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O sol é para todos – Harper Lee – Resenha (Gustavo Araujo)

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Difícil dizer algo de novo sobre um dos clássicos da literatura contemporânea. “O Sol é para Todos” foi escrito em 1960 e rendeu à autora Harper Lee o prêmio Pulitzer, tornando-se presença constante em listas de melhores romances de todos os tempos ou livros que todas as pessoas deveriam ler ao menos uma vez na vida.

Confesso que não conhecia essa repercussão toda. Na verdade, a única memória que eu tinha sobre o livro vinha do filme homônimo, em branco e preto, estrelado por Gregory Peck nos anos 1960. Ou seja, nunca me interessei em ler ou conhecer a estória (ou seria história?) contada pela autora americana.

Até que no início de 2016, foi lançado “Vá e coloque um vigia”, segundo livro de Lee, pouco antes de sua morte, o que trouxe “O Sol…” de volta às notícias, em volume suficiente para que eu tivesse a curiosidade despertada.

Li as primeiras linhas despretensiosamente. A prosa juvenil não me pegou de início, de modo que tive certa dificuldade em perceber que o narrador – Jean Louise Finch – era na verdade uma menina de nove anos. Porém, logo me vi apanhado pela fluidez do texto. Tudo simples, fácil, nostálgico até, lembrando minha própria infância.

Maycomb, Alabama, poderia ser equivalente a muitas cidades do interior do Brasil, com seus moradores misteriosos, gente trabalhadora, preguiçosos de plantão, pessoas invejosas e outras corretas, descritas pelo olhar aguçado de crianças curiosas: Jean Louise (também conhecida pelo apelido Scout), seu irmão mais velho Jeremias (Jem) e o amigo deles, Dill. Lá estão a escola, a casa assustadora, as árvores, as velhas senhoras e seus hábitos seculares. Lá está a alegria de descobrir a vida. E lá estão também as mesquinharias e os preconceitos.

A história criada por Harper Lee se passa em 1935, pouco após a Grande Depressão, uma época em que a discriminação racial era vista como algo perfeitamente normal. Nesse contexto, Thomas Robinson, um rapaz negro, é injustamente acusado de estupro. Por tal acusação, deverá ser julgado – um teatro cujo final é conhecido antecipadamente e que independe de provas. Para defendê-lo é destacado um advogado chamado Atticus Finch, justamente o pai de Scout e Jem.

Em meio às descobertas e desconfortos típicos da infância e da adolescência, Scout confidencia a nós, ávidos leitores, as dificuldades do pai em defender um homem a quem se atribui injustamente um crime nunca cometido.

Esse amor entre pais e filhos jamais é descrito de forma expressa, mas conduz a narrativa de maneira onipresente. A maneira como Scout e Jem se referem ao pai – chamam-no pelo nome, simplesmente –, o temor que têm por sua segurança (afinal, ele defenderá um negro no tribunal), a admiração que guardam por sua integridade moral e a surpresa que os arrebata quando descobrem alguns de seus atributos que ficaram perdidos no passado, tornam a relação entre eles comovente, triste e bela.

Mas não é por isso que “O Sol é para todos” tornou-se um livro atemporal.

Transporte-se para 1960, ano em que o romance foi lançado. Naqueles dias, o tratamento dado aos negros nos Estado Unidos não estava muito distante do cenário retratado no livro. Diversos Estados praticavam o aparteísmo sem qualquer vergonha, discriminando as pessoas pela cor da pele: banheiros para brancos, banheiros para negros; restaurantes para brancos, restaurantes para negros e assim por diante. Martin Luther King ainda lutava pelos direitos civis, mas tudo ainda demoraria a se resolver em termos legais.

Ao falar de racismo – e também estupro e sexo – Harper Lee provocou o público, obrigando as pessoas a discutir temas controversos e desconfortáveis, temas que, até então, eram protegidos por uma aura de proibição, conveniência e conivência.

A maestria com que a autora aborda esses temas, pela visão de uma garota de nove anos, torna fácil entender a estupidez daqueles que justificavam a tese de uma suposta supremacia branca. Fantástico, nesse sentido, é o trecho em que, durante uma aula na escola pública, o racismo é nas entrelinhas equiparado ao nazismo.

Embora a situação dos direitos civis tenha se resolvido em termos jurídicos, é inegável que ainda hoje há forte discriminação racial nos Estados Unidos. Não são incomuns as notícias a respeito de crimes de ódio racial naquele país, evidência de que há ainda um longo caminho a ser percorrido até a conquista da igualdade de fato – se é que isso um dia ocorrerá.

No entanto, não é difícil transpor a realidade americana para a brasileira. Também aqui o racismo sempre deu as caras, quer nos anos 1930, quer nos anos 1960, quer hoje. Monteiro Lobato e mesmo Érico Veríssimo são expoentes literários que manifestaram num ou noutro momento, de forma até natural, a ideia de que os negros não estavam no mesmo patamar racial dos europeus. Ainda hoje, aqui no Brasil, a tolerância racial nada mais é do que um mito.

Esse contexto faz com que se admire ainda mais a coragem e a ousadia de Harper Lee. Uma história aparentemente inocente, sobre a vida em uma pequena cidade americana nos anos 1930 que, na verdade, convida a meditar sobre o que há de mais infame no ser humano.

Uma vez que se percebe o que está em discussão no livro, é impossível largá-lo. O trecho que retrata o julgamento de Thomas Robinson é daqueles que nos fazem optar por perder valiosas horas de sono, uma verdadeira aula sobre como manter o leitor preso. “Só mais um capítulo…”

Torcemos por Scout e Jem. Torcemos por Thomas. Tememos por Atticus.

Só no fim temos plena noção da covardia que é matar um rouxinol – uma metáfora advinda do título em inglês “To Kill a Mockingbird”, inexistente na versão em português, que optou pela alusão à igualdade defendida pela autora – e de como isso pode nos impactar.

Um arremate à altura das expectativas, o que é, por si, algo raro.

O enredo possui forte influência biográfica de Lee. Nascida em 1925, amiga de infância de Truman Capote, a menina Harper viu o pai, um advogado da pequena cidade em que viviam, defender um homem negro perante um tribunal de brancos.

Coragem era herança de família. Para a nossa sorte.

Um livro para todos.

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2 comentários em “O sol é para todos – Harper Lee – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Olisomar Pires
    29 de agosto de 2016

    Um dos meus livros favoritos. Fico até com receio de ler o que seria o segundo livro da Harper Lee e perder a magia deste. Quanto à questão racial, penso que o caso brasileiro é muito diferente do norte-americano, sentindo-me tentado a adotar a visão de democracia racial do Gilberto Freyre em sua obra “Casa Grande e Senzala” .

  2. Neli Espanhol
    26 de agosto de 2016

    Mesmo sendo difícil dizer algo novo sobre essa linda história, você mostra e vai aguçar a curiosidade de quem não leu. Amo esse livro que já emprestei pra muita gente, pelos motivos que você mencionou, pelo os dois suspenses que ele tem, que nos deixa desassossegados e principalmente pelo o amor secreto de um personagem “secreto???” Sempre me ponho na janela com ele, e rio desbragadamente das trapalhadas dos pequenos. E foi da primeira página que esse livro me conquistou. Harpper Lee, escreveu pouco, mas, esse livro é magistral, lindo e mágico, povoa nossos pensamentos por muito tempo. E o filme não gostei, foi resumido demais, para uma obra tão grande. Parabéns, Gustavo Castro Araujo, No filme “Confidencial” aparece ela ao lado de Trumam Capote, que parece ter ficado enciumado com o estouro dela no lançamento dessa grande obra. Parabéns, Gustavo Castro Araujo!

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Publicado às 26 de agosto de 2016 por em Resenhas e marcado , , .