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Literatura que desafia.

Traduzindo “O Corvo” – Artigo (Fabio Baptista)

corvo

Numa recente “Terça-feira clássica”, li novamente (depois de uns bons anos) o poema “O Corvo” de Edgar Allan Poe. Gostei, sim (não sou tão chato, afinal :D), mas muitas coisas não estavam do jeito que eu lembrava. Então notei que essa tradução que o Gustavo postou foi feita pelo Machado de Assis. A que havia lido anteriormente era do Fernando Pessoa (quando li a primeira vez nem sabia disso).

O engraçado é que muda bastante de uma para outra, quase se pode dizer que é outro poema. Daí peguei o original em inglês e… bom, era uma terceira versão do mesmo enredo.

Claro, a ideia base, a essência, se mantém, mas há muitas licenças poéticas nas traduções.

Como não fiquei totalmente satisfeito nem com uma, nem com outra, resolvi eu mesmo fazer a minha versão, tentando seguir mais ao pé da letra o poema original. Seria também um desafio, pois até hoje pouco me aventurei nesse campo da tradução.

Bom, coloquei o resultado neste gráfico comparativo (acho que ficou um pouco grande e pesado e ninguém vai ler, mas enfim…):

traducao_o_corvo

 

No meio está o original. À esquerda os que vão mais para o lado da adaptação livre e à direita os que seguem mais ao pé da letra. Interessante notar que o poema fica legal até na tradução do Google (que inclusive arriscou umas riminhas de vez em quando!).

Só sei que depois dessa experiência, passei a valorizar ainda mais o trabalho dos tradutores… o negócio é complicado e demorado. Essas 18 estrófes pareciam que não acabavam nunca! Imagina traduzir um Guerra e Paz da vida…

Bom, no caso do poema, ainda há a dificuldade adicional das rimas, métrica, etc. Nesse aqui, por exemplo, eu joguei a toalha nos versos onde aparece a “Lenore”. Até pensei em colocar o nome “Naís” pra rimar (porcamente) com o “nunca mais”, mas achei que ficaria ridículo e deixei “Lenora” mesmo e não rimei com nada. Os versos em que tive que recorrer ao “ão” para rimar não me agradaram muito, mas gastei boas horas pensando em algo melhor e não consegui.

Enfim, para quem não conseguir abrir a imagem gigante, está aí o produto dessa história toda:

 
O CORVO (Edgar Allan Poe)

Era uma vez, à meia-noite sombria,
Enquanto eu ponderava, o cansaço urdia,
Sobre um curioso tomo de erudição esquecida,
eu já sonolento,
a cabeça pendendo,
de súbito alguém veio batendo,
batendo a meus umbrais,
“É algum visitante”, murmurei, “batendo a meus umbrais” –
É só isso,
e nada mais

Ah, sim, eu bem me lembro,
isso foi no frio Dezembro
as brasas na sala morrendo, desvanecendo feito fantasmas indo embora
com avidez desejei a clareza,
da manhã em vão quis ver a beleza
e em meus livros cessar a tristeza
– tristeza pela doce Lenora –
Pela rara e radiante donzela que os anjos chamam Lenora
E aqui,
nome não tem mais

E o suave, triste e incerto
farfalhar de cada cortina por perto
preenchia-me com fantásticos terrores outrora sentidos jamais
Assim, ao que meu coração disparado batia
A mim mesmo eu repetia:
“É algum visitante,
que suplica entrada em meus umbrais,
Um visitante tardio, que suplica entrada em meus umbrais”
É isso,
E nada mais

Meu espírito se fortaleceu resoluto,
e não hesitei nem mais um minuto,
“Senhor, ou Madame”, eu disse, “por favor me desculpe;
mas o fato é que estava eu aqui cochilando,
e tão devagar você foi chegando,
batendo à porta de quando em quando,
tão suave que não tive certeza, de tê-lo ouvido chamar em meus umbrais”
– nesse momento escancarei a porta –
Noite lá fora,
E nada mais.

Às margens da profunda escuridão me espreitando
Por tempo fiquei ali: parado, temendo, duvidando,
sonhando sonhos que mortal algum se atreveu a sonhar outrora
Mas o silêncio seguia inquebrável,
E o breu não dava pista palpável,
E uma única palavra soou inefável,
Foi a palavra sussurrada: “Lenora”
Isso eu sussurrei, e um eco murmurou de volta: “Lenora!”
Meramente isso
E nada mais

À sala acabei voltando,
toda a alma por dentro queimando,
Logo nova batida ouvi com temor
mais alta que qualquer outra batida anterior
“Certamente”, eu disse, “certamente é algo à minha janela;
Deixe-me explorar isso a sério,
e descortinar logo esse mistério –
deixe meu coração ficar tranquilo, acabar com esses ais –
É só o vento
E nada mais!”

Abri a persiana de supetão
quando, com muito alarde e agitação
pousou ali um corvo imponente, dos dias santos imemoriais
não fez ele nenhum cumprimento,
não parou ele sequer um momento,
e com nobre semblante de indizível intento,
Empoleirou-se em meus umbrais –
Empoleirou-se sobre o busto de Palas, que há em meus umbrais –
Empoleirou-se, e sentou-se,
e nada mais.

Então, tal ave sedutora e escura
me fez sorrir em meio à amargura
Pelo semblante grave e pomposo como não vi jamais
“Apesar do penacho estar tosquiado”,
eu disse, “não parece ele acovardado
Medonho corvo de severo tratado
que vaga pelas orlas infernais –
dizei-me qual é o teu nome, no negrume das orlas infernais!”
Grasnou o corvo:
“Nunca mais”

Fiquei eu muito admirado
Ao ouvir a ave dizendo tão claro,
Apesar da resposta não ter significado, nem nada de mais;
Comigo concordar haverão
que jamais nenhum outro homem são
tenha sido abençoado com a visão
de um pássaro sobre seus umbrais
pássaro ou monstro, sobre a escultura acima de seus umbrais,
Com um nome igual a
“Nunca mais”.

Mas o corvo, sentado ali solitário
sobre o plácido busto ordinário
dizendo de toda a alma apenas aquelas palavras tais
Nenhum comentário ele teceu
– sequer uma pena ele moveu –
Em pouco mais que um murmúrio assim então disse eu:
“Outros amigos partiram antes –
Assim como minhas esperanças, de manhã também te vais”
Então o pássaro disse:
“Nunca mais”

Assustado na quietude quebrada
por resposta assim tão bem falada
“Não há dúvida”, disse eu, “que palavras outras não sabe mais”,
Aprendeu de algum dono descontente
e através de desastre inclemente
imitou deveras rapidamente
Até suas canções sepulcrais –
Até as esperanças melancólicas envoltas em lamentações sepulcrais
Do “nunca…
Nunca mais”.

Mas, a ave sedutora e escura
continuou me fazendo sorrir em meio à amargura
Tomei assento ao sofá, em frente ao pássaro, ao busto e aos umbrais;
Então, afundando nas almofadas
Coloquei-me a juntar ideias jogadas
Fantasia após fantasia, eu pensava e pensava
O que essa ave agourenta de tempos ancestrais
O que esse tétrico, terrível, medonho e horrível pássaro de tempos ancestrais
Quer dizer com esse grasnar
“Nunca mais”

Assim me empenhei em decifrar
mas sem nenhuma sílaba pronunciar
Para o pássaro que me encarava com o fogo de olhos mortais,
Sentado eu fiquei ali matutando
com a cabeça já reclinando
no sofá aveludado e amplo
onde o abajur projetava sombras abissais
Mas nessa almofada aveludada, onde agora eram projetadas sombras abissais
Ela não há de se sentar
ah… nunca mais

Então o ar avolumou-se denso,
perfumado por invisível incenso
balançado por Serafins, cujos passos tilintavam noite afora
“Maldito!”, eu gritei, “por Deus foste emprestado
pelos anjos d’Ele enviado
envio esse tardio e embriagado
pelas memórias de Lenora!
Entorne, ah, entorne essa doce embriaguez e esqueça Lenora!”
Disse o corvo:
“Nunca mais”.

“Profeta!”, eu disse, “coisa do capeta! –
ainda profeta, seja diabo ou somente ave preta! –
Seja demônio da tentação, ou seja tempestade, quem te lançou a esse cais
Desolado, ainda assim impávido –
nesse deserto mundo enfeitiçado –
nesse lar por horrores assombrado –
dizei a verdade, não hesitais –
Existe – existe bálsamo no Paraíso? – responda-me, eu imploro – não hesitais”
Disse o corvo:
“Nunca mais”.

“Profeta!”, eu disse, “coisa do capeta! –
ainda profeta, seja diabo ou somente ave preta! –
Pelos Céus que se dobram sobre nós – pelo Deus que você também adora –
Diga a essa alma cheia de tristeza lancinante
se agora lá no Éden distante
está a donzela santa e exultante
que os anjos chamam Lenora –
Está a rara e radiante donzela, que os anjos chamam Lenora?”
Disse o corvo:
“Nunca mais”.

“Sejam essas palavras nosso sinal de despedida
pássaro ou diabo!”, gritei, voz enraivecida –
“Volta agora à tempestade e à noite das orlas infernais!
Não deixe para trás pluma malfadada
a me lembrar desta tua mentira contada!
Deixe aqui minha solidão imaculada! –
Saia do busto sobre meus umbrais!
Tira teu bico do meu coração, e vai-te embora de meus umbrais!”
Disse o corvo:
“Nunca mais”.

E o corvo, sem nunca ter voado,
ainda está sentado, ainda está sentado
Sobre o pálido busto de Palas logo acima de meus umbrais;
E seus olhos aparência vão ganhando
de um demônio que está sonhando
e sobre ele uma lâmpada oscilando
lança no quarto suas sombras abissais;
E minha alma, para fora dessas sombras que se lançam abissais
Não se erguerá –
nunca mais!

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Sobre Fabio Baptista

7 comentários em “Traduzindo “O Corvo” – Artigo (Fabio Baptista)

  1. Daniel Reis
    7 de janeiro de 2016

    Já conhecem a versão publicada na revista Raposa, em 1985? A ilustração do Miran, como cartaz, é de cair o queixo! Não sei se posso postar o link aqui, mas vale a pena ver lá, por ser graficamente magnífica e o texto, uma versão bem experimental… Reproduzo o texto:

    O CORVO
    Edgar Allan Poe

    Por Thadeu W, Marcos Prado, Beco Prado e Edílson.

    “E de gargalo em gargalho tirou o Poe dos sentidos.”

    Num dia desses,
    no exato momento do último instante,
    eu, bêbado como sempre,
    num sonho de escriba extravagante,
    delirava às vezes demais

    Daquele gélido julho
    não vou esquecer jamais.
    Eu, matando saudades da morta,
    sugava do litro e de um livro
    que já não idolatro mais.

    Dois toques na porta.
    Eu, com um copo a mais,
    tive a nítida impressão.
    “Um estúpido corvo bate à minha porta.
    Só pode ser isso, nada mais.”

    “Agüenta as pontas um pouco mais!”
    Berrei feito um possesso
    mas sem querer ignorar o Processo
    que me acelerava o coração
    me enervando ainda mais.

    Matando medo a grito,
    meto a mão na maçaneta
    e só a noite testemunha o que fui capaz.
    “Deixar o bem ouvido pelo maldito?
    Isso nunca, jamais.”

    Volta a tomar conta de mim a infeliz,
    dor infinita menor que minha cicatriz,
    “Este coração é aquela que aqui jaz”.
    Tranco a porta.“Era tentação,
    nem menos, nem mais.”

    Escancaro a janela e a casa cai.
    “Isso não vai ficar assim.”
    Abrindo as asas sobre mim,
    Com jeito de quem volta atrás,
    o corvo foi longe demais.

    Trazendo desaforo para minha casa,
    o estorvo fedorento e sem compostura
    pousa sobre o ontem dos jornais
    sem vacilar, na maior cara dura,
    abre o bico e se apresenta: “Nunca mais.”

    “Essas coisas só acontecem comigo.”
    Resmunguei já muito loquaz.
    Só porque exagero na dose
    ninguém acredita quando digo
    que o corvo disse nunca mais.

    O corvo repetia com tamanha fé
    que desconfiar nunca é demais.
    “Depois de tanto amigo sacana,
    te expulso também a pontapé.”
    E o descarado: “nunca mais.”

    Ao ouvir palavras tão certeiras,
    recordei os bons tempos de rapaz:
    “Eu também já fui assim, ô chupim,
    eco de todas as besteiras.”
    E ele, na tampa: “nunca mais.”

    “Vou ganhar esse corvo no cansaço.”
    Sento disposto a esperar sentado
    até que à razão venha algum sentido
    para respostas tão geniais.
    E o corvo se adiantando: “nunca mais.”

    “Por que dou asas a tanto azar?”
    Indago o meu mal passado a sangrar
    pensando fazer-lhe pena com meus ais.
    “tornarei a vê-la no momento azado”?
    E o corvo com muita pena: “nunca mais”.

    “Demodeus, me responda, que diabos!
    O amor, que dizem um santo remédio,
    nesta esquina entre Deus e Satanás,
    poderá por fim à dor desse tédio?”
    E o corvo bocejando: “nunca mais.”

    “Demodeus, me responda, que diabos!
    Que bel prazer costumeiro e solitário
    há nestes trabalhos manuais?
    Existe alma ou sou mesmo um otário?”
    E o corvo espirituoso: “nunca mais.”

    Um anjo mau que sonha como o diabo em pessoa
    este é ele escrito e escarrado
    até hoje agourando que eu descanse em paz.
    Por mim tanto faz, agora no meu ombro, domesticado,
    o corvo curvado, nunca mais.

    Fonte: https://polacodabarreirinha.wordpress.com/2010/05/05/2663/

    • EntreContos
      7 de janeiro de 2016

      Sem problemas quanto aos links, Daniel. E obrigado pela versão!

  2. Daniel Reis
    7 de janeiro de 2016

    Muito bom, uma aula! Admiro muito quem traduz algo, porque realmente é quase impossível trazer coisas e sentimentos embutidos nas palavras de um idioma para outro. Parabéns, Fabio!

  3. Gustavo Castro Araujo
    7 de janeiro de 2016

    Rapaz, fantástico o trabalho que você fez. Além do conteúdo confessional sobre as dificuldades inerentes à tradução — algo que por si já seria motivo pra um artigo isolado — você disponibilizou esse quadro comparativo fantástico. Tenho certeza de que os entusiastas, principalmente os fãs do Poe, vão adorar. Parabéns, meu amigo!

  4. Piscies
    6 de janeiro de 2016

    CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP

    Não imagino o trabalho que tenha dado. Parabéns!!!! Ficou muito bom!!!

    Nunca tinha parado para ler as versões em português. Realmente, tanto Machado quanto Fernando tomaram boas licenças poéticas. Curti muito a sua versão, apesar das outras não serem de todo ruins.

    MUITO BOM!!

    • Fabio Baptista
      6 de janeiro de 2016

      Valeu, man!

      Foda que a minha versão tá mais pra Google Translator que pra Fernando Pessoa HAUHAUHAHUA

      Mas, particularmente prefiro o mais próximo possível do original… que foi meu objetivo.

      Outro poema que ainda vou pegar para traduzir é aquele do Tigre.

      Abraço!

      • piscies
        6 de janeiro de 2016

        Eu sou muito adepto da tradução literal também. Não vejo sentido em alterar a obra de outrem. Por outro lado, sei como é difícil traduzir literalmente um poema. Eu nem sei se tenho capacidade para isso. Hahahah!

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Publicado às 6 de janeiro de 2016 por em Artigos e marcado , .