EntreContos

Literatura que desafia.

Peões – Conto (Vitto Graziano)

avenida brasil

Trabalhar sob o fio da navalha, sem equipamentos e instalações adequadas, chegando ao ponto de comprar as próprias luvas descartáveis: a teoria era oposta ao exercício da profissão e vidas se perdiam como se fossem nada.

Deixando que o primeiro paciente fosse levado pelos enfermeiros, Dra. Patrícia Neri atendeu outro ferido, mas tomada por uma péssima sensação suas mãos deixaram de ser firmes. Como utilizaria um bisturi, a tesoura curva ou uma pinça de dissecação? Sua mente gritava por descanso, enquanto as horas insones, em conluio com as peças pregadas pelo cansaço, diziam que não havia mais nada a ser feito. O corpo daquele jovem a encarava com frieza, até que uma voz a trouxe de volta à realidade:

— Acorda, estamos quase chegando — a voz adocicada de Andressa surgiu junto a um cutucão na altura da costela.

— Só mais um pouquinho — observando o semblante gentil contornado por um olhar púrpuro tal qual Elizabeth Taylor, Patrícia Neri perdeu-se dentre suas madeixas loiras e pediu para cochilar mais alguns segundos. — Por favor.

Emergência lotada. Filas enormes e insatisfação popular: vida de médico é dura. No caso de Patrícia pior ainda, pois além de atuar como cirurgiã emergencial há onze anos no Hospital Geral de Bonsucesso, também era uma mãe dedicada, que, ao soar do alarme esquecia-se dos problemas do mundo para cuidar da própria família. Sua dupla jornada.

— Acorda Patrícia, não estudei mais de quinze anos pra ser sua chofer — guiando com uma das mãos, Andressa Vecchio respondeu de maneira amistosa, depois de cutucá-la novamente.

— Desculpa, amiga. O plantão foi puxado. Assinei dois óbitos — voltou seus olhos azulados em direção a pista.

— Eu soube. Três feridos à bala do Adeus, né? — perguntou Andressa, que, ultrapassando à rampa da saída, redobrou a atenção depois de outra extenuante jornada de trabalho.

— Dêssa… Não aguento mais. Foi horrível! Dois em estado grave e um “pacote”. Outra cortesia da PM — Patrícia comentou antes de elevar o banco.

— Chances? — perguntou por instinto.

— Acho que não — de olhos fechados respondeu. — Eles foram arrastados como sacos de lixo.

— Patrícia, eu não sei como você aguenta. Lá na pediatria, se aparece alguma criança vítima de violência, a primeira coisa que eu faço é acionar Assistência Social e depois a polícia, só que no seu caso, não tem como. Vai reclamar pra quem? — disse depois de avançar o segundo sinal vermelho.

— Tem a polícia civil que é um pouco melhor, só que o mais incômodo não é a cena em si — Patrícia deu uma pausa antes de concluir. — É a possibilidade de ver algum conhecido, ou eu mesma sendo levada daquele jeito. Afinal, a polícia é para todo mundo

— Quer um conselho? Esquece de tudo e vá relaxar — Andressa conferiu a hora no painel. — Dá tempo de levar seu filho à Sede do Calabouço.

— Tudo bem, amiga. Hoje a minha única preocupação é chegar inteira. Graças a Deus, ele está na casa da madrinha e de lá vai pra piscina — ainda perdida em sua meditação acordou de vez ao sentir o solavanco de um quebra-molas. — Acho que não vou conseguir descansar com meu pai e o restante do povo lá em casa. Falando nisso, quer almoçar a macarronada típica da família?

— Vou ver como está a escala do Jorge e te ligo. É aniversário de alguém? — perguntou Andressa.

— Mais ou menos. Na verdade, é só mais uma ideia maravilhosa de tentarem me desencalhar — riu para a amiga. — Meu pai reuniu a família inteira para o evento do ano.

— Você está falando da festa no antigo Clube Itanhangá? — Andressa questionou, estupefata. — O aniversário de Salvador Lavezzo?

— Essa porcaria mesmo, amiga.  Não estou com a mínima vontade de comprar vestido, fazer cabelo e testar maquiagem. Só quero a minha cama e ponto final.

— Pelo amor de Deus, Patrícia! Larga mão de ser preguiçosa. Há quantos anos você não se dá ao luxo de tomar um banho de loja? Quer saber? Depois do almoço vou te buscar para irmos ao shopping —  Afirmou Andressa, mostrando mais ânimo que a convidada.

— Obrigada, amiga, mas não.

— Você é solteira, bonita e, além do mais, é uma das pessoas mais inteligentes que já vi. Por que ficar se privando de ser feliz? Vai que aparece um empresário bonitão? — sorriu de volta. — Sério, é por minha conta. Vamos lá, você tem que aproveitar a vida por mim. Eu já sou casada.

— Por ti? — Patrícia a olhou com desdém. — Você tem a vida que a maioria de nós pediu a Deus. Seus filhos são lindos e seu marido é um homem maravilhoso.

— Para quem está de fora. A vida de casada não é esse encanto todo. Eu me sinto presa e, no pouco tempo que me resta, o Jorge só quer ir ao shopping ou ficar na cama. No máximo, aos fins de semana, depois de muita insistência e disposição, vou fazer um passeio no Parque Laje ou na Floresta da Tijuca.

— Disposição? Está falando sobre aquele probleminha? — Patrícia conteve o sorriso.

— Bóra, querida! — Andressa buzinou uma pá de vezes contra o Gol Branco que atrapalhava o caminho. — Odeio domingueiro.

— Calma, amiga. Vamos pensar em coisas boas, no seu “problema” — disse Patrícia, ao perceber que o veículo à frente decidiu andar mais rápido.

— Tem horas em que me pergunto se ele faz por vontade — Andressa riu.

— E vai me dizer que não gosta? — Patrícia retribuiu o sorriso leviano.

— Uai… Gostar, eu gosto. Quem não gosta? Na hora aproveito com o meu coelhinho, mas e depois? — Andressa entrava no espírito da brincadeira, quando o mesmo veículo tornou a irritá-la ao parar no sinal vermelho. — Caceta, minha filha! Isso aqui não é Paris!

— Sossega Andressa, ela pode estar perdida ou preocupada com pardal. A gente tem que escolher se vai ser roubada pelos bandidos ou pela prefeitura — Patrícia comentou ao ver a silhueta da motorista.

— Quer dirigir, Patrícia? Se você está cansada, eu também estou. E pra piorar essa doida se esqueceu de que não podemos dar sopa nessa área — disse Andressa, ainda irritada.

— Então é coelhinho?! Nada bom, hein — Patrícia tentou retomar o assunto, mas interrompendo seu raciocínio, o veículo engatou a marcha errada e as atingiu com a ré.

— Agora é demais — perdendo de vez a cabeça, Andressa saiu do veículo com o celular em mãos e começou a fotografá-los em sequência.

Eram seis horas da manhã e nem mesmo os comerciantes, sempre esporrentos, por ali passavam. Apenas elas e a manhã fria. O trajeto dos portões do Hospital Geral de Bonsucesso até o bairro de Santa Tereza demorava cerca de vinte e cinco minutos, no máximo trinta, caso pegassem a Linha Vermelha. Num dia comum, em breve, Patrícia se jogaria sobre os vários travesseiros que a esperavam na cama, contudo, mais preocupada com a franquia do seguro, Andressa berrava contra o condutor que, devido ao rabo de cavalo, havia sido confundido com uma mulher. Por sua vez, aparentando tranquilidade, ele se mostrou disposto a não criar mais problemas e gesticulando, como se estivesse pedindo desculpas, deu a Andressa os documentos necessários para o e-BRAT.

Acomodada no mesmo lugar desde o início da discussão, Patrícia conseguia vê-los bem e assim o fez até que, vindo do acostamento, um motoqueiro encostou-se à porta. Assustada com a possibilidade de uma emboscada, Patrícia olhou na direção do sujeito e tentou travar as portas do veículo, contudo, antes que pudesse alcançar a trava automática, uma explosão arremessou Andressa contra o asfalto. Logo, tomada pelo instinto de sobrevivência, Patrícia saltou sobre o banco do motorista e tentou dar partida, mas sem as chaves, só teve olhos para o atirador que, calmamente, saiu do veículo e parou em frente ao corpo de sua amiga.

Aquele mísero segundo durou uma eternidade e suas mãos voltaram a tremer como no pesadelo passado. O cavanhaque e o rabo de cavalo davam ao criminoso uma imagem familiar. Feito um passe de mágica, todas as peças daquele quebra-cabeça fizeram sentido e, ainda que não aceitasse o preço a pagar por seus laços sanguíneos, nada pôde fazer quando o motoqueiro sacou uma Micro-Uzi do baú.

***

No lugar errado e na hora errada, desperta pela rajada que despedaçou sua melhor amiga, Andressa se contorcia num agonizar moroso em plena Avenida Brasil. O dia prometia ser bonito. O sol ilustrava o céu azul e o ar, de tão puro, apontava para outro domingo de praia, exceto pelo disparo que, projetando-a contra o asfalto, rasgou o ar e morreu em seu peito.

O chão estava quente. Lembrou-se dos filhos e do marido até que, sem qualquer explicação, o anônimo lhe alvejou mais três vezes.

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7 comentários em “Peões – Conto (Vitto Graziano)

  1. donvittor
    15 de agosto de 2016

    Muito obrigado, Priscila! Fico feliz que o capítulo tenha conseguido atingi-la. Essa história faz parte de um livro que publiquei na íntegra no Wattpad. Bella Máfia – Dinheiro se lava com Sangue.

  2. Eduardo Selga
    8 de agosto de 2016

    Ao inverso do que certo senso comum apregoa, para uma narrativa ter valor literário não é obrigatório haver nela os derramamentos líricos ou trágicos, tampouco a exagerada utilização de figuras de linguagem, o que não significa em absoluto que o uso adequado desses elementos (lirismo, tragédia e figuração) seja um erro. Como se trata de um trabalho com a linguagem, esta precisa ser privilegiada, evidentemente, caso contrário não temos literatura.

    Mas o que significa isso? É projetar na superfície do texto dimensões humanas do cotidiano pouco visíveis ao homem nu, apenas perceptíveis por intermédio do trabalho artístico, o que muitas vezes passa pelo uso da denotação via figuratividade. Mas há autores, como Graciliano Ramos, que conseguem criar um ambiente imagético sem carregar na linguagem figurada.

    Tudo isso para dizer que esse conto é bastante seco, em se tratando do aspecto tratado acima. Não se trata, em absoluto, de inabilidade do autor. Ao contrário, está perfeitamente adequado à ambientação pretendida. É a secura do Rio de Janeiro violento.

    Aliás, no conto a cidade funciona como representação micro de um universo macro. Dizendo doutra maneira, é o Brasil “acondicionado” na cidade que é vista como uma das representantes do “modo de ser brasileiro”. Mais ainda, é a representação do modus vivendi a que as pessoas estão obrigadas pelo capitalismo em países periféricos. Temos no conto, por exemplo, o sucateamento da saúde e a polícia exterminadora e controladora do chamado exército de reserva, que é o contingente em constante desemprego, elemento estrutural do capitalismo para manter o salário da mão-de-obra ativa em patamares reduzidos.

    Outro senso comum é a ideia de que a narrativa tem de tratar de excepcionalidades, e por meio dela “fisgar o leitor”. Por esse pensamento, o cotidiano não encontra espaço, porque confunde-se o comum com o banal.

    No bem elaborado diálogo entre as personagens não temos nenhuma excentricidade. Trata-se do cotidiano. Na sequência, temos o desfecho com homicídio (duplo, se bem entendi), bastante comum nas ruas das capitais brasileiras. Entretanto, nada existe de banal na cena. Ao contrário, o trágico sacode o leitor. Fisga-o? Vá saber… Isso é muito pessoal e não pode ser critério de avaliação de qualidade literária.

    Ou seja, o conto é a representação do invulgar no trágico cotidiano brasileiro, aparentemente comum. .

    • donvittor
      15 de agosto de 2016

      Eduardo, fico sem palavras para descrever a sua análise. Eu sou formado numa linha marxista e mesmo involuntariamente acabo colocando-a em meus textos, em especial, nos Tomos que separam o livro. Acho que gostará muito das críitcas. Forte abraço!

      • Eduardo Selga
        16 de agosto de 2016

        Obrigado, Vitto. É inevitável nos incluirmos em nosso próprio texto. Não há como escaparmos, ainda que consideremos que isso não aconteça por supormos que ideologia é apenas o identificado como esquerda ou marxismo. Essa inclusão pode ter diferentes graus de evidência, desde a quase invisibilidade até o escracho panfletário; pode estar apenas em detalhes mínimos, que apenas o autor e os muito próximos dele captam, mas pode também estar gritando em cada cena narrada.

        Para o autor que teme o panfletário um exercício bem interessante na construção de texto é tentar “desaparecer” dele, ou seja, construir um texto em que suas convicções políticas, sociais e filosóficas não saltem aos olhos. O desafio é o autor identificar-se com o texto apesar de estar “desaparecido” nele.

        As escolhas narrativas de autores brasileiros novos costuma recair em estéticas que de um modo geral não são comprometedoras, como o gênero fantasia e narrativas fundamentadas na externalidade da ação. A despeito de ser uma opção pessoal do autor, ela pode contribuir para a alienação político-social do leitor. Ah, mas literatura não é política, alguém sempre dirá.

        É, sim política, como é o seu conto. Mas não deve ser palanque, como o seu conto não é.

    • Vitto Graziano
      30 de setembro de 2016

      Concordo contigo, meu amigo. Tudo é política.

  3. Priscila Pereira
    25 de junho de 2016

    Oi Vitto, que conto triste, o pior é que o texto é um cotidiano e é horrível que essas coisas aconteçam com tanta frequência. Sobre seu texto eu gostei muito, você soube criar um ar inocente até o final trágico, levou bem os diálogos, descreveu bem as cenas, muito bom. Parabéns!

    • donvittor
      15 de agosto de 2016

      MUito obrigado!

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Publicado às 19 de junho de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .