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Literatura que desafia.

Para Sempre – Conto (Luis Guilherme Florido)

Para sempre

Uma releitura de “A Pequena Sereia”

 

Era uma vida muito solitária. Cada dia arrastava-se doloroso e infinito, marcado pela vastidão da casa sem vida. O velho relógio de pêndulo, surpreendentemente funcional após todos aqueles anos de abandono, badalava sadicamente às horas incontáveis. E assim havia sido no último século e meio.

Sentado em sua velha cadeira de espaldar alto, Joaquim observara a decadência de sua outrora respeitosa mansão imperial, famosa nos meados da segunda metade do século XIX pelas galantes e espalhafatosas festas que reuniam a nata da elite portuguesa habitante da região, remanescente da gloriosa era imperial e de linhagem real.

Aristocrata bem relacionado, Joaquim orgulhava-se da impecável reputação construída ao longo daqueles anos dourados. Extremamente arrogante, exaltava-se pelo seleto grupo de amigos influentes de que se cercara, conquistando para si uma rede de favoráveis contatos e favorecimentos.

Aquela vida abastada e luxuosa duraria para sempre, Joaquim se sentia infinito. 150 anos depois, o para sempre mostrava suas terríveis garras, e o glamour dava lugar às traças e ao isolamento depressivo e interminável.

A vida lhe foi tomada de forma tão brusca quanto lhe fora concedida a fortuna pela herança do tio-avô, décadas antes. A maldita doença degenerativa que o acometia, fruto da vida desregrada e boêmia, tiraria tudo que ostentava orgulhoso: o vigor e beleza destacáveis e a presença ilustre dos sempre presentes companheiros de taça. Conforme definhava violentamente, tornando-se um moribundo desagradável e fétido, abandonavam-no sem cerimônia todos aqueles que tanto esbaldaram-se de suas festas e fortuna.

A única que permanecera ao seu lado até o fim – e isso ainda lhe causava uma dor lancinante na consciência – fora justamente quem mais maltratara em sua arrogância: a insignificante governanta que herdara junto à casa, fadada a servi-lo até seus últimos dias.

Enojado pela insignificância da velha, dispensara-lhe o mesmo respeito que dedicava ao capacho e às dezenas de serventes da mansão. Jamais considerara aquela gentalha como digna de tratamento ou atenção.

No leito de morte, quando todo o peso da vida de sodomia e prepotência despencavam sobre suas costas, o homem olhos nos olhos bondosos daquela senhora e pediu-lhe o perdão que lhe era possível. Sua dor era o arrependimento. A velha sorriu, e esse foi o último registro dos olhos, que já não mais brilhavam.

 

Mas a vida não se encerrou – afinal, de vida a morte é repleta. O corpo apodreceria no cemitério particular ao fundo da propriedade, mas Joaquim continuaria a vagar por aquela extensa propriedade, dia após dia.

Após a dolorosa despedida, observou a velha governante beijar-lhe delicadamente a testa. Mas nenhum beijo foi sentido. Piscou abobalhado, sorrindo confuso para a companheira, mas nada recebeu em troca.

– Ignora-me em meu leito, minha senhora? Não deixo de compreender se a mágoa impedir-lhe de me perdoar, mas ao menos olhe em meus olhos enquanto desfaleço.

A velha continuou a ignora-lo, e assim o fez nas semanas seguintes, insensível a todos seus esforços para ser ouvido. Após finalizar todos os procedimentos e deixar o imóvel impecável para servir a futuros donos, instruída pela família distante do falecido que herdaria a propriedade, a senhora encerrou sua servidão, obrigada pela morte a abandonar seu posto – mas não pela própria morte, como sempre esperara.

À altura da partida da governanta, Joaquim conformava-se morbidamente: não podia ser ouvido, nunca mais o seria. Nuncamaisss.

 

E nunca mais, de fato, provava-se um longo tempo para o homem. A mansão permaneceu os por muito tempo inabitada e solitária. O desuso rapidamente levava consigo o brilho e beleza do local, conferindo-lhe um ar rançoso e deplorável. A mobília, coberta pela poeira, em nada remetia à elegância de seus dias gloriosos. Todo o cenário depressivo e desolador aos poucos tornava insuportável a agoniante dor que agora Joaquim sentia: a solidão eterna.

 

No século subsequente, a casa ganharia em toda a redondeza uma infâmia de assombração, atraindo olhares curiosos e invasões de crianças desafiadoras sedentas por provar sua valentia e surpreender os amigos e amores. As janelas constantemente apedrejadas, as pichações nos muros desgastados, as portas arrombadas, e o assoviar do vento que abria caminho pelas fendas conferiam uma aparência aterradora àquele sinistro casarão.

A cada nova invasão dos garotos assustados, ou dos adolescentes que se reuniam para drogar-se ou satisfazer taras sexuais sinistras, Joaquim tentava comunicar-se. Aprendeu duramente, ao longo de todos aqueles anos de tentativas, como manifestar-se dolorosamente por meio de sons e imagens difusas.

DOLOROSAMENTE. A cada tentativa de aparição, sentia todo o corpo contorcer-se violentamente num ataque de fúria. A pele rasgava, dilacerando-se, descolando da carne, os olhos explodiam derramando seu líquido aquoso sobre o rosto, os cabelos eram arrancados erraticamente pela raiz, os membros retorciam-se até desligarem-se do tronco com arremedos barulhentos que lembravam árvores arrancadas pela raiz. Por fim, todo o corpo consumia-se em chamas, carne, pele e ossos crepitando ao fogo intenso, tornando toda a consciência apenas dor e pânico e desespero.

Tudo metaforicamente, já que não possuía mais corpo para tal. Todo esse ciclo hediondo se repetia a cada segundo durante o tempo em que procurava contato com o mundo dos vivos. Nãodeveriaserelacionarcomosvivos. Aquelas tentativas eram uma afronta à subvida amaldiçoada em que se confinara. Romper as barreiras que o separavam daquelas vidas felizes e radiantes custava extremamente caro.

A cada vez que um novo aventureiro se embrenhava em seus domínios, o pobre homem rompia novamente os limites da própria alma, afundando-se naquele sofrimento eterno, e a cada nova tentativa, demorava-se ainda mais em seu martírio, tardando gradativamente mais a livrar-se da agonia e desespero.

 

Com um assomo de surpresa – naquele burburinho típico de notícia quente em cidadezinhas onde nada acontece –, a vizinhança recebeu a notícia de que o casarão novamente seria habitado após 150 anos de reclusão e abandono. Um neto muitíssimo distante do falecido dono – um prepotente e odioso aristocrata do século XIX que morrera em desgraça, e a quem os moradores atribuíam os gemidos e aparições sinistras que rondavam o local– assumira os cuidados da propriedade, restaurando-a para habita-la com sua esposa e dois filhos.

Cético, Jean ria de toda aquela bobagem que os caipiras adoravam alimentar: antigas lendas, histórias aumentadas a tal ponto que mal se sabia ao certo sua origem, superstições que justificavam suas vidas medíocres numa cidade em que nada acontecia além da filha da vizinha que engravidara sem casar.

 

Fatigantes três meses de reparos transformaram aquela velharia abandonada numa mansão respeitável. Apesar de todos os ajustes que ainda faltavam, já podia se vislumbrar o glamour que um dia cercara aquele palácio. Ainda mais curiosos visitavam a mansão, divididos entre o medo e a admiração.

– O doutor vai morá lá mesmo. Já tá até tudo arrumado. Pintô, restaurô as janela, colocô umas porta de madeira lustrada. Dizem que tem dois filho, e que o menino mais velho vai tê um quarto com banheiro só pra ele.

 

A algazarra que acometia a cidadezinha só não era maior que a expectativa de Joaquim. Perdera as contas de quanto tempo se passou desde a última vez que fora visitado, e tinha certeza que dessa vez conseguiria contato. Não só contato, mas seus descendentes certamente o entenderiam e o aceitariam como um dos seus. Estava disposto a sofrer toda aquela agonia lancinante, romperia a barreira de forma que jamais fizera antes, de forma irreversível. Sabia que isso destruiria sua alma, causando uma dor eterna e irreparável, mas estava disposto a esse último sacrifício para ouvir mais uma vez uma palavra de carinho e tocar o rosto de um ser humano novamente.

A vontade tornava-se uma obsessão, e a ansiedade cada vez aumentava. Tinha uma sensação intuitiva de que aquele contato real para o qual viera treinando seria capaz de resgatar sua humanidade – ainda podia ser feliz. Dias atrás, vira pela janela o rosto da criança mais nova, e nele identificou seus próprios traços. Sentia um amor pela criança, daria tudo por ela – na manhã seguinte, seria humano novamente.

 

A família adentrou com estrondo jubiloso o saguão da mansão. Os olhos percorriam satisfeitos e impressionados toda a magnitude daquela grandiosa construção centenária. As crianças corriam animadas pelos corredores, tocando tudo que podiam e rindo satisfeitas, gritando palavras sem nexo, escolhendo os cômodos de sua preferência e dando nomes às estátuas e bustos que povoavam o local.

Após horas de fascínio, enquanto apreciavam juntos a mobília imperial, os quatro pararam de chofre. Um gemido distante e gutural rompera a algazarra das crianças, sobrepondo-se a tudo. Assustada, a família olhava à volta, incerta.

 

Com um esforço homérico, Joaquim rompeu a própria carne e explodiu em dor e desespero, finalmente manifestando-se plenamente: um corpo flutuante a alguns centímetros do chão, a carne devastada e estraçalhada, os olhos sangrentos e os membros destruídos. A entidade emitia um urro horrível, que fez as crianças vomitarem e os adultos dobrarem-se sobre os joelhos, tapando os ouvidos precariamente.

 

Minhascrianças,soueu,venhamatémim,espereitantotempoporvocês.Euvosamo.

 

O ruído violento machucava os tímpanos. Miguel, o caçula, cobria os ouvidos, que sangravam profusamente.

 

Finalmentevamosvivertodosjuntoscomoumafamília.

 

Reunindo toda força e coragem, Jean puxou os filhos e a esposa pelos braços e correu em direção à porta, concentrando toda a energia que restava num grito aterrorizado:

– Vá para o inferno, criatura horrível! Nunca mais se aproxime de minha família.

As palavras atingiram Joaquim como um murro. A medonha criatura curvou-se num urro de tristeza e dor, acometido por aquele sofrimento torturante, a cada segundo destroçando-se e rasgando-se e morrendo. Para sempre.

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5 comentários em “Para Sempre – Conto (Luis Guilherme Florido)

  1. Gustavo Castro Araujo
    7 de novembro de 2016

    Já no início me veio à mente o Conto de Natal do Dickens. Talvez pela personalidade rabugenta, solitária e circunspecta com que Joaquim é descrito. Mais do que isso, pelo gancho de arrependimento que o caracteriza, na medida em que deseja, mesmo depois de morto, restabelecer – ou seria estabelecer? – contato com os vivos.

    Nesse sentido, a semelhança com o protagonista do texto do Dickens é bem vinda, ajudando a compor uma personalidade interessante e reconhecível, ainda que pudesse ser mais aprofundada, considerando que o desespero pelo contato humano, da metade para o fim, é mais intuitivo do que justificado.

    Por outro lado, as descrições físicas das tentativas de contato (o “corpo” se dilacerando) foram uma ótima sacada, algo original nesse tipo de história. Isso, a par das vozes sopradas de uma só vez, como lamentos do além, ajudou na estruturação de uma atmosfera de suspense bastante criativa.

    O fim me pareceu um tanto corrido, eis que ante à visão do fantasma do velho Joaquim a família que pretendia morar na casa simplesmente foge assustada. Se posso fazer uma sugestão é no sentido de que esse contato seja melhor explorado, talvez com conversas do espírito do velho com as crianças em que seja possível entrever detalhes de sua vida, dos motivos que o levaram a isolar-se do mundo quando vivo era.

    Em suma, trata-se de um bom trabalho que merece ser aprofundado. Habilidade ao autor não falta – a escrita é ótima e a linguagem simples favorece a leitura. Um pouco menos de pressa na conclusão e teremos um conto de excelência.

    Um abraço.

  2. Neusa Maria Fontolan
    4 de novembro de 2016

    Também gostei. Concordo com tudo que a Anorkinda citou, mas senti também a falta de uma explicação de o porque ele ficou vagando no casarão. Foi uma maldição? O que ele fez para merecer isso?
    Você escreve muito bem, parabéns.
    (Quem é você Ariel?)

    • Luis Guilherme
      7 de novembro de 2016

      Olá, Neusa. Sou apenas uma sereia!

      Obrigado pelo comentário! Fico feliz que tenha gostado!
      Na verdade não cheguei a pensar nos motivos, só sentia falta de uma história que abordasse o fantasma do ponto de vista do fantasma, sabe? rsrs

      Todo mundo sempre retrata o ponto de vista dos humanos, que são assombrados pelos fantasminhas, mas e se na verdade eles só quiserem voltar a se sentir humanos e conversar e ter companhia? Tadinhos!

      Brincadeiras a parte, obrigado pelo comentário!
      Abraço!

  3. Anorkinda Neide
    4 de novembro de 2016

    Oi!!
    Gostei do teu texto! A linguagem flui e está muito bem escrito, vc tem estilo e talento!
    Tem alguns pequenos probleminhas, mais pela pressa ao escrever, né? vou apontar em seguida.
    Notei algumas frases muito longas também, onde perdi o fôlego, leia em voz alta q vc vai perceber quais são.
    .
    Gostei da história, típica de casarão abandonado mas com uma estrutura diferente, não linear e isso deu um tom diferente ao enredo batido. As cenas de terror também ficaram ótimas, na medida certa, eu diria.
    Agora algumas anotações:
    .
    Bom, já q o texto nao vai falar da Pequena sereia, propriamente dita, acho q a referência deveria vir ao final do conto, porque eu fiquei o tempo todo esperando a dita cuja aparecer e tb ambientei a historia no fundo do mar, foi dificil pra eu perceber que o casarão não se encontrava no fundo do mar… rsrs voce pode dizer tb ao final o paralelo q vc fez entre a vida do velho fantasma com a pequena sereia. mas acho inclusive desnecessaria a citação, esquece a sereia q a historia é de casa mal-assombrada e pronto.
    .
    Não entendi os 150 anos… ele viveu até os 150? como? por alguma bruxaria?
    ou te referes à alma que vagava por ali a 150 anos? nao ficou claro isso.
    depois vem a narrativa da hora da morte e a instantânea noção de q o corpo morreu mas a consciência continuava ali, tentando, inclusive, comunicar-se com a governanta. daí ficou tudo mais claro! 🙂
    .

    nesta frase: ‘Não deixo de compreender se a mágoa impedir-lhe de me perdoar.’
    ‘impedir-lhe-á’ ou ‘a impedirá’
    .
    ignorá-lo, faltou acento
    .
    achei um pequeno exagero, referir-se às pessoas q visitavam o casarão assombrado como ‘vidas felizes e radiantes’, pq quem entrava ali ou estava com medo ou drogava-se ou tinha taras sexuais.. rsrs nao acho q fossem tao radiantes e felizes!
    .
    ‘neto muitíssimo distante’, achei esquisito isso ou é neto ou nao é.. um tataraneto? entao diga:um tataraneto.
    .
    habitá-la, faltou acento
    .
    ‘Dizem que tem dois filho, e que o menino mais velho vai tê um quarto com banheiro só pra ele.’
    acho que cabe um ponto de exclamação aqui no final!
    .
    É isso, foi uma leitura bem legal! Parabéns

    • Luis Guilherme
      7 de novembro de 2016

      Oi, Kinda! Tudo bem por aí?

      Obrigado pelo comentário. Que bom que gostou!

      Gostei bastante da sugestão de citar a Pequena Sereia apenas no fim.

      Obrigado pelas dicas e observações! =)

      Abraço da sereinha Ariel!

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Publicado às 4 de novembro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .