EntreContos

Literatura que desafia.

Abutres do Novo Mundo (Wender Lemes)

abutres

O facismo

O preconceito está presente, é poeira que se acumula nas narinas. É um pó a que os bons samaritanos não querem aspirar, mas do pó viemos e a ele cheiraremos… perdão, ainda falo desse belo titicão que se forma debaixo de nossos narizes.

Quem sabe um puritano tenha pensado: “Mas que primeiro parágrafo inútil, não acrescenta nada à história! Desnecessário! Tira isso!”, mas não sejamos preconceituosos. Não quero aparentar o que não sou, só quero meter o dedo no orifício moral de cada um e fazê-los apreciar o percurso. Sem mais metáforas obscenas, por enquanto.

Mesmo os mais liberais dos meus amigos leitores devem ter torcido o bico ao ler o subtítulo desta parte inicial: “não faz isso comigo… escreve faScismo, orra… tem S…”, eu os perdoo. Não escrevi como escrevi para testar a atenção depreendida, ou dizer que todos são preconceituosos em maior ou menor grau. Perdoo os desavisados, porque ninguém tem um conceito aprofundado sem ter um conceito prévio, o importante é reconhecer a varada n’água com humildade.

Bobeiras à parte, alguém já imaginou um mundo dominado por quitutes? Tentador, não? Este mundo existe, na terra sem lei entre a minha criatividade e a sua. Seu nome é Chupeta, porque sim. Nele, finalmente, uma raça atingiu o consenso geral. Produtos industriais, ninguém discorda de ninguém, são todos farinha do mesmo pacote, cada um com a mesma carinha estranha impressa em trigo e chocolate, um exército de trakinas ostentando ideais e faces comuns, “facistas”.

Infelizmente, a raça humana teve que ser subjugada para que seres mais “evoluídos” pudessem dominar as terras frias de Chupeta. Um a um, caímos. Enquanto discutíamos, eles vieram, com seus aromas artificiais, suas ideias artificiais, sua união artificial – tão perfeita. Sacamos facas, pistolas de leite cristalizado, nada funcionou, os quitutes eram muitos e um só, não há como vencer uma guerra contra seres assim. Não há nem mesmo como argumentar. Perecemos.

 

O inconstante

– Mas que… Roberval! ROBERVAL!

– S..s…sim, senhor?

O velho amo bolachudo viu seu escravo humano chegar tropeçando em sua própria falta de jeito. A sofreguidão de Roberval apenas o enfurecia ainda mais.

– Seu inútil! Imprestável! Pedaço de esterco! Por que você deixou as janelas abertas, idiota?! Quer nos matar de frio?!

– Mas… mas… o senhor… o senhor pediu pra deixar, disse que estava derret…

– FECHA A PORRA DA JANELA!!!

Roberval saiu correndo, lágrimas moldando um rosto aflito, fechando todas as janelas pelo caminho. Havia algo de belo naquela pobre criatura, na maneira como se atrapalhava dando o melhor de si, ainda que o seu melhor tendesse ao nada – acho que chamam isso de humanidade. Quando terminou, ofegante, voltou ao centro da sala, com a cabeça baixa, os ombros caídos, o esfíncter retraído.

– Por que você me aguarda com tanto medo, amiguinho?

Roberval subiu o olhar, mas não encontrou o tirano de minutos atrás. O corpo em repouso na poltrona parecia o mesmo, assim como a face dividida – parte creme com um olho chocolate, parte chocolate com um olho creme. Em todo caso, o desprezo não estava mais presente naquele Yin-Yang macabro. Em seu lugar havia compaixão, simples e franca.

– Venha cá.

Roberval aproximou-se meio relutante. Era impossível esquecer as humilhações a que era frequentemente submetido, mas igualmente impossível resistir à bondade acolhedora daquela voz em momentos como o atualmente descrito. Quando chegou a menos de um metro daquela figura estranha, ela pousou as mãos em seus ombros e lhe obrigou a olhar para cima.

– Um dia, pequenino, você será livre outra vez. Você e toda a sua raça. Eu sei a fraqueza de meus irmãos, sei porque me isolaram neste lugar tão inóspito, e os entendo. Por mais que me doa, estou destinado a acabar com a era dos meus semelhantes. O abutre me contou.

– Eu não entendo, senhor…

– Claro que não. A pressão nos ombros de Roberval aumentou – Claro que não, porque você, pequenino – as mãos pesadas trepidavam -, você é a coisa mais idiota que já foi criada!

Roberval caiu sentado com a face salpicada pela saliva esfarelada de seu mestre.

– Mas…

– Você não entende porque é estúpido, não entende nem mesmo que só está vivo porque me colocaram nesse cu de mundo pra apodrecer com você! EU ODEIO A SUA RAÇA TANTO QUANTO ODEIO A MINHA!

– Perdão senhor… perd… Perdão, eu…

– Mas que… você fechou essas merdas dessas janelas outra vez?!

 

Pés-Trocados

Com a derrocada da humanidade, muitos – como Roberval – foram escravizados, a maioria morreu, alguns gatos-pingados conseguiram escapar e, seguindo a sugestão de uma banda excepcional, correram para as colinas. Estes não duraram muito, como pode-se prever.             Chupeta é um mundo severo com os vagantes. As noites são frias, os dias são frios, os olhares são distantes etc. etc. que dó dos chupetenses.

Continuando, costumamos ser criaturas discordantes, o questionamento é da nossa natureza – era da nossa natureza. Um desastre da proporção do que ocorreu é capaz de mudar a natureza de uma espécie, não é? Após tanto sofrimento, todos tiveram que aceitar uma cruel verdade: “nossa história acabou, não há salvação”. Aliás, quase todos. Sempre há os diferentões para defecar a regra.

Como o destino capricha em suas derrapadas, caprichou em Jacinto. Desenhado ao avesso, Jacinto era notável a seu modo. Uma singela mutação fez com que nascesse com os dedos dos pés na ordem inversa, como se o pé direito fosse o esquerdo e o esquerdo fosse o direito, o que lhe rendeu o apelido de Pés-Trocados. Esta, no entanto, era a menor de suas discrepâncias. Jacinto nasceu muito após a ascensão dos quitutes, no tempo em que a escravidão dos humanos era tão comum quanto andar em linha reta – que também nunca foi seu forte, confere?

– É só disso que eu preciso, Rober, dez minutos do tempo dele.

– Lorde Chococreme não gosta que ninguém além de mim entre nos seus aposentos.

– Rober…

– Não, Jacinto, sinto muito.

– Rober…?

Roberval conhecia Pés-Trocados suficientemente bem para saber que “Rober” era o apelido dos favores complicados: “Rober… a Guida me chamou pro porão hoje, toma conta do aquecedor pra mim?”; “Rober… me ajuda a espremer essa espinha…”; “Rober… bora ver Bangu e Madureira…”

Ok, uma dessas capirotagens não aconteceu em Chupeta, mas vocês entenderam a questão. “Rober” nunca era um bom sinal.

– Se ele resolver te matar, a culpa é sua.

– Valeu, meu amigo, te devo mais essa.

 

O urubu escarlate, mensageiro do inefável, ceifeiro do livre arbítrio, sussurrador das palavras ocultas do último testamento, sorridente e cruel, zica dos bagulhos, famoso biruleibe

Horas antes, ao acordar, naquele mesmo dia, Pés-Trocados apreciava seus últimos momentos de tranquilidade matinal deitado em sua pilha de palha puída. Olhava para o céu cinza fosco além da janela. Os dias em Chupeta eram quase sempre cinzentos, nem o sol parecia gostar desse mundo, não imagino o que pensam vocês que o conhecem através de mim.

Jacinto percebeu um ponto vermelho rodando na imensidão cinzenta. Notou, inclusive, que não conseguia ter certeza de quando o evento havia começado. O ponto escarlate crescia e diminuía em espirais, como um pedaço de chiclete de tuti-fruti na privada após a descarga. Em um ápice de estabilidade, pareceu parar no ar, então caiu… caiu… caiu… em um segundo era um ponto, no seguinte era uma grande ave depenada e caolha sentada ao parapeito de nosso amigo.

O urubuzão curvou-se um pouco e apanhou no bico um pedaço de capim seco entre o amontoado de palha. Ajeitando novamente a postura, mascou aquele matinho com a propriedade reflexiva de Clint Eastwood nos seus melhores faroestes. Jacinto sentia uma incontrolável vontade de rir, mesclada com a melancolia dos doentes terminais – só podia estar louco. Resignou-se a esperar.

Quando virou o rosto e seu mono-olho finalmente captou a presença do escravo, a entidade sorriu seu sorriso mais desdentado e cantou:

“Ó tu, que caminhas torto pela terra,

Trago um recado d’onde todo mundo jaz,

Devo avisá-lo que a vida é a guerra,

E a guerra que forjarás.

Onde outros plantam amor,

Tu alimentarás terror.

Onde gira o futuro alheio,

O teu não gira, é imutável.

Do que fere a concordância,

És um parvo execrável,

Com teus pés confusos, andarás torto.

Quando acordares em tua ânsia,

Perceberás que já estavas morto

E estarás satisfeito, antes morto que em paz.”

Jacinto sentiu a sentença implícita, como cheiro de Água Raz, e lamentou:

“Não quero ser um mártir, ainda sou jovem demais”, ao que o urubu respondeu:

“Quem se importa? Tanto faz!”

“E o sapeca iaiá com a Guida, minha delicinha?”

O urubu pelado cuspiu o mato, virou de costas e alçou voo gargalhando e gritando:

“Nunca mais! Nunca mais!”

Essa é a versão que ouvi, a verdadeira deve rimar “urubu” com alguma palavra de baixo calão. As entidades nunca foram muito poéticas em Chupeta.

O que importa, na verdade, é que Jacinto recebeu um intimato do “além”. Sua vontade não importava mais. Seus dias estavam prescritos e ele seria obrigado a seguir o desejo dos deuses, de Raul Seixas, Clodovil Hernandes – ou seja lá quem fosse que controlava o plano superior de Chupeta.

Após o espreguiçar mais demorado de sua vida, apoiou-se com as costas viradas para a janela. Queria esquecer o ocorrido, fingir que as coisas ainda poderiam voltar ao seu controle. Então, ouviu asas batendo do lado de fora, sentiu a leve pressão de um par de garras apunhalando suas costelas, ouviu o estalar de um bico e o sussurro de palavras obscuras e atemporais. Virou-se rapidamente, mas não havia nada ali. Estava selado.

 

O câncer da nova era

Lorde Chococreme viveu em sua mansão nos confins de Chupeta desde que os quitutes tomaram o poder sobre os humanos. Seus semelhantes insistiam em colocar sua situação como passageira e “totalmente opcional”. Entre a bipolaridade do amor e do ódio por todas as criaturas, Chococreme tinha inúmeras características – a estupidez não estava entre elas. Nosso amigo soube, do primeiro resfolegar da ascensão ao seu último suspiro, que não estava ali por vontade própria, mas por ser cativo em uma prisão moral. Afastado de tudo, ele poderia viver como o tumor ideológico que era.

***

Naquela noite, Roberval subiu as escadas da mansão com os torrões de açúcar noturnos do Lorde, pela primeira vez acompanhado. Jacinto trazia uma jarra de calda, marcando seu molejo impreciso. Ao topo da escadaria, um umbral de mogno escuro encerrava uma grande porta branca. Entraram.

A poltrona estava de costas para a entrada, de modo a ocultar a presença do Lorde, mas Jacinto sabia que ele estava ali, lúcido e atento.

Roberval deixou a bandeja açucarada sobre uma mesa ao canto direito de quem entra, assim também o fez seu amigo com a jarra. Quando alcançou a porta, satisfeito por ter passado despercebido, Rober contemplou Pés-Trocados por um momento. Algo agitou-se em suas tripas, uma antecipação do futuro – ou seriam vermes? Sentiu os ciúmes de quem vislumbra a tenacidade dos mitos, concluindo pesarosamente que o fim de todas as lendas é mesmo o fim. Sobre algo sua flora intestinal estava certa: era um fim, uma despedida, ele nunca mais veria seu amigo de pés incomuns após aquele dia. Fechou a porta atrás de si, reafirmando, inconscientemente, o destino da humanidade.

Do outro lado da porta, Jacinto caminhou até o centro da sala, sentou-se em posição budística e permaneceu olhando para as costas da poltrona de Chococreme:

– O que você quer, escravo?

– .

– ?

– .

– ?!

– .

O silêncio de Jacinto quebrou a imobilidade do Lorde, que levantou-se e girou a poltrona. Agora, estavam cara a cara. Jacinto o olhava de maneira fixa, incômoda. Era como se a realidade não existisse, apenas duas essências, e a essência da pequena criatura de pés trocados era curiosamente familiar, ou mesmo esperada. O quitute percebeu isto no primeiro instante em que não conseguiu encarar seu próprio escravo com a tradicional superioridade dos aristocratas.

– Eu vou salvar minha raça, você vai me ajudar.

Lorde Chococreme não sabia de onde vinha a propriedade daquela fala. No momento em que pisou naquele recinto, nem mesmo Jacinto se reconheceu mais. Foi tomado por tal seriedade que sentiu-se como se nunca tivesse sido feliz na vida inteira. De fato, era como se fosse incapaz de conceber algo intangível como a felicidade. A expectativa de salvar a raça humana era para ele, no entanto, muito mais que palpável.

– Ora, seu mutante, e o que te faz pensar que eu vou te ajudar? EU sou o mestre! Se eu quiser, você fica sentado aqui pela eternidade.

– Nós dois sabemos que estou além das suas ordens. Também sabemos que você vai me ajudar a fazer o que precisa ser feito, porque precisa ser feito, não depende mais de mim ou de você. Além do mais, não somos tão diferentes quando se trata de mutações, correto?

Se algum sangue circulasse por Chococreme, estaria fervendo neste exato momento. Nunca, em sua longa vida, alguém o tratara de maneira tão rude. Não conseguia dizer nada em resposta, porém, pois sabia que a colocação da criatura à sua frente era a pura verdade.

– O que você quer saber? – o tom do lorde passou espontaneamente do agressivo ao complacente.

– Eu darei o primeiro passo de uma rebelião que durará anos. A questão é: qual será esse passo?

– Você acha que sua raça algum dia será capaz de vira o jogo?

– Não. Eu SEI que isso ocorrerá.

– Impossível, pequenino… você só pode ter usado algum entorpecente… somos invencíveis…

– Não, não são.

– Somos, a história conta que…

– A história conta o que foi escrito por vocês. Não me interessa.

Chococreme apertou os braços da poltrona, aflito.

– Você sabe por que eu vim parar aqui? – perguntou.

– Não.

– Porque olhar para mim lembrava meus irmãos de nossa maior fraqueza.

– Que seria…?

– A mesma porcaria de fraqueza que eu carrego na cara e você nesses pés tortos! A mesma fraqueza que facilitou tanto a vitória sobre seus antepassados!

Jacinto via a verdade materializando-se sob um lençol branco de palavras brandas, tangível como um corpo que levita. Chococreme continuou:

– Nós vencemos porque não admitimos falhas, porque colocamos nossas diferenças de lado e agimos com perfeita união por um breve instante. Eu sou a diferença que foi deixada de lado pelo bem comum, você também é, somos o câncer dessa era.

Chame de epifania, chame de brisa, nosso amigo de pés trocados foi tomado por um sentimento indescritível, um saber além do âmago.

– Só mais uma coisa, você já visitou a Praça dos Cadáveres?

– Quantos anos você acha que eu tenho, pequenino? Eu estava lá quando ela ganhou esse nome.

Jacinto sorriu – porque a ironia da situação exigia dele um sorriso.

– Não sei quantos anos você tem. Prepare-se para ver aquele lugar uma vez mais.

Uma vez mais, vocês sabem, quer dizer uma última vez.

 

Mikhail Biskoitin

 

– Sir Mikhail, o que faremos em relação às forças rebeldes?

– Há forças rebeldes, soldado?

– Bem, as probabilidades indicam cerca de 17,674% de escravos insatisfeitos com suas atuais posições socioeconômicas, sendo que os 82,326% restantes “não puderam” opinar.

– Hum.

– Além do mais, Sir, temo que alguns insurgentes subversivos possam manifestar uma apologia à liberdade em algum lugar do mundo. Segundo meus cálculos, considerando a quantidade de insurgentes subversivos cadastrados em nosso sistema de monitoramento, desconsiderando mudos, mortos e demais indivíduos incapazes de manifestar oralmente uma apologia à liberdade, a chance de que uma catástrofe assim ocorra é de aproximadamente 2,67%. São chances consideráveis, Sir.

– E quanto aos insurgentes subversivos capazes de fazer apologia à liberdade que se recusaram a se cadastrar em nosso sistema de monitoramento e vivem na ilegalidade?

– Bem…. perdão, Sir, para maior fidedignidade dos dados, preferi não incluir tais anomalias em meus cálculos.

– Hum. Está perdoado por essa incompetência, soldado.

– Obrigado, sir.

– Aham.

– Sir?

– O que foi?

– Sobre os dados que acabei de passar.

– O que tem eles?

– Já sabe o que vai fazer?

– Por que é que eu deveria fazer alguma coisa? Você me passou dados incompletos, eu o perdoei, o que mais você quer? Uma tortilha de maçã? Uma medalha de honra ao mérito? Crie vergonha nessa sua cara ressecada, soldado. Tenho mais o que fazer. Meu primeiro discurso como Kaiser é amanhã à tarde, você sabe disso.

– Sim, Sir. Perdão, Sir.

– Está perdoado, novamente. Não teste minha paciência uma terceira vez, soldado. Cuide de seus números e eu cuido dos meus discursos. Afinal, o discurso é tudo o que importa, você sabe.

– Certamente, Sir. Com sua licença.

 

A viagem (não é mais uma novela dos anos 90)

Nessa época, o meio mais rápido de se deslocar em Chupeta era o Minhocão, um tradicional expresso com locomotiva de tração animal, que levava dois dias da cidade mais próxima da mansão de Chococreme até a capital do mundo, Nova Smirnoff.

O sacolejo do Minhocão marcava o tempo de uma sinfonia silenciosa no coração de Pés-Trocados. Pensava em seus momentos mais significantes até ali. Sua primeira lembrança era a de um uma mariposa carmim. O inseto tinha nas asas um risco horizontal que o deixava muito parecido com lábios voadores. Via-o oscilar despreocupadamente no tempo-espaço, quando ainda nem tinha noção de tempo ou espaço.

Arrancado de seu passado por um solavanco, Jacinto olhou pela janela e percebeu que já alcançavam a segunda manhã daquela longa viagem. Viu, ao longe, algo cortando o céu de uma propriedade rural como um bruxulear vermelho. Percebeu, para sua tristeza, que não era uma visita do passado, mas o carniceiro caolho do futuro. Questionou-se sobre a existência de coisas como passado e futuro em sua vida, em verdade, pois tudo que lhe ocorrera e ocorreria parecia parte de um único acontecer infinitamente longo. Outro solavanco, o urubu desapareceu de sua vista – ele esteve mesmo lá?

Olhou para Chococreme, o quitute observava a mesma propriedade rural – o que não era grande surpresa.

– Você me perdoaria por algo que ainda não fiz? – Jacinto perguntou. Por um momento, quis esquecer-se do que havia perguntado, nem mesmo fazia sentido. Porém, aqueles olhos inconstantes voltaram-se piedosamente a ele, e ouviu:

– Não.

Sentiu sua alma se acalmar, mesmo que brevemente, e um sorriso tímido brotou em sua face.

– Obrigado.

Viu o quitute sorrir também, achou que viu.

Algumas horas depois, um escravo da companhia de transportes adentrou aquele vagão e anunciou com seu par de olhos amarelados fixo no chão:

– Senhores, estamos chegando ao nosso destino final.

Bem baixinho, como se reafirmasse uma verdade universal apenas para si, Jacinto sussurrou: “…estamos chegando ao nosso destino final…”.

Em algumas horas, o Minhocão diminuiria seu ritmo até encerrar o réquiem de nossos amigos mutantes, réquiem este que poderia ser uma música do “Roupa Nova” – se gostaram do subtítulo dessa parte -, ou uma do “Europe” – bem mais modinha. Enfim, decidam vocês.

 

Última risada: Praça dos Cadáveres

A Praça dos Cadáveres era um largo calçamento circular no centro da capital chupetense. Neste mesmo lugar, muitos anos antes, quando Chococreme era jovem e Jacinto nem sonhava existir, os quitutes confirmaram seu golpe de Estado, executando o último líder humano, do qual nem me recordo o nome.

Desde então, a intervalos de vinte anos, o imperador quitute em posse, também chamado de Kaiser, fazia um discurso em memória de seus patriarcas e em prol do brilhante futuro da soberania quitutina. Este era o ano de Mikhail Biskoitin, um líder extremamente dialético – como tantos -, apesar de não tão confiável – como tantos.

Às quinze horas daquele dia, sua voz ecoou entre as multidões de quitutes e escravos humanos apinhadas ali. Falava como um indivíduo ao centro do mundo, e assim era.

– Amigos! Somos um ser formado por muitos!

– SOMOS UM DE MUITOS! – os quitutes repetiam. Jacinto e Chococreme chegaram bem na hora em que o Mikhail começou a falar.

– A história de nossa nação foi escrita com suor e sangue humano, para que nossa raça superior pudesse imperar.

– SUOR E SANGUE! – nunca vi alguém se vangloriar de tais coisas, mas…

– Os deuses nos abençoam, pois bem sabem que também somos divinos! Diria mais, somos ainda maiores que os deuses, pois somos imortais! Doravante, dispensamos a existência de coisas absurdas como “almas” ou “paraíso” – cuspiu a última palavra.

A multidão não repetiu nada daquela oração – apenas porque era muito extensa.

– Somos criaturas materiais e somos a razão desse mundo!

– SOMOS A RAZÃO DESSE MUNDO!

Chococreme apoiou Jacinto em seus ombros e o ergueu acima dos demais. Naquele instante, o abutre caolho pousou seu corpo depenado em um dos postes da praça, despejando sobre os presentes sua aura agourenta e despertando receio no coração de Biskoitin – algo incompreensível para criaturas supostamente superiores aos deuses, não?

– Somos… Estamos acima da efemeridade da vida! Nosso orgulho brilhará pela eternidade! SOMOS BISCOITOS!

O que seguiu foi um misto de “BISCOITOS!” e “BOLACHAS!”, depois “BOLACHAS!” e “BISCOITOS!”. Os gritos foram diminuindo, até se tornarem um sussurro de dúvida : “biscoito…? bolacha…?” Mikhail percebeu que havia aberto a porta dos desesperados para sua raça. Só o que mantinha os quitutes unidos até este dia era a certeza da impecável igualdade ideológica. A dúvida seria a perdição, por isso uma criatura como Chococreme era escondida nos confins do mundo, nosso querido Lorde era a discordância encarnada, tal como era Jacinto. A diferença é que os quitutes perecem pela dúvida, enquanto os humanos evoluem nos braços dela.

Do meio da multidão e mais alto que toda ela, graças à altura do Lorde, Jacinto bradou:

– IRMÃOS! NOSSO CATIVEIRO ACABA HOJE! SE NÃO PODEM ESCOLHER COMO VIVEM, ESCOLHAM COMO MORRERÃO! LIBERDADE! LIBERDADE! LIBERDADE! – clichê, mas aconteceu.

Ao contrário do que ocorreu com os quitutes, o coro humano passou do receio à estridente certeza: “Liberdade! Liberdade! Liberdade! LIBERDADE!”.

Em alguns minutos, todos os escravos na praça berravam em coro a agonia de anos de submissão, como se a fagulha de um pequeno mutante de pés invertidos houvesse incendiado uma floresta de vozes.

Jacinto olhou para o gigante em que se escorava, para o urubu, que se desmanchava em risos no topo do poste, então novamente para o gigante. Pousou as mãos na face redonda daquela incompreendida aberração e disse:

– Que o nosso sacrifício seja lembrando.

– Que o nosso sacrifício seja lembrado…- repetiu Chococreme.

– Eu te respeito, amigo.

Em prantos, mas com um movimento extremamente preciso, arrancou a face de Chococreme, exibindo seu recheio bicolor – um gesto igualmente bizarro e imprescindivelmente simbólico. Teve tempo de contemplar o terror dos quitutes e de seu líder megalomaníaco antes de cair sobre o corpo inerte do que fora o Lorde. Jacinto também não sobreviveu à carnificina daquela noite. Seu legado, no entanto, ficou gravado para a posteridade – assim como seus passos, que marcaram mais fundo que qualquer preconceito.

– ISTO É UM ABSURDO! NÓS SOMOS A RAÇA SUPREMA! – ouviu-se Mikhail gritar em desespero. Rindo da dor alheia, algum filho de quenga entoava:

– Nunca mais!

E, após anos de revolução, ainda há quem se pergunte como um urubu depenado pode voar.

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14 comentários em “Abutres do Novo Mundo (Wender Lemes)

  1. Wender Lemes
    3 de abril de 2016

    Obrigado a todos pela leitura e pelos comentários! Sinto que pesei a mão na quantidade de referências e na extensão do conto (tempos atrás, meu problema era ser direto demais rs uma hora acho o equilíbrio – ou tento). Fico feliz por ter arrancado alguns risos, sorrisos e reflexões – me satisfaz quando um leitor se percebe sorrindo e, de repente, pensa: “Opa… tem mais coisa aqui…”. Sinto muito pelas vidas que tornei mais cansativas, não foi intencional. Enfim, eu sempre digo isto, mas… é realmente um prazer fazer parte desta família de contistas/poetas/pensadores/amigos. Mais uma vez, obrigado.

  2. Anorkinda Neide
    24 de março de 2016

    Bem…
    Não me conectei muito não, até cansativo eu achei… algo panfletário né?
    O enredo não me tocou, infelizmente.
    Mas, o lance dos quitutes deu uma originalidade muito legal, eu sorria ao imaginar o cara de bolacha Chococreme…haha
    A cena final com ele revelando seu recheio, foi bem boa de imaginar.
    Achei grande demais da conta tb, não sabe?
    é uma pena pois os quitutes poderiam dar um caldo e tanto.. e bem doce! 🙂
    .
    Abraço

  3. Andressa
    18 de março de 2016

    Nota: 9.5. Toca em questões antigas e ao mesmo tempo tão atuais. As vezes me pergunto como pode estarmos anos luz na frente em certos assuntos, como tecnologia por exemplo e engatinhando em outros como o amar ao próximo como a ti mesmo?

  4. Gustavo Castro Araujo
    17 de março de 2016

    Achei ótimo o conto. Bem escrito, repleto de tiradas inteligentes, sarcásticas e irônicas. E criativo também. Dentre os que li é o campeão nessa modalidade. Um mundo dominado por biscoitos (ou bolachas?) que escravizam os humanos. Fantástico no melhor sentido da expressão. De certo modo, eu já fui escravo de pacotes de traquinas, então entendo bem o mote haha Mas o conto não é só um desfiar de assertivas bem sacadas. Há também uma forte crítica social nas entrelinhas, que permite ao leitor mais atento perceber que muito do mundo retratado aqui reflete nossas próprias diferenças. Enfim, um trabalho muito competente que, se não emociona, cumpre bem o papel de fazer pensar.

    Nota: 8

  5. Wilson Barros Júnior
    17 de março de 2016

    Estilo puramente existencialista, dostoievski, sartre, notas do subsolo. O conto inteiro parece uma viagem de quem quer fazer dieta. Acontece que o conto dá é mais fome. Tudo lembrou-me o conto “Quem Sabe?” de Guy de Maupassant, onde os artefatos domésticos ganham vida “Meu piano, meu magnífico piano de cauda cruzou a galope, como cavalo desenfreado, com um murmúrio musical nos flancos. Os pequenos objetos iam e vinham na areia como formigas, escovas, cristais, vasos em que a lua punha fosforescências de pirilampos” . Muito divertido seu conto.

  6. Virgílio Gabriel
    17 de março de 2016

    Olá autor! Bom, acho que não escolhi um bom dia para ler o seu conto. Em meio ao caos político do áudio envolvendo a atual presidente, e um ex, li política demais por hoje. Claramente seu conto é uma analogia a ideologia política pessoal. Isso não é nenhuma surpresa, até porque o autor não parece tentar esconder. Coloca fatos, números, e tudo que gera verossimilhança com os assuntos contemporâneos. Mais parecia uma crônica que um conto. Claramente o autor domina bem a língua pátria, mas quando entro num desafio de fantasia, quero fantasia real e não uma realidade com uma máscara. Por isso confesso que não gostei, mas boa sorte no desafio.

  7. Pedro Teixeira
    16 de março de 2016

    Olá, autor! Conto interessante, que tem seus momentos. O ponto alto é a escrita elegante, com algumas sentenças sensacionais. Por outro lado, algumas piadas não funcionaram muito bem pra mim e não sou um grande fã de textos nonsense. Mas no geral, os personagens estão bem caracterizados, os diálogos são legais e até me diverti lendo o conto. Parabéns pela participação!

  8. Daniel Reis
    16 de março de 2016

    Prezado autor: sinceramente, a leitura foi sacrificada pelo meu déficit de atenção. E como a narrativa estava muito errática, eu tive que voltar várias vezes para ver se havia entendido o trecho. Na maioria das vezes, nem assim. Sinto muito!

    Pontos positivos: o nonsense escolhido como arma de destaque para o texto.

    Pontos negativos: justamente o aspecto anárquico, no mau sentido, que faz o leitor se sentir um pouco trouxa em tentar entender alguma coisa.

  9. phillipklem
    15 de março de 2016

    Boa tarde.
    Sinceramente, “nunca mais!”
    Seu conto não conseguiu me segurar.
    A ideia até que é criativa, um bando de biscoitos dominando o mundo, mas a linguagem que você escolheu usar foi o que tornou o conto extremamente desinteressante.
    Inúmeras referências que em nada acrescentaram à história, conversas desnecessárias com o leitor e metáforas obscenas até demais.
    Nada disso é ruim, mas ver tudo em um mesmo texto, e em demasia, foi demais para mim. Sem contar os personagens que em nada cativaram ou interessaram. Nem o protagonista, o famoso pés trocados, não me convenceu.
    Não estou aqui criticando o seu talento, longe disso. Sua escrita é fluida e você não parece ter dificuldade em expressar suas ideias. Só alguém com plena segurança na escrita conseguiria escrever algo assim. Mas, este conto específico, não me agradou nem um pouquinho.
    Boa sorte.

  10. Rubem Cabral
    15 de março de 2016

    Olá, Chocotoner.

    Hahahahaha. Rapaz, é o conto mais doido que já li. Algumas sacadas foram muito boas, feito o biscoito x bolacha, o urubu “o corvo” e o ying yang do traquinas.

    O texto, contudo, precisa de alguma revisão e um tiquinho de coerência no enredo em algumas partes.

    Nota: 8,0.

  11. Alan
    14 de março de 2016

    Conto dentro do tema. Criativo e bem humorado. Bem escrito. Leitura um pouco cansativa. Talvez seria melhor se fosse mais curto. O começo parece confuso, mas a história melhora até o fim.

  12. Sonia Rodrigues
    11 de março de 2016

    O tema é muito interessante. Todos aqueles biscoitos facistas…esse jogo de palavras foi bem interessante.
    O desenvolvimento da trama tem alguns lances interessantes, como a poesia do urubu quando cai ao solo, a alienação do chococreme por ser híbrido. Os demais elementos são variações das sagas milenares: revolas, escravos, e perde muito de sua força pela fala cotidiana incluindo comentários sobre futebol e outras frivolidades.
    O final demonstrando que toda Guerra só tem perdedores é convincente.
    O texto ficou muito longo para o conteúdo, acho que a história ganharia força com mais concisão e foco.

    Nota: 7

  13. catarinacunha2015
    11 de março de 2016

    Caro autor, você tem razão, este COMEÇO é totalmente desnecessário e prejudicou a VIAGEM. Para continuar lendo resolvi determinar que seu conto se inicia no 5º parágrafo, quando o ensaio de cronista sai de cena (volta no meio só para atrapalhar) e entra o narrador. A partir daí vemos um conto extremamente divertido e criativo, com um FLUXO elegante. O FINAL foi muito bom. Pena que o texto está encharcado. Se der uma centrifugada fica beleza. 8

  14. Ricardo de Lohem
    7 de março de 2016

    Olá, como vai? Eu sabia que a palavra “Fantasia” ia gerar confusão nos menos informados. “Abutres do Novo Mundo” não é fantasia, é surrealismo com metáfora política. Não vou discutir todos os detalhes, mas o fato é que a história consegue ser ainda pior que “Arnie e o Velocino de Ouro”. Bem pior. A tentativa de passar
    uma espécie de mensagem político-social, tipo “Animal Farm”, de George Orwell, foi péssima, um verdadeiro golpe de misericórdia em uma história que já não tinha muito que oferecer. Dura de ler, a história é mais fácil e prazeroso derrubar um governo totalitário que terminar a história. Mas duro de engolir que biscoito seco. Espero que tenha Boa Sorte!

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 4 e marcado .