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Literatura que desafia.

Celestino Araújo (Renata Rothstein)

conto

Acordou. Dia quente de fevereiro. Primeiro pensamento – que também foi o último –  “foda-se tudo”.

Nasceu causando desgosto: Celestino Araújo, preto e favelado, filho de pai desconhecido e estuprador, um peso nos ombros da mãe, Núbia, doméstica que por força das circunstâncias virou puta, quase profissional.

Cheirador, cracudo, aborto da natureza, um fudido a mais nas ruas, arrastando um corpo podre e vergonhoso aos olhos dos seres que, quando estava menos noiado, observava: os vivos.

Ele, já tão morto. Sempre foi.

O trajeto entre a dor e a falta de motivo até as drogas fora rápido.

A escalada foi só queda e naquele dia de fevereiro, Celestino imaginou coisas que jamais ouvira falar, e numa delirante alegria viu seu corpo franzino transformar-se num balão.

Ria e babava incoerências, enquanto flutuava, do viaduto ao chão.

Hora do rush, Celestino encontrou a liberdade, ironicamente atrapalhando a volta para casa, dos “vivos”: foda-se tudo!

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59 comentários em “Celestino Araújo (Renata Rothstein)

  1. Miguel Bernardi
    29 de janeiro de 2016

    E aí, Álvaro. Tudo bem?

    Gostei e desgostei. O tema já é batido (tanto o suicídio quanto os vícios), mas até que foram bem explorados aqui. A narrativa é frenética, mas não deixa uma identidade maior que essa: é frenética. Ponto.
    Creio que poderia falar menos do Celestino e mais da dinâmica de vida(morte?) dele. O que me fez gostar foi o fato dele e ver como morto, ainda estando vivo. Morto por estar preso… a metáfora quebrou, um pouco, quando a morte o libertou.

    Bem, espero que o comentário não tenha soado rude… desculpe.

    Grande abraço e boa sorte!

  2. Nijair
    29 de janeiro de 2016

    .:.
    Celestino Araújo (Álvaro Aloísio Couto)
    1. Temática: Violência textual, também.
    2. Desenvolvimento: Qual a intenção do desconhecido? Se ele era estuprador, alguém o conhecia, não? Ou quis dizer anônimo, mais um do povo?
    3. Texto: Palavras agressivas, desnecessariamente. Não atraíram.
    4. Desfecho: Lei de Talião? Rancor? Pressupõe e faz apologia a desvalores.
    Não agradou.

  3. Tamara Padilha
    29 de janeiro de 2016

    Outro ótimo conto de suicídio. Simples, boa escrita, descrições que deixam o leitor imaginando. Parabéns!

  4. Thales Soares
    29 de janeiro de 2016

    Quando vi a imagem do conto, pensei que seria um micro conto de terror bem pesada! Comecei a ler com altas expectativas. Este desafio está cheio de micro contos de terror… e eu até que estou curtindo.

    Aqui, no entanto, pareceu-me que terror não era o objetivo. No final das contas, foi apenas mais um conto de suicídio (outro tema muito recorrente no atual desafio). Achei até que a imagem exagerada destoou daquilo que foi apresentado para o leitor.

    Apesar de muito bem escrito e com técnicas admiráveis, o resultado final não me agradou.

    De qualquer forma, boa sorte no desafio.

  5. Tom Lima
    29 de janeiro de 2016

    O interessante aqui é a linguagem crua, mas acabei achando que ele não serviu a um propósito.

    Ficou um incomodo aqui, mas não com o que esta escrito, mas com o que poderia estar escrito. Acho que essa não é tanto uma critica ao texto, mas às emoções e sensações que ele gera.

    Ok, foi assim com o Celestino, é assim aqui perto e eu mesmo conheci alguns como ele (nenhum deles tirou a própria vida, mas todos morreram cedo, mas isso não vem ao caso). A vida é assim, mas como muda?

    Minha impressão é que o texto se propõe a ser critica social, mas não é, é “só” retrato. Isso em si não é problema. O problema é se propor a uma coisa e ser outra…

  6. Pedro Luna
    29 de janeiro de 2016

    Outro que pensei já ter comentado.

    Infelizmente a temática do sujeito fudido, cracudo, que tem a vida fudida pelo mundo e se revolta não é novidade, e até gostaria, se fosse abordada de uma maneira mais original.

    Agora gostei de alguns detalhes, como dizer que ele era um morto observando os vivos. O suicídio no fim ficou bacana também por você ter dito que ele atrapalhara os vivos. Mas fico a pensar, até que ponto valia essa guerra entre Celestino, infelizmente um sofredor, com os tais vivos? Quantos vivos que também sofrem e podem até se sensibilizar com o personagem não estariam presos naquele trânsito?

    No fim, acho que não é uma batalha. O conto é interessante.

  7. Fil Felix
    28 de janeiro de 2016

    Também sou do time que não costuma gostar das narrativas que é tiro, porrada e bomba, a realidade nua e crua. Mas ela tem suas qualidades, consegue nos passar um contexto crível e bastante atual, algo que as vezes bate na nossa porta e não sabemos, ou que vemos e fingimos não ver pelas ruas.

    A morte em horário de pico é pertinente. Vira e mexe eu vejo, quando estou no Metrô, alguém comentando “mas resolveu morrer logo agora, 18h?!”, quando há usuário na linha. Ora poish, já que me despedirei do mundo, que seja memorável! Gostei de como abordou isso.

  8. Wilson Barros Júnior
    28 de janeiro de 2016

    Esse conto eu vejo todos os dias, aqui no bairro. Gostei muito de alguém retratar de forma tão vívida esses pobres coitados que rondam por aqui. A maioria não se mata; é morta. Um foi morto pelo pai de uma moça que estuprou, drogado. Outro morreu linchado. Outro mataram por matar. Esse é nosso mundo, esse teatro de vampiros.

  9. mkalves
    28 de janeiro de 2016

    Não morreu na contramão, mas atrapalhou o trânsito, em transe. Não costumo gostar de textos tão gratuitamente violentos, mas esse funciona e incomoda, ainda que o tema seja tão surrado.

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Publicado às 14 de janeiro de 2016 por em Micro Contos e marcado .