EntreContos

Literatura que desafia.

Os Nove Céus (Catarina Cunha)

Oyá

Da concentração Maria vê o tapete branco da avenida. Abre os braços para Oyá pedindo que os raios de Oxum iluminem de verde e rosa a passarela. Os tambores de Ketu acordam Olofin de seu sono divino. O Pai, furioso com a ousadia do chamado sem sua autorização, convoca todos os orixás para embaralhar a festa.

O cronômetro liberta o Abre-alas para as guerreiras dançarem com suas lanças, ferindo o asfalto até rachaduras escreverem diversos caminhos indecisos.  Das veias abertas brotam raízes vorazes. A mangueira cresce seus tentáculos em direção às arquibancadas e aos camarotes, envolvendo o público, derrubando alambrados, se entranhando no cimento e postes de iluminação. Galhos se agigantam aos céus enquanto folhas e frutos brotam no ritmo da bateria.

O carro do Circo se desmancha, as girafas rosas e os elefantes azuis desembestam por entre as alas paralisando os juízes. O carcará alça voo dando rasante nas cabeças das pessoas lembrando a força da Senhora dos Mortos. As baianas rodopiam em tal velocidade que roubam a visão unitária gerando um assustador caleidoscópio.

O giro da porta-bandeira tira todo o ar à sua volta e devolve milhares de rosas através de sua cabeça furada. As flores são ejetadas em todas as direções flechando o público. Os galhos espinhentos e o cheiro das rosas amarram as pessoas em um torpor mortal.  Enquanto a floresta envolve todos os corações, o sangue desliza pelas arquibancadas definitivo, mas sem pressa. O cântico sai das bocas em golfadas de confetes e serpentinas enlouquecidas.  O fogo de Exu brota dos instrumentos da bateria. Os ritmistas, em chamas, continuam tocando e espalhando cinzas e calor pelo ar.

Não era somente a Escola e sim diversas entidades libertando a vida e a morte na avenida.

Oyá, a Senhora dos Mortos, abre os nove céus com raios e tempestades. Seu pranto pelos filhos acalma a fúria de Olofin, invocando as irmãs Yemanjá e Oxum. Todas as águas do céu, da terra e do mar inundam o templo formando um redemoinho de cor, suor e deslumbramento. O som ensurdecedor da bateria é devorado pelas profundezas dos minutos finais. O cronômetro sela o êxtase em forma de luz e delírio.

Maria abre os olhos, sorri e se ajoelha.

***

(Homenagem à Mangueira, Campeã do Carnaval do Rio 2016, com o tema “Maria, filha de Oyá”, do carnavalesco Leandro Vieira.)

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13 comentários em “Os Nove Céus (Catarina Cunha)

  1. Claudia Roberta Angst
    4 de abril de 2016

    Não curto carnaval, mas gosto muito da simbologia dos orixás. Gostei das frases rápidas descrevendo o momento, a visão de Maria (ou alucinação). Como sou ignorante em relação ao tema fantasia, nem posso opinar se o conto se adequou ou não. Percebi que quis brincar com os vários sentidos da palavra “fantasia”, escrevendo tanto sobre o seu aspecto concreto – figurino de carnaval – quanto sobre o seu aspecto abstrato – o mundo fantasioso das ideias.
    Talvez, o seu texto não tenha muito enredo mesmo e se fixe apenas em um piscar de olhos, um momento fugaz. Faço muito isso, confesso.
    Ponto hiper-mega-blaster positivo: o tamanho do conto. Foi um alívio poder ler algo mais conciso. Embora, para a maioria, esteja curto demais.
    No geral, achei a leitura agradável e senti a empolgação do momento, mesmo não sendo nada carnavalesca.
    “Galhos se agigantam aos céus enquanto folhas e frutos brotam no ritmo da bateria.” – Adorei!

  2. Catarina Cunha
    3 de abril de 2016

    Eu gostei muito do meu conto (Os nove céus) e a galera ficou dividida: minhas notas oscilaram entre 4 e 10 (todas merecidas). Aprendi, com este desafio, que não domino o tema “fantasia”, que a maioria não gosta de Carnaval e entende mais de lendas celtas do que africanas. Eu também não me preocupei em explicar nada. Kkkk. Muito obrigada pelos comentários.

  3. Pedro Luna
    18 de março de 2016

    ? Não entendi nada. Me desculpe, quem escreveu tem um bom trato com as palavras, mas não sacou o desafio. Não está no tema. Ficou deslocado. Se eu estiver errado, peço que me expliquem, mas não posso mentir no papel de leitor e dizer que vi um conto de fantasia.

  4. andreluiz1997
    15 de março de 2016

    O êxtase do carnaval liberado em forma de conto, traduzido por suas palavras com maestria. Achei que no quesito evolução, o conto deixou por desejar, não revelando muito ao leitor o porquê das entidades e, no meu caso um dos primeiros contatos com essas entidades em textos, me deixou um pouco à deriva. Mesmo assim, a explosão de cores, formas e significações que os entremeios do seu conto revelaram foi muito bonita de se imaginar. Boa sorte!

  5. Carlucci Sampayo
    15 de março de 2016

    O sincretismo religioso é a tônica deste conto, que me parece, antes de um conto propriamente dito, uma narração do desfile da Escola de Samba, como diz a informação ao pé deste. O reino dos orixás, certamente, é bastante intrigante e contém a magia desta linha religiosa marcada nos personagens que a compõem. A fantasia existe, porém como já está enraizada no imaginário como uma das muitas versões da religião oriunda da África que aportou ao Brasil via os negros do século XVIII, quando da escravidão; tornando-se depois farto culto religioso segregado em suas raízes e afeito a uma parte da população simpatizante; penso ter este caráter de obviedade. Assim entendo e peço sinceras desculpas por este comentário, caso não concordem. Meu objetivo é incentivar o Desafio Literário, sem desmerecer qualquer participante. Nota 05.

  6. Marco Piscies
    15 de março de 2016

    Um texto belíssimo, que remete à mitologia africana sobre a qual não tenho muito conhecimento. Isso acaba atrapalhando um pouco a leitura do não-conhecedor como eu, mas, ao mesmo tempo, a leitura é tão gostosa e tão fantástica que conjura imagens divinas no olho da minha mente, preenchendo as lacunas do não-entendimento com fantasia e misticismo.

    O texto é muito bem escrito, sem sombra de dúvidas. Infelizmente, peca um pouco no tema. Acho que anda em cima do muro do fantástico, transformando metáfora em fantasia. Bem ou não, não existe história aqui. É um conto-poema que descreve o desfile da escola campeã de forma gloriosa e, vá lá, um texto excelente e muito bem escrito, mas que não me agrada muito pela falta de trama e personagens.

    Ainda assim, uma obra prima. Parabéns!

  7. Swylmar Ferreira
    15 de março de 2016

    O enredo é interessante e prende a atenção do leitor, mas muito curto o que fez com que o conto ficasse apertado. A imaginação conferiu estética à obra. O autor poderia ter estendido o texto e ser mais criativo, visto que havia espaço para isso. Em relação ao tema devemos colocar todas as lendas no mesmo patamar, assim sendo, é certa a pertinência com o tema proposto. A ausência de diálogos, a linguagem abstrata usada e as rebuscações em excesso, prejudicaram o texto. Gramática excelente. Conclusão abstrata.
    A nota é 7,2.

  8. Simoni Dário
    14 de março de 2016

    Olá Onkqwe
    Gostei do enredo e do ritmo da Mangueira. Não sou carnavalesca e tão pouco entendo de Carnaval, mas confesso que admirei sua forma de escrever, foi tocante e curti a leitura. Incrível como sua escrita é envolvente. Foi uma bonita homenagem à referida escola de samba, teve até emoção por aqui pelo belo fechamento ao final.
    Bom desafio!

  9. Anderson Henrique
    14 de março de 2016

    Texto curto, uma homenagem do autor à uma escola de samba. Não funciona como conto por carecer dos elementos básicos deste tipo de narrativa. Não há conflito, por exemplo.
    Nota 4

  10. Anorkinda Neide
    11 de março de 2016

    Entendi nada, filho! rsrs
    Quer dizer, ‘vi’ as imagens como uma visão, que Maria teve ao entrar na avenida? Achei tão forte, quase um conto de terror, embora o final não seja trágico…
    Uma homenagem à escola de samba? pelo terror q eu vi, melhor caberia esta homenagem lá no desafio de terror.. rsrs
    E não vi o desfile, mas imagino que o autor aqui, teve um forte impacto com o desfile, com a força da imagem que Bethânia transmite, com o simbolismo do candomblé…
    Não consigo me decidir se a mensagem que quiseste passar é a de que a religiao inserida tão claramente no desfile acabou por ‘aliciar’ a plateia, pro bem ou pro mal? Isso é que não entendi.. rsrs
    É um texto competente, mas as imagens que descreveste não me conquistaram, não fui arrebatada…
    Boa sorte, escritor!
    Abraço

  11. Emerson Braga
    8 de março de 2016

    Onkqwe, carnaval não é o meu forte e raramente eu deixaria me levar por um texto centrado nessa temática. Ainda bem que você está participando desse desafio para me provar que uma escrita afiada e genuína é capaz de vencer as terríveis barreiras impostas por nosso gosto pessoal.
    Fiquei felicíssimo por alguém trazer a magia da cultura afro para este desafio, o que o deixou mais diversificado e exuberante. Seu texto não é feito só de palavras, mas de gesto, cor, música, dança, ritmo e suor. Juro que quase sambei ao lê-lo.
    Você fez uma sábia escolha ao decidir por um conto pequeno, enxuto; porém repleto de intensidade e movimento.
    Fala-se tanto da “magia do carnaval”, não? Juro que eu nunca havia sentido isso… Até agora. Impossível ler seu texto sem visualizar os orixás manifestando-se no meio dos carnavalescos, passistas e foliões.
    O desfecho é de uma lindeza comovente. Arrepiei! Belíssimo texto!

    Nota: 10,0

  12. Evie Dutra
    6 de março de 2016

    Confesso que carnaval não é um tema em que eu seja “expert”. Acredito que por ter passado anos fora do Brasil, toda essa cultura carnavalesca não é algo que eu aprecie muito. Eu nem sabia que a Mangueira tinha sido a escola vencedora esse ano.
    Seu conto me pareceu bem escrito, mas confesso que boiei. Principalmente com a última frase.
    Enfim,.. parabéns e boa sorte.

  13. Fabio Baptista
    6 de março de 2016

    Foi uma mistura “doida” de carnaval com entidades e o maior mérito, na minha opinião, foram as imagens que o texto conseguiu produzir.
    Ficou aquela coisa de será que é real, será que são só metáforas para o desfile? Isso foi bacana.

    Gostei da frase final, mas a citação ali no “pós-créditos”, explicando a homenagem, acabou com a “magia”.

    NOTA: 7,5

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 3 e marcado .