EntreContos

Detox Literário.

Fantasia Impromptu nº 18 (Daniel Reis)

Fantasia_impromptu

O Rei despertou assustado, no meio da madrugada. Após várias noites em claro, havia conseguido entregar-se por algumas horas a um sono profundo e agitado, de sonhos intranquilos provocados pela poção de láudano. Sentou-se e enxugou o suor do rosto e do pescoço com uma toalha branca, que jazia dobrada sobre o travesseiro ao lado – agora vazio – de sua cama. Não foi capaz de recordar os detalhes; mas mantinha viva a sensação da alucinação na droga. Levantou-se e andou a esmo pela escuridão do quarto por alguns minutos até que as instruções em seu sonho mágico vieram claramente à tona. O choque o fez prostrar-se num poltrona de couro até recuperar o fôlego. Assim que foi capaz, chamou o Conselheiro, que dormia no corredor ao lado do quarto, velando pelo sono do Rei e à espera do vaticínio. Após descrever ao mago o teor do seu sonho, o Rei insistiu que precisariam da ajuda do Comandante se quisessem seguir as instruções à risca. Por isso, apesar de contrariado, o Conselheiro foi em busca do último militar na cidade.

Cruzando as ruas em meio às brumas do amanhecer, o Conselheiro não pôde evitar a visão da decadência. Não só do castelo, antigo cartão postal do reino, mas de todas as edificações abandonadas da cidade. E a imagem do desânimo, traço marcante e profundo nos rostos dos últimos sobreviventes que, à beira de suas fogueiras improvisadas, ainda buscavam em suas orações aos deuses surdos, ou no calor do lixo incendiado, um conforto qualquer contra aqueles tempos inclementes.

As residências mais nobres, antes imponentes, serviam então somente para abrigar cerimônias de bruxaria, comércio ilegal e outros crimes menores. Ordem ou lei não existiam, e nem sequer que as garantisse, pois todos os homens em condições de combate e idade decente – e até mesmo algumas mulheres e crianças, desde que capazes de erguer a espada – entrincheiravam-se ao sul do país, obrigados a conter a invasão do inimigo; ou, como os nobres, há meses partiram para o autoexílio e a deserção. Não havia o que vender e nem a quem. E mesmo que houvesse não se encontraria mais qualquer dinheiro em circulação. A fome afligia, indistintamente, a todos.

Da entrada do dormitório militar o Conselheiro viu o Comandante, sozinho, deitado junto à parede, na única cama do imenso recinto. Era um catre de campanha, muito velho e sujo, construído obviamente para alguém bem menor do que ele. O militar, exausto e faminto, acordou aos poucos ao ser chamado pelo Conselheiro. E ficou surpreso ao saber que o Rei ainda precisava dele.

Ao entrarem no aposento do soberano, seus dois últimos confidentes perceberam em seu rosto a agitação de uma alma torturada. Muito diferente da conduta apática e indecisa de antes, caminhava de um lado a outro do quarto, tentando ordenar os pensamentos. O jovem Rei era conhecido por não conseguir resolver nada por conta própria e de imediato: até mesmo a decisão de retornar do estrangeiro, recém-casado, para assumir o trono às pressas após a morte súbita de seu pai, fora demorada e dolorosamente discutida entre ele e a esposa. Mas, naquele momento, seu coração intranquilo era quem comandava.

– Antes de tudo, agradeço aos dois por estarem aqui, ao meu lado, apesar do que estamos passando. E pela compreensão durante a tragédia que se abateu sobre mim nestes dias. Especialmente a você, Conselheiro, sou grato por proporcionar essa chance de encontrar as respostas que precisava…

A ansiedade fez com que o Comandante se adiantasse:

– Majestade, por favor, diga que vamos finalmente encerrar essa guerra!

O Rei baixou os olhos:

– Ainda preciso cumprir a tarefa que meu pai me deu…

– Como assim? – estranhou o militar, pensando que o Rei estava fora de seu juízo – Seu pai está morto, não se lembra?

– Foi espírito dele que se revelou ao filho, por meio da poção que preparei especialmente para essa ocasião – interrompeu o Conselheiro.

– A voz do meu pai, vinda do além, sussurrou o perdão em meus ouvidos – disse o Rei. – Meu pai me disse que não me desistisse ainda. E antes de me abençoar, deixou as instruções exatas para o plano que eu sei que vocês vão me ajudar a colocar em prática.

 

Ainda naquela madrugada, o Conselheiro iniciou a sua parte nos preparativos para a última viagem da Rainha. Na câmara ardente onde jazia o corpo, sob o bruxulear das velas, o mago conjurou todas as forças invisíveis para conservá-la íntegra, ao menos por mais um dia. Debruçado sobre o esquife, recitou a ladainha na língua morta dos bruxos, enquanto retirava de dentro de um jarro de prata o líquido misterioso que utilizaria para umedecer os lábios entreabertos da falecida. Passou suavemente seus dedos pela face dela, verificando a consistência da pele e a beleza do rosto rainha, preservadas pelas artes mágicas do Conselheiro por meio desse procedimento, diariamente, já há quase uma semana. Mantinha-se fria, como muitas vezes se mostrava a todos em vida. Mas já era a hora de seguir em frente e dar-lhe descanso – assim como ao herdeiro sem vida que carregava ainda em seu ventre.

 

O sol da manhã começava a surgir enquanto a pequena caravana iniciou a caminhada, esgueirando-se em direção à saída secundária da fortaleza. Apenas três monges a cavalo, vestidos com trajes de lã crua, pelas ruas estreitas da cidade com uma velha carroça de madeira, puxada por um só boi. Apesar da intenção do disfarce, todos sabiam tratar-se do esquife da rainha estrangeira. Nenhum morto, dentre tantos nos últimos tempos, mereceu o luxo de uma comitiva fúnebre como aquela. E o desprezo de todos pela estrangeira não era só por esse capricho; desde os mendigos nas calçadas, até os últimos comerciantes e nobres que espiavam pelas frestas das janelas das casas e estabelecimentos comerciais, todos demonstravam evidente alívio em ver partir, finalmente, aquela rainha amaldiçoada. Só que nenhum deles se deu conta que, dentre os integrantes da comitiva estava o próprio Rei, com o coração confrangido ao perceber, no silêncio lúgubre das ruas, tanto ódio devotado à sua companheira.

 

Desconfortável desde o início da jornada, o Comandante tentava guiar com cuidado os passos do seu cavalo pela neve alta. Como o último elemento da comitiva, ocupava-se com a retaguarda, mas não deixava de vigiar o horizonte à frente. Ao ser informado sobre o destino e o itinerário a ser cumprido para sepultar a rainha, o militar havia alertado ao Rei sobre recentes ataques de saqueadores e desertores naquela rota. Mas fora vencido pelos argumentos do Conselheiro sobre obedecer exatamente ao roteiro apontado no sonho do Rei. A argumentação era coerente e a solução, a mais rápida: numa comitiva pequena e pelo caminho direto, poderiam deslocarem-se com agilidade, passando no máximo uma noite na Caverna de Gelo e retornando ainda na manhã do dia seguinte. Todavia, a prudência recomendava contar com escolta fortemente armada. Mas não havia possibilidade alguma disso. A única arma disponível era a sua espada, sobre a qual se dizia pairar uma lenda antiga. Mas o Comandante desdenhava dela, considerando-a uma crendice. Nunca, ao longo história, a espada dos Comandantes havia sido utilizada para combate. E, em grande parte, isso devia-se à sua própria covardia diante da única guerra enfrentada pelo reino em muitas gerações. Não imaginava que tanto a sua covardia quanto a espada antiga seriam instrumentos trágicos para cumprir, fiel e integralmente, a lenda esquecida.

Um pouco à frente da comitiva, o Conselheiro permanecia imerso em pensamentos nebulosos. Conduzia a carroça e o caixão com o mesmo cuidado empregado na cerimônia mágica diária com que zelava pela preservação do corpo da Rainha. Era um sujeito metódico e dedicado, que sabia planejar cada passo com muita antecedência e precisão. Mas o dom da paciência sempre foi o mais difícil no cultivo das ciências ocultas. Desde menino pobre, só mesmo a persistência era inata à sua personalidade. E foi justamente com ela que a acabou por convencer um velho mago, ao qual seguia por toda a região próxima à sua vila natal, a aceitá-lo finalmente como discípulo. Com esse mago aprendeu tudo sobre poções mágicas e plantas.  E, a exemplo dele, fez os votos de castidade e obediência, mas não soube mantê-los por muito tempo. Desiludiu o mestre, e por ele foi rejeitado, adotando uma vida dissoluta e de vícios incompatíveis com os ensinamentos que recebera. Inesperadamente, o velho mestre adoeceu e o fez chamar em seu leito de morte, reconciliando-se com ele. E, naquela ocasião, transmitiu a ele como herança os livros de vários outros conhecimentos ocultos e conjurações, e o ungiu como herdeiro do respeito e admiração de todo o povo do país. O discípulo redimiu-se, concentrando-se nos estudos novamente, e diante dos prodígios e curas mágicas que realizou, sua fama tornou-se ainda maior que a de seu predecessor. E chegou tão longe que foi chamado pelo Rei, em questão de urgência, para tratá-lo de uma moléstia misteriosa, da qual nenhum outro especialista havia sido capaz de afastar. O sucesso do tratamento trouxe  consigo a confiança e a amizade do velho soberano, que fez dele seu novo protegido, com o título de Conselheiro. Mas, apesar de colocar à disposição do rei todas as suas habilidades, não foi capaz de afastar dele o avanço da morte. Por uma questão de princípios, viu na oportunidade de servir ao filho uma forma de retribuir ao pai. Por isso, e somente por isso, estava ali: sabia que essa dívida haveria de ser paga, até o fim.

O Rei seguia à frente do grupo, tentando entender por que tanta coisa deu errado, em tão pouco tempo, na sua vida. Desde a repentina convocação para assumir a coroa que nunca quis ter, herdada do pai com quem nem sequer fizera as pazes, até as longas discussões com sua recém-casada esposa sobre a conveniência de aceitar ou não o trono que lhe era de direito.  A pressão de suceder seu velho pai, idolatrado pelo povo, mesmo tendo vivido tantos anos longe e alheio às questões daquele país, que nem considerava ser seu um dia.  O esforço na adaptação à nova vida de líder e às obrigações, além dos intermináveis bailes, jogos e jantares suntuosos exigidos pela sua companheira deslumbrada, e desprezados pelos nobres que não a aceitavam.  Já nos meses mais recentes, apesar da decisão desastrada de movimentar tropas na fronteira, o que precipitou a guerra contra o reino do sul, a breve alegria de contar com um herdeiro a caminho, e a dúvida entre atender aos insistentes pedidos da Rainha para dar a luz ao filho em seu país natal ou manter a tradição de que o herdeiro do trono deveria nascer obrigatoriamente ali. E finalmente, a culpa por ter causado nela a infelicidade e o nervosismo que provavelmente resultaram na prostração que viria a matá-la, em menos de algumas horas. Nada disso poderia ser mudado. Acreditava somente que era sua missão, ao menos, prestar à sua amada e ao filho que nem conheceu a homenagem estipulada em sonho pelo fantasma do seu pai: cavar, com suas próprias mãos, uma sepultura no solo natal daquela que foi sua infeliz companheira.

 

Para alcançar a fronteira antes do anoitecer, calculou o Comandante, precisariam acelerar o passo dali em diante por pelo menos uma hora, ou hora e meia, caso contrário seriam colhidos pelo frio da noite ainda em meio ao desfiladeiro gelado. Será que o boi resistiria à viagem? Associou a essa preocupação, não sem raiva, a dúvida similar se resistiriam a esta mesma noite seus comandados, que lutavam na fronteira sul, e o povo jogado à própria sorte nas cidades, com a culpa de ter sido o Comandante do Exército que, por amizade ao rei, não quis contrariá-lo numa decisão tola contra um inimigo muito superior. Depois, apesar de todas as notícias dos revéses militares, o Rei não mais lhe dava ouvidos, totalmente influenciado pela mulher estrangeira. E talvez agora, com a morte dela, o juízo retornasse à mente o Rei para que desistisse da luta e se entregasse à justiça do inimigo. Isso era tudo o que o Comandante se agarrava: a esperança de encontrar uma saída. Mas ainda tinha a espada embainhada. Só lhe faltava a oportunidade adequada.

 

O Conselheiro também se preocupava em chegar à caverna o mais breve possível, mas por outras razões. Se demorassem demais, teria que executar novamente o ritual mágico de conservação do corpo da Rainha, e dessa vez na frente do Rei, causando nele um sofrimento desnecessário. Depois de tantos dias, o prazo máximo de validade das manobras mágicas estava se esgotando. Portanto, concordou de imediato com a sugestão do Comandante em acelerar o passo, fustigando o boi com mais energia na condução da carroça. Enquanto os dois avançavam, o Rei manteve o passo do seu cavalo e ficou gradativamente para trás. Em pouco tempo, o Comandante viu a oportunidade de conversar a sós com o Conselheiro sobre uma saída para aquela situação.

– Sei que você não confia em mim, como eu também não confiei em você antes, mas nesse momento acredito que temos um interesse comum – disse o militar.

– E qual seria esse interesse? – sondou, na defensiva, o mago.

– Você sabe, como eu, que se nada for feito as tropas serão massacradas muito em breve. Por outro lado, se o Rei se render ao inimigo ou for capturado, todos seremos executados sem misericórdia, e o reino, conquistado e dividido. Mas pode haver uma saída. Mas o Rei não está em condições de aceitá-la. Nós é que temos que decidir por ele.

– Que saída, exatamente? – inquiriu o Conselheiro.

– Você não está entendendo? – sussurrou o Comandante. Temos que resolver a questão, nós dois, aqui e agora.

– Qual questão, diga logo, de uma vez só!

– A questão da nossa sobrevivência.

O tom de voz do militar não deixava dúvida de que ele falava só pelos dois.

– Depois de sepultar a Rainha, podemos aliviar o fardo dele, negociamos a rendição e dividimos a responsabilidade pelo Reino…

O Conselheiro manteve a defensiva.

– Não esperava isso de você, Comandante. Sempre acreditei que fosse amigo do Rei. Sei que está desesperado e não está raciocinando direito, portanto não vou levar em consideração o que acabo de ouvir.

A conversa terminou ali. E isso foi tudo entre eles.

 

Não muito adiante, o Rei alcançou a comitiva, apressado, com uma ordem imperiosa e urgente:

– Parem. Eu preciso vê-la de novo.

O Comandante e o Conselheiro se entreolharam, perplexos.

– Tem que ser aqui e agora, Majestade? – inquiriu o Comandante. – Por que não esperar até chegarmos ao lugar onde devemos sepultá-la?

– Isso mesmo, não é possível, já estamos atrasados – exclamou o Conselheiro.  – Se pararmos agora, não chegaremos lá antes que a noite nos alcance. É morte quase certa!

O Rei desabou sobre o esquife, chorando copiosamente:

– Me perdoe, por favor, querida! Eu sei que nós dois poderíamos ter ido embora antes de tudo isso, quando você tanto queria, mas depois me pareceu tão feliz… Se eu soubesse aonde iriamos chegar, teria deixado esse reino maldito para trás…

O Comandante aproximou-se sorrateiramente, como se viesse consolá-lo:

– Meu Rei, não vamos deixar as coisas nas mãos do Destino… Vamos terminar essa guerra, agora…

Mas então foram surpreendidos.

Homens encapuçados surgiram por detrás de uma fenda na rocha. Também eram três. Aproveitando-se do fator surpresa no ataque à comitiva, o mais forte subjugou sem dificuldades o fragilizado soberano, enquanto os outros dois avançaram em direção ao Comandante, obrigando-o a finalmente desembainhar a espada. Com um único golpe certeiro, o militar atravessou o ventre do agressor mais próximo. O outro, ao ver o colega imediatamente morto, adotou postura mais cautelosa, mantendo-se na defensiva, espada em punho, tentando cercar o militar. O Comandante preparava-se para atacar frontalmente o agressor quando, subitamente, sentiu pelas costas uma fisgada fria, seguida pela sensação do sangue jorrando em profusão. O golpe covarde veio de um punhal curto nas mãos do Conselheiro. Deitado de costas no gelo, o Comandante traído encarou por um instante seu agressor, até largar definitivamente sua espada sagrada, agora suja de sangue e de neve.

 

O Rei, de joelhos, chorava, enquanto o Conselheiro e o chefe dos assaltantes discutiam:

– Ficaram loucos? O trato era esperar e executá-los na saída do desfiladeiro!

– Olha aqui – disse, aproximando-se ameaçadoramente, o mais forte dentre os agressores, enquanto o outro, à distância, tomava para si a espada sagrada que pertenceu ao Comandante.  –  Você não está em posição de exigir nada.

–  Eu fiz a minha parte, vocês é que se precipitaram. Sugestionei o Rei em sonho para que viéssemos por essa trilha, era só aguardar um ou dois quilômetros à frente, exatamente onde combinamos, que o ataque seria fulminante. Agora o seu rapaz ali está morto e isso é culpa sua!

–  Nós queremos o pagamento nosso pagamento agora, conforme prometido – disse o ladrão da espada sagrada.

– Não prometi nada agora, o pagamento será feito depois que cruzarmos a fronteira em segurança…

– Ninguém vai cruzar a fronteira – disse o líder dos bandidos. Quem nos garante que você não vai nos trair ao chegar lá?

– Não vou trair vocês, confiem na minha palavra. O dinheiro não está comigo, é preciso buscá-lo lá, temos o suficiente para todos nós…

– Você está achando que eu sou idiota… ninguém foge do seu país assim, sem levar dinheiro…

O rapaz da espada se aproximou da carroça.

– Aposto que você esconde o seu tesouro aqui, não é?

O Rei e o Conselheiro empalideceram, ao mesmo tempo.

Sem dar tempo a qualquer reação, o bandido perfurou o caixão com a espada sagrada do Comandante, usando-a como alavanca para derrubar o esquife no chão.

A tampa de madeira se abriu com o impacto no solo e de dentro do caixão  esparramaram-se moedas de ouro, seguidos pelo corpo e o grito rouco da Rainha, subitamente desperta pela dor do golpe. A mulher, ensanguentada, contorcia-se entre gritos lancinantes. O desespero não deteve o Conselheiro, que jogou-se até onde ela agonizava.

– Aguente firme, só um pouco, eu posso salvá-la… só preciso de tempo para preparar o elixir…

– O que está acontendo? Onde estou? – repetia a Rainha, atordoada.

– Não pode ser… eu é que devia despertar você! Não era para ser assim! O plano todo deu errado… me perdoe, pelo nosso amor, pelo nosso filho… me perdoe, por favor! – gritou o Conselheiro.

Nesse instante, o impacto do golpe do Rei fez o Conselheiro rolar pela neve. Os dois se engalfinharam, entraram numa luta violenta da mãos limpas. Trocaram socos, cotoveladas e chutes por minutos intermináveis, até que o Rei conseguiu subjugar o Conselheiro e imobilizou-o, de costas contra o chão, jogando todo o peso dos seus joelhos sobre os braços do traidor.

– Malditos… por quê?

A cabeça do Rei rolou ao lado do Conselheiro, decapitada pelo chefe dos assaltantes. Mas o Conselheiro não teve nem o tempo do alívio da libertação, pois foi imediatamente executado ali mesmo, deitado no chão, com a mesma espada e pelo mesmo algoz. No meio do silêncio, restou só o gemido da rainha, engasgando-se pela última vez com seu próprio sangue, até silenciar-se para sempre.

Os bandidos ignoraram os mortos e concentraram-se nas moedas espalhadas pelo chão. Ajoelhados, ajuntavam-nas com ganância sobre suas vestes dobradas. E quando o ladrão menor se levantou, entusiasmado com o peso do ouro coletado, sentiu a pressão forte de dedos grossos ao redor do  pescoço. O Comandante quebrou com suas mãos nuas a traquéia do infeliz, recuperando a espada roubada com a qual abreviou o sofrimento daquele ladrão.

Imediatamente, o líder dos bandidos levantou-se, espada em punho, derrubando  moedas das vestes. O Comandante estava em pé e preparado, ainda que cambaleante, segurando com as duas mãos a espada que voltou a lhe pertencer. Por um tempo que durou a eternidade, mantiveram olhos nos olhos. Mas não houve chance para que pudessem se enfrentar. A patrulha do exército inimigo estava diante deles, exigindo a rendição. E, mais uma vez, espadas foram ao chão, por entre centenas de moedas desperdiçadas.

Diante da perplexidade dos invasores com a cena, não havia como comprovar o que de fato aconteceu, se não fosse pelo crédito dado às palavra dos capturados. O militar e o assaltante prestaram, cada um, seu testemunho, mas o chefe das forças invasoras, após breve debate com seus tenentes, julgou ambos mentirosos. Foram executados à espada, imediatamente, naquele mesmo local. Apesar disso, por muito anos, o povo reproduziu a história, talvez exagerada já no começo pelos invasores que testemunharam a ocorrência; ou mesmo, por aqueles que deles a receberam com o passar do tempo. Mas a maioria concordava que, diante de tudo, aquele desfecho havia sido o que de melhor se poderia esperar, naquela ocasião, para o reino. E para todos os mortos.

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10 comentários em “Fantasia Impromptu nº 18 (Daniel Reis)

  1. Pedro Luna
    18 de março de 2016

    Um conto bacana, cheio de reviravoltas, e que me interessou. Eu diminuiria apenas o tamanho dos parágrafos no meio do texto, pois cansa um pouco ler aqueles pensamentos dos personagens. Também foi sábio nomear os personagens apenas como Rei, Conselheiro e tal, pois não permitiu confusão com nomes loucos de contos de fantasia. O conselheiro no fim era um fdp, e o rei provou ser mesmo um imbecil. Gostei do pessimismo que envolve esses contos de fantasia trágica.

  2. andreluiz1997
    18 de março de 2016

    Achei o conto muito bom e bem desenvolvido, apesar de ter pecado muito num final anti-climático que me deixou muito triste por não serem sanados os porquês criados dentro da história. Eu estava totalmente imerso na questão do sepultamento da rainha, na triste situação que o reino se encontrava e no rei desacreditado consigo mesmo. Quando os salteadores apareceram e mataram todo mundo, a rainha acordou e depois morreu de novo e até o próprio traidor foi morto, a história desandou. Pode até para alguém este final ter sido satisfatório, mas achei que deixou um pouco a desejar por não dizer, por exemplo, o porquê do traidor ter feito aquilo. Boa sorte!

  3. Piscies
    17 de março de 2016

    Uau. Que história! Um conto muito interessante, cheio de reviravoltas. Personagens densos, um cenário sombrio… ler este conto me remeteu aos antigos livros de fantasia que eu lia quando moleque. Daqueles com capas desenhadas a mão. Bons tempos e boas leituras…

    Este conto inspira um sentimento único. A escrita é sombria como a sua narrativa. Por vezes achei até fria demais, sem muito brilho, mas não sei se havia forma melhor de passar a atmosfera da trama.

    A escrita tem alguns defeitos bobos de revisão. A técnica do escritor é boa, mas notei algumas passagens forçadas como, por exemplo, a narrativa da história do passado entre O Conselheiro e O rei. Aquilo me pareceu uma tentativa de emprestar profundidade ao passado do Conselheiro, quando o personagem em si já tinha certa presença muito bem criada.

    De resto… está de parabéns! Um excelente conto de fantasia seguindo, inclusive, a tendência moderna do realismo e do anti-heroísmo.

    Muito legal!!

  4. Simoni Dário
    16 de março de 2016

    Olá Apprendice.
    Gostei da forma como narrou o conto, prendeu-me com certeza, mas decepcionei-me com o final, e apesar disso, não vou negar que fez todo sentido. E aqui, mais uma vez nesse grupo, li o texto com a sensação de já ter visto as cenas em enredos de filmes, o que tira o mérito total da criação pelo autor, mas como a leitura fluiu magicamente, posso dizer que no todo, gostei do seu conto.
    Parabéns pela excelente forma de narrar.
    Bom desafio!

  5. Swylmar Ferreira
    15 de março de 2016

    O enredo é muito longo e nada atraente, possui muitos personagens e os diálogos não passam o sentimento da história. A trama é frágil. Apesar de ser pertinente ao tema proposto e ser criativo se estende demais em explicações, o conto trás uma conclusão sem nexo. Merece uma revisão gramatical, pois como está torna sua leitura difícil.
    A nota é 5,5.

  6. Anderson Henrique
    14 de março de 2016

    Conto de fantasia construído com elementos clássicos. A linguagem é eficiente e apropriada. Achei o parágrafo final desnecessário e muito didático.
    Nota 6

  7. Anorkinda Neide
    13 de março de 2016

    Olá!
    Olha o texto é bom, mas o enredo não conquistou… acho que faltou emoção. Mas os elementos estão aí, o rei, o conselheiro e o comandante e os salteadores, a rainha, a traição.. hehe
    Aho que cai naquela máxima: vc mostrou mas não contou muito, só um pouquinho…
    Boa sorte ae,
    abraço!

  8. Evie Dutra
    12 de março de 2016

    Não há dúvidas de que você escreve bem. Encontrei alguns errinhos mas todos por falta de atenção, nada grave.
    Só a história em si que não me cativou muito.. não consegui me prender e nem ficar concentrada o tempo todo.. mas é só uma questão de gosto pessoal.
    Quanto ao título, confesso que não entendi a relação dele com o conto.. pq o número 18??
    Enfim.. parabéns pela escrita e pela criatividade 🙂

  9. Emerson Braga
    9 de março de 2016

    Apprentice, Fantasia Impromptu nº 18, apesar de ser um bom texto, cometeu talvez o maior pecado desse desafio: Não há elementos fantásticos em seu conto. O conselheiro valia-se de seu conhecimento sobre poções para engendrar seus planos, nada além de química. O personagem era um boticário, talvez um alquimista, mas não um mago.
    Também notei alguns problemas com ortografia e concordância, mas nada que comprometesse o prazer da leitura. Seu enredo é muito bem construído e nos leva a ter empatia pela história. A nota certamente seria mais alta se você houvesse adequado sua narrativa ao tema proposto. Mas aqui há uma narrativa com elementos medievais, e não fabulosos, como foi proposto.

    Nota: 6,5

  10. Fabio Baptista
    6 de março de 2016

    Olha, eu até achei o nível de técnica de escrita muito competente na ambientação e descrições e tal.
    Mas, infelizmente, a história não disse muito a que veio. Fiquei numa constante expectativa por algo que não aconteceu.

    Não saquei a motivação de nenhum dos personagens… tudo pareceu apenas desculpa para que as coisas chegassem ali ao clímax, que também foi muito travado, cheio de batalhas interrompidas por trairagem que não deslancharam. Também não saquei qual foi, afinal, a tal da lenda da espada.

    Não gostei.

    – prostrar-se num poltrona
    >>> numa

    – Ordem ou lei não existiam, e nem sequer que as garantisse
    >>> quem as garantisse

    – a beleza do rosto rainha
    >>> faltou um “da”

    – poderiam deslocarem-se com agilidade
    >>> poderiam se deslocar

    – sobre a qual se dizia pairar uma lenda antiga
    >>> que lenda era essa, meu Deus do céu???

    – Homens encapuçados
    >>> encapuzados

    – entraram numa luta violenta da mãos limpas
    >> de mãos limpas

    NOTA: 7

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 3 e marcado .