O homem vestia uma camiseta branca, com o escudo do Atlético já desbotado no lado esquerdo. Embaixo, lia-se seu nome: “Professor Pernambuco”. Era um sujeito calvo, de uns quarenta anos. Usava a barba farta, como que para compensar a falta de cabelo.
— Meia-esquerda? Alguém?
Oito meninos se apresentaram. O homem, um tanto sem paciência, começou a anotar os nomes em sua prancheta. Ele era canhoto isso parecia tornar a tarefa mais difícil.
— Você? – perguntou ao menino magricela.
— Pedro Lucas – respondeu o garoto. Ele usava meiões listrados de preto e branco e calçava um par de kichutes com os cadarços atados às canelas.
— Idade?
— Treze.
— Treze?
— Sim, treze.
O Professor Pernambuco examinou-o, desconfiado.
— Em que ano você nasceu?
— Nasci em 1970 – respondeu o menino, sem pestanejar.
O homem mirou-o por mais um instante, mordendo a tampa da caneta. Depois resmungou e anotou alguma coisa.
— E esse outro? – perguntou sem levantar os olhos.
— É meu irmão. O nome de ele é Betinho.
— Vai jogar também?
— Não. Ele tem só dez anos. Veio só assistir. Tem asma.
— Muito bem. Então você aguarde ser chamado.
Pedro respirou aliviado. Normalmente, os meninos que tentavam a sorte nas categorias de base precisavam ter entre doze e quatorze anos. Prestes a completar dezesseis, seria dispensado de plano se revelasse sua idade real. Por sorte era do tipo franzino. De todo modo, se fosse aprovado teria que contar a verdade, mas esperava jogar bem a ponto de relevarem a mentira. Acreditava nisso: no final daquele dia, o Professor Pernambuco chegaria até ele dizendo “guri, você é bom, muito bom!”, assim, com uma grande exclamação.
Olhou para o irmão ao lado. Betinho era introvertido, mas estava ansioso. Sentado, apoiava as pernas trêmulas no degrau de baixo da arquibancada, como se estivessem levando uma pequena descarga elétrica.
Os garotos que se candidatavam seriam chamados aos poucos. Formariam um time completo. Jogariam contra os juvenis do Atlético, sob o olhar atento do Professor Pernambuco. Os aprovados, se houvesse algum, seriam informados no final do dia.
— Calma, Betinho – sussurrou Pedro. – Vai dar tudo certo.
***
Estela fez sinal para o ônibus. Mesmo com tanta gente no ponto, não dava para confiar. A mão permaneceu esticada até que o veículo parasse. Seria um alívio sair dali. Estava se sentindo incomodada com os olhares de dois sujeitos. Não gostava daquele ponto por conta dos bares que havia ao redor. Normalmente tomaria a condução de outra parada, de onde partiam os ônibus para o Batel, onde ficavam os apartamentos em que trabalhava como diarista.
Naquela manhã, porém, tinha destino diverso. Precisava matricular os filhos na escola. Por sorte o ônibus não demorou. Estela subiu pela porta dianteira e passou pela roleta, entregando o dinheiro ao cobrador sem olhar para ele. Naturalmente, sentar-se era impossível, mas a sorte lhe sorriu ao providenciar um espaço minúsculo entre duas mulheres. Agarrou a bolsa junto ao peito e pediu-lhes licença, segurando a barra de ferro no alto. O veículo rugiu preguiçoso e começou a se mover com lentidão enquanto um leve odor de combustível se espalhava entre os passageiros.
Esperava que no dia seguinte fosse melhor. Tinha uma entrevista de emprego marcada numa empresa de alimentos na Cidade Industrial. Prometiam carteira assinada e tudo mais. Podia ter essa sorte, por que não? Terminar o fim de semana com os filhos matriculados em um colégio decente e com um emprego de verdade. Seria maravilhoso.
Esticou o braço e deslizou o vidro com a ponta dos dedos para que o vento entrasse. Estava um tanto frio àquela hora, mas era melhor do que o cheiro pungente que vinha de alguém próximo.
***
Para evitar a falta de entrosamento, alguns juvenis atuavam no time dos meninos candidatos. Era para dar ritmo de jogo, avisara o treinador. Quem entrava em campo fazia logo o sinal da cruz ou apontava o dedo indicador para o alto, não que pedisse intervenção divina, necessariamente, mas para imitar os jogadores famosos que apareciam na TV.
Pedro percebia a afobação de quem era novato em peneiras. A ansiedade era difícil de controlar. Não era raro deixar a bola escapar ou fazer um passe ridiculamente errado. Alguns meninos caíam na armadilha do individualismo exagerado, acreditando que isso poderia impressionar o Professor. Bancar o fominha, porém, era suicídio. “Futebol é esporte coletivo. Ninguém resolve nada sozinho”, alguém dissera certa vez.
Pedro sabia disso. O fato de ter sido dispensado mais de uma vez lhe fazia seguro agora. Confiava em sua habilidade, em sua visão de jogo. Quando recebesse a bola saberia o que fazer.
— Olha lá! – disse Betinho, interrompendo sua concentração.
Pedro olhou para o campo. Um garoto havia passado por três marcadores em velocidade e acabou acertando um belo chute. O goleiro do juvenil defendeu bem a bola, mas todo mundo que estava assistindo percebeu que aquela jogada tinha significado a aprovação do menino.
Mesmo de longe, Pedro examinou-o. Queria ver como ele se comportava no campo. Lembrou-se de tê-lo visto sentado ali próximo, pouco antes. Ao contrário dos outros, não parecia ser alguém da periferia. Podia estar jogando num clube para meninos ricos e não ali, roubando a vaga de alguém.
Por que a vida era assim injusta? Tanta gente obrigada a trabalhar feito escravo para conseguir comer duas vezes ao dia enquanto outros viviam tranquilamente, com conforto e dinheiro sobrando. Lembrou-se do pai, preso a uma cadeira de rodas. Tinha trabalhado anos e anos como auxiliar de serviços gerais, fosse lá o que isso significasse, até ter as pernas esmagadas por uma viga de aço. Inválido, recebia uma aposentadoria ridícula do governo. E a mãe, então? Coitada… Era quem sustentava a casa no final das contas, atravessando Curitiba de cima a baixo para trabalhar como faxineira.
Ah, mas ele iria mudar isso tudo. Ah, se ia. Concordava com a mãe que o estudo era importante para se vencer na vida, mas há tempos se convencera de que pelas vias normais demoraria uma eternidade para ser alguém. O atalho para um futuro melhor estava ali, na sua frente. Seria aprovado naquela bendita peneira, entraria no time juvenil do Atlético e tiraria sua família da lama. Estava cansado de ver a mãe exausta, reclamando dos ônibus apinhados e ainda fazendo o jantar. Tampouco queria ver o pai largado à própria sorte, sentindo-se um inútil. Tinha medo que o velho sucumbisse, que fizesse alguma besteira ou que começasse a beber. Se todo desse certo, teria o pai como empresário.
A hora era agora. Tinha consciência do que queria. Seria como Zico, um Zico negro, pois habilidade não lhe faltava. Sim, a vida seria boa.
***
Estela chegou ao Grupo Escolar Tiradentes com vinte minutos de atraso, por conta do ônibus quebrado. Àquela hora, a quantidade de pessoas já dobrava a esquina. Sem opção, marchou para o fim da fila amaldiçoando a falta de sorte.
A maioria dos que ali estavam eram mulheres. Mães, como ela, em busca de estudo para os filhos. Estela já havia comparecido a três escolas, sem sucesso. O Tiradentes parecia ser a última chance para que seus meninos não perdessem o ano letivo.
Levou mais de uma hora até que a fila começasse a andar, embora lentamente. Alguns ambulantes vendiam água ou bebidas quentes. O odor de café era o único alento que podia esperar. Observava curiosa as demais pessoas. Havia uma mulher grávida, provavelmente com mais de trinta semanas, abanando-se com uma revista e com o olhar perdido. Outra trazia a reboque três meninos que não paravam quietos. Outra, de expressão serena, tricotava, alheia ao mundo.
Não demorou até que alguém chegasse por ali, oferecendo lugares na frente da fila.
— Oitenta mil cruzeiros! – dizia o sujeito, um rapaz com óculos escuros, bigode ralo e camisa aberta apesar do frio. – Quem pagar garante a vaga!
Sem condições. Era muito dinheiro. Estela preferiu esperar mesmo com os pés inchados.
***
— Pedro Lucas!
Só então percebeu que a voz do Professor Pernambuco era um tanto anasalada.
Saltou da arquibancada, olhando o irmão de soslaio. Betinho tinha os braços cruzados e os lábios presos. Viu quando lhe fez um sinal de positivo. Retribuiu com um sorriso.
— Aqui! – disse o treinador. – Pegue o colete azul.
— Azul? Mas é do juvenil…
— Sim, qual o problema?
Pedro encolheu os ombros. Por essa, não esperava. Vestiu o colete e deu três pulinhos com o pé direito antes de entrar no campo. A hora havia chegado. Não haveria muitas chances. Dez ou quinze minutos antes que fosse substituído.
***
Era pouco mais de duas horas da tarde quando Estela foi convidada a entrar. A atendente exibia uma expressão entediada. Era uma garota magricela que usava fivelas coloridas no cabelo.
— Para que ano é? – perguntou, ajeitando-se na carteira que ocupava.
— Um é para a terceira série. O outro, para a oitava. O mais novo nunca reprovou, mas o mais ve…
— Tem vaga para a oitava, mas a terceira já encerrou.
— Como encerrou? Eu cheguei cedo, peguei senha…
— Não poso fazer nada, senhora. Encerrou. Vai querer matricular o da oitava?
Estela precisou se controlar. Podia jurar que aquela garota estava mentindo. Pior, até. Que sentia prazer em dar a má notícia.
— Vai querer ou não vai? — insistiu a garota, as fivelinhas refletindo o sol que se esgueirava pelas persianas entreabertas.
— Sim, vou querer – respondeu Estela, refreando a vontade de esganar a atendente.
— Qual o nome?
— Pedro. Pedro Lucas de Oliveira.
— Endereço?
O que fazer agora? Onde o Betinho iria estudar, meu Deus? Mesmo que arranjasse um lugar, o menino teria que ir de ônibus, ou a pé… Mas, sozinho? E a asma?
***
As jogadas passavam longe da posição de Pedro. O time dos juvenis, já entrosado, o excluía naturalmente, procurando a armação com o meia-direita, um garoto de cabelos compridos a quem chamavam de Capilé.
Sem muita opção, Pedro deslocou-se até o meio-de-campo, procurando jogo. Uma dividida fez a bola espirrar, rolando em sua direção. Um menino pequeno do time adversário – um candidato da peneira, como ele – tentou interceptá-la, mas Pedro chegou primeiro e conseguiu o drible. Avançou três ou quatro passos e ouviu o grito de alguém pedindo a bola na ponta esquerda. Numa situação normal, faria o lançamento, mas agora precisava mostrar serviço.
Driblou outro menino com um corte seco pela esquerda, e depois mais um, pela direita. Deu um pique pela linha lateral, alheio aos gritos para que passasse a bola. Uma parada brusca, de calcanhar, isolou dois defensores, limpando sua visão para o gol. Em seu íntimo, sabia que a jogada fora boa. Boa não, excelente. O Professor Pernambuco devia ter visto. Não podia errar agora: tinha que escolher entre chutar para o gol ou deixar alguém em condições de marcar. Viu o menino da ponta esquerda acenando e meteu a bola na direção dele. O passe, porém, foi ruim e a bola se perdeu na lateral.
— Por que não soltou a bola antes? – alguém reclamou.
Outros também ralharam, mas um dos meninos disse “boa bola”.
Logo foi chamado para sair, entregando o colete a outro garoto. Enquanto se dirigia à arquibancada, ouviu o professor dizer “fominha”.
Sentou-se ao lado do irmão.
— E então?
Betinho tossiu e disse:
— Acho que foi bom.
***
— Não tem mesmo vaga para a terceira?
A garota das fivelas ergueu os olhos do papel com a mesma expressão abatida. Devia ter dormido pouco aquela noite.
— Senhora, eu já falei…
Foi interrompida por alguém ao lado. Era uma mulher que usava um lenço colorido na cabeça. Conversaram por alguns instantes entre sussurros até que a garota se voltou novamente para Estela.
— Vai abrir uma turma extra de terceira série.
— Ótimo, é só pôr o nome do meu filho. É Roberto…
— Calma… É só amanhã. A senhora terá que voltar aqui para confirmar. A triagem começa à uma da tarde.
— Como voltar amanhã? Isso é ridículo! Que diferença faz? Por que não dá para anotar o nome dele agora?
A garota das fivelas coçou a orelha e respondeu:
— Não posso fazer nada, só obedeço ordens. É só amanhã. E é bom chegar cedo.
Malditos funcionários que não se esforçam para ajudar. Estela queria fazer a garota comer aquelas fivelas horrorosas, mas não podia. Dependia dela.
— Por favor, me ajuda… Amanhã eu tenho uma entrevista de emprego…
A atendente manteve-se inerte. Olhava-a como quem estuda um espécime curioso. Era inútil argumentar com ela.
— Deixa eu falar com a sua supervisora.
— Não temos supervisora… A senhora está atrasando a fila…
— Não quero saber. Chame aquela mulher — disse Estela apontando para a mulher com o lenço colorido na cabeça.
— Ela não é minha supervisora.
Estela sentiu o sangue ferver.
— Eu quero falar com ela, agora!
A mulher de lenço veio até elas. Tinha uma expressão afável. Era mais velha que a garota das fivelas e transmitia confiança. Estela explicou-lhe sua situação e pediu, pelo amor de Deus, que a compreendesse.
— Também acho essa regra estúpida — disse ela. — Mas recebemos essas orientações e não há nada que possamos fazer. Não posso me comprometer… Por favor, tente entender.
— Por favor, me ajude…
A mulher do lenço arqueou as sobrancelhas e exalou o ar dos pulmões.
— Como é o nome dele?
— Roberto. Roberto Lucas de Oliveira.
— Selma, pode anotar?
A garota das fivelas pareceu contrariada, mas obedeceu.
— Tem a Certidão dele, senhora…
— Estela. Meu nome é Estela. Sim, eu tenho, está aqui…
— E também o histórico escolar do último colégio em que ele estudou.
— Sim, sim, eu sei… Tenho tudo aqui…
Em pé, Estela abriu a pasta e folheou os documentos. Um a um, primeiro com pressa e depois devagar. Porém, só havia certidões e históricos de Pedro Lucas. Nada de Betinho. Nada. Estela sentiu o rosto afoguear e uma pontada no estômago. Aquilo não podia estar acontecendo. Num átimo, imaginou que a garota das fivelas tivesse surrupiado os documentos de Betinho, mas isso, claro, era impossível. Folha a folha, ela examinou os papéis, mas nada havia do filho caçula. Foi quando se lembrou: deixara a documentação dele sobre a pia da cozinha.
— Desculpe, eu…
A mulher com lenço na cabeça tinha o olhar inquisitivo enquanto a garota das fivelas cruzava os braços.
— Eu… Acho que deixei em casa…
— Eu sinto muito — disse a mulher. — Mas precisamos dessa documentação.
— Eu sei… Eu sei…
Estela sentiu vontade de chorar. Como pôde esquecer os papéis?
— Só precisa dos documentos, não é? — disse, enfim, recuperando-se.
— Isso. Com a papelada completa a gente pode confirmar a matrícula.
Estela agradeceu. Daria um jeito. Era especialista nisso.
***
— Quem eu chamar agora é o pessoal aprovado. Podem vir para o lado de cá.
Os escolhidos. Os que passaram na peneira.
— Rogério Lima… Paulo Miranda… Antonio César… Luiz Felipe…
“Por favor, diga meu nome… Diga.”
— Carlos Henrique… Gerson Luiz…
“… Será que fomeei tanto assim?”
— Ivan Mendonça, Fernando Leal… e…
“Pedro Lucas. Pedro Lucas…”
— Miguel Silveira.
Pedro sentiu um gosto azedo na boca. O sabor da derrota.
— Aos demais, agradeço a presença. Boa sorte na próxima vez.
“Não haverá próxima, você não entende…”
— Vamos – disse ao irmão. – Vai demorar até chegar em casa.
Descia o alambrado quando ouviu:
— Você! Treze anos!
Voltou-se viu o Professor Pernambuco apontando a caneta em sua direção.
— Você também.
Pedro não acreditou. “Eu?”, apontou para o próprio peito.
— É, você. Apesar de ser fominha.
Pedro riu, um tanto sem graça.
— Todo mundo aqui amanhã, às duas da tarde. Vamos fazer um treino complementar para ver quem fica de verdade.
***
Estela caminhava a passos lentos na esperança de que alguma ideia surgisse. Não podia perder a entrevista de emprego no dia seguinte, mas ao mesmo tempo não tinha como deixar de levar os documentos de confirmação da matrícula.
Ponderou se não seria melhor deixar Betinho em casa, afinal. Um ano só não faria tanta diferença na escola… Muitas crianças reprovavam e ninguém morria por isso. Sim, poderia ficar cuidando do pai, buscar a marmita lá no Genaro… Ajudaria dessa forma. No ano seguinte retomaria as aulas sem problemas. Teria que compensar o atraso, mas nisso daria um jeito. Pronto, estava decidido, por mais que fosse difícil. O que não dava era para ela perder o a chance de emprego.
Ao pensar nisso, imaginava-se como uma pessoa de verdade, com direito a décimo-terceiro e hora extra. Quem sabe até férias. Não precisaria mais aguentar a rotina estafante de faxina todos os dias, as manias de suas patroas e de seus filhos mal educados. Sim, viraria gente, uma mulher com direitos! Cuidaria melhor do Tião, se possível comprando uma cadeira de rodas decente. Talvez até pudessem consultar um médico particular, sem depender do INPS.
***
Pedro não queria contar aos pais sobre o resultado da peneira. Na verdade, não queria contar a ninguém. Tinha consigo que dava azar. Sempre que desejava alguma coisa, mantinha segredo. Pediu a Betinho que fizesse o mesmo. Se perguntassem, teriam passado o dia jogando bola no campinho. Nada de professor Pernambuco ou Atlético. Revelaria o segredo no dia seguinte, quando retornassem do teste decisivo. Sim, porque seria aprovado e dessa maneira haveria o que comemorar.
Ao chegar em casa, viu o pai sentado em frente à TV. Enquanto lavava as mãos no tanque, viu o irmão correr e dar um abraço no homem para depois sumir para o quarto.
Pedro observou o pai por alguns momentos. Era como se fizesse parte do cenário: a cadeira de rodas estacionada ao lado do sofá de dois lugares. O homem curvado em frente ao aparelho de TV, como se quisesse escutar melhor o que diziam. A manta xadrez sobre as pernas finas e sem força, o olhar perdido para muito além das imagens que se sucediam em branco e preto.
Como seria passar o resto da vida sem andar? Depender dos outros para tudo? E como o pai podia continuar sorrindo apesar dessa condenação? Pedro se compadecia por ele. Tinha pena dele. Um homem derrotado aos trinta e poucos anos.
— Fui na peneira do Atlético hoje, pai — disse baixinho enquanto lhe surpreendia com um beijo no rosto áspero. Às favas com o segredo.
— É mesmo? — o rosto do homem se iluminou. — Como foi?
Nisso, Betinho surgiu do quaro, carregando alguns gibis. Gostava de ler, como gostava! Sentou-se em silêncio ao lado do pai.
— Eu fui chamado… — prosseguiu Pedro.
— Foi chamado? Filho, isso é incrível! Você…
— Calma, pai. Vai ter um jogo amanhã. É quando a gente vai saber quem fica mesmo.
— Ah, mas você vai entrar! Claro que vai! Ô, Estela?… Sua mãe já chegou, meu filho?
— Não, pai… — sussurrou Pedro com uma nota de censura na voz. — Não dá para falar para a mãe. Ela nem gosta de futebol… Não ia entender direito o que está acontecendo…
O pai o examinou em silêncio, parecendo compreender.
— É uma coisa nossa — pediu o menino. — Eu, o Betinho e você. Só nós.
Betinho ergueu os olhos da revista, como quem espera uma resposta.
— Entendi. Só nós, os homens — sussurrou o pai, afagando a cabeça dos meninos com as mãos ossudas. — Podem deixar.
***
Estela entrou em casa sem fazer ruído. Viu que os meninos conversavam com o pai. Contemplou a cena de longe como quem admira um quadro. Pedro estava suado. Devia ter passado o dia jogando futebol. Ah, como esse moleque gostava de futebol! Betinho devia ter ido junto, como sempre. Adorava o irmão. Queria ser como ele, fazer tudo igual. Tudo igual…
Sentiu um nó na garganta. Não podia fazer aquilo… Não podia separá-los… Deixar um em casa, sem estudar, enquanto o outro estaria lá… Não.. Não seria justo.
Mas o emprego… “Deus, preciso de uma luz, eu…”
Súbito, soube o que fazer. Claro, tão simples…
A empolgação foi tanta que mal se conteve. Como não pensou nisso antes?
***
— Como assim, mãe? Não entendi.
— Pedro, já falei. Presta atenção. Eu não posso ir lá na escola para confirmar a matrícula do seu irmão. Seu pai também não… Você vai ter que fazer isso para mim. Para nós, na verdade…
— Mas eu…
— Filho, eu já disse. Não posso perder a chance desse emprego. Isso não acontece toda hora. É a minha chance! Ou você quer que sua mãe trabalhe de diarista o resto da vida?
Não, claro que não, pensou o menino. Mas ela não entendia… Ele precisava ir ao jogo decisivo. Se desse certo, aí sim, ela nunca mais trabalharia de diarista, nem empregada, nem nada. Olhou para o pai, em busca de ajuda. O homem fez um sinal com a mão, como quem diz “calma” ou “espere” ou “confie em mim.”
— Você vai até lá, leva esses documentos e pronto. Se não fizer isso, adeus escola para o Betinho. Sabe onde fica, né?
— Sim, mãe…
— Então, pronto.
Pedro segurou a respiração por um momento. De esguelha, percebeu que Betinho assistia à novela. Abandonara os gibis.
— Mas, mãe…
— O que foi, Pedro Lucas?
— Você não entende, mãe… Tem um jogo que eu…
— Jogo? Futebol? Meu filho, acho que quem não entende é você… Futebol pode esperar, escola, não.
Pedro detestava aquele tom de lição de moral que a mãe costumava usar para fazê-lo se sentir um idiota.
— Mas, mãe…
— Presta atenção: você vai fazer isso porque eu estou pedindo, entendeu? Porque seu irmão precisa. Se perdermos a matrícula, ele vai ficar sem estudar o ano inteiro. Consegue perceber isso? O ano inteiro sem ir para a escola! Não dá, Pedro! Sinto muito pelo seu jogo, mas a escola é muito mais importante. Não dá para comparar. Você entende isso, né?
— Eu…
— Sim, ele entende, Estela. Pode ficar tranquila que ele vai fazer a matrícula.
Pedro olhou novamente para o pai. Viu que o homem lhe deu uma piscada discreta.
— Eu vou junto! — disse Betinho.
— Aleluia! — disse a mãe. — Aqui, o dinheiro do ônibus. Não vá perder!
O menino guardou as notas com um gesto mecânico, enquanto a mãe se afastava.
— Preciso de um banho — disse ela.
Um segundo se passou e então Pedro voltou-se para o pai. Viu que ele remexia os bolsos.
— Pegue esse dinheirinho a mais aqui. Vá até a escola, faça a matrícula do seu irmão e depois vá para a peneira. Vão de táxi que dá tempo.
Pedro olhou o dinheiro, incrédulo. Sim, de táxi dava tempo. Tinha que dar!
— Vai dar tudo certo — disse o pai.
— Eu vou junto! — repetiu Betinho. — Para dar sorte!
***
No dia seguinte, estavam próximos a uma padaria os dois meninos. Ambos tinham trouxas às costas como mochilas. Pedro olhou o relógio de um homem que ia passando. Uma e quinze. “Vai dar certo, vai dar tudo certo.” Ao seu lado, Betinho olhava o tráfego. Não havia muito movimento, até porque era domingo. O irmão tinha o rosto quadrado e a cabeça grande, talvez grande demais para um corpo tão mirrado. Coitado… Jamais conseguiria ser jogador de futebol. Passou as mãos na cabeça dele, imitando o jeito do pai. “Não precisa se preocupar”, pensou. “Eu vou conseguir cuidar da gente. De todo mundo”.
Demorou até que avistassem algum táxi. Pedro sentiu o coração bater mais rápido e apostava que Betinho sentia o mesmo. A única vez em que tinham andado de táxi fora na ocasião em que o pai sofrera o acidente que o aleijou. Naquela ocasião não havia tempo a perder e a mãe os levou junto para o hospital.
O carro passou sem dar-lhes atenção. Claro, que motorista daria bola para dois moleques como eles? Aguardou até que outro táxi aparecesse e tirou o dinheiro do bolso, agitando as notas no ar repetidamente. Por sorte, o motorista os veria e então pararia o carro.
— Dá o barão aí, moleque.
Pedro virou-se para trás com um susto. Eram dois meninos grandes, talvez dezesseis ou dezessete anos, que não usavam camisas. Depois olhou para o dinheiro preso entre os dedos. Todo o dinheiro que os pais lhe deram. Pensou em guardar tudo bem rápido, em fugir, mas Betinho jamais conseguiria acompanhá-lo.
— Tu é surdo? Dá o barão aí, já falei!
O tapa veio rápido. Pedro sentiu o rosto em fogo, uma mistura de dor e vergonha. Havia outras pessoas passando por perto, mas ninguém fez nada para ajudar. Um dos meninos, que parecia uma vassoura de tão magro, arrancou-lhe o dinheiro sem cerimônias..
— A gente tem que ir para a escola! — reclamou Betinho.
— Vai caminhando, piá! — disse o garoto, já longe, os risos desaparecendo calçada a cima.
O dinheiro se fora, não havia mais um mísero centavo. Pedro e Betinho ainda precisavam ir até a escola para confirmar a matrícula do mais novo. E, mais importante, precisavam ir à peneira do Atlético.
— Não vai dar… — disse a si mesmo, passando a mão no rosto ainda quente.
— Não vai dar o quê, Pedro?
— A gente, Betinho… Não dá para ir até a escola… Até a peneira…
— Mas por que a gente não vai a pé que nem ele falou?
— A pé? Você tá louco? Sabe como é longe?
— Ah, mas se a gente for rápido, correndo…
Pedro examinou o irmão mais uma vez. Os pés encaixados num chinelo velho, gasto, menor do que o ideal. Os dedos encardidos, as canelas finas manchadas e o joelho direito com um machucado ainda por sarar. Sem falar da asma.
— Não dá tempo, Betinho — disse, sério.
— Dá sim! A gente corre bastante!
Que outra chance tinham? Podiam pedir dinheiro para alguém na rua, mas quem daria algum tostão para dois garotos mal vestidos? O mais provável era que as pessoas fugissem, atravessassem a rua ou até chamassem a polícia.
Mas, se caminhassem depressa haveria alguma esperança. A escola não era tão longe assim do estádio. Só precisavam torcer para que Betinho aguentasse.
— Tá certo… Vamos lá.
***
Estela chegou cedo para a entrevista. Por sorte, desta vez o ônibus não quebrou. Por ser domingo, tampouco estava lotado, o que favorecia a sensação de bem estar. Sim, daria tudo certo, como Tião costumava dizer. Ao pensar no marido, não teve como evitar uma centelha de agonia. Às vezes perguntava a si mesma se ele teria condições de suportar aquela vida. Mais do que isso, indagava a si mesma se ela o amava o suficiente para… Num átimo, refreava o pensamento, com vergonha de si mesma. Sim, seria na alegria e na tristeza. Até o último dia de sua vida.
Fora encaminhada para o departamento de recursos humanos, em cujo corredor de acesso dez pessoas já aguardavam. Eram mulheres, algumas jovens como ela mesma, mas também havia senhoras. Todas em busca de uma vaga de emprego com carteira assinada em uma empresa de grande porte. O bilhete premiado para uma vida digna. Ainda havia cadeiras vazias. Estela pediu licença para ninguém em especial e sentou-se em silêncio, cruzou os braços e recostou a cabeça na parede à retaguarda. À sua mente veio a imagem dos filhos. Perguntou a si mesma se tinha feito a coisa certa, se não teria exagerado ao conferir a Pedro Lucas uma tarefa de tamanha responsabilidade. “Ah, mas ele tem quinze anos, já…” escutou uma voz interior tentando acalmá-la. “Não é mais criança. Sabe o que precisa fazer…” Sim, precisava acreditar nisso, que o filho mais velho tinha responsabilidade, que era quase um homem e não um menino. “Sim, ele sabe… Ele sabe…”
— A senhora….
Uma voz profunda a fez voltar à realidade. À frente, a porta do RH se abrira e um homem grande vestindo uma camisa branca de onde pendia uma gravata mal atada se dirigia à primeira candidata da fila.
— Mas não é só às duas da tarde que come…. — ia perguntando a mulher, que usava uma saia listrada e um casaco grosso apesar do calor.
— Aqui os primeiros serão os primeiros — interrompeu o homem. Ele usava óculos de aros finos, o que lhe conferia um ar jovial e um entusiasmo que não eram comuns, especialmente para quem trabalhava num domingo.
***
Pedro imaginava que levariam duas horas para chegar ao Tiradentes, na Marechal Floriano. Se fossem atendidos rapidamente, em meia hora talvez, levariam mais uns quarenta minutos até o campo do Atlético. Chegariam atrasados, mas daria tempo. Sim, sim…. Vai dar certo, vai dar.
Andavam há algum tempo agora. Betinho seguia o irmão a passos firmes. Em um breve devaneio, Pedro lembrou-se dos meninos sem camisa. Como pôde ser tão burro, tão ingênuo? Ali, abanando o dinheiro como se fosse um leque… Por que teve que tirar tudo? Por que não deixou um tanto guardado em outro lugar?
— Pedro…
Voltou-se para o irmão. Betinho havia ficado para trás. Tinha a mão no peito e respirava com certa dificuldade.
— Será que dá para gente ir só um pouquinho mais devagar?
Pedro passou a mão na cabeça. Claro, essa asma maldita tinha que aparecer. Teve vontade de xingar o mundo, de atirar aqueles garotos sem camisa do alto de um penhasco.
— Vamos esperar três minutos aqui, parados — disse a Betinho. — Quem sabe você não melhora?
Tentava parecer confiante, mas sabia, no fundo, que dificilmente o irmão recuperaria o fôlego. Pensou no professor Pernambuco e em sua camisa com o escudo desbotado. Em pouco menos de uma hora ele chamaria os meninos para o teste derradeiro. Todo mundo estaria lá, até mesmo o menino rico. Não, não havia mais tempo a perder.
— Sobe aqui — disse ao irmão. — Aqui, nas minhas costas, que nem cavalinho.
— Não, Pedro, eu já tô quase bom.
— Sobe, Betinho, não dá mais para esperar.
Há quanto tempo não o levava daquele jeito? Uns dois anos? Betinho costumava ser bem mais leve, mas agora não havia escolha. Sentia as mãos do menino cruzadas abaixo de seu pescoço e as pernas encaixadas no vão dos braços. De relance, via os chinelos velhos balançando.
E se fossem direto para a peneira? Perderiam a matrícula no Tiradentes… A matrícula… Betinho não conseguiria estudar no ano seguinte. Ficaria sem aula, sem… Sim, mas ele, Pedro, estaria num time de verdade. Em breve chegaria ao juvenil e logo ao profissional. Mesmo que Betinho ficasse um ano sem estudar, ora… O que é um ano quando se compara com a vida inteira? E ele, Pedro, não cuidaria de toda a família?
Ajeitou o irmão. Mesmo naquela posição, podia sentir a respiração ofegante do menino. Pensou na mãe. O que ela diria? Ficaria decepcionada, claro. Mas o pai, ah, o pai viria em seu socorro. Ele diria “ô Estela, o Pedro vai ser melhor que o Aladim!” A mãe, ainda assim ficaria uma fera, mas no fim, dali a muitos anos, acabaria se convencendo de que Pedro fizera a melhor escolha.
Sentiu as próprias pernas trêmulas. Estava cansado, não podia negar. Via o rosto desapontado da mãe. Talvez ela chorasse. Dava o sangue para que ele e o irmão tivessem tudo na vida. Não tinha medo de nada, ela. Trabalhava de sol a sol, todos os dias da semana, enquanto o pai, coitado…
***
— Próxima!
Estela levantou-se e caminhou na direção da porta de ferro, esgueirando-se para dentro da saleta. Era um local apertado, sem janelas. As paredes brancas exibiam marcas de sujeira próximo ao rodapé, possivelmente graxa, o que era realçado pela lâmpada fluorescente que piscava no teto. Um ambiente um tanto desleixado para uma empresa com comerciais na hora da novela das oito.
— Com licença… — disse, com certa timidez involuntária.
— Pois não, pode se sentar — respondeu o homem, já acomodado atrás de uma mesa de fórmica.
Estela puxou a cadeira e se aprumou, medindo os próprios gestos. À frente o homem escrevia alguma coisa. Atrás dele, havia um quadro, uma foto aérea da empresa.
— Seu nome mesmo é…
— Estela. Estela Maria Silva de Oliveira.
— Estela Maria…. Nome de artista, não é?
Estela riu, sem graça. Reparou no homem, que parecia preencher uma ficha. Era um rapaz ainda. Não mais do que trinta anos. Usava uma aliança na mão esquerda. Sobre a mesa havia uma fotografia dele com uma mulher bonita e duas crianças.
— Se o senhor está dizendo…
— Tem referências, Estela?
— Trabalho como diarista, doutor. Tenho aqui os telefones das minhas patroas.
Entregou a ele um papel dobrado onde os números haviam sido escritos com capricho ao lado dos nomes. O homem analisou por um momento e fez uma anotação rápida.
— Nossa empresa é extremamente exigente quando se trata da aparência dos funcionários — disse ele, finalmente erguendo os olhos do papel.
Estela murmurou algo em assentimento.
— Neste mundo competitivo em que vivemos, a imagem conta muito e isso vale inclusive para os funcionários, entende?
Ele agora tinha os braços sobre a mesa, as mãos entrelaçadas e os polegares unidos. Seu olhar era profundo e atento. Estela sentiu-se intimidada, mas sabia que aquilo tudo fazia parte do processo de seleção.
— Estou dizendo isso — prosseguiu o sujeito, tirando os óculos e colocando-os sobre a mesa — porque acho que a senhora tem esse perfil.
Estela não pôde evitar um sorriso se formando no canto da boca.
— Que bom, doutor, eu…
— Acho que podemos nos entender muito bem, Estela Maria.
***
Um drible para a esquerda, seco, como o Falcão. Depois uma arrancada igual ao Roberto Dinamite e um chute para estufar a rede, mandando embora tudo o que é de ruim. Ah, seria incrível!
Quanto tempo haviam caminhado? Ruas e mais ruas entremeadas por calçadas esburacadas, pedras e poças d´água. De vez em quando algum engraçadinho fazia alguma piada ao vê-lo levando o irmão daquele jeito. Outros, que passavam em ônibus, faziam deles o alvo para copos ou papéis amassados. À sua retaguarda, o irmão vez que outra tossia.
Os braços estavam em frangalhos. Largou o irmão por um momento. Betinho tinha os olhos vermelhos.
— Desculpa, Pedrinho…
Percebeu o próprio choro brotando e o engoliu.
Por que tudo era tão longe, meu Deus? Já tinha se conformado. Jamais conseguiria ir à escola e à peneira.
— Sobe aqui — disse ao irmão.
Lembrou-se da vez que viu o goleiro Jairo dando uma entrevista na TV. Jairo, negro como ele, que havia se tornado uma lenda no Coritiba, que ajudara a família e os amigos. Que saíra da lama, que se tornara uma pessoa de respeito.
Engoliu as lágrimas e firmou o passo.
***
Era um homem bonito, sem dúvida. Os traços fortes, o olhar franco. O mais estranho foi que Estela se sentiu tentada a aceitar a proposta. Sim, era um acordo, podia-se dizer. Ambos tinham algo que o outro desejava. Mas era difícil acreditar naquilo. E mesmo que fosse possível… Não, não podia fazer aquilo com o Tião, com os meninos.
O rapaz havia se levantado enquanto ela permanecia sentada. Com passos lentos mas constantes, ele caminhou até a retaguarda dela, apoiando os dedos na parte alta da cadeira.
— Pense bem, Estela Maria. Não demora muito… Uns minutinhos só e você conquista sua vaga aqui na empresa.
Era um acinte, claro. Deveria sair dali imediatamente, vociferando contra aquele assédio desmedido, avisando as outras candidatas, quem sabe indo à polícia… Porém, num átimo imaginou-se cedendo à ideia. Sim, ele era bonito. E há quanto tempo ela não… Um perfume doce a inebriava. Talvez fosse o desodorante que ele usava. Ou a loção, não podia dizer.
— Você é uma mulher muito bonita… Sabe disso, não?
Estela sentia o coração acelerado. Percebeu quando ele pôs as mãos em seus ombros, a respiração levemente ofegante. Fechou os olhos e deixou-se levar por um instante, engolindo toda decência. Sim, seria bom, seria rápido e ninguém ficaria sabendo… E ainda por cima sairia dali com a vaga, com a carteira assinada. Com o futuro dos meninos mais garantido, podendo cuidar melhor do marido…
Sentiu um beijo no pescoço, o leve roçar da barba. Um calor se formava em seu peito, uma vontade que tornava tudo mais urgente, mais difícil de segurar. Mantinha-se imóvel, como se quisesse aproveitar algo que há muito não experimentava. Numa fração de segundo viu-se admitida na empresa. Aquele homem iria procurá-la outras vezes, isso era certo. Iria querer mais e mais, até enjoar. Poderia acabar com ela quando não a quisesse mais… Abriu os olhos e deparou com a fotografia do sujeito com a família. Imediatamente lembrou de Tião e dos meninos. Não… Não podia fazer aquilo… Nada justificava…. Lembrou-se das mulheres lá fora. Das velhas, principalmente. Que chance teriam elas ali naquela entrevista? E a quantas outras aquele homem faria ou já tinha feito esse tipo de proposta? Sentiu raiva dele, raiva de si mesma. Um gosto ferruginoso invadiu-lhe a boca. Foi quando se levantou.
O homem pareceu surpreso, mas Estela simplesmente caminhou até a porta sem dizer palavra.
Quando saiu para a rua trazia seu orgulho ferido. Ao menos continuaria a trabalhar com dignidade.
***
O portão já fechava quando Pedro virou a esquina. Com o irmão ainda às costas, fez sinal para que o guarda que girava a tranca o esperasse.
— O que é? — indagou o homem, um tipo gordo, com a barriga se esparramando sobre o cinto.
— Precisamos entrar, moço — disse Pedro.
— Você sabe que horas são?
Pedro balançou a cabeça. Não era justo. Não era justo. Tanto sacrifício para nada. Nada…
— Moço, por favor, deixa a gente entrar… Meu irmão aqui… Se a gente não conseguir fazer a matrícula, ele vai ficar o ano inteiro sem escola…
O guarda os analisou de cima a baixo. Talvez visse a si mesmo num passado remoto.
— Tá bem… — disse, girando a tranca. — Mas corre lá porque já passa das três.
— Por onde é? — perguntou Pedro.
— Só subir por ali. Fale com uma das moças lá em cima.
— Tá bem…
Pedro já caminhava na direção das escadas, Betinho ainda às costas, quando ouviu o guarda perguntar:
— Não é pesado ele, hein?
Pedro voltou-se para o homem e respondeu:
— Não é não. É meu irmão.
……………………………………….
Texto atualizado em 2 de novembro de 2021
☬ Treze anos – Final
☫ Arthur Coimbra
ஒ Físico: Devo admitir que o conto está pior nesse quesito. Na primeira parte, podíamos apreciar a leitura de uma forma mais completa. Agora, com a construção feia de algumas frases e a falta de algumas vírgulas, a leitura fica mais cansativa e medíocre. O autor precisa, de fato, melhorar seu estilo. Não se destaca.
ண Intelecto: A estória ficou bem superior nessa segunda parte. Parabéns! Antes, não era possível sentir o sofrimento da família. Agora, no entanto, é possível. Principalmente depois do assalto. Os personagens também melhoraram, apesar do autor se esquecer da mãe e dar foco apenas ao Pedro. Deveria continuar com a lógica anterior. O maior problema do texto é o final. Tão brusco, tão indigno, parece um balda de água fria. Broxante.
ஜ Alma: Foi possível identificar nessa segunda parte o cotidiano que havia mencionado antes. A luta dos pobres e miseráveis. Ficou tão aparente que chegou a doer. Muito bom! Mesmo assim, o conflito denotou uma quebra muito forte na rotina dos personagens. E escolhi seguir uma lógica até o final do desafio, para não ser injusto. O foco do conto deve ser a rotina, o dia a dia, o cotidiano; tudo isso em sua forma mais simples e pura. Apenas colocar os personagens na nossa realidade não basta para satisfazer essa interpretação do tema. Então, nesse caso, o conto ainda está no meio termo na questão do tema.
௰ Egocentrismo: Gostei mais da segunda parte do que da primeira. Achei a estória mais envolvente, verdadeira, etc. Mas o final foi broxante demais. O conto deveria terminar redondo, com todos os conflitos resolvidos.
Ω Final: O texto precisa passar por uma grande revisão e o autor carece de um estilo mais atraente. Mas é perceptível que ele escreve bem. Um pouco mais de prática e irá alcançar os céus! A estória ficou bem melhor nessa segunda parte, mas o autor se perdeu um pouco em relação à primeira parte. Talvez o tempo entre as partes tenha influenciado isso. No final das contas, o conto continua no meio termo quando se trata do tema do desafio.
௫ Nota: 6.
O conto continuou muto bem o que havia começado, na mesma linha e estilo. E ficou ainda mais interessante e realmente me prendeu a atenção, torcendo pelos protagonistas.
A história contada é bem realista e nos remete ao que acontece diante dos nossos olhos todos os dias. Realmente muito bom.
Acredito que as falas dos personagens poderiam ter sido escritas de forma a refletir suas condições, ficaram muito certinhas para eles.
Mas fico imaginando apenas como será a vida dessa família daqui para frente, e não sinto que será fácil.
Maravilhoso, o conto! Personagens cativantes, narrativa que prende. Sei quem é o autor, acredito que sim, um estilo que não dá pra confundir. Se alguém o imitou, fez com maestria, rs. Talvez, pela pressa, ficou faltando uma revisão para alguma coisa na pontuação, mas é só. Parabéns. E obrigada pela leitura! Agora fico aqui, com essa última cena do conto na mente, só imaginando o que vem depois. E isso é o melhor, é o que faz as personagens se tornarem mais próximas de nós, ultrapassando o texto. 😉
Pera, tem terceira parte e eu não sabia, produção? Poxa, eu estava completamente envolvida com o conto, mas não gostei da forma como ele terminou e confesso que admiro a ousadia do(a) autor(a) em encerrá-lo assim.
Foi feita uma escolha, Pedro foi fazer a matrícula do irmão na escola, mas e o jogo. Deu tempo? Como terminou a história?
Gostei do conto, mas infelizmente o fim ficou muito vago para mim…
Boa sorte!!
Continua comovente..haha. O conto ficou melhor, na minha opinião. O drama aumentou e achei os meninos excelentes personagens, fortes e diferentes. Só achei um pouco estranho a mãe na primeira parte, decidida a ver os filhos estudando a qualquer custo, deixar tudo nas mãos do filho na segunda parte. Sei que existiu a explicação que eles não podiam dispensar dinheiro, mas achei um pouco assim. Será que ela deixaria algo tão sério na mão do guri mesmo? Mas enfim, não atrapalhou a leitura. Muitos criticam os jogadores de futebol e o dinheiro enorme que ganham, mas ninguém lembra dos milhares de meninos que tem esse sonho e nadam nadam pra morrer na praia. O seu conto foi real e bacana. Valeu.
O TÍTULO aponta o que parecia ser o foco do principal de Pedro. Adoro ser surpreendida (2/2). TEMA datado é sempre mais difícil, conseguiu (2/2). FLUXO de construções simples e narrativa solta (1,5/2). TRAMA intensa e de grande carga emocional (2/2). FINAL corajoso, do tipo arrasa quarteirão. A frase famosa “Ele não é pesado, é meu irmão!” foi bem encaixada, só faltou dar os créditos à Bobby Scott e Russell Bob (1,5/2). Total 9
Nem tem muito o que comentar do texto. Leitura fácil, muito agradável. Dá pra notar que você já faz isso há muito tempo. Não vejo nada de negativo aqui, muito pelo contrário, o texto é excelente. É um forte candidato a ser o primeiro colocado.
Abraços e boa sorte!
Opa, acho que encontrei o texto do Gustavo! kkkkk
Seja como for, é mais um texto que eu não tinha lido na primeira etapa. E mais um conto muito bom dentro do certame. A narrativa direta, sem firulas (que às vezes sinto falta, de uma ou outra), se mantém em alto nível do começo ao fim. Teria usado uma vírgula na frase “Ele era canhoto…” logo no começo, depois faltou um “que” e um agudo num e, mais para o final (estava no celular e não anotei o ponto exato, desculpe), detalhes que não desabonam e não tiram nota do mérito narrativo.
Devo dizer que gostei demais da primeira parte, intercalando as cenas da mãe com a peneira, mas em determinado ponto alguns problemas começaram a se destacar. Primeiro a previsibilidade: estava meio na cara a sinuca de bico em que o garoto seria colocado. Depois, e acho que esse foi o ponto que mais me desagradou, foi que rolou quase um “Deus Ex” aí para que o garoto pudesse entrar na tal encruzilhada futebol/escola… deu pra ver a mão do autor pesando quando avisaram a mãe sobre a turma extra, quando a mãe arrumou um bico, quando o garoto foi chamado para a peneira decisiva, tudo no mesmo horário. E continuou com o assalto, que tirou a possibilidade de conseguir fazer os dois. Resumindo, muita coincidência pra uma peneira só!
Também fico na dúvida sobre a completa adequação ao tema, pois o cotidiano me pareceu mais forte para a mãe do que para os meninos. Mas costumo relevar bastante nesse aspecto.
O final (que lembra as cenas que costumamos ver no ENEM kkkk) é meio teatral, mas bem construído. E a resposta do garoto, que encerra o conto, muito boa.
Uma leitura bem agradável.
NOTA: 8
Olá, Zico.
Então, gostei do conto: muito emocionante e com um enredo muito bom. Dura essa realidade do menino e tocante o amor dele pelo irmão e o seu senso de responsabilidade de primogênito. O clímax da história pareceu-me, contudo, meio planejado por um conjunto de fatores convenientemente coincidentes: matrícula da nova turma no mesmo dia da peneira+bufê+segredo+perna quebrada+assalto+marquinho+asma, e o pai, afinal, poderia pedir um favor a um vizinho, parente ou amigo na questão da matrícula do Marquinhos, por exemplo.
A escrita tem uns poucos escorregões: umas vírgulas comidas em “Ele era canhoto isso parecia tornar a tarefa mais difícil”, “Naturalmente sentar-se era impossível…”, um antiquado trema em “agüentasse”. Seria também interessante encontrar algumas construções bacanas na narração, pois pareceu-me que o modo “simples” ficou ligado a maior parte do tempo. A frase final causou impacto.
Nota: 8,5!
EGUAS (Essência, Gosto, Unidade, Adequação, Solução)
E: Que texto! Sentimental e bem brasileiro. – 10,0.
G: Gostei muito de todo o tom que percorre tanto o início quanto o fim, passando pelo desenvolvimento e as dificuldades da família. Consegue transbordar sentimento como ninguém, e tudo isso atrelado ao “simples” cotidiano! – 10,0.
U: Escrita simples, sem grandes floreios, mas certeira no uso do palavreado local. – 10,0.
A: Transmite sensações e nostalgia na medida certa. – 10,0.
S: Continua no mesmo tom, sem alterações. Parabéns! Me senti vendo um filme ao estilo “Filhos de Francisco”. O final em aberto, e com a piadinha sutil, fechou com chave de ouro. – 10,0.
Nota Final: 10,0.
Irmão, estou aplaudindo o teu conto de pé.
Foi um dos poucos que buscou retratar “aquele” cotidiano – sim, aquele cotidiano dos campos de terra de uma periferia saturada de miséria, de contrastes, de progresso obsoleto. Obrigado, irmão, mesmo, pois através desse conto escrito com esmero rememorei a ansiedade das peneiras dos campos da várzea e a disposição para estourar a boa. Obrigado por nos fazer lembrar que o cotidiano, em suas arestas mais distópicas, não só se solidifica apenas em amores frustrados ou na complexidade das relações bigâmicas: o cotidiano é, também, as quebradas da zona leste, da zona norte, da zona sul…
O cotidiano de quem tem a pobreza para querer enriquecer, de quem têm olhos para nunca ver, nunca dizer, nunca, olhos e peito abertos para encarar a vida e despistar a morte.
Parabéns.
Não entendo nada de futebol, mas reconheci o nome do jogador Zico no pseudônimo.
A primeira parte do conto aborda a luta da mãe para conseguir vaga na escola para os filhos e o sonho de Pedro de ser jogador de futebol. Já a segunda parte passa a focar na relação dos dois irmãos e na escolha feita por Pedro.
É triste e comovente perceber que o menino não conseguirá participar da peneira e terá de desistir do seu sonho. Por causa da frase final e da renúncia de Pedro, fiquei com a música ‘He Ain’t Heavy, He’s My Brother na cabeça.
O ritmo da narrativa é bom, agilizado pelos diálogos. Apesar de não ter um final feliz, o conto comove pela abordagem singela e emocional. O único alívio para o leitor é saber que talvez a peneira não desse certo mesmo, por causa da idade de Pedro. Logo alguém descobriria que era mais velho e ele seria posto de lado.Ou não.
Não percebi erros na revisão. A linguagem empregada é simples e limpa.
Apesar de não ser atraída pelo universo futebolístico, o conto agradou-me ao retratar uma realidade dura, mas com toques suaves da relação dos irmãos. Alguns podem considerar piegas, outros vão chorar com o final. Eu fiquei no meio do caminho.
Boa sorte! 🙂
ahh pára, pra que fazer a gente chorar, hein?! rsrsrs
Que lindeza!
O final é aquela frase do indiozinho carregando o irmão… mas vale por isso mesmo.. traz todo o amor dos irmãos.
.
História muito bem amarrada, eficientemente narrada. Parabéns.
Abraço
Olá, Arthur Coimbra!
Cara, fazer um barbudo chorar com este desfecho do conto é covardia! Imaginei a cena toda como se fosse o cotidiano de milhões de brasileiros que, mesmo diante das dificuldades, nunca abandonam os sonhos de dias melhores para suas famílias! Parabéns pela trama!
Só não gostei do fato de o conto surpreender apenas apenas no momento em que despejam o dilema matrículaXpeneirada em seus mirrados ombros. A escrita é primorosa, com certeza, mas a emoção só me prendeu depois do episódio citado acima.
Boa sorte!
Adorei o conto. Lembrei do filme Linha de Passe. Não exatamente por conta do sonho do menino querendo ser jogador, mas o drama familiar em si e as escolhas difíceis que devem ser feitas em situações como essa. O conto está muito bem narrado, esse final traz uma emoção incrível do Pedrinho. Gostei muito desse trabalho. Está de parabéns.
Achei comovente. O drama do sonho de ser jogador, o drama dos pais. E fora isso, sei que não é o mesmo Ferroviário, mas sou torcedor doente do FERROVIÁRIO ATLÉTICO CLUBE, aqui de Fortaleza. Um time que já foi campeão cearense, era a terceira força do estado mas hoje vive da glória do passado : (
O conto é bom, mas não achei que teve muitos atrativos. No entanto, o autor/ autora foi feliz em contar a história e mostrou conhecimento. Por exemplo, o lance de alguns garotos mentirem a idade para jogar. Isso acontece e inclusive, quando eu era adolescente, tinha amigos meus que falsificavam identidade para poder jogar em peneiras.
Gostei do paralelismo das histórias e da tensão existente em ambas. Imagino que na continuação elas irão se cruzar. E também que a mesma data e proximidade de horário dos dois compromissos (um em cada história) se tornarão os pontos de tensão da segunda parte. Já estou na “torcida”! (rs!)
Boa sorte,
😉
Paz e Bem!
gostei muito destas histórias paralelas que merecem ter espaço para vermos a sua continuidade e desfecho. Não sei se a história é muito original, até este ponto, mas insere-se na temática e está bem estruturada, não terá problemas graves na gramática, por isso só posso desejar que tenhas oportunidade para acabar esta trama. bom jogo e boa escola.
Os temas foram muito bem escolhidos, o futebol x a escola, e realizados em dois contos, que vão fluir para um único final. Os temas modernos e a técnica conferem grande valor literário ao conto, que se desenvolve bem solto, e deixa o leitor na expectativa do que está por vir, como um verdadeiro thriller. Aliás, eu pelo menos quero saber como acaba tudo isso.
Caro (a), Arthur Coimbra.
Antes tudo, tenho que dizer que dizer que usar o nome do Galinho é uma trapaça. Como flamenguista, vou me sentir um canalha em não dar dez para esse conto, rs.
Bem, o texto é bom. A história me prendeu do início ao fim, especialmente por se tratar de um tema que gosto bastante. Você soube desenvolver a atmosfera de uma peneira, a tensão dos aspirantes, esse ambiente hostil do cada um por si, esperando uma bola salvadora, que nem sempre chega aos pés. Pedro Lucas (espero que ela ganhe um apelido, afinal na década de 70 não existiam esses nomes compostos chatos desses cabeçudos de hoje em dia) e Estela são personagens interessantes, cada um com sua missão.
Sem dúvidas é uma história real, e essa credibilidade é o grande trunfo do conto. Não há qualquer dificuldade em sentir empatia imediata. Meu “porém” é com relação aos diálogos. Penso que ficaram bem ordinários, acho que poderia existir um melhor aproveitamento. Detalhes que poderiam dar mais personalidade para os personagens, principalmente para os secundários. Usaria menos “você”, e daria algum toque para que a garota atendente fosse mais chata, gerando mais conexão do leitor com a Estela. Bom, isso é apenas uma questão de opinião, não sou um especialista e estou seguindo apenas uma perspectiva pessoal.
De qualquer modo, gostaria muito de ler a segunda parte da história.
Parabéns, boa sorte e SRN!
Cont Arthur Coimbra.
Na minha opinião, esse foi o conto que mais soube explorar esse lance das duas fases. O autor conseguiu criar uma expectativa imensa ao redor do dilema do protagonista. Teve êxito em arrancar qualquer obviedade que pudesse estar esperando no final. E, na verdade, penso que no desfecho é onde se encontra o grande mérito. Pois, mesmo não escolhendo o final mais feliz, o conto conseguiu trazer esperança para o leitor.
O diálogo sobre o peso do irmão é lindo, é metafórico, é sensacional. Grande acerto do escritor.
Por enquanto, é a nota que mais subiu em relação a primeira fase.
Forte abraço!!!
O conto me lembrou o filme Linha de Passe. Achei que a estrutura não amarrou-se muito e o desenvolvimento ficou um pouco a desejar. Mas a escrita é boa.
Confesso que não sei o que seria uma “Peneira” em futebol, tampouco conheço as técnicas e lances, tive que cair na magia e imaginar a jogada! Mas gostei muito do conto, mesmo não curtindo o esporte. Ele é bastante sensível e traz uma das máximas do nosso país, que é o sonho de ser jogador de futebol. A época em que ocorre também ajudou a criar um clima bem brasileiro, assim como a imagem de capa.
Tudo acontece com bastante naturalidade, a escrita está boa e a leitura flui tranquilamente (apesar de ter encontrado algumas palavras meio comidas). A maneira como as duas historias se entrelaçam e criam expectativa para a continuação (esse tão aguardado sábado) também merece destaque dentro do desafio.
Alguns trechos, particularmente, achei muito bons. Um deles é quando comenta da profissão do pai e o outro quando a secretária diz não ter vaga, dá pra imaginar a angústia da mãe em ter que escolher entre colocar um e deixar o outro de fora, ou desistir e tentar em outro lugar. Uma pequena escolha de Sofia.
Gostei da história e da condução, com os dois acontecimentos se cruzando no “final”. Não foi bem um final, mas ficou bacana!
um cotidiano que continua se repetindo, dá uma angústia acompanhar os movimentos (jogadas) paralelas da mãe e do(s) menino(s), mas eu não consegui alcançar a intenção entre os desfechos da possível vaga de um e de outro (no time e na escola). A “sorte”do Pedro ter vaga pra oitava x o “azar” da incerteza do Marquinho para ser decidida na mesma hora, no sábado, era para ter um significado? Se sim, me faltou sagacidade…
Conto muito bem escrito, divertido, mostrando bem o que se passa na mente de cada personagem, todos bem apresentados e desenvolvidos no espaço possível.
O cotidiano de vida difícil de periferia nos anos 80 ficou bem construído e cativante.
Me deixou bem curioso e interessado em saber o que vai acontecer na história daqui pra frente.
Olá, autor (a)!
Mais um bom cotidiano. Esse mês estou bem impressionado com a qualidade altíssima dos contos.
Gostei da história. É bem tocante e real. O fato de vermos tantas histórias que acontecem dessa forma, faz com que fiquemos mais próximos das personagens. Cheguei ao fim da leitura esperando que o moleque fosse chamado.
Em relação a gramática, não tenho o que falar. Gostei e achei bem escrito. A narração intercalada funcionou bem.
Parabéns e boa sorte!
Olá de novo!
Confesso que eh esperava um pouco mais da segunda parte. Gostaria de ter visto um desenrolar melhor no final, com um pouco mais de definição. Do jeito que ficou, achei que deixou muito para trás. Parece que foi feito para ter uma parte três.
De qualquer forma, no geral, foi um bom conto. A surpresa não foi tanta, mas foi uma leitura agradável.
Parabéns e boa sorte!
Tema – 10/10 – adequou-se à proposta;
Recursos Linguísticos – 10/10 – texto muito bem estruturado;
História – 10/10 – boa ideia, excelente execução;
Personagens – 10/10 – muito bem trabalhados tanto fisica como psicologicamente;
Entretenimento – 10/10 – daria um belo episódio de série de TV. Histórias de futebol são sempre interessantes;
Estética – 8/10 – é um texto cativante. Tenho mais ou menos uma ideia da sequência. Quero ver como você trabalha isso.
Notas Parte 2
Tema – 10/10 – adequou-se à proposta;
Recursos Linguísticos – 10/10 – texto muito bem escrito, claro, conciso;
História – 10/10 – amarrada à primeira parte, bem desenvolvida na segunda;
Personagens – 10/10 – fisica e psicologicamente bem construídos;
Entretenimento – 10/10 – sem dúvida, prende o leitor do início ao fim;
Estético – 10/10 – mais um daqueles que marejam os olhos, só quem tem irmão mais novo pra entender.
Treze anos (Arthur Coimbra)
♒ Trama: (3/5) gostosa de ler e muito ágil. Fiquei realmente preso à história. Mas terminou muito aberto, aguardando uma possível continuação. A ideia do desafio eram dois contos complementares e não um conto dividido ao meio. Este aqui, do jeito que está, parece apenas uma metade.
✍ Técnica: (4/5) muito boa, não vi nenhum erro aparente (exceto um conectivo faltando). O motivo disso pode ter sido minha total imersão na narrativa. Claro que o assunto me interessa, mas acredito que tem muito dedo do autor nisso. Não vi, porém, nenhuma construção muito mais elaborada para valer a nota máxima.
➵ Tema: (2/2) cotidiano de meninos pobres que sonham em subir na vida pelo futebol (✔).
☀ Criatividade: (1/3) não é uma história nova, como muitos outros contos nesse tema.
☯ Emoção/Impacto: (3/5) como disse, o texto me prendeu muito, mas o final aberto reduziu muito o impacto.
➩ Nota: 7,5
Problema que encontrei:
● e era canhoto *e* isso parecia tornar a tarefa mais difícil.
PS.: preciso registrar aqui que fiz um esforço terrível para não deixar meu coração rubro-negro avaliar o texto. Se assim fosse, só o pseudônimo já valeria nota máxima 😀
Treze anos (Arthur Coimbra) – Segunda Fase
📜 Trama: muito boa a parte da indecisão do rapaz sobre qual decisão tomar, mas o final ficou corrido. A parte em que a história conta a decisão que ele tomou poderia ser melhor desenvolvida. Precisei reler para entender. (0)
📝 Técnica: no mesmo bom nível da primeira parte. (0)
🔧 Gancho/Conexão: a segunda parte completa a primeira. O conto, lido em sequência, funciona como uma história única (+0.5)
🎭 Emoção/Impacto: a parte da indecisão do menino me deixou realmente apreensivo. Funcionou bem. Não compreendi bem o final à princípio e isso reduziu um pouco o impacto. (+0.5)
⭐ Nota: 8,5
Gostei muito da forma como o conto foi apresentado. O autor usou um recurso muito bom: fez duas narrativas desconexas inicialmente para só depois estabelecer uma ligação entre elas. Senti-me tenso com Pedro, assim como meu coração ficou angustiado quando Estela soube que não tinha vagas na terceira série para Marcos.
Por outro lado, achei o final abrupto demais. Não deu um fim à história. Foi um excelente gancho para a próxima, mas avaliando o conto por si só, não pegou. Se fosse só isso eu teria odiado este final. Espero que o conto passe para a próxima fase para que eu saiba o resto da história!
Por fim, a adequação ao tema aqui ficou obscura. Com certeza Pedro está saindo do cotidiano dele ali, tentando ser aprovado para um time de futebol. Mesmo que ele tenha tentado duas ou três vezes antes, isto não faz desta atividade o seu cotidiano. A ideia é que acabe e ele “volte ao seu cotidiano”, que não foi narrado aqui.
O cotidiano de Estela e seu marido foi melhor descrito, incluindo os ônibus lotados e a dificuldade do homem de arranjar emprego. Mas mesmo assim, a situação narrada para Estela no conto foge do seu cotidiano também. Afinal, ela só deve fazer este tipo de trabalho (matrícula dos meninos) uma vez por ano.
Algumas falhas que notei no texto:
-> “Ele era canhoto isso parecia tornar a tarefa mais difícil.” – Falta uma conexão
entre “canhoto” e “isso”. Talvez um “e” ou então um ponto final.
-> “Não poso fazer nada” – Posso.
Relendo o conto para avaliar a segunda parte, e depois relendo o meu comentário e a minha nota, percebi que fui muito ranzinza. Só me resta pedir desculpas: este conto é realmente muito bom!! Acho que o que pegou na primeira parte foi que eu esperava um conto fechado, quando este terminou na metade.
O conto me fisgou. A revelação final, feita na última hora, sobre a decisão de Pedro, foi sublime. Fiquei com o coração na mão até aquele momento.
Parabéns pelo conto e, novamente, perdão pela nota baixa na primeira fase. O conto não merecia.
Boa sorte!
Sonho de meninos que desejam ser grandes ídolos do futebol. Em paralelo, a jornada das mães em busca de vagas nos colégios para seus filhos. Algumas crianças se encantam tanto com o mundo da fama que até esquecem que a garantia de sucesso são os estudos,o conhecimento e a qualificação profissional.
Uma narrativa simples, de fácil leitura e entendimento. Bom enredo e boa gramática.
EGUA (Essência, Gosto, Unidade, Adequação)
E: Cotidiano de sonhador. Quem não quer ser jogador de futebol (ou melhor, ganhar o que eles ganham)? Menos os que não gostam. – 9,0.
G: Uma história com clima de interior, estilo Central do Brasil. Foi essa atmosfera que cativou, desde o início. É bem pé no chão e realista, trazendo um cotidiano bem brasileiro. As histórias intercaladas, apesar de não ter entendido no início, foram bem criativas. O ponto alto foi mostrar essas duas realidades sob pontos de vista diferentes, incluindo até uma terceira visão, breve, do menino “rico”. – 9,0.
U: A mescla entre diálogos e narração foi muito bem pontuada, com cuidado. A leitura fluiu que foi uma beleza. – 9,0.
A: Rotina? Confere. Dificuldades? Confere. Cotidiano realista? Confere. Gancho? Confere. – 9,0.
[9,0]
O tema cotidiano baseado no sonho de menino: ser jogador de futebol e sustentar sua família. O paralelo com a rotina da mãe, preocupada em garantir o estudo dos filhos, ficou bom. O mundo do futebol não me atrai, mas senti que o autor puxou minha atenção sem enrolar muito. Fiquei até preocupada com o caçula que pode ficar sem estudar por falta de vaga. Ou seja, a leitura me cativou.
Não encontrei erros ortográficos ou deslizes na revisão. Não é o meu conto favorito, mas apresentou um bom trabalho. 🙂
☬ Treze anos
☫ Arthur Coimbra
ஒ Físico: O conto está bem escrito, mas o estilo do autor não se destaca muito. Poderia falar que não tem presença de espírito. No caso da narrativa, ela se desenvolve de forma natural. Isso é ótimo. Sobre a estética, não acredito ser necessário o itálico na parte da Estela, mãe dos meninos. Na realidade, essa formatação atrapalhou a leitura um pouco. Bom saber disso, pois irei evitar fazer o mesmo a partir de hoje.
ண Intelecto: O enredo trata de oportunidades. É um tema que merece ser explorado com intensidade, certamente, e o autor conseguiu fazer isso. Faltou elegância, mas chegou onde queria. O menino foi bem explorado, mas a mãe permaneceu um pouco rasa. O autor escolheu se focar no sofrimento dela. O ideal seria, nesse caso, apresentar o sofrimento de forma mais sutil.
ஜ Alma: No fundo, bem no fundo, escondido por detrás da maioria das palavras, encontra-se o cotidiano da luta dos pobres por uma vida melhor. No entanto, o foco do conto não é esse. O tema mais forte é a injustiça social e a chance de uma vida melhor. O cotidiano fica tão disfarçado que não é possível considerá-lo. Além disso, o teste de peneira e a matrícula da escola são acontecimentos que quebram um pouco o cotidiano das pessoas, pois acontece uma vez ou outra. Não é algo rotineiro. Porém, o gancho ficou interessante, principalmente na parte do menino. O maior problema foi o final, que ficou aberto demais. tinha que ter uma conclusão, para o conto funcionar por si.
௰ Egocentrismo: Realmente, não consegui gostar muito do enredo. Esse tipo de estória requer uma roupagem nova para emocionar ou envolver o leitor. Mas a leitura é apreciável.
Ω Final: Texto bem escrito com um estilo sem personalidade. Enredo simples, estória para demonstrar o sofrimento daqueles que são menos favorecidos, desenvolvimento bom. No entanto, não se encaixou no tema do desafio. O gancho ficou interessante, pelo menos.
௫ Nota: 6.