EntreContos

Literatura que desafia.

Draemant (Marco Piscies)

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Os pés percorriam a extensão do quarto de luxo, ressoando na madeira polida a impaciência de um réu inocente. De um lado para outro, do outro lado para um. A mente de Gavin, perdida em assuntos mais urgentes, deixou para os músculos a incumbência de ditar o caminho.

Quando seus pés o levaram para perto da janela, seus olhos capturaram a beleza de um reino inteiro. O sucateiro repousou os braços na madeira, deixando a mente vaguear pela obra de arte que se desdobrava adiante.

Não teve tempo para sorver a beleza de Hundlebrand. Três batidas fortes na porta e a voz abafada do guarda lá fora indicaram o fim do seu exílio.

– Gavin Harrold. O rei deseja vê-lo.

– Finalmente – ele respondeu em sussurro. Lá em baixo, o som de ferro arrastando em ferro anunciava a chegada de um trem na estação regional. Um olhar rápido no relógio de pulso indicou que aquela era a composição das treze horas.

Afastou-se do batente, andando pelo enorme quarto de hóspedes uma última vez. Esperava alcançar o trem das quinze.

Dois dias como prisioneiro era tempo demais jogado fora.

 

*** DRAEMANT   ***

“…e será jogado no Lago de Fogo, onde Draemants  o dominarão e o atormentarão por anos incontáveis. Nem palavras antigas nem novas conseguirão descrever o horror que passarás nas mãos de tão vis criaturas…” – passagem da Antiga Profecia de Salim.

O título de sucateiro inspirava estima e desprezo em igual proporção para quem o ouvisse. A estima vinha de fontes conhecidas: a audácia; a coragem; a promessa de riquezas. O desprezo vinha de todo lugar: desde o fato do ofício não requerer qualquer tipo de estudo, até a fama suja que os sucateiros mais famosos adquiriram com o tempo.

Gavin teve que esperar de pé no salão de auditorias por duas horas, e ainda não havia sinal de que o rei estivesse a caminho. Diante dele, o trono real o observava melancólico atrás de uma mesa de madeira maciça. O silêncio fúnebre permitiu que ele ouvisse, na distância longínqua, um novo trem aproximando-se da estação.

“Lá se vai meu trem das quinze” pensou, a revolta crescendo em seu âmago. Sair dali era quase tentador, não fosse a recompensa que o esperava quando o rei chegasse. “E eles estão com Photon. Não posso sair daqui sem ela”.

A voz poderosa de um arauto invadiu o recinto sem aviso, fazendo Gavin estremecer e expulsando as memórias de volta para o canto onde elas deveriam estar.

– Vossa Suprema Excelência e Autoridade, o Rei.

O rei Yorum deBrand carregava consigo o enorme peso da gordura que acumulou nos cinquenta e quatro anos de gula. Todo o seu corpo balançava no mesmo ritmo que ele andava na direção do trono. Um sorriso amarelo enfeitava permanentemente o seu rosto, e os braços, levemente desencostados do corpo, tentavam equilibrar a massa que teimava em encontrar uma forma de ir ao chão.

Atrás do rei, Yara flutuava.

O piso polido parecia agradecer cada passo da princesa, como se seus pés o curassem dos danos causados pelos passos do rei. Seus cabelos negros e limpos escorriam por ombros e costas, descrevendo uma beleza diferente de tudo o que Gavin havia visto. O sucateiro ajoelhou-se perante o rei momentos antes dele acomodar o enorme traseiro no trono. Ao seu lado direito, Yara repousou o corpo delicado; as pernas cruzadas; as mãos entrelaçadas sobre os joelhos.

– Levante-se, Gavin Harrold de Kalimar. – O rei vociferou – Ah, Kalimar. Há anos não visito sua terra natal. Sol, mar e…

Uma sutil inclinação com a cabeça dizia que o rei esperava que Gavin continuasse a frase.

– … as melhores mulheres de Galar – ele completou.

As risadas de Yorum fizeram suas peles soltas dançarem como os adornos de uma odalisca.

– Não é lá que chamam a sua profissão de … Aventureiro? É isso, não é? Aventureiro! – uma pausa para novas risadas – este é um belo eufemismo para catador de lixo.

A voz da princesa soou mais cansada do que indignada.

– Pai…

Gavin foi rápido em levantar a mão e impedir que Yara continuasse.

– Por favor, excelentíssima alteza. Seu pai está correto. Prefiro ser um sucateiro. O título de aventureiro traz consigo a fantasia de aventuras e finais felizes. Deixo estes para os contos de fadas.

– E você mesmo não acaba de sair de um tal conto de fadas, Gavin de Kalimar? Resgatou a princesa de uma temível criatura, e a trouxe sã e salva para a presença da sua família. Agora, colhe os louros do serviço bem feito.

Gavin inclinou a cabeça em agradecimento.

– Não fiz mais do que a obrigação de qualquer homem.

– Ninguém tem como obrigação invadir o ninho de um Draemant.

Gavin levantou o olhar e encontrou os olhos perolados de Yara por uma fração de segundo, antes de dirigir a atenção para o espaçoso rei. Seus olhos o fulminavam. Dois dias de investigações sem nada encontrar para incriminá-lo – aquilo sim deveria tocar nos recônditos mais profundos de sua arrogância. Esperava um vigilante abastado ou um príncipe corajoso. Ceder a volumosa recompensa de três mil peças de ouro para Gavin pesava muito mais do que enriquecer um pobre sucateiro – pesava a sua honra.

– Se soubesse que encontraria tal criatura, é provável que jamais me aproximasse de lá.

Silêncio. Um momento antes de tornar-se constrangedor, o rei abriu uma das gavetas e puxou uma folha de papel trabalhada com tinta dourada. Encontrou uma caneta tinteiro na mesma gaveta, então fechou-a com força. Começou a escrever e falar.

– Devo admitir minha curiosidade sobre tal façanha. Os fatos continuam fantasiosos para mim.

É claro que sim”, Gavin pensou, “você pode ser obeso e arrogante, mas jamais será idiota”. O olfato do rei detectava o aroma adocicado da mentira. Mas onde ela estaria – em qual sentença? Em qual detalhe? Yorum havia parado de escrever sobre o papel para perscrutar o rosto impassível do sucateiro em busca de algum sinal.

Não encontraria nada ali.

Com o poder de duas palmas, o rei fez surgir um servo que carregava consigo os pertences de Gavin. A empunhadura de Photon projetava-se para fora da mochila, aliviando um pouco do peso no peito do sucateiro. Yorum falava, os olhos fixos no papel e as mãos ocupadas em finalizar as letras desenhadas pela fina ponta da caneta.

– Estou escrevendo uma Ordem de Pagamento. Você poderá trocá-la em qualquer banco de Hundlebrand. Três…mil…peças… – sua boca desenhava as palavras junto com a caneta – de… ouro…pronto.

Esticou a mão na direção de Gavin, o papel pendendo na sua direção. O sucateiro arriscou um passo, e depois outro, subindo os degraus que separavam a realeza da servidão. Sabia que os olhos dos guardas o seguiam.

Esticou a mão e pegou o papel. Yorum não deixou que ele o puxasse.

– Conte-me a história, Gavin. Minha curiosidade está me matando.

Um novo puxão – cuidadoso para que não rasgasse a fortuna – e uma nova resistência.

– Sua excelência pede, e eu devo apenas obedecer.

A mão do rei cedeu. A riqueza passou para as mãos do catador de lixo. Gavin desceu a escada sem virar as costas para a alteza. Não ousou olhar para o papel dourado nas suas mãos, mas sentia em seus dedos o peso de uma vida inteira de trabalho.

– Além do mais, soube que é também um bardo por interesse.

O sucateiro respirou fundo e concordou com um movimento com a cabeça. Aquela era a última tentativa – o esforço final do grande rei para encontrar o que seus melhores investigadores não encontraram. Olhos de lince e sorriso falso encontrariam no rosto simplório de Gavin o que ele tanto buscava segurar para si: sua honra e a honra de sua filha.

A história não era difícil de lembrar, afinal havia acontecido há poucos dias.

 

********

O Ninho do Demônio

Eu acordei assustado no meio da Floresta de Thordhil, confuso e com todo o meu corpo reclamando de dores em cada junta. As perguntas vieram naturalmente. Levantei o torso, os olhos procurando uma explicação. O que eu estava fazendo ali? Quem havia me colocado naquele leito improvisado com panos velhos sobre a grama? De quem aquela carroça a poucos passos diante de mim?

Um cheiro forte de fumo invadiu as minhas narinas. Folha-de-viajante. Bastou virar o rosto para notar o homem de idade sentado sobre um tronco bem próximo, o chapéu pontiagudo familiar pendendo para trás, a barba branca que se confundia com a fumaça do fumo que ele puxava em baforadas curtas.

– Ah, você acordou. – Ele falou, a voz viril destoando do corpo frágil e ressequido.

 

********

– Os deuses olham para você com bons olhos, Gavin de Kalimar. É sempre sinal de sorte encontrar um Mago Mercador durante as suas viagens, ainda mais numa situação como esta. Você não havia sofrido um acidente com o seu transporte?

– Sim, vossa excelência. Mas na hora eu não sabia de nada disso. Zharo se encarregou de me contar tudo.

– Zharo?

– O Mago Mercador. Este era o seu nome. Ele havia me encontrado na beira da estrada, a minha moto danificada e abandonada há alguns metros de distância. Ele somou dois com dois e resolveu parar por ali, cuidar dos meus ferimentos e consertar a moto com as peças que tinha para venda.

Yorum transferiu o peso do corpo de uma nádega para a outra, coçando a barba grisalha que invadia sua majestosa papada. Então, gesticulou para que Gavin continuasse.

 

********

Zharo me falou o preço das peças que usou para consertar a minha moto.

– São oito peças de ouro. O trabalho fica de graça.

– E a minha cura?

– Você não estava muito ferido. Dois feitiços leves deram conta.

Ah, a humildade dos Magos Mercadores. Diferentes dos seus primos acadêmicos, não havia vivalma que inspirasse tamanho desprendimento do material do que um Mago Mercador. Separei nove peças de ouro e quinze peças de prata nashiriana, despejando-as na mão ressequida do velho mago. “Bem afortunados aqueles que tratam bem dos Magos Mercadores, pois um dia você há de precisar de um”, reza o famoso provérbio.

– Isto é dinheiro demais. – O velho retrucou, contrariado.

– Você esqueceu de colocar na equação a minha vida, que ainda está comigo, até onde eu sei.

A risada de Zharo encerrou o assunto.

– Você sabe que isto não cobre a fonte de mana para a sua moto, não é mesmo?

– Você teve que trocá-la também?

– Eu teria que trocá-la, mas não tenho uma comigo. As fadas fizeram um bom trabalho em sugar toda a mana que você tinha até a última gota.

“Oh não, oh não, oh não” eu pensava, enquanto contornava a minha moto, avistando o recipiente vazio próximo ao cano de descarga. Uma última fada, satisfeita com a refeição, fugiu em um voo errático ao me avistar.

– DESGRAÇADAS!

A risada do velho Mago ressoou atrás de mim. Ele se preparava para subir no seu banco de cocheiro, a fim de guiar a sua carroça adiante na sua longa e eterna viagem.

– Precisa de uma carona até o refúgio mais próximo? Não deve ser mais do que dez quilômetros.

– Não, obrigado. Deve haver uma fonte de mana em algum lugar por aqui.

– Fontes de mana não são fáceis de encontrar em florestas de passagem como essa.

Eu sabia. Mas quando você é um sucateiro por tanto tempo quanto eu, você aprende a sentir a mana de um lugar. É difícil de explicar. O ar parece mais leve, e as cores parecem mais nítidas. Algo no som do ambiente muda. Você deixa de ouvir algumas coisas, e passa a ouvir outras que não estavam lá.

O mago andou até mim, tirando de dentro da manga um pequenino frasco contendo um líquido branco familiar.

– Quando vi seu equipamento, deduzi que fosse um aventureiro experiente. Por isso consertei a sua moto.

Ele estendeu a o frasco para mim.

– Pegue isto. Vai lhe ajudar. Talvez você precise.

Eu segurei o frasco entre o dedo indicador e o polegar, aproximando-o dos meus olhos para que confirmasse minhas suspeitas.

– Isto é Mana Refinada.

Zharo olhou ao redor. Os olhos do ancião exalavam preocupação.

– Eu e você concordamos que existe uma fonte de mana por perto,  mas… – se aproximou, falando mais baixo, como se alguém pudesse nos ouvir – … você está sentindo algo de diferente?

– O que poderia haver de diferente?

– A fonte de mana. É como se não fosse o seu lugar.

Uma nova baforada, e mais outra. Então, Zharo deu meia volta e dirigiu-se até a carroça.

– Cuide-se garoto.

– Você não cobrou pela Mana Refinada.

– Eu falei que era dinheiro demais.

O Mago sentou-se no banco e, estalando as rédeas do cavalo, retomou sua jornada.

Infelizmente, a Mana Refinada de Zhan não era capaz de pôr em movimento uma moto. Motos usam a energia constante de uma fonte de mana generosa, mas que libere energia de forma lenta. Mana Refinada, por outro lado, libera sua energia de forma explosiva, e é usada por sucateiros que conhecem magia para potencializar seus efeitos. Eu não esperava usá-la – afinal, a Floresta de Thordhil não tem a fama de ser perigosa.

Por outro lado, ela também não tem a fama de ser morada de tantas fadas quanto as que encontrei.

Uma das primeiras lições que você aprende quando está sendo ensinado o ofício de sucateiro é: se você quer encontrar uma fonte de mana, siga as fadas. Eu nunca havia visto tantas fadas juntas em um só lugar. Bastou alguns passos adentro da floresta para capturar o rastro luminoso destes diabretes infernais.

O primeiro sinal de que eu provavelmente não deveria estar ali foram os corpos de fadas mortas espalhados pelo chão.

Eu já havia ouvido falar de fadas que morreram de tanto consumir mana, mas aquela quantidade de fadas mortas era incomum. O rastro de corpos pequeninos me guiou o resto do caminho até uma antiga torre de vigia, provavelmente dos tempos das Guerras Élficas, abandonada ao tempo e ao vento, meio tombada e esperando o seu fim.

O segundo sinal de que eu provavelmente não deveria estar ali foi a escuridão.

Em momentos como aquele, minha confiança em Photon era o que me impulsionava para seguir em frente. Alguma magia anciã age nela – algo que não sei explicar muito bem. Ela se comunica comigo quando quer me avisar de algo, através da sua iluminação. Cores diferentes para mensagens diferentes. Adentrei a torre com ela em punho, e tudo o que ela exibia era uma leve iluminação azulada, confirmando a ausência de perigo.

Foi fácil perceber que a escuridão dentro da torre não era natural. O negrume era quase tangível. A luz do sol lá fora, já escassa por ter que esgueirar-se por entre folhas e galhos, negava-se a entrar. Os sons da floresta pareciam dividir do mesmo medo. O silêncio era pleno: além dos meus passos, nada mais podia ser ouvido. A única fonte de iluminação era parca luz que Photon emanava. Ela era fraca, mas jogava sombras onde antes só havia o negro.

Encontrei uma escada de pedra que subia a torre em espiral. A fonte de mana deveria estar no topo.

O terceiro sinal de que eu provavelmente não deveria estar ali foram as manchas de sangue. No início, a luz era tão escassa que não as notei. Conforme avancei escada adiante, meus olhos se acostumaram. No final da subida não me restavam dúvidas de que eram manchas de sangue – algumas muito recentes. Então olhei para frente, para sala no topo da torre, e vi o horror.

Os corpos estavam por toda a parte. A luz de Photon os iluminava em sombras. Pedaços de gente e animal misturavam-se a vísceras, ossos e sangue. O choque inicial veio antes do cheiro. O odor de carne podre e de morte era nauseante. Dei um passo para trás e soube que era hora de partir.

Foi quando luz de Photon tornou-se vermelha escarlate, iluminando todo o ambiente, pintando a visão do inferno diante dos meus olhos. Corpos dependurados pelas próprias vísceras; gente com partes faltando; gente com partes no lugar errado. Tudo pintado de vermelho; tudo na fração de um segundo.

Um leve deslocamento de ar atiçou meus instintos. O que quer que estava ali, estava atrás de mim. Desliguei a luz de Photon com um gesto rápido e adentrei o matadouro, usando a memória que tive do momento de iluminação para esgueirar meu caminho cego até uma velha mesa tombada próxima à parede. Pus-me entre parede e mesa, esperando o pior.

A criatura estava lá dentro. Fungava, grunhia e, ocasionalmente, batia suas asas. Eu pude ouvir seus dentes podres dilacerando mais carne para se alimentar. O barulho de sangue pingando dos corpos dependurados era fino e aquoso, mas a baba da criatura que escorria de sua língua projetada para fora conjurava um som pesado e pastoso.

Draemant.

Eu tive certeza de que era um dos demônios de Galém sem nunca o ter visto. Apalpei meu bolso até encontrar a Mana Refinada. Me agarrei a ela, sentindo-me mais seguro, apesar de saber que tal criatura jamais cairia vítima dos truques mágicos que eu conhecia – fossem potencializados pelo artefato ou não.

Eu precisava sair dali. Cada segundo dividindo o mesmo espaço daquela criatura fazia meu coração congelar. Eu sentia a alma me deixando, como se o Draemant não respirasse o ar que respiramos, mas sim as essências dos seres vivos ao seu redor. A mão da espada tremia. Esgueirei-me por entre corpos e escombros, em desespero silencioso, galgando cada centímetro até a saída. Quando finalmente a alcancei, notei a voz de uma donzela, perdida na escuridão. A voz melodiosa de alguém pedindo por socorro.

Congelei.

 

********

– E você retornou e a salvou?

O sorriso de Gavin foi sua resposta. O rei estremeceu a pele flácida em novas risadas.

– Você não me engana, sucateiro! Nem Thomas, O Honrado, voltaria para aquele lugar.

Com uma leve mesura, Gavin concordou. “Eis a sua mentira”.

– Você tem razão, Vossa Excelência. Eu menti.

As armas de todos os guardas voltaram-se para ele em um instante. Com um levantar de mão, Yorum fez com que eles as abaixassem.

– Agora a verdade. Quero que me conte a verdade.

Gavin contou.

 

********

Outra lição que você aprende quando está sendo iniciado no meu ofício é a paciência. Uma caçada pode demorar horas – dias, por vezes. E quando você está encurralado e em desvantagem, não resta muito mais do que se esconder e esperar. Não há vergonha alguma nisso. Eu estava me preparando para a longa espera pela oportunidade perfeita para fugir dali, quando ouvi o som agonizante de alguém ainda vivo.

A princesa Yara agonizava, muito próxima de mim. Deveria estar em silêncio para evitar chamar a atenção do demônio mas, quando me ouviu entrar, buscou ajuda. Arrastou-se até mim e balbuciou com muito esforço as palavras que seriam a nossa sentença de morte.

– So…socorro me… ajude.

O Dreamant ouviu. Pelos deuses, um surdo ouviria um sussurro naquele lugar. Eu pedi para ela se calar, mas ela continuou implorando e implorando…

 

********

– E o que você fez?

– Eu tive que pensar rápido, Alteza. Proferi as palavras do feitiço mais avançado que conhecia.

– Qual feitiço?

– Bola de fogo.

Uma risada estridente fugiu por entre os dentes amarelos do rei.

– Você matou um Draemant com uma Bola de fogo?

– Eu nunca falei que o matei. Direcionei a bola de fogo para o teto, fazendo-o desmoronar. Então segurei a princesa Yara como pude e usei toda a energia da Mana Refinada para conjurar um feitiço e me fazer voar para longe dali.

– Draemants também voam, sucateiro.

– Aparentemente, não mais rápido do que alguém sob o efeito de um frasco inteiro de Mana Refinada.

O rei sentou-se novamente no trono, fazendo o assento ranger de dor sob o seu peso. O sorriso ainda estava lá.

– Salvo por um Mago Mercador. Duas vezes.

Gavin ergueu os ombros.

– Não estava nos seus planos salvar a minha filha.

– Eu sequer sabia que ela estava lá.

– E você não a salvaria, caso ela não tivesse chamado a atenção do Draemant.

Um golpe sobre a mesa e o rei se levantou rapidamente em um movimento impossível para alguém do seu tamanho.

– Deem a este homem os seus pertences.

Um dos guardas destacou-se e largou nos pés de Gavin sua mochila.

– Foi bom tê-lo conosco por dois dias, Gavin de Kalimar. Espero não ter este prazer novamente.

O rei Yorum deBrad balançou o seu corpo na direção de onde entrou. Os olhos de Gavin os de Yara, ainda sentada no seu trono de princesa, encarando-o de volta.

– Venha Yara, minha querida. É hora de deixar o sucateiro partir.

Com leveza, Yara se levantou e partiu.

 

********

Com a mochila nas costas e um papel no bolso que valia mais do que a sua vida, Gavin alcançou o pátio externo do Palácio Real de Hundlebrand. Apenas mais um portão e tudo estaria acabado.

– Então você não me salvaria caso eu não fosse tagarela.

A voz plumosa de Yara freou os seus passos.

– Seu pai jamais acreditaria em uma versão heroica…

– …e ele precisava de uma mentira, para parar de procurar a verdade. – Ela completou – Estou impressionada. Para um bardo iniciante, você mente muito bem.

– Não foi difícil, minha princesa. A maior parte do que eu falei era verdade. Os corpos, o sangue, a escuridão…

– Já chega.

Yara tinha a expressão atribulada, e agora o olhava frente a frente, mais próxima do que jamais esteve.

– Obrigada pelo que fez por mim.

Gavin sorriu e beijou a sua mão.

– Fiz o que qualquer um teria feito.

– Ninguém faria o que você fez. Você poderia ter me matado. Tinha todas as razões para isso.

– Matar é pôr o ponto final em uma história. Salvar é dar a chance para continuar. Quem sabe o seu futuro reserve algo que a redima de tudo o que fez.

– Nada pode redimir as vidas que eu tirei.

Gavin acolheu ambas as mãos da princesa entre as suas, perdendo-se no seu doce olhar.

– Prometa que você fará o que eu pedi.

– Sim. Vou procurar um sacerdote.

– Não um sacerdote. O sacerdote. William Bane, o melhor que existe. Ele saberá o que fazer. Até lá… –  com a ponta do dedo indicador, ele puxou para fora o pingente que o vestido da princesa escondia. Era o pequenino frasco de Mana Refinada – …prometa que usará com cautela.

– Eu usarei.

Ela não sabia, mas o frasco não continua Mana Refinada. Aquilo era Essência de Dhamyr, o deus da cura. Sacerdotes de Dhamyr dariam suas vidas por poucas gotas daquele líquido milagroso – tão milagroso que era capaz de suspender o efeito de maldições. Zharo havia dado para ele algo de valor inestimável. Esperava um dia encontrá-lo novamente para retribuir o favor.

O sucateiro arrumou a mochila nas costas e continuou o caminho até o portão.

– Você nunca falou o que causou o acidente – a princesa exclamou.

– Isto não é relevante.

– É sim.

Gavin interrompeu seu caminhar.

– Você não é descuidado. Não foi um acidente por imperícia. Como você estava sozinho, não foi uma batida e, como ainda estava vivo, não foi um saque. Você estava cansado. Muito cansado. E dormiu. Não foi isso?

O sucateiro sorriu.

– Seu pai deveria ter usado você como investigadora.

Era a primeira vez que presenciava uma princesa corar.

– Eu estou tentando imaginar o que tiraria o sono de um dos aventureiros mais corajosos que encontrei, a ponto de fazê-lo acidentar-se.

– Ah, minha princesa. Isto é outra história, para outro tempo.

E se foi, esperando que, na próxima vez a encontrasse, ela estivesse livre da sua maldição. Afinal, se ela ainda fosse um Draemant, teria que matá-la.

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33 comentários em “Draemant (Marco Piscies)

  1. André Lima dos Santos
    2 de abril de 2016

    Que história interessante. Parabéns ao autor!
    Adorei como a história foi estruturada de modo a proporcionar ao leitor uma imersão.
    Apenas uma coisa me incomodou no conto: a falta de ambientação. Não entendi se há um anacronismo proposital ou se o conto se passa na idade moderna.

    Ah, tenho uma dica também:
    “– Sua excelência pede, e eu devo apenas obedecer.”

    Quando se está tratando diretamente com a pessoa, diz-se VOSSA Excelência. Quando está se referindo à pessoa para um terceiro, aí sim diz-se SUA excelência. Então, tem esse errinho que você pode consertar na próxima edição do conto haha.

    Gostei muito dos elementos da narrativa. Tem um clima de suspense legal para saber no que o sucateiro está mentindo e a resolução não foi previsível, pelo menos para mim. Gostei bastante dos diálogos, principalmente dos diálogos finais do sucateiro com a princesa.

    Um conto muito bom.

    Boa sorte no desafio!

  2. Pedro Luna
    2 de abril de 2016

    Uma outra boa trama, onde outro autor usou o método da contação de histórias no meio do conto para ganhar tempo e utilizar melhor o limite de palavras. Boa sacada.

    Bom, eu achei muito bem escrito e interessante. Realmente só fiquei meio assim com a presença de palavras como moto e trem, que destoaram das imagens que eu estava criando em minha cabeça. Percebe-se também que o autor manja de fantasia e RPG, para sacar coisas como Mana, achei bacana.

    A surpresa no final foi bacana, e deixa a vontade de querer saber o que aconteceu para a princesa ter aquele destino. No fim, o personagem, carismático por sinal, seguro de si, foi mesmo corajoso.

    Um bom conto.

  3. Rubem Cabral
    2 de abril de 2016

    Olá, William.

    Muito bom o conto! Bem interessante essa mistura de novo e antigo, assim como a mitologia criada. O texto também está bem-escrito, com pouquíssimas falhas. O enredo foi igualmente interessante, com um bom plot twist ao final.

    Nota: 9.

  4. Rodrigues
    1 de abril de 2016

    Gostei, a escrita é leve como pedem histórias desse tipo e o protagonista é um personagem que prende a atenção. Está ali como um malandro em meio ao cenário mágico e – por conhecer e saber muito das coisas do mundo – acaba por tornar-se um ímã de conhecimentos, magias, etc, e as utiliza a seu favor. A relação com o rei foi bem descrita, tanto nos diálogos quanto nas descrições, e a revelação final concluiu o texto com classe. Vejo aqui um texto que insere personagens e elementos fantásticos com qualidade, parece-me que o escritor – entendendo a simplicidade de histórias desse tipo (me lembrou bastante as histórias dos Irmãos Grimm) – resolveu somente contar um causo e ainda deixar no ar que essa história poderia multiplicar-se em muitas outras, como fica claro no “– Ah, minha princesa. Isto é outra história, para outro tempo.” Pela leveza e maneira econômica de contar, achei bom.

  5. Wilson Barros Júnior
    1 de abril de 2016

    Muito interessante a introdução de elementos do Apocalipse bíblico no conto. Os diálogos soam muito espontâneos, mostrando a categoria do autor. Os nomes próprios encaixam perfeitamente no conto. A história, apesar de fantasiosa, ficou muito verossímil, combinando perfeitamente fantasia e realidade. O final, surpreendente, remete às lendas tradicionais de vampiros e seres demoníacos. Muito bom.

  6. Emerson Braga
    1 de abril de 2016

    William, sinceramente, não sei qual dos dois é melhor narrador, você ou o sucateiro. Cara, que malandro! Ele conta a história de um jeito que seus leitores certamente também devem se inclinar na direção do conto e fazer a mesma expressão do rei. Há alguns problemas com digitação, pontuação, tempos verbais e umas frases meio confusas. Nada que chegue a comprometer seu trabalho. Mas é bom ficar atento a esses detalhes, pois nada decepciona mais que uma história excelente escrita sem o cuidado que merecia. Teve outro momento em que você trocou o nome do feiticeiro “Zharo” por “Zhan”. Não pode. É desrespeitoso com seu personagem deixar isso acontecer… Sem falar que faz o leitor se desconcentrar até descobrir que não se trata de outro personagem, mas de descuido do autor.
    Seu personagem é um dos mais cativantes desse desafio. Gostei muito de sua astúcia e de seu próprio código de honra. Uma história superbacana, que eu adoraria ler em um livro. Boa sorte.

    NOTA: 9,0

  7. Gustavo Aquino Dos Reis
    31 de março de 2016

    *Gavin

  8. Gustavo Aquino Dos Reis
    31 de março de 2016

    Um trabalho muito bem acabado. As descrições, a mitologia percutindo todo esse mundo fantástico criado por você, autor. Porém, creio que falhei com o conto. A história não me empolgou. Vejo muita influência – intencional ou não – da obra poderosa de Rothfuss intitulada “O nome do vento”. Yara, Gavan, Yorum são personagens solidamente construídos, mas são clichês em sua condução narrativa. A donzela em perigo, pelo menos ao meu olhar, não funcionou.

    No mais, é uma obra-prima e de muito peso.

    Meus sinceros parabéns.

    Boa sorte no desafio.

  9. Gustavo Castro Araujo
    30 de março de 2016

    Excelente conto. Penso que foi o que melhor descreveu o universo da fantasia sem parecer forçado, conseguindo inserir uma trama condizente. Há certa metalinguagem no texto, na medida em que nós, leitores, nos vemos como testemunhas tanto da história como um todo como dos bastidores, testemunhas do desconforto do rei e de sua frustração por não ser capaz de sobrepujar nosso simpático Gavin no quesito astúcia.

    A maneira de narrar é outro ponto alto, com as alusões a pontos mundanos, como a gordura do rei, à maneira de segurar os objetos – são detalhes que não têm força decisiva para a trama, mas que ajudam sobremaneira o leitor a imergir no mundo criado.

    O melhor, no entanto, é o final. Apenas na última linha é que temos revelado o segredo do Draemant. Pelo menos para mim foi totalmente inesperado e não pude evitar um “aahh” de discreto espanto. Funcionou que foi uma maravilha.

    A única coisinha a reclamar tem a ver com meu gosto pessoal – e é por isso, somente por isso, que não dou a este conto a nota máxima. Senti falta de certo apego emocional. Para mim, um conto é tanto melhor quanto mais me afeiçoo aos personagens. Gavin, apesar de simpático, não desperta aquela sensação que me faz torcer por alguém, sofrer por alguém. Como disse, é questão pessoal – tendo a gostar mais se isso ocorrer.

    De todo modo, para mim, este é o melhor conto do desafio. Parabéns!

    Nota: 9,5

  10. Claudia Roberta Angst
    29 de março de 2016

    Conto longo como a maioria aqui, mas até que não me cansou, pois os diálogos e o toque de humor suavizaram a leitura.
    No geral, o conto está muito bem escrito e sem falhas de revisão. Só uma coisinha aqui e e ali. Achei estranha a passagem – ” Seus cabelos negros e limpos escorriam por ombros (…)” – Limpos? Negros e sedosos… e brilhantes… exalando frescor… Mas limpos?
    – (…) mas o frasco não continua Mana > continha
    O texto apresenta a mistura de elementos modernos (moto) com um cenário mais medieval. Não sei como se chama isso, eu sempre esqueço. Mas gostei do efeito.
    O final ficou bem interessante com a revelação do segredo da princesa – ser um Draemant – isso me lembrou o filme O Feitiço de Aquila.
    Boa sorte!

  11. Wender Lemes
    28 de março de 2016

    Olá, William. Seu conto é minha décima terceira avaliação entre os finalistas.

    Observações: a técnica é apurada e a história bem descrita. Apesar de ser, basicamente, o que se esperaria para o desafio de fantasias, há certo toque profissional que tornaria a história boa independente do tema.

    Destaques: gostei muito do altruísmo do mago mercador. A origem humilde do herói contribui para seu carisma – não é algo inovador, mas funciona muito bem. Seguindo a mesma lógica, embutir de egoísmo e sordidez do detentor do poder também é uma estratégia válida.

    Sugestões de melhoria: a ideia de misturar o “futurismo” da moto ao medieval no estilo RPG é uma boa ideia, poderia desenvolver melhor este lado do conto. O medieval é o “senso comum” do conto. É o que o consolida como fantasia, mas o conto ficaria ainda mais interessante se ousasse um pouco mais na ambientação, abordando mais o futurismo em outros objetos, tornando o cenário menos previsível e mais rico.

    Parabéns, boa sorte no desafio.

  12. Simoni Dário
    28 de março de 2016

    Olá William.
    Muito boa a história que você criou, apenas não captei de cara, precisei da releitura (minha culpa). Boa narrativa, enredo e final surpreendente. Você deu boas características aos personagens transformando o protagonista num personagem carismático. Acho que faltou uma explicação mais ao final para Photon, não entendi o que era, e também gostaria de ter entendido o que levou à maldição da Princesa Yara. Você deu boas descrições para o ambiente. Enfim, uma aventura bem legal, não sei se Draemant foi uma invenção sua ou já existe na literatura, se foi, parabéns, muito bom.
    Bom desafio!

  13. Renan Bernardo
    28 de março de 2016

    Bom conto. A troca de pontos de vista constantes e sem aviso entre o rei e o viajante me incomodou um pouco, mas curti as partes em itálico em que o viajante está contando uma história. O final é bem interessante. Os diálogos do rei e a forma como ele se porta também são ótimos!

    Nota: 8,5

  14. phillipklem
    26 de março de 2016

    Boa noite.
    O seu conto foi um dos melhores que eu li nesse desafio.
    Gostei demais da sua escrita e da sua maneira de criar cenas. Normalmente não gosto de contos que apresentam um personagem narrando uma história, mas você soube fazer isso com maestria, de forma que a leitura não ficou cansativa.
    A história, também, é extremamente interessante e prende a nossa atenção.
    A única coisa que eu mudaria seria a última frase. Em meio a um conto tão bem escrito ela ficou meio que deslocada.
    Meus parabéns autor. E boa sorte.

  15. Fabio Baptista
    25 de março de 2016

    Ótimo conto. Infelizmente, na minha opinião, o finalzinho estragou, porque deixou muitas dúvidas (tudo que havia sido contado até então é colocado em xeque, não apenas a identidade da princesa) e abriu uma porta muito grande para nova aventura, deixando o conto com cara de prólogo.

    Bom… porém, até ali, a atmosfera construída foi excelente (embora, como apontado abaixo, eu tenha torcido o nariz para elementos “futurísticos”) e a cena em que o bardo/aventureiro/sucateiro/??? entra no covil do monstro é antológica, acredito que a melhor cena narrada no desafio.

    – De quem aquela carroça a poucos passos diante de mim
    >>> de quem *era*

    – – Ah, você acordou. – Ele falou
    >>> tenho utilizado a seguinte notação:
    >>> – Ah, você acordou – ele falou
    >>> Acho que o texto fica mais “limpo”. Mas é só pra refletir, não estou apontando como falha, nem dizendo que um é mais correto que o outro!

    – a minha moto danificada
    >>> Eu sei que é um universo próprio e tal… mas quando li “moto”, deu uma quebrada de clima.

    – Ele se preparava para subir no seu banco de cocheiro, a fim de guiar a sua carroça adiante na sua longa e eterna viagem.
    >>> seu / sua / sua
    >>> Às vezes dá pra evitar

    – lições que você aprende quando está sendo ensinado o ofício de sucateiro é
    >>> “quando está aprendendo” ficaria melhor

    – – Você tem razão, Vossa Excelência
    >>> Não usaria o “você”, mesmo nessa situação

    – mas o frasco não continua Mana Refinada
    >>> continha

    NOTA: 8,5

  16. catarinacunha2015
    25 de março de 2016

    Sem dúvida o melhor COMEÇO que encontrei neste desafio. A VIAGEM fantástica e de FLUXO exímio prendeu na leitura. Estava indo muito bem até começar a abrir portas e janelas como se o conto fosse apenas o primeiro capítulo de um romance; o que ficou explícito no FINAL. Pena. 8

  17. Anorkinda Neide
    25 de março de 2016

    Olha, filho.. eu achei sensacional! Tipo assim.. perfeito!
    E ainda tem gancho!!
    Certamente, vc está escrevendo a saga da Gavin!
    Parabens… li duas vezes por puro prazer.. Espero vê-lo no podio!
    Além de muito bem escrito, achei muito inteligente e instigante. o Mago, as fadas infernais.. rsrs a princesa Draemante… show mesmo!
    Abração

  18. Pedro Teixeira
    23 de março de 2016

    Olá, autor(a)! Um conto pra lá de interessante, bem escrito, enredo adequado ao formato. A estória não me cativou muito e a reviravolta no fim não me surpreendeu, já estava esperando algo do tipo, as dúvidas e o comportamento dos personagens, e a própria trama de algum modo sugeriam isso. Mas a narrativa foi conduzida de forma competente e o texto é claro e de leitura agradável. Parabéns pela participação!

  19. Laís Helena
    21 de março de 2016

    Narrativa (1,5/2)
    Sua escrita, apesar de ter alguns deslizes (especialmente nos primeiros parágrafos, que são um pouco repetitivos), me agradou e me deixou envolvida durante toda a história. Gostei da alternância entre a história do sucateiro e o diálogo com o rei, o recurso me prendeu à história e serviu muito bem a ela. Além disso, a narrativa tem aqueles detalhes que quase não se notam durante a leitura, mas que fazem toda a diferença.

    Enredo (2/2)
    Podia ser só mais uma história sobre uma princesa sendo salva do covil de um monstro, mas a sua escrita valorizou o enredo, e o final é completamente diferente do que eu esperava.

    Personagens (2/2)
    Dentro do limite de um conto, seu personagem me pareceu crível e bem caracterizado (o fato ele sofrer preconceito por sua profissão foi um mero detalhe, mas que deu um toque a mais à jornada dele).

    Caracterização (2/2)
    Gostei dos poucos elementos que você colocou aqui (o tal do combustível mágico foi muito interessante), especialmente envolvendo a tecnologia (adoro histórias que misturam magia e tecnologia). Você não os explorou dentro de um conto de 4 mil palavras, mas foram colocados de maneira que eu sinta que há coerência nesse universo. Me deu vontade de ler mais histórias nesse mundo (se você tiver, me avise).

    Criatividade (2/2)
    Você deu uma cara nova a um enredo que aparece muito em histórias de fantasia, e ainda inseriu tecnologia e uma série de outros elementos interessantes.

    Total: 9,5

  20. Bernardo Stamato
    18 de março de 2016

    Com certeza o melhor conto que li nesse concurso. Quase nenhum erro ortográfico, boa narrativa, personagens bem elaborados e final realmente surpreendente, além de um cenário inusitado com tecnologia e magia. Muito bom mesmo.

    Nota 8.

  21. Leonardo Jardim
    18 de março de 2016

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 História (⭐⭐⭐⭐▫): muito boa e bem amarrada. A ambientação, bastante diferente do mundo de fantasia usual, foi bem feira, não incomodou e deixou vontade de conhecer mais. O protagonista, também, típico antiherói golpista e carismático também se destacou. A resolução final é boa, mas esperava um golpe ou reviravolta mais interessante.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): muito boa, sem percalços, daquelas em que a imersão é tão grande que nem reparamos na escrita. Uma ou outra figura de liguagem poderia ser usada para deixar o texto mais bonito.

    💡 Criatividade (⭐⭐⭐): mesclou elementos fantásticos com novos e fez uma mistura muito interessante e criativa.

    🎯 Tema (⭐⭐): um mundo fantástico com bugigangas movidas à magia.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫): o texto me agradou bastante, mas como já comentei o final não trouxe o impacto esperado. Estava esperando uma reviravolta maior ou um golpe dele e da princesa contra o rei. O fato da princesa ser o demônio é legal, mas sua revelação não foi tão marcante. Acho que poderia ter deixado ela para a última frase.

  22. Daniel Martins
    18 de março de 2016

    E o melhor ficou para o final. Um conto muito bem estruturado, com alternâncias de trama, que desperta a curiosidade
    do leitor. Todos os elementos fantásticos estão explicados e coerentes, e até mesmo, a junção de elementos antigos
    e modernos ficou perfeita.
    10

  23. Daniel Martins
    18 de março de 2016

    E o melhor ficou para o final. Um conto muito bem estruturado, com alternâncias de trama, que desperta a curiosidade
    do leitor. Todos os elementos fantásticos estão esplicados e coerentes, e até mesmo, a junção de elementos antigos
    e modernos ficou perfeita.
    10

  24. ram9000
    18 de março de 2016

    Conto muito bem escrito e apropriado. Vários elementos e descrições são interessantes para um mundo de fantasia. O desfecho possui uma boa reviravolta. Este é um bom exemplo de um conto até longo, mas que não se perde em descrições sem importância ao enredo.

  25. vitormcleite
    16 de março de 2016

    Desculpa mas não gostei do teu modelo de texto, aqueles cortes não ficaram perceptíveis para mim, parece que a história não ganha nada e acaba parecendo cortada, resulta um texto com soluços. A leitura acabou por não ter continuidade.e o texto perdeu força. Talvez a tua intenção seja dar continuidade a este conto e aí podes ganhar uma boa história. Desculpa

  26. Evandro Furtado
    16 de março de 2016

    Um plot twist relativamente interessante no final que deu um gás para a trama. Senti, no entanto, um pouco de excesso de informação no conto. Acho que esse seria o tipo de história que funcionaria melhor em um romance, por exemplo, onde você teria tempo de desenvolver melhor os personagens e a própria trama. Gostei da alternância de narradores – a quebra terceira/primeira pessoa – funcionou muito bem.

  27. Eduardo Velázquez
    14 de março de 2016

    Excelente texto. Adéqua-se ao tema. Linguagem e descrição muito boas. A história é ótima e o universo ficou muito original. As transições entre o presente e passado ficaram bem legais. Final muito bom e imprevisível. Nota: 9.

  28. JULIANA CALAFANGE
    11 de março de 2016

    Uau! Quanto prazer e felicidade senti ao ler seu conto. Nota-se que se trata de um escritor profissional! História criativa e envolvente do começo ao fim (com direito até a ‘teaser’, em clima de cinema!). Vc encarou com muita competência o tema proposto, acho q poucos conseguiram o q vc conseguiu. Ótima concepção dos personagens, a narrativa é densa, encorpada, se é q posso dizer isso… Notei o “desaparecimento” de 2 palavras ao longo do texto, provavelmente um engano durante a revisão (a menos q tenha sido obra do Mago Mercador… rs). Parabéns!!!

    • Piscies
      4 de abril de 2016

      Hahahahahaa!!! Magos Mercadores não costumam roubar as coisas. Eles são muito honestos, rs rs rs rs.

      Obrigado pelo feedback!

  29. Davenir Viganon
    11 de março de 2016

    Olá William Bane
    A história que eu mais gostei deste grupo foi a sua. Trabalhaste muito bem sobre as versões que o protagonista conta para o rei e a revelação da verdade deixa toda uma história nas entrelinhas. Este impacto no final fez a história continuar na minha cabeça depois de ler. É um efeito que gostei de sentir e é algo que pretendo fazer como escritor algum dia. A escrita foi de um contador de histórias, contando uma história de um contador de histórias. O personagem não foi tão carismático, talvez pela formalidade que tinha de falar com o rei e mentir. Em relação a adequação ao tema, as fadas, os potes de mana e maldições combinaram com o leve “steampunk” com os trens e peças mecânicas. Enfim, teu conto mostrou muita criatividade e se alguém captou algum defeito significativo, só saberei quando os comentários forem revelados.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

    • Piscies
      4 de abril de 2016

      Obrigado Davenir! Que bom que você captou a atmosfera levemente steampunk que tentei emprestar ao conto. Nem todos gostaram, rs rs rs.

  30. Brian Oliveira Lancaster
    8 de março de 2016

    OGRO (Objetivo, Gosto, Realização, Ortografia)
    O: Atmosfera incrível, com leve mistura de tecnologias inexistentes. Lembrou-me do jogo Warhammer que mistura sci-fi e fantasia. Aqui, com cuidado, o autor fez bem em não exagerar na temática “futurista”. – 9
    G: O suspense e a troca de pontos de vista foram essenciais para dar o tom trágico, cômico e “aventuresco”. O início é bem despretensioso, mas depois faz o próprio leitor querer saber mais. Excelente. Explicar o nome do título somente ao fim também foi uma grande sacada. – 9
    R: A história e os diálogos convencem, apesar de suas misturas e partes levemente clichês (magos aparecendo na floresta do nada). Mas isso não me incomodou, e faz sentido dentro do contexto. O plot twist no final fechou bem, mas a explicação anterior confunde um pouco. Entendi na frase final, mas tive de reler para entender que era ela falando no início desse parágrafo. – 9
    O: Escrita leve, fluente, com diferenças sutis para cada personagem. – 9
    [9,0]

    • Piscies
      4 de abril de 2016

      Valeu Brian ( e o seu terno acervo de animais e criaturas fantásticas para as críticas literárias, rs rs )! Seu ponto sobre a confusão no final é bem relevante, vou acertar isso na revisão!

      Usei uma série de clichês no conto de forma proposital, tentando, de alguma forma, “torcê-los” para que ficassem mais interessantes. O próprio clichê da princesa presa numa torre é usado no conto… onde eu tento mudar um pouco para transformar a princesa no verdadeiro perigo. O clichê do mago na floresta segue a mesma linha, rs.

      Obrigado pelo feedback!

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Finalistas, Fantasia - Grupo 2 e marcado .