017

    Gostei do conto, achei muito bem ambientado para a quantidade de palavras do desafio. Gostei também do desenvolvimento até a cena final, aí acho que ficou um pouco confuso e não no bom sentido. Se o Lobo entrou e o jantou o que seria para o homem morto e depois saiu e o corpo do homem continuou inchando, o título vivos e mortos se refere apenas a situação do casal, mas, não seria mais interessante, se vc brincasse com a cabeça do leitor e desse a entender que o corpo do marido inchou porque ele comeu o lobo¿ Afinal, ele vinha comendo no últimos dias, disse a velha. Ai o velho seria um morto-vivo, não¿ Enfim, eu posso estar viajando demais e se envolvendo demais na sua criação, desculpe. Enfim, gostei, mas poderia ter gostado mais se o final fosse um pouco melhor construído.

  28. Marco Aurélio Saraiva
    23 de janeiro de 2017

    Gostei! Muito bom! Melhor micro conto de horror que li no certame até agora.

    Muito bem elaborado, com uma atmosfera suja e nojenta, ao mesmo tempo tenebrosa; que dá calafrios no leitor. Gostei muito do clima criado e, então, da conclusão.

    Gosto ainda mais do conto por sugerir horror sem implicar o sobrenatural. O horror plausível é muito mais impactante do que o fantástico. A velha é um personagem e tanto, mesmo que descrita em poucas palavras.

    Um conto digno de Alan Poe!!

  29. Mariana
    23 de janeiro de 2017

    Uou… Perturbador! Melhor que muito filme de terror por aí, não respirei até o final da narrativa. Parabéns

  30. Gustavo Aquino Dos Reis
    23 de janeiro de 2017

    Krisky,

    tua obra é tétrica.
    Muito bom.
    Ele aparenta ser simples, mas possui detalhes bem pontuais que amarram a trama. Há fatores a serem levados em consideração à verossimilhança da narrativa, por exemplo: a velha cega cozinhado um guisado e o lobo que entra pela janela, come o repasto e não devora o corpo do velho.

    No mais, é uma obra muito boa e que prima pelo horror inteligente.

    Parabéns

  31. Evandro Furtado
    23 de janeiro de 2017

    O conto tem uma atmosfera sinistra, cinzenta, de tons mortos. A ambientação é obsecura e tenebrosa. Os personagens carregam consigo uma carga de negatividade. Tem elementos que lembram os contos de fada em suas formas arcaicas. A trama é inteligente, e traz uma reviravolta interessantes.

    Resultado – Good

  32. Anorkinda Neide
    22 de janeiro de 2017

    Olha, pra mim este é um continho de terror
    névoa amarela? que caminhava em silencio e silenciando…. acho q o autor criou o ambiente. a imagem tb ajuda, eu imaginei a velha como esta imagem, sem olhos, e sem qualquer orgao de sentido.. uma criatura morta,uma zumbi.
    Imaginei o cozimento do guisado tb como algo bem sinistro, sabe-se lá q tipo de guisado é esse né?
    Entao era uma criatura louca do mundo das trevas, a cama em q o marido está é dura..nao é estranho? rsrs
    acho q ela capturou alguem e deixou ali para morrer e fica fantasiando em cima ou eu q to fantasiando demais? 🙂
    bem, gostei do que criaste aqui, mas precisaria ficar mais claro sim, vc tinha condições pra isso.
    boa sorte, abraço

  33. Fabio Baptista
    22 de janeiro de 2017

    Imagem macabra, narrativa macabra, enredo macabro, tudo macabro! kkkkkkkk

    Tem um ar de conto de fadas, daquelas versões originais do tipo que a Chapéuzinho comia a carne e tomava o sangue da vó e tal.

    Gostei!

    Abraço!

  34. Andre Luiz
    22 de janeiro de 2017

    -Originalidade(8,5): Um conto tenebroso, que traz uma atmosfera ao mesmo tempo aterrorizante e gostosa de se ler. Gostei do que foi feito.

    -Construção(8,0): Talvez necessite uma melhorada na interpretação do que está vivo e o que está morto neste conto, mas eu acho que o autor fez isso de propósito. Adoro quando os protagonistas são cegos e o narrador esconde os fatos perceptíveis pela visão. Pelo que eu entendi, a velha pode ser louca sim, e o marido estar apenas na mente dela. Todavia, se ele estivesse morto, eu acredito que ela de alguma forma teria percebido. Geralmente, os cegos desenvolvem uma percepção mais aguçada dos outros sentidos. Se a velha for louca, esta última teoria cai por água abaixo.

    -Apego(8,0): A velhinha é carismática, e a imagem foi muito bem escolhida. Lembrarei do seu conto…

    Boa sorte!

  35. Bia Machado
    22 de janeiro de 2017

    Não sei o que pensar desse conto. O narrador me perturbou com sua narração, a imagem também, a imagem do lobo entrando e o mais perturbador, o cara que já está morto há dois dias e a senhora não percebeu? Como, com o cheiro da carne podre, inchada? Não vi erros na narração, a perturbadora narração segura a gente até o final na expectativa e aí vem esse final que deixa a gente meio “hã?”. Mesmo que a inverossimilhança tenha me atrapalhado, achei interessante.

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Publicado às 13 de janeiro de 2017 por em Microcontos 2017 e marcado .