EntreContos

Literatura que desafia.

O Diálogo do Silêncio – Artigo (Claudia Roberta Angst)

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“O silêncio é uma confissão.”

– Camilo Castelo Branco

 

Na música, uma pausa tem o seu valor para a harmonia da melodia. É o momento em que o vazio segura as notas para valorizar o som. É a tomada de fôlego para o próximo acorde. Há compassos que são só silêncio.

A literatura compõe-se tanto de palavras quanto de silêncios. A lacuna entre o que é dito e o que se omite ganha nas entrelinhas o seu real significado.

O silêncio surge na contramão do meio discursivo e recebe diferentes interpretações. Os valores divergem de acordo com cada cultura. Assim, enquanto os ocidentais parecem temer o silêncio, os orientais o reverenciam como sinônimo de respeito e de sabedoria.

As tragédias antigas apresentam o silêncio no seu sentido religioso e dionisíaco. Os grandes personagens como Prometeu, Fedra, Electra, Édipo, Otelo, Hamlet, são precisos em suas pausas trágicas, revelando a tensão dramática diante do inevitável destino.

Muitas vezes, o personagem guarda as palavras, cala-se e apresenta suas reflexões. A narração esbarra na sutileza da descrição de um momento, uma lágrima, um suspiro sem som.

Se não fosse o silêncio, os parágrafos avolumariam descrições ou diálogos sucessivos sem pausa para reflexão, sem o impacto necessário para fazer o leitor parar por segundos e sentir o peso do momento.

A linguagem não-verbal pode cortar o diálogo e provocar a quebra do pensamento do narrador, causando um desdobramento de sensações. Muitas vezes, acontece sem gestos, sem apelo visual, sem toque ou gosto. A pausa pode levar um texto ao fim aberto, à ausência de respostas, ao desconstruir das expectativas.

Os segredos sempre exigem silêncio, o calar dos personagens diante do compromisso de guardar o que só a eles foi revelado. O torturante travar de mensagens intensifica-se com clímax anterior a qualquer revelação. Elemento necessário para provocar a queda de ruídos das prateleiras mais altas da memória, a pausa surge antes da grande declaração de amor, da confissão de um crime, da bola lançada à cesta, da rebatida da raquete.

Presente nos ombros do pianista antes que suas mãos deslizem sobre o teclado, o silêncio, o mais precioso dos metais, define o momento sublime. Diferencia a fofoca da meditação, o interno do externo, o calar dos amantes da tola argumentação. Às vezes, parece eterno, como a ausência total de inspiração, testemunha que precede a morte, em sua última respiração.

O silêncio também é resposta, pois guarda a negação de explicações, ou se apresenta como o consentimento daquele que se cala. Em um romance, conto ou poesia, o silêncio revela seus muitos aspectos, dando ao leitor a chance de criar – o próximo verso, a próxima fala, aquela que talvez nunca tenha existido nem mesmo para o autor.

Diante da falta de palavras, o leitor completa o vazio com o seu próprio pensamento ou apenas o absorve. Empresta sua voz, com surpresa ou estranhamento, agrado ou repudio e só então entrega-se, enfim, ao silêncio.

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14 comentários em “O Diálogo do Silêncio – Artigo (Claudia Roberta Angst)

  1. Rubem Cabral
    22 de junho de 2016

    Olá, Claudia! Gostei do artigo. Realmente, o silêncio, as entrelinhas, o insinuado e não dito, têm seu papel em literatura de qualidade.
    Há a questão do equilíbrio do uso de tais recursos, pois nem tudo deve ficar em aberto, deve haver uma fração significativa de clareza, temperada com fumaça e espelhos.

    Abraços!

    • angst447
      22 de junho de 2016

      Mistério demais estraga tudo, né? Bom mesmo é encontrar o equilíbrio entre os sons, palavras e o silêncio. Alguns aproveitam para meditar, refletir, ficar em paz. Outros ficam muito angustiados com o silêncio. Abraçar uma árvore é zen, entrar em contato com a profundidade da sua própria natureza. Receio que eu seja mesmo uma pessoa “sem”. 🙂 Obrigada pela leitura e pelo comentário.

  2. Eduardo Selga
    21 de junho de 2016

    O silêncio é altamente polissêmico pelo fato de dizer sem verbalizar, e por depender por completo do leitor para se fazer ouvir. Ele também possui conotações negativas, ligadas, por exemplo, à covardia e à conveniência de quem silencia.

    A boa literatura se faz sobretudo nos silêncios. Nesse sentido, o discurso verbalizado funciona como um disfarce que oculta, num segundo plano construído pelos silêncios textuais e pelas entrelinhas, outra estória. Ressalto: apenas na boa literatura o silêncio consegue voz, pois no texto esteticamente ruim não há mais do que uma camada, por sinal muito rala, no mais das vezes.

    Parabéns pelo bom artigo.

    • angst447
      21 de junho de 2016

      Há muito o que se falar sobre o silêncio por mais contraditório que isso pareça ser. Agradeço pela leitura e pelas ótimas colocações (como sempre). 🙂

  3. José Leonardo
    21 de junho de 2016

    Olá, Claudia. Você sintetizou sabiamente a manifestação daquilo que num primeiro momento nunca se manifesta. O silêncio é maravilhoso, fenomenal, eu daria festas atenienses em homenagem ao silêncio (o que não significa que participaria delas). Silêncio bom também é aquele lado-negro-da-lua, silêncio-mistério, o que não diz mesmo. Parabéns. Abraços.

    • angst447
      21 de junho de 2016

      Ideia peculiar dar festas atenienses em homenagem ao silêncio e não participar delas. Lado negro da lua? Humm, sabrinesco isso, hein?
      Obrigada pela leitura e pelo comentário. Abraço.

  4. Fabio Baptista
    20 de junho de 2016

    O recurso de deixar o leitor preencher lacunas pode gerar efeitos bem interessantes. Porém, se o silêncio em demasia pode gerar confusão. É um jogo de equilíbrio, tentativa e erro, bom pra uns, ruim para outros… igual a tudo na vida.

    Eu, como não sou nem um pouco prolixo, gosto de usar os silêncios, sempre que possível.

    Muito bom artigo.

    Boa sorte no desafio!

    • angst447
      20 de junho de 2016

      Nada prolixo, né? Pois sim! Melhor silenciar minha opinião.
      Agradeço pela leitura e pelo comentário, homem de poucas palavras.
      Abraço.

  5. Paul Angst
    20 de junho de 2016

    Excelente! Gosto do tema “Silêncio” que foi muito bem tratado no artigo, com delicadeza e originalidade. Parabéns!

    • angst447
      20 de junho de 2016

      Obrigada pela leitura e pelo generoso comentário, meu irmão (e padrinho). Beijo. 🙂

  6. Brian Oliveira Lancaster
    20 de junho de 2016

    Excelente… Que o silêncio preencha de admiração o que faltar neste comentário sem fim…

    • angst447
      20 de junho de 2016

      Admiração mútua, caro Brian. Sem mais palavras que me socorram, calo-me diante de tão gentil e lacônico comentário. Abraço.

  7. Jefferson Lemos
    19 de junho de 2016

    Um silêncio vale mais do que mil palavras.

    Gostei do artigo. Acredito que realmente há esse valor em não falar além da conta. Deixar que o não dito diga mais do que o dizível, e tocar o leitor não pelo o que se escreve, mas pelo o que se supõe.

    Uma ótima reflexão; não poderia ser menos, vindo de quem vem.

    Abraço!

    • angst447
      19 de junho de 2016

      Agradeço pela leitura e pelo generoso comentário, Jeff. 🙂

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Publicado às 18 de junho de 2016 por em Artigos e marcado .