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Mortais – Resenha (Gustavo Araujo)

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Existem certos assuntos para os quais jamais estaremos prontos. Sim, a frase beira o clichê, daqueles mais surrados, mas é que também reflete uma constatação difícil de negar, especialmente quando nos referimos à morte. Não apenas a nossa própria, mas especialmente a daqueles que nos são queridos.

Mesmo nos casos mais evidentes de aproximação da hora final, mesmo nas ocasiões em que, de fora, não hesitaríamos em reconhecer o derradeiro suspiro, jamais estaremos em condições plenas de aceitação ou de resignação.

Quando se trata de médicos esse cenário ganha ainda mais profundidade. Isso porque em regra, profissionais de saúde são talhados para sustentar a vida a qualquer preço. Como resultado, empregam o que há de mais eficaz em termos de equipamentos, remédios e tratamentos com o nobre propósito de impedir que seus pacientes morram. Respiradores artificiais, tubos, ressuscitadores, remédios, enfim, um arsenal que a medicina moderna provê para que a vida não se perca.

Nesses extremos, os familiares são os que mais sofrem, até porque se veem compelidos a tomar uma série de decisões que invariavelmente apontam para o uso de todo e qualquer meio para salvar o pai, a mãe, o irmão, a esposa, o marido ou o amigo prestes a morrer.

Nos dias atuais, quem age diferente? Que médicos dispensam o tratamento em seus limites mais extensos? Que parentes têm a coragem de abrir mão de tudo o que a medicina dispõe para manter vivos aqueles a quem se ama?

O médico e escritor americano Atul Gawande mergulha fundo nessas incômodas questões em “Mortais”. Em 250 páginas, convida o leitor a imergir no que há de mais perturbador a respeito da morte, em especial no que se refere às decisões que devemos tomar quando a vida escorre como areia entre os dedos.

Por meio de uma prosa envolvente, o autor demonstra como estamos despreparados para discutir nossa mortalidade e como isso influencia negativamente em nossos raciocínios quando alguém que nos é importante se aproxima do fim da vida. Invariavelmente, apresentamos a nós mesmos justificativas nobres, mas na verdade agimos como tiranos, assumindo sem permissão o controle da existência de nossos entes mais caros quando eles já não conseguem se virar sozinhos.

Entremeando argumentos filosóficos e científicos com casos reais, Gawande critica a medicina moderna e a busca desmedida pela cura, mesmo quando se sabe que isso é estatística ou virtualmente impossível.

O autor aborda primeiramente histórias de pacientes com idades avançadas, às margens da demência ou das fases mais complicadas do Alzheimer. Em seguida, passa aos casos de enfermidades terminais. Em ambos os casos, traz a lume a eterna e difícil questão: quando seus pais necessitarem de ajuda para toda e qualquer tarefa, você os colocará em um asilo ou em uma casa de repouso? Ou os levará a um hospital, onde ficarão até o fim? Ou preferirá contratar um enfermeiro, deixando-os em suas próprias casas? Ou tomará conta deles você mesmo na sua própria casa?

Em geral, temos concepções fundadas desde a juventude sobre essas perguntas, mas a prática, ensina Gawande, pode ser torturante mesmo para os mais resolutos.

Não há como fugir dessas realidades. Cedo ou tarde seremos atingidos por alguma delas ou por ambas. A julgar pela maneira como a civilização ocidental – mormente a cristã – evoluiu, pouco espaço há para se discutir o nosso próprio fim, para debater a velhice, as doenças e a morte, para que homens ou mulheres enxerguem a si mesmos como seres finitos, eis que apegados a dogmas religiosos ou a milagres improváveis.

Conversar sobre isso, sobre a morte de maneira geral, não poderia, jamais, ser considerado tabu ou gerar constrangimentos. Em situações extremas, parentes e médicos deveriam discutir opções, prioridades, desejos e concessões com o maior interessado – o doente ou o velho – em vez de usurpar-lhe o direito de decidir.

Gawande defende uma espécie de revolução na medicina, uma releitura do juramento de Hipócrates, visando preservar, nos momentos derradeiros, o ser em detrimento do mero existir. Para tanto, sugere que os médicos sejam menos informativos e mais tolerantes com suas próprias limitações, que busquem compreender seus pacientes, descobrir, afinal, o que lhes importa realmente.

Quando se está no fim, seja por conta de velhice, seja por causa de uma doença terrível, o ser humano tende a diminuir seu círculo de interesses. Cresce de importância o apego à família e aos amigos. Dispensam-se novos projetos. Nessa hora, pergunta-se até que ponto é preferível apelar aos avanços médicos, às terapias experimentais, aos tubos e respiradores artificiais, a uma terceira ou quarta rodada de quimioterapia quando tudo mais falhou; até que ponto deve se investir num milagre – que pela própria essência da palavra se afigura impossível – em detrimento de cuidados paliativos que tendem a conferir àquele que parte algum conforto na hora derradeira?

O recado de Gawande é claro: ninguém deveria morrer em um hospital, preso a máquinas, na esperança de uma intervenção sobrenatural; é preferível mil vezes ser assistido por enfermeiros, em casa, junto à família e aos entes queridos. Até o último suspiro.

“Mortais”, enfim, entrega o que promete. É um livro que nos reduz àquilo que realmente somos, que nos faz pensar na brevidade de nossa existência e daqueles que nos cercam, parentes e amigos queridos. Ao fazê-lo, permite-nos perceber que também os instantes derradeiros – mesmo aqueles resultantes de condições extremas – podem refletir, não um momento de dor, mas apenas o ponto final de uma existência completa.

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4 comentários em “Mortais – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Celina Pereira
    9 de maio de 2017

    Lí o livro e recomendo a todos.

  2. Fátima Costa
    6 de fevereiro de 2017

    Meu amigo, a resenha, diga-se de passagem, bem esclarecedora, me fez crer que parte do teor do livro amolda-se, como uma luva, à situação, no momento, vivenciada por mim e minha família. Vou ler. Muito obrigada pela sugestão!

  3. Fabio Baptista
    16 de novembro de 2015

    Bela resenha, patrão!

    Assunto deveras interessante esse abordado pelo livro.
    Minha vó costumava falar, ao comentar sobre alguém com doença terminal, graves sequelas de acidente e tragédias afins – “pra viver assim, é preferível a morte”.

    Sempre achei um ditado um tanto cruel… e o pior tipo de crueldade – aquela que te faz pensar: “pqp, pior que é verdade”.

  4. Jowilton Amaral da Costa
    15 de novembro de 2015

    Fiquei instigado, vou procurar para ler. Beleza de resenha.

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Publicado às 15 de novembro de 2015 por em Resenhas e marcado , , .