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Detox Literário.

Torrões de Açúcar – Conto (Rubem Cabral)

Antes era muito ruim, horrível mesmo. Havia dias em que só queria berrar; tão alto e por tantas horas que nem mil injeções me interromperiam, que nem minhas cordas vocais feridas poderiam me impedir. Gritar por gritar: depois, interromper de repente, sem ter ciência sequer da razão (do parar ou do berrar antes). Sabe, calmantes não funcionam comigo: os caras de branco não entendem, mas meu corpo, ele processa venenos. Eu poderia beber ácido de bateria se quisesse, aspirar fumaça direto do escapamento de um automóvel, comer chumbinho e achar graça do gosto (que lembra chocolate, eu sei). Acho que é o que acontece com todos nós; com os que ousaram transcender, com os que não se prendem mais às convenções castradoras que todos insistem em nos martelar nos miolos desde o dia em que somos cuspidos da carne de nossas mães. Eles nos trancam aqui porque nos invejam, porque ganhamos superpoderes.

ΨΨΨ

Minha mãe gostava de doce, já lhe contei alguma vez? Quando engravidou não conseguia comer nada, exceto doce. Pudim, bolo, gelatina, sorvete. Bastava o cheiro de comida de panela pra ela enjoar. Então, foram nove meses de panquecas com geleia, de compotas e melado de cana com farinha, quando nenhuma outra sobremesa em casa havia. E, lá dentro, da barriga dela, enrolado feito uma fatia de rocambole, vermelho que nem goiaba em calda, e formado a partir de tudo o que ela digeria e transformava, eu crescia. Eu-manjar-de-coco-com-ameixa, eu-algodão-doce, eu-bananada. Uma criança de xarope, depois um rapaz de chantilly e um homem cristalizado, que cresceu rápido feito um bolo bem-feito com a dose certa de fermento. Talvez seja esta a razão de tudo, da diferença, do porquê de não me entenderem. Por esta minha pureza morna e perfumada de flor de laranjeira, este meu humor que se dissolve fácil, este meu corpo frágil que quase se derrete sob o sol quente.

Eu sou de açúcar.

ΨΨΨ

Às vezes passo a noite inteira imaginando as histórias do povo que vive na mancha de mofo que cresce num dos cantos do teto do meu quarto. Aquela massa escura, peluda e de múltiplas camadas, mesclada com a tinta velha, descascada e de três cores distintas. Visualizo florestas de árvores esfiapadas, compridas, negras e cinzas, casinhas felpudas e encharcadas, erguidas sobre um solo que se assemelha a rímel escorrido de olhos chorosos. Seus habitantes, figuras em preto-e-branco, feito sombras ou vultos… Que surpresa teriam ao explorar os limites de seu mundo, ao descobrir o país rosa e depois o verde-claro mais ao sul, tão diversos de seu mundinho sem cor! Talvez estes bravos exploradores voltassem para contar boas novas ao povo da cidade ou, quem sabe, criariam mitos, proibições sobre aquelas paragens, que poderiam ser santas ou heréticas, lugares de peregrinação ou zonas de exclusão. Bendito seja aquele que viu o verde, pois viu a plácida face de Deus! Malditos sejam os que se voltaram ao rosa, porque traíram a Sua infinita bondade! Facções se formariam (é por isso, tenho quase certeza, é esta a razão do por que há uma linha branca e estéril cortando a mancha negra de fora a fora como um vergão). Antevejo guerras santas de novelos úmidos, montarias de algodão e canhões de espuma, corpinhos escuros sendo sugados de volta ao solo pantanoso, como tinta absorvida por um mata-borrão. O que acontecerá quando se depararem com a muito mais remota mancha azul? A vida parece ser bem mais interessante lá em cima.

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Hora do almoço, a hora mais feliz! Bato palmas contente e recebo do enfermeiro o copinho de plástico com um monte de pílulas. Engulo com um tanto de refresco ralo de caju, exibo a língua e a levanto, para que vejam que degluti de verdade. Aprendi, faz tempo, a esconder tudo no fundo da boca, atrás dos dentes de siso. Depois, enquanto estiver manejando meus talheres de plástico branco, cuspo discretamente no guardanapo de papel e, feito um bom rapaz, após a refeição jogo tudo bem amassado na lata de lixo, contente com o anuir dos funcionários que sorriem para mim por eu ser tão ordeiro. Gosto de brincar com a comida, de fazer um monte de purê de batatas e enfeitar com ervilhas e coloridas cenouras em cubinhos. Quando tem molho de carne assada, esculpo um vulcão e encho a cratera de caldo escuro, que deixo vazar lentamente sobre o arroz grudado. Na época em que tomava os comprimidos, descobri que eles me roubavam estas pequenas alegrias. Comida era só comida; insossa, repetitiva. Não existiram pedras-ervilhas rolando céleres, montanha abaixo, derrubando construções intrincadas de carne moída e angu amassadinho ou erupções de caldo de carne; tão quente e tão salgado. Tampouco música em meus ouvidos, cantando os maiores sucessos do outro mundo, nas línguas estranhas dos anjos e tocando instrumentos nunca inventados. Minha vida só se tornou suportável assim.

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Sessão de terapia com o Dr. Gustavo. Gosto do doutor; ele cheira a éter com sabonete de bebê e tem gordas bochechas que brilham sob a luz pálida do consultório. Seus óculos redondos entram forçados na cabeçorra que mais parece uma bola de futebol encimada por cabelos encaracolados. Em certos dias, quando ele fala de um acidente, só ouço e não dou um pio; é engraçado escutar estas histórias distantes que ele conta a meu respeito, que tenho certeza que são fantasias do pobrezinho. Eu observo as olheiras fundas do doutor, suas unhas roídas, seu tique de morder os lábios e o bater de sua perna esquerda sob a mesa. Ele me fala de “trauma”, de “fuga da realidade” e eu só matuto que o pobre deve ser deprimido, que seu sorriso cordial é fachada, que, no fundo de seus olhos escuros, há uma dor que ele não ousa externar. Em outros dias, quando estou disposto, eu o desafio, digo coisas como “médico, cura-te a ti mesmo” e coloco em dúvida tudo o que ele diz que é real. Houve uma sessão em que ele ficou especialmente irritado, quando eu disse que ele não existia, que era parte de minha mente inquieta, alguém interessante que eu criei para passar meu tempo e que eu poderia descriar quando me cansasse ou perdesse o interesse. Eu estalaria os dedos e “puff”! Substituiria o sujeito de voz gaguejante por alguma criatura muito mais excitante e exótica. Ele riu de nervoso e só fechou a cara quando perguntei por que ele era infeliz. Não me cabia fazer tais perguntas, ele respondeu. O paciente, afinal, era eu. É verdade: eu sou paciente. Irei esperar e descobrir.

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Dia de visitas ou, mais propriamente, dia de ausências. É triste para alguns, que efetivamente esperam, chegam a juntar suas tralhas e dizer com orgulho (e certo despeito pelos demais colegas abandonados): “Olha a foto dele, meu filho: não é bonito? Ele vem me buscar hoje, ele me ligou e garantiu (e exibe o celular, quebrado há pelo menos um ano). Eu não sou louco, só fiquei aqui um tempinho, pra colocar as ideias no lugar.“. Depois, aquela empáfia iria se diluindo em vergonha, embaraço humilhante, olhares fixos e lacrimosos para o nada. Em muitos destes dias temos a visita de voluntários de alguma igreja, com violões e canções sobre Jesus no Monte das Oliveiras, sobre segurar na mão de Deus e seguir, alegre e confiante. Às vezes canto baixinho no ouvido de algum pobre iludido. “Sorri / Vai mentindo a tua dor /E ao notar que tu sorris / Todo mundo irá supor / Que és feliz”. Gostaria mais de cantar a original do Chaplin, onde ele dizia que sorrir mudará tudo. Há menos fé e mais realidade dura nesta versão de Djavan; é bem mais amarga. Sorria, finja, engane-se, vista a máscara do palhaço enquanto chora por dentro. Teria mais gosto em acreditar em Chaplin, sorrir para superar as dificuldades, para dissipar as nuvens escuras, mesmo que meu coração doa ou esteja em cacos. Chaplin devia saber das coisas, digo, sobre loucura, afinal, sua mãe morreu num sanatório.

ΨΨΨ

Nunca algum parente ou amigo veio me ver, ao menos de dia, no horário convencional. À noite, depois das luzes apagadas, como em todas as semanas neste exato dia, Laurinha veio conversar comigo. Ela é um anjo, tem asas tão largas, translúcidas e brancas que tomam todo o quarto. Seus olhos são de pura luz, fazendo um contraste bonito com sua pele morena. Laurinha já não me culpa por nada, ela me entende agora: me amou, me ama, me amará, para sempre. Minha esposa me diz que enfim chegou a hora, o momento de libertar as almas imaculadas de todos os que transcendem, para que voem até o Céu, e me pergunta, se eu teria coragem de fazer o necessário. Claro que sim, eu respondo. Mas eu estaria pronto? Teria me perdoado, finalmente? Estaria puro o suficiente para perdoar papai Gustavo também, que me trouxe para cá e não permitiu que me juntasse a ela quando tudo aconteceu? Eu respondo com um sorriso (do tipo que faria Chaplin feliz de ver estampado em minha cara e não algo congelado e fingido), um sorriso capaz de trazer luz a um dia cor de chumbo. Ah, quando o fogo se espalhar amanhã de manhã, lindo, arrebatando fiéis e infiéis em sua fúria libertadora; eu não queimarei. A fumaça não me fará mal e, no máximo, eu sei, eu derreterei, suave feito sorvete na mão de um menino num dia quente, como calda de chocolate espessa, melando os dedos de uma criança.

Um torrão de açúcar.

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4 comentários em “Torrões de Açúcar – Conto (Rubem Cabral)

  1. Simoni Dário
    13 de junho de 2016

    Excelente, psicologia pura que eu adoro. As reflexões são ótimas, até o final fiquei achando o protagonist para lá de saudável(não tomava os remédios, imagino que mantinha a lucidez), mas no fim fiquei muito em dúvida se era uma mente sã ou psicopata. De qualquer forma, uma ótima leitura.
    Abraço.
    * Os símbolos que dividem as partes do texto são da psicologia, não são?

  2. Fabio Baptista
    22 de abril de 2016

    Mano… vou ter que ler de novo.
    Não entendi muita coisa nessa primeira leitura… 😦

  3. Angela Gomes
    21 de abril de 2016

    Espetacular!!!!

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Publicado às 20 de abril de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .