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Detox Literário.

O Menino que Adorava o Mar (João Renha)

FOFOTO O MENINO QUE AMAVA O MAR

Cláudio era um garoto ainda quando o avô o levou á praia pela primeira vez. Ele ficou encantado, é claro. Naqueles tempos Copacabana era pouco mais que uma aldeia e não tinha prédios ainda: quem visse a praia, observando do mar, só ia ver um monte de  casas. Casas apenas na beira-mar, ao longo de toda a orla e nada mais que isso. A Copacabana do início dos anos 1900 era apenas isso: um mar de casas, cada uma delas mais linda e aconchegante que a outra. Eram outros tempos. Eles moravam na Avenida Atlântica, próximo ao número 700, entre a Princesa Isabel e o Leme,  onde existe hoje em dia um grande condomínio. O avô que era da Marinha Mercante e havia vindo da Inglaterra, tinha atravessado o oceano até chegar ao Brasil, tinha verdadeira paixão pelo mar. Naqueles tempos só era possível vir do Velho Continente pro Novo assim, de navio. Era uma viagem longa e cansativa que levava mais de 15 dias. Mas mesmo que se pudesse vir de avião – que só começaram a operar entre a Europa e os Estados Unidos em 1939 e até o Brasil dois anos depois – eles teriam vindo de navio porque o velho comendador não tinha pressa em chegar e gostava imensamente de ficar olhando pro mar. O mar era uma das suas paixões. Ele amava o mar.

Todo dia entre as cinco ou seis da manhã, lá estava ele, se exercitando, fazendo orações antes de entrar no mar e nadar. O avô, quando era jovem, passava horas nadando. Reza a lenda que ele ia do Posto Seis até o Leme e voltava nadando. Algumas vezes, é verdade, voltava caminhando pelo calçadão, feliz da vida, assobiando e cantando em inglês uma velha canção escocesa: The Brave . Ele era admirado em toda a orla de Copacabana e por onde passava as pessoas acenavam e baixinho diziam: lá vai o gringo, lá vai o bravo ! Com o seu imenso amor pelo mar ele ajudou a difundir entre os amigos a paixão pelo mar. Quem quisesse encontra-lo ao fim do dia, já sabia: era só passar na barraca dos pescadores que ficava, como fica ainda, no Posto 6 e lá estava ele: ouvindo e contando historias de pescador ! Nas primeiras vezes que o avô o levou á praia, levou também um primo já mais velho chamado Carlos que o avô adorava. Carlos era tido pelo avô quase como um filho. A paixão do avô pelo Carlos era imensa. Só não era maior que a paixão que ele tinha pelo mar. O avô amava o mar. Da areia Cláudio via ao longe os dois nadando, a dezenas, talvez centenas de metros da arrebentação: Carlos acenava sempre de longe para ele, enquanto o avô, nadando se afastava cada vez mais da areia. E lá iam os dois, o primo e o avô se afastando, se afastando até que, mesmo enrugando a testa e fazendo esforços com os olhos pra enxergar, Cláudio já não mais os via ao longe. Mas eles estavam ali, nadando, ele tinha certeza. Se divertindo no mar. E assim Cláudio foi crescendo, se inspirando no avô e no primo mais velho, aprendendo a amar o mar, como os dois amavam: muito ! Quando Cláudio era ainda menino uma desgraça aconteceu no seio da família: Carlos o primo mais velho que apendera a amar o mar com o avô decidiu ir nadar mais cedo, sozinho. Ele levantara mais cedo e, como o avô estava ainda dormindo, não quis incomodá-lo: vestiu o traje de banho, pegou uma tolha e atravessou a Atlântica, indo em direção á praia. Alguém jura tê-lo visto entrando no mar que naquela manhã estava revolto com ondas de quase três metros de altura. E não mais voltou. Que tristeza ! Durante quase um mês, ou um pouco mais, Cláudio ficou sem ver o mar porque o avô receoso de perder outro neto, não mais o levava á praia para nadar. Na verdade, Cláudio só via o mar pela janela da sua casa – ou da varanda quando ia na porta buscar o avô. Na primeira vez que o avô voltou a leva-lo á praia, Cláudio estranhou: o avô só o deixava nadar agora preso a uma imensa boia preta, feita de pneu de automóvel, cuja corda ele cuidadosamente amarrava antes num pedaço de madeira que ficava fincado na areia. E assim foi por longos, longos anos. Durante todos estes anos Cláudio só pode nadar no mar preso áquela boia preta, feita de pneu de automóvel, cuja corda o avô cuidadosamente amarrava num pedaço de madeira fixado na areia. Até que um dia Cláudio cresceu e se tornou mergulhador profissional. Cláudio era agora a admiração maior do avô que orgulhoso, ao vê- lo entrar de pé de pato, máscara de mergulho e roupa de borracha, comentava baixinho com os amigos da rede de vôlei: eu o ensinei a nadar ! Todo fim de semana era possível ver o menino que havia se tornado mergulhador profissional entrando no mar de Copacabana. Agora sem a imensa boia preta feita de pneu de automóvel que cuidadosamente era presa pelo avô num pedaço de madeira fixado na areia. Ele crescera e não mais precisava dela. Cláudio, revelariam as manchetes dos jornais, passava horas indo ao fundo do mar, vasculhando, procurando algo: o corpo do primo que há quase duas décadas desaparecera no mar. Quando Cláudio mergulhava os olhos do avô se enchiam de lágrimas e esperanças. No silencio de seu pensamento profundo, da mais distante lembrança, devia acreditar: dessa vez ele o encontra. Mas nada. Apesar de todo o esforço daquele menino que se tornara um exímio mergulhador, nada do corpo do primo ser encontrado. Todos já estavam perdendo a esperança quando um dia, Cláudio resolveu levantar mais cedo, como fizera o primo e foi pro mar sozinho, sem esperar pelo avô. Quanta imprudência. Pra que tanta pressa? Ele queria encontrar o primo, aquilo tinha virado uma obsessão.

E foi então, neste dia, quando ninguém mais acreditava que aquilo pudesse acontecer, que aconteceu. O menino que passara a vida inteira procurando pelo primo, que era um exímio nadador, não voltou. Sumiu também no mar, desapareceu pra sempre. E, daquele dia em diante, durante muito tempo ainda, toda vez que alguém passava pela praia de Copacabana, podia ver a triste figura do avô, encostado naquele pedaço de madeira fincada na areia, segurando a corda da velha boia preta de pneu de automóvel, observando o mar. Assobiando baixinho a mesma velha e triste musica irlandesa que durante décadas ele cantara tantas vezes para os meninos. Procurando pelos dois netos que ele perdera pra sempre e sabia nunca mais ia ver.

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7 comentários em “O Menino que Adorava o Mar (João Renha)

  1. Joao Renha
    24 de novembro de 2015

    Obrigado, Patrícia. Muito obrigado.

  2. Patricia Young
    23 de novembro de 2015

    Gostei muito. Bela história. Parabéns!

  3. Joao Renha
    22 de novembro de 2015

    Anorkinda. Obrigado pela crítica e pelos elogios. Registrei tudo.

  4. Anorkinda Neide
    19 de novembro de 2015

    Olá! Esta história é bonita e emocionante. Tem uns probleminhas de gramática, mas são poucos e as frases são, algumas vezes, construídas de maneira simplória. O enredo é tao emocionante, merece um cuidado ainda maior, embora perceba-se que empregaste um bom empenho nele. A repetição proposital da frase da boia preta, tem o impacto de emocionar, mas está um pouquinho longa e reaparecem muito perto, uma repetição da outra. Eu sugeriria separar os parágrafos em parágrafos menores e colocar mais texto entre estas repetições que falei… aumentar a narração da vida adulta de Claudio, talvez.
    Enfim, dando pitacos pq gostei muito do texto e queria vê-lo ainda mais bonito. Parabéns pelo trabalho aqui.

  5. Joao Renha
    11 de novembro de 2015

    Esta historia é baseada em fatos reais. O personagem do avô, que era da Marinha Mercante, veio mesmo da Inglaterra. Era descendente de escoceses e um exímio nadador. Mas isso não foi o suficiente. Um dos sobrinhos, que ele havia ensinado a nadar, morreu afogado mesmo. O outro sobrinho não existia na historia. Oficiais da Marinha passaram dias procurando pelo corpo do menino e não encontraram nada. Voltaram tempos depois e não encontraram nada de novo. O corpo do menino nunca apareceu. Deve estar ainda hoje no fundo do mar. Mergulhadores costumam realizar este tipo de operação em duplas, mergulhos solos são muito arriscados mesmo para profissionais experientes. Quanto ao calçadão de Copacabana foi construído em 1906. Essa historia se passa no inicio dos anos 1900, como está registrado.

  6. Fabio Baptista
    9 de novembro de 2015

    Olá, João.

    É uma história trágica, porém bonita a seu modo. O narrador tem uma certa inocência, que não sei se foi proposital, mas que me agradou em algumas partes.

    Entretanto, a parte técnica do texto precisa de uma boa lapidada (destaquei alguns pontos abaixo). Alguns pontos da trama também pecaram quanto a verossimilhança.

    – á praia
    >>> à (crase)

    – preso áquela boia preta
    >>> àquela (crase)

    – repetição de palavras
    >>> Veja quantas vezes a palavra “mar” é repetida no primeiro parágrafo. Esse tipo de repetição pode cansar alguns leitores e dar coceira compulsiva em outros com um grau mais acentuado de TOC (eu fico cansado e com um pouco de coceira :D).

    – voltava caminhando pelo calçadão
    >>> Você usou alguns detalhes históricos, descrevendo a região à época. Fico pensando se já havia o tal calçadão nesse contexto.

    – encontra-lo
    >>> encontrá-lo

    – historias
    >>> histórias

    – silencio
    >>> silêncio

    – O avô amava o mar
    >>> além da repetição de palavras, já comentada, essa afirmação se repetiu demais.

    – buscar o corpo do primo
    >>> tenho impressão que um mergulhador saberia que é mais fácil ganhar duas vezes seguidas na megasena do que encontrar vestígios desse corpo. Poderia ter contado a história de um naufrágio, por exemplo.

    – sem esperar pelo avô. Quanta imprudência
    >>> Por que imprudência? O cara não era mergulhador profissional?

    Espero ter contribuído.

    Abraço!

    • Joao Renha
      9 de novembro de 2015

      Obrigado. Toda crítica é sempre bem vinda. Elas nos ajudam a crescer. Ruim é ser ignorado. .

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Publicado às 8 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .