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Literatura que desafia.

Meu Grito (João Kruger)

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Precisava pular do peito e sair correndo. Urgia ganhar liberdade e ser ele mesmo, um grito com personalidade. Pulsava como uma borboleta querendo sair de seu casulo, como um jato de esperma tentando furar a camisinha, como um pássaro lutando para quebrar a casca do ovo. E depois de um esforço hercúleo, ganhou livre-arbítrio, me escapou da garganta, pulou dele mesmo, me fugiu da boca. Um grito rouco, profundo, histérico, grotesco. E tão logo conquistou o espaço externo do âmago e do corpo, saiu desembestado, atravessou as ruas, ultrapassou as paredes, se perdeu na multidão e me deixou sozinha, louca, muda e nua. Daquela janela do décimo primeiro andar eu procurava por ele e ele me ignorava, desaparecia no tempo e nas ondas sonoras, até deixar de ser meu e se tornar um grito da cidade!

No dia seguinte, o jornal dava notícia da celeuma ensandecida que tomara conta das ruas na noite passada. Era meu grito que tinha falado aos dos outros e de grito em grito todos ficaram roucos e loucos e houve quebra-quebra por todos os cantos. Não houve político, policia ou porrada que fizesse calar todo esse berreiro alucinado. Médicos e psiquiatras tentaram em vão explicar a turba. Oportunistas levianamente tentaram assumir a autoria da confusão, mas como não tinham competência para gritar, foram logo desmoralizados. Só eu sabia que tudo começou com meu grito, minha agonia que quando berra me escapa.

A garganta ainda arranhava e ardia quando meu grito voltou pra casa. Pensei que já estivesse manso, mas antes que eu pudesse engolir um só trago quente de café, ele se jogou dentro mim, violentamente. Mesmo o querendo tanto, foi como um estupro goela adentro. Ele me possuiu, escorregou pelas paredes da traquéia com o gozo de quem tem sede e bebe um copo d’água, me bebeu de uma só vez. Não sei o que faria sem ele. Ele não sabe viver sem se expressar. No mais fundo de mim, é ele quem melhor me conhece. É ele quem fala por minha voz e me dói muito contê-lo. Mas desde aquele dia, pelo sim pelo não, ando meio calada.

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12 comentários em “Meu Grito (João Kruger)

  1. Davenir Viganon
    7 de janeiro de 2016

    Ah um conto desse, num desafio de “mini-contos” faria um sucesso…
    Eu daria uma nota bem alta pra ele, mas como não há necessidade de atribuir números, digo apenas que é um baita conto, muito bom de ler. Parabéns!

    • João Kruger
      7 de janeiro de 2016

      obrigado, Davenir! Quem sabe participo do próximo! abraço!

  2. Gustavo Castro Araujo
    7 de janeiro de 2016

    Achei bacana, bem escrito, uma espécie de libelo à libertação da alma. Quem nunca pensou em explodir, sem se importar com as consequências? Ótimo texto. Parabéns!

    • João Kruger
      7 de janeiro de 2016

      Obrigado, Gustavo!

  3. Fabio D'Oliveira
    7 de janeiro de 2016

    ௫ Meu Grito (João Kruger)

    ஒ Físico: João Kruger escreve poesia em forma de prosa. E faz isso muito bem. Ele conseguiu construir um estilo perfeito que equilibra esses tipos de narrativa. Escreve belamente, de verdade. Porém, o autor precisa ter consciência que sua escrita refinada irá limitar a gama de leitores. Falta simplicidade no seu estilo e na forma como a mensagem do conto é passada. João Kruger tem muito potencial para se tornar um escritor fantástico, tendo grandes chances de operar profissionalmente nessa área (talvez já faça isso, não o conheço, infelizmente), então seria bom trabalhar um pouco nesse quesito.

    ண Intelecto: O conto não carrega uma estória concisa, com início, meio e fim. É uma reflexão profunda sobre a necessidade do ser humano de expressar-se. Quando estamos encurralados, presos nas correntes ilusórias do mundo, queremos gritar, fugir dessa situação agoniante. Essa não é a solução, pois o debate só causa mais ferimentos e sofrimento. Mas o autor não teve a intenção de levantar essa questão. Talvez ele queria apenas gritar, como a personagem. A forma como ele abordou é complexa, e ele tem um vocabulário farto, então é necessário muito calma para capturar todas as nuances do texto. Mas suas ideias são claras. E isso mostra a precisão do autor. São poucos os escritores que conseguem fazer isso. Ele não merece outra coisa além de palmas e parabéns. Bravo, bravo! CLAP, CLAP, CLAP!

    ஜ Alma: Amo a Lei da Correspondência pela sua veracidade. É tão bela… João Kruger mostra que possui uma alma maravilhosamente delicada e sensível com esse conto. E tem clareza nas suas reflexões. É um ser humano complexo. Até demais… O autor precisa procurar e encontrar a simplicidade, pois ela é a responsável pelos verdadeiros prazeres da vida.

    ஆ Egocentrismo: Degustei a leitura, devagar, com calma, e o tamanho ajudou. Certeiro. E a mensagem é bela. Foi tudo tão bem executado que fica difícil não gostar desse conto. No entanto, sinto a necessidade de reafirmar uma questão que levantei em diversos pontos da avaliação. A completa ausência de simplicidade no texto me incomodou. Nâo há um ponto de apoio para pessoas assim. Até a forma como a mensagem é passada é complexa. João Kruger precisa encontrar o ponto de equilíbrio desses dois extremos.

    • João Kruger
      7 de janeiro de 2016

      Poxa, Fabio, fico muito grato pelos seus comentários! Nem sempre escrevo assim, tenho textos mais simples. Muitas vezes a coisa é de momento. Esse texto eu escrevi inspirado numa música, então acho q peguei a atmosfera q a música me passava. E seus comentários sobre a Alma me deixaram muito feliz, estou trabalhando nisso, pode crer! rs Grande abraço!

  4. Pedro Luna
    6 de janeiro de 2016

    Gostei pra caramba. A necessidade de se expressar e quando o seu grito também está em união com os gritos de outras pessoas, criando algo que de qualquer maneira se torna poderoso e incontrolável.

    Essa sequência me deixou sem fôlego:

    ”E tão logo conquistou o espaço externo do âmago e do corpo, saiu desembestado, atravessou as ruas, ultrapassou as paredes, se perdeu na multidão e me deixou sozinha, louca, muda e nua. Daquela janela do décimo primeiro andar eu procurava por ele e ele me ignorava, desaparecia no tempo e nas ondas sonoras, até deixar de ser meu e se tornar um grito da cidade!”

    • João Kruger
      7 de janeiro de 2016

      Obrigado, Pedro. Q bom q gostou!

  5. Fabio Baptista
    6 de janeiro de 2016

    Gostei!

    Ideia simples e bem executada, com uma pegada meio “erótica” que deu um charme.

    Deixaria um parágrafo exclusivo para a última linha (muito boa por sinal). E acho que dava pra limar alguns artigos e uma e “seu/sua” nessa frase (já coloquei como eu deixaria):
    “Pulsava como borboleta querendo sair do casulo, como jato de esperma tentando furar a camisinha, como pássaro lutando para quebrar a casca do ovo”

    Mas aí é questão de gosto pessoal mesmo (prefiro textos mais enxutos).

    Abraço!

    • João Kruger
      7 de janeiro de 2016

      Obrigado, campeão! Elogio seu me deixa orgulhoso!

  6. Piscies
    6 de janeiro de 2016

    Anda meio calada… até gritar novamente.

    Um belo texto. Poético. Me identifiquei bastante. Por vezes, sinto mesmo uma vontade agonizante de gritar. Não só gritar: pegar o copo que seguro e jogá-lo na parede, quebrar o computador, quebrar as janelas.

    Acho que, no final, sinto essa vontade por que desejo ser ouvido. Atiçar as multidões, como o grito da personagem. Quero que me ouçam, quero que me entendam, que compartilhem da minha insatisfação e do meu ódio.

    Este texto parece ter vindo da sua alma. Parabéns xD

    • João Kruger
      7 de janeiro de 2016

      Talvez seja coisa de pisciano… nadamos em águas profundas e muitas vezes revoltas… rs

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Publicado às 6 de janeiro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .