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Mastigando Humanos: pra degustar ou digerir? – Resenha (Fil Felix)

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Mastigando Humanos é um livro do brasileiro Santiago Nazarian publicado originalmente em 2006 pela Editora Record e que aborda questões existenciais através do surreal, nonsense e absurdo, ao lado de referências pop e muito deboche. Todos pontos característicos nas obras do autor, que re-apresenta e tira do lugar comum a lenda urbana dos “jacarés no esgoto”, a mesma que rendeu inúmeros filmes nos anos 1990.

O protagonista do romance é um jacaré (ou crocodilo) que vive no esgoto de alguma grande metrópole. Um jacaré urbano, que largou sua vida pacata no pântano para viver o caos da cidade. É uma personagem sem nome, cujas frustrações e preocupações vamos conhecendo durante a leitura, durante o capítulo único denominado “Animais Humilhados, Humanos Obscuros e Objetos Animados”, que resume um pouco o espirito do livro.

O jacaré narra suas desventuras, que vão da “adolescência underground e ascensão acadêmica à decadência literária”, em tom cômico e recheado das mais absurdas situações, mas já adiantando que o mérito não está na verossimilhança: “o importante é que, por eu ter passado pelo que passei, eu tenho o que contar, pois não posso inventar. Não, esse talento eu ainda não tenho. O talento da criação/abstração ocorre com sinapses que só se realizam com o sangue quente” (posição 54*). A diferença entre animais de sangue quente e frio é uma das grandes questões que ele costuma fazer, geralmente para justificar suas atitudes. Caímos no primeiro ponto degustativo de Mastigando Humanos: ainda somos escravos de nossa natureza? A fome do jacaré, uma das grandes problemáticas tratada, é diferente da nossa fome pois, em suas palavras, o ser humano se perde em preocupações demais, inventam problemas, abstrações. Tudo muito humano, como se só os humanos pudessem pensar. E quanto a isso, o jacaré se defende: “o que diria sobre mim, que tenho tanto mais a digerir?” (pos. 380).

O antropomorfismo ocorre de maneira curiosa. Pegando o clássico A Revolução dos Bichos de George Orwell como exemplo, o jacaré não passa a andar sobre duas patas para se assemelhar ao Homem ou misturar-se a eles, como os porcos da Fazenda dos Bichos. Ao contrário, continua arrastando a cauda pelo chão e engolindo o que encontrar pela frente. Ele também não está preocupado com regras, mesmo quando os ratos do esgoto formam uma sociedade e passam a controlar as entradas e saídas do local, além de criarem um “Achados e Perdidos”. Suas preocupações são existenciais, sempre em confronto com sua própria natureza.

A primeira vez em que come carne humana é quase que uma experiência sexual, o resultado de alguma metamorfose, como ele nos conta: “acho que me tornei mais humano, seja isso bom ou não. Afinal, a gente é o que a gente come. Eu segui o ciclo, segui o que estava dentro de mim e coloquei para fora o que me fazia ser quem eu era” (pos. 833). Ao ser bem nutrido, se permite entrar em divagações, filosofias e devaneios, mas ainda sem perder a ironia: “bem-nutrido também em parte, pois a carne dos humanos pode ser deliciosa, mas está longe de ser a melhor opção nutricional. Vocês sabem, álcool, drogas, silicone, refrigerantes. Não garantem as melhores vitaminas. Eu bem que sonhava em pegar um hare krishna…” (pos. 866).

Mas como o próprio título do capítulo único de Mastigando Humanos informa, há uma terceira figura nessa equação, fora humanos e outros animais: os objetos. Não que eles sejam animados, conversam ou pensam como o jacaré protagonista ou o sapo Vergueiro, viciado em bitucas jogadas no esgoto. São simples objetos inanimados, mas cujo papel depende exclusivamente de quem interage com eles. E o jacaré possui uma certa tendência a conversar (sozinho) com objetos, preferindo sua companhia a dos outros habitantes do esgoto ou da Universidade. Santana é um tonel de óleo empacado num túnel e, talvez, uma das melhores personagens de todo o livro. Ela não fala absolutamente nada, sequer se movimenta, mas rende alguns dos melhores diálogos com o jacaré, que a tem como amiga e possível amante.

Santana, deitada e de “boca aberta”, acaba sendo o depósito de inúmeras garrafas e latinhas de cerveja que descem esgoto abaixo. Situação que a define como alcoólatra, claro. Também é uma das poucas figuras com que nosso Jacaré realmente se importa, por mais que o sangue frio fale mais alto, como num momento em que fica inquieto: “o cúmulo veio num dia em que os encontrei rolando Santana. Centenas de ratos empurravam-na pelas galerias; ela fazendo um estardalhaço. Gritava coisas sem sentido, pobre Santana, já estava tão entregue à bebida. Tive de interceder por ela. “Para onde vocês a estão levando?”” (pos. 478). Ou quando a imagina como uma parceira: “imagine nossos filhos, pequenas latinhas de refrigerante, jogando futebol com os meninos de rua, fazendo a fortuna e a felicidade de catadores de alumínio. Magrinhos e amassados” (pos. 155).

A fixação do protagonista por objetos é tanta que, assim como nós – humanos –, ele os utiliza para suprir necessidades básicas como o convívio: “solidão? Eu não sinto. Há alguém para conversar comigo. Sim, logo percebi que meu notebook tem vontade própria e ideias muito particulares. Ele é um pouco temperamental, mas a figura certa para me ajudar com meu livro” (pos. 2208), ao se referir ao computador velho em que arrisca as primeiras páginas de sua autobiografia.

Quanto aos relacionamentos, seus pensamentos ainda vão além: “triste que muitas das pessoas que poderiam ter uma função maior em nossas vidas acabam realizando apenas uma função nutricional. Amigos ornamentais, amantes delivery, amores drive-thru” (pos. 1740).

Antes de decidir iniciar suas anotações, o jacaré passa por uma Universidade de bichos cientistas. Momento em que suas crises passam a mirar e digerir o meio acadêmico, um certo pedantismo que ele percebe entre os professores: “o conhecimento acadêmico afinal é como um telefone sem fio. Um segue o outro, e no final nem se sabe mais sobre o que está se falando. Muitas vezes nem a mensagem original faz sentido. Basta criar termos para manter suas grandes bocas ocupadas. E seus cérebros se exercitando” (pos. 1796).

O limite entre o real e o imaginário da biografia deste jacaré é praticamente inexistente, como percebemos ao ver um “Godzilla” caminhando pela cidade num determinado momento. Mas como o próprio já deixa claro no início do livro, a verossimilhança não é o que importa. E em meio às críticas e reflexões animalescas, sobra até para nós, aspirantes a escritores, quando é citado em terceira pessoa: “Quer ser escritor, não escrever. Quer mais ser resgatado pelo transatlântico da indústria cultural do que boiar no mar da arte...” (pos. 2550). Já que ““a Academia Brasileira se alimenta dos esgotos de Paris.” E dos esgotos do Brasil? Alimentava-me eu.” (pos. 1052).

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Mastigando Humanos – Um Romance Psicodélico está em sua terceira edição pela Editora Record (2013, 176 páginas) e já compôs o acervo do Programa Nacional Biblioteca na Escola em 2009 para o Ensino Médio. Será que as impressões e devaneios de um jacaré consciente estão tão longe de nossa realidade? Estamos, mesmo, a criar problemas e abstrações mil a fim de ocupar o cotidiano? Substituindo pessoas por objetos, simplicidades por termos complicados? Degustando obras gourmet, mas que pouco nutrem, sem ao menos digerir?

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*Resenha feita a partir da versão digital Kindle da Amazon.

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Publicado às 29 de outubro de 2016 por em Resenhas e marcado , , .