EntreContos

Literatura que desafia.

Algemados – Conto (Olisomar Pires)

pas

Nasci livre (me disseram), assim como todos antes de mim, não tão livre que não tenha controle nas asas, nem tão preso que não possa sonhar (um pouco).

Sou um inseto. Soa pejorativo, eu sei, mas é o que sou, o que somos.

Gosto de voar e observar meu mundo.  Comida nos move, precisamos comer para ter união e nos unirmos para manter nossa colônia sempre crescente e reprodutiva,  não há prazer envolvido (claro).

Às vezes, quando a luz do dia tarda partir, escapo da vigilância de meus irmãos e me demoro por aí, além dos limites permitidos. É bom no início apenas, porque  vai cansando e tudo que desejo é voltar para o meu lar, o lar de meus pais.  Retorno meio disfarçado para evitar constrangimentos inúteis (perigosos), mas continuo saindo sempre que dá,  tenho essa mania, não sei (nem quero) explicar.

Um dia conheci outros insetos, de um distante conjunto, possuíam  pensamentos muito diferentes, falavam em evolução,  liberdade de escolha, crescimento e aprimoramento, Deus e vida plena,  enfim, um caos total (pensei) – Lá em casa não é assim, somos ensinados que o chefe da Colônia é “tudo e o todo”,  e que tudo é de todos, não importa o quanto você trabalhe, se mais ou menos mais, você receberá sua parte sempre igual, a isso eles batizam de justiça social, ainda que seja meio injusto no fim das contas (sentimento bobo, não levem a sério, é justo sim).

Lógico está, por falar nisso, que os superiores nossos: supervisores, revisores, gerentes, diretores, capatazes, olheiros, assistentes, adjuntos, chefes de departamento e muitos outros com seus parentes ou amigos mais próximos, recebem mais que a maioria de nós. Possivelmente porque  têm a responsabilidade maior por tratar de nosso bem estar, nada mais sensato, não é ? Não é ? (nunca pergunto).

É muito saudável viver assim, não tem fartura pra muitos, mas ninguém passa muita fome, quando acontece da necessidade apertar (e acontece),  nós nos ajudamos mutuamente com nossos cacos e escapamos de uma tragédia maior, somos até felizes, exceto quando alguns dos nossos somem (eles somem o tempo inteiro), aí vem uma tristeza de estátua: rígida.

Quase sempre desaparecem aqueles que discordam do regime (não que seja uma regra, já percebi), mas logo depois todos esquecemos (ou fingimos) e tudo fica bem por um tempo.

Aqueles outros insetos, os quais conheci em minhas escapulidas, se soubessem o que se passa aqui, aposto que falariam mal, sim senhor,  iriam dizer que somos lerdos demais e que temos mais valor que isso, mas quem se importa com a opinião deles ? Quem admite se importar ?

Engraçado é que  não sou  o único a conhecê-los e mais engraçado é que ninguém fala que os conhece (nem eu), apesar de conseguirem aqui e acolá um produtinho diferente dos nossos, mas que ficam muito bem escondidos, se os supervisores encontram, ai meu Deus, perdemos mais alguns no sumiço…

Agora, nossos amados líderes cismaram que temos de nos exercitar mais, ficarmos fortes porque  há inimigos diversos, externos ou internos, que desejam destruir nosso modo de vida, querem nos escravizar e outras coisas mais –  eles nos falam isso o tempo todo, eu pessoalmente nunca vi nem ouvi nada parecido nas “viagens” que faço, parece até que ninguém está muito interessado na gente, não – ao contrário, querem ajudar, como se precisássemos muito (esses alarmistas sentimentais que não sabem o que é sofrimento).

Mas se os dirigentes determinam treinamento assim, então é porque deve ser grave, aí entramos a correr, pular e dar  ferroadas que não acabam mais, contra tudo.

Lutamos o tempo todo esperando uma invasão que nunca vem, a única vantagem é que esquecemos nossas tristezas e nem nos preocupamos tanto em como está, cada dia mais, difícil conseguir alimentos, mesmo que as colheitas sejam sempre maiores que as anteriores, mesmo que nossa população não aumente (aliás, tem diminuído com esses “reordenamentos” mais frequentes).

Ontem, outro vizinho meu sumiu !

Ele queria uma ração maior porque sua filha teve filho, um insetinho lindo – o dono do mercado avisou o capataz, que falou com o supervisor, que comunicou ao diretor e meu vizinho não foi visto mais – Pelo menos agora a ração alimentar para os netos do meu vizinho “ausente” aumentou um pouco (uma boca a menos ou uma boca menor no lugar da outra), a vida exige sacrifícios (o governo sempre nos diz isso) !

É assim que funciona.

Alguns dizem que precisamos agir, outros dizem que não, outros ainda, contam para os responsáveis quem queria agir e ficamos com medo a maior parte da vida.

Querem saber ? Eu não me importo com isso, um dia vou morrer mesmo e pensar nisso sempre é tão cansativo, afinal de contas, eu sou apenas um inseto e não quero mudar nada, eles que façam o trabalho árduo de nos proteger e nos alimentar, pensam que são espertos, nós é que somos !

Vou parar de escrever porque tem alguém batendo na porta…

***

– Bom dia, queremos entrar – E entraram mesmo, segundos antes de qualquer resposta minha.

– Claro, Sr. Diretor Especial, é um prazer recebê-lo aqui (e sem dúvida, uma imensa surpresa, falei comigo mesmo), em que posso ajuda-los ?

Alguns dos auxiliares do Diretor eram bastante sem cerimônia e iniciaram a vistoriar minha pequena residência de uma forma bastante metódica, até mesmo rude, eu diria, se me perguntassem (talvez não dissesse, não sei).

Continuou a autoridade que muitos sequer conheciam, embora suas credenciais em seu peito não deixassem dúvidas, num agradável tom de voz:

– Soubemos, meu caro, que você é escritor. Um inseto escritor , veja bem.

– Quem ? eu ?  bondade de quem falou,  uns rabiscos, umas notas, nada demais…

– Soubemos também que você é bastante crítico sobre o modo de vida da nossa próspera e feliz colônia.

– Não diria que são críticas (agora estou realmente assustado), eu elogio sempre até (embora “próspera e feliz” nunca tenham me caído na folha) e gosto de viver aqui, estava terminando de falar sobre isso inclusive, escrevia a respeito da grande responsabilidade dos senhores em cuidar de todos nós com patas de ferro (essa expressão não foi bem recebida, tive essa impressão).

– O senhor sabia que seus “inocentes” escritos foram encontrados em outros aglomerados insetóides e que estes tiveram uma visão bastante negativa de nós, do nosso governo, como se fôssemos autoritários, como se nosso senso do Estado Ideal, participativo e social, estivesse errado ? (notei um leve aumentar em sua voz).

– Como podem pensar uma coisa dessas ? – disse eu. – É essa liberdade geral deles que os atrapalham na interpretação de nossa conjuntura (outra colocação mal colocada, digamos assim, percebi na hora).

Um pouco (totalmente) vermelho, o diretor  (meio brusco agora) perguntou :

–  Esse papel é o seu último “rabisco” ? (um dos seus comandados havia lhe entregue meu textinho recente, nem estava escondido).

Quando respondi positivamente, ele se deu um grande sorriso com a “prova” na mão e eu,  por uma simples empatia gratuita, sorri também.

– Queira nos acompanhar, por favor, meu jovem inseto, devemos  lhe mostrar algo muito importante, não precisa pegar documentos ou se preocupar com roupas, nós providenciaremos tudo, não se desgaste com nada, não queremos cansar sua preciosa cabecinha. – Como não gostei da piada e por puro desespero, não sorri, ao contrário dos demais em minha sala.

Assim se encerrou a visita “cordial” e receio que algo mais esteja prestes a se findar igualmente.

Dei uma última olhada nos meus aposentos, saímos para a rua deserta com tantas portas e janelas estranhamente fechadas e de imediato, senti uma saudade inexplicável e imensa de mim.

Anúncios

7 comentários em “Algemados – Conto (Olisomar Pires)

  1. Neusa Maria Fontolan
    30 de agosto de 2016

    Gostei. Mais ainda do primeiro parágrafo e do último. Parabéns.

  2. Priscila Pereira
    30 de agosto de 2016

    Oi Olisomar, gostei muito do seu texto!! Ótima ideia para um conto e muito bem escrita, achei genial os parênteses. Parabéns!!!

    • Olisomar Pires
      30 de agosto de 2016

      Obrigado, Priscila. Também gostei das falas entre parênteses … rsrsrs

  3. O primeiro parágrafo me ganhou! 😉 Parabéns pelo texto.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 27 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .