EntreContos

Literatura que desafia.

O menino e a máquina do tempo – Conto (Victor O. de Faria)

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A camiseta vermelha com furos, a bermuda amarela rasgada e os chinelos gastos – sem perder o barulho característico – não incomodavam sua insólita amiga, a lixeira, fonte inesgotável de tesouros escondidos. Localizada em um beco esquecido, ao lado de um prédio onde pessoas importantes se reuniam, fornecia proteção, alimento e quinquilharias dignas de um museu.

Naquele mesmo lugar, numa manhã ensolarada, o garoto maltrapilho de doze anos foi acordado por um som metálico. Acostumado ao seu manto de invisibilidade ignorou quem havia jogado fora o objeto de som engraçado. O estranho vulto desapareceu assim como surgiu.

Descruzou os braços, ergueu a cabeça e se espreguiçou. Abriu a tampa. Revirou algumas sacolas inúteis, movimento que se arrependeria depois, pois as melhores sobras estavam em cima, e encostou sua mão no objeto frio e quadrado. Com cuidado o puxou. Pulou de volta ao chão.

Já tinha visto aquilo nas propagandas escandalosas do centro, mas ter uma delas em mãos era completamente diferente. Analisou o botão circular superior e apertou. A tela escura, rachada e um pouco suja, voltou à vida após muito tempo. Por curiosidade mórbida, segurou o objeto próximo aos seus olhos. Apertou o botão lateral. O clarão o assustou. Como num passe de mágica, a imagem do beco e de sua amiga inanimada ficaram gravadas para sempre na tela irregular. O sorriso infantil e deslumbrado foi interrompido pela aproximação de um policial.

— O que está fazendo, menino? Roubou isso de quem?

— Não roubei nada, tio. Tava no lixo.

— Me deixa ver isso aí.

Arrancou o objeto de suas mãos.

— É uma máquina fotográfica bem antiga, apesar de usar chip. Meus filhos iriam gostar…

Observou por um tempo aqueles olhos sofridos, curiosos e ao mesmo tempo amedrontados. Um lampejo de consciência e humanidade surgiu em seu inconsciente (por algum motivo obscuro). Coçou a cabeça e devolveu a máquina ao garoto. Suspirou.

— Aproveite. A bateria não vai durar muito tempo.

— Obrigado, tio.

— Você deve se referir aos adultos como “senhor”. Seus pais não lhe ensinaram isso?

— Não tenho pais… Senhor. Morreram cedo.

— Bem… Dessa vez deixo passar. Mas vou ficar de olho em você!

O menino apontou para o guarda e disparou o flash em sua direção. A imagem da farda azul, do quepe bem arrumado e da pomba rajada que voou até o grandioso ipê amarelo, do outro lado da rua, foi eternizada no antigo aparelho. A mão alheia encobria seu próprio rosto.

— Ei!

— É para lembrar quem me deu a máquina do tempo.
— Máquina do tempo?
— É. As coisas não ficam presas aqui nessa tela? Posso olhar quando quiser e lembrar o momento.

— Crianças…

O policial balançou a cabeça e voltou à sua ronda matinal. O menino segurou cuidadosamente seu tesouro e pôs-se a meditar. O que mais ele poderia prender em sua máquina, tornando as lembranças congeladas no tempo?

Andou alguns metros até a esquina. Olhou para o outro lado e avistou a calçada que terminava no centro. Um cachorro de três cores diferentes permanecia sentado, hipnotizado pelos espetos giratórios da máquina de alumínio, fonte mágica de alimento fácil (como ele conseguia ganhar uma fatia sem pedir? No seu caso, a resposta era sempre “não”, acompanhada geralmente por “sai daqui, se manda!”).

Levantou a câmera e percebeu que não precisava encostá-la em seu rosto. Bastava olhar no visor. Apertou o botão de disparo e contemplou o Picasso contemporâneo naquela tela rachada. Seguiu caminho. Andou por entre pessoas apressadas, que insistiam em esbarrar em seus ombros, como se ele não existisse. Não muito longe dali, um ciclista dava voltas ao redor do pequeno jardim florido. Parecia uma boa cena.

Preparou-se novamente. Algo piscou. O pequeno risco indicava o quanto faltava para a bateria acabar. A imagem borrada ficou um tanto engraçada, semelhante aos rabiscos que havia deixado nas paredes do beco, no dia em que restos de aquarela foram parar em suas mãos. Mas as varetas eram uma bicicleta, de qualquer forma. Riu sozinho.

O dono da banca, ao longe, observava a cena. Gritou.

— Ei, moleque! Roubou isso de quem?
— Não roubei, tio… Senhor. Achei no lixo.

— Tá. Tá. Mas some daqui que você está espantando minha freguesia.

Acostumado a ser expulso dos lugares, guardou a máquina no bolso e correu até a praça. A água da fonte estava bem fresquinha. Observou quando as pombas se aproximaram. Do outro lado havia um jovem casal, experimentando sorvetes de cores diferentes. Havia um azul e um violeta, recheados com balinhas coloridas. Sorriam abraçados, debaixo da árvore centenária. Um bem-te-vi de peito amarelo sentou na extremidade do banco. Aquele era um momento perfeito. Teve de chegar mais perto, pois o visor não ajudava em nada. Registrou a cena, antes que o mandassem ir embora.

Estava bastante satisfeito com suas proezas quando algo irradiante e magnífico chamou sua atenção. A câmera apitou de forma enlouquecida.

A criatura era bastante arisca. O colibri, de fantástica penugem multicor, um arco-íris prismático, o encarava. Pé por pé foi se aproximando. A pequena ave se distanciava, lentamente. Mas não desistiu. Seguiu de perto a beleza natural, de forma cautelosa. Precisava tirar a foto antes que a bateria finalmente acabasse. Por sorte (ou por outro motivo obscuro), ninguém o havia espantado.

Depois de vários passos, sem prestar atenção onde estava indo, achou o ângulo perfeito. As coisas mais simples e mais belas da vida permaneceriam eternizadas em formato digital. Ajoelhou e apertou o botão… Sua última foto.

O colibri levantou voo, levando consigo a serenidade, esperança e sonhos do menino que um dia encontrara, por acaso, a felicidade nas pequenas coisas; mas que agora, contrariando suas próprias expectativas, jazia estirado no meio da rua pavimentada. O motorista bêbado, apavorado, havia fugido.

Os transeuntes e curiosos se aproximaram. O casal derrubou o sorvete no chão, o dono da banca correu em direção à praça, o ciclista chamou os bombeiros e o cachorro uivou – uma lamúria condescendente. Logo em seguida, o policial responsável pelo quarteirão apareceu, reunindo os indivíduos escolhidos pela criança. A câmera, próximo à calçada, deu seu último suspiro…

Uma figura esguia, vestida de preto, recolheu a máquina antes que alguém a pegasse. Seu trabalho era difícil, mas procurava fazê-lo da melhor forma possível. Retirou o chip de memória e colocou em sua própria câmera – a era digital exigia que todos estivessem sempre atualizados, e isto, ironicamente, a incluía.

Observou cuidadosamente cada imagem registrada por aquele jovem. O menino estava certo. As lembranças ficavam presas às imagens. Tão belas; tão simples. Uma máquina do tempo.

Maldita época em que todos registravam suas ações! Não conseguiria esquecer tudo aquilo tão cedo, o que era essencial em seu trabalho. Colocou um novo chip na câmera velha e a jogou no lixo da praça, à espera de outro escolhido.

Atravessou a rua e se sentou, largando a enorme foice invisível no chão. Quantas crianças mais ela teria de levar? Os adultos eram tão mais fáceis! Guardaria aquelas lembranças através do espaço e tempo.

Pela primeira vez, cansada de seus deveres após muitos séculos, a Morte chorou.

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6 comentários em “O menino e a máquina do tempo – Conto (Victor O. de Faria)

  1. Neusa Maria Fontolan
    26 de agosto de 2016

    Que conto lindo! Amei, e também gostei da última frase. Parabéns amigo.

  2. Priscila Pereira
    25 de junho de 2016

    Oi Brian, amei o conto! Tão meigo e singelo, muito bonito. Perfeitamente bem escrito. Parabéns!!

  3. JULIANA CALAFANGE
    9 de abril de 2016

    Brian, sinceramente, não sei se um menino de rua teria esse olhar poético sobre a vida. Acho pouco provável, diante da implacável dureza da sua condição. Mas embarquei na sua viagem, em nome da fantasia e da liberdade poética. O conto é belo. Eu tiraria apenas o parágrafo q fala da foice invisível, pq, como comentou a Leda, está bem claro que a figura é a morte. Mas achei muito boa a última frase do texto: “Pela primeira vez, cansada de seus deveres após muitos séculos, a Morte chorou.” Parabéns!

    • Brian Oliveira Lancaster
      11 de abril de 2016

      Agradeço a leitura. Na verdade, tentei me focar no aspecto “imaginação” aliada à tecnologia, além de fugir bastante de minha zona de conforto. O garoto esbanja muito mais curiosidade do que poesia. E essa era minha intenção – claro que o leitor de “fora” capta as sensações transmitidas pela atmosfera em geral. Ou seja, agradecendo as críticas, vejo que realmente atingi o objetivo. Quanto ao final, nem todos captam as entrelinhas (tenho notado isso nos desafios), por isso quis deixar o entendimento de forma bem simples, sem sombra para dúvidas.

  4. Leda Spenassatto
    9 de abril de 2016

    Gostei do teu conto, Brian.
    Para mim, o final ficaria mais interessante, sem o último parágrafo, gosto quando se abrem vertentes nos finais dos contos. E, no teu conto dá para sacar perfeitamente que o homem de preto é a Morte, hehhehehhheh

    • Brian Oliveira Lancaster
      11 de abril de 2016

      Agradeço a leitura! Acredite, nem todos captam os âmbitos subjetivos (ou possuem a veia poética, como vocês).

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Informação

Publicado às 8 de abril de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .