EntreContos

Literatura que desafia.

Como todos os dias (Claudia Roberta Angst)

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Ele não podia saber de nada. Não agora. Não daquele jeito. Liana olhou para o homem deitado em sua cama. Os braços dobrados acima da cabeça, uma das pernas caída fora do colchão, o dorso nu em lenta respiração. Jonas era um homem grande, de proporções incomuns para aqueles dias.

Liana suspirou e voltou a mexer o café com a colher, demorando-se no movimento que lhe acalmava o redemoinho de pensamentos. Tomou um gole do líquido quente e se perguntou a que horas acordaria o seu namorado.  Sentiu vontade de deitar novamente na cama ainda morna como um dia sem expectativas.

Olhou-se no espelho e suspirou novamente quase negando o reflexo. Os cabelos castanhos avermelhavam-se nas pontas como fagulhas perdidas em noite de festim. Os olhos escuros brilhavam perdidos sob os resquícios de maquiagem leve e algumas camadas de melancolia. Quem era aquela?

─ Bom dia, princesa.

Liana virou-se ao ouvir o mesmo cumprimento das últimas manhãs. Achava cafona, mas ao mesmo tempo carinhoso, ele a chamar assim. Tudo dependia do dia. Com aquele sorriso, Jonas sempre provocava uma reprise de deliciosas sensações.

─ Tem café pra mim também?

Liana foi até a cozinha e encheu a outra caneca com cuidado. A dele era azul cobalto, profundo como aqueles olhos esquecidos pela noite. Não, jamais poderia contar a verdade. Seria um crime desmanchar aquelas cores em realidade.

Jonas sorveu cafeína e beijos com a mesma intensidade. Ainda despertando, catou suas roupas pelo caminho e vestiu-se com a pressa de um amante descoberto.

─ Chego mais tarde hoje, tudo bem?

─ Mas você vem?

─ Sim, como sempre. ─ Então, ele piscou como fazia sempre que ela levantava aquela dúvida.

Beijaram-se no corredor, espantando Dona Leonor que ainda se recuperava do seu último enterro. O marido, o terceiro deles, havia sucumbido a um enfarte e duas paradas cardíacas. Amar não é fácil quando se pode perder tanto, dizia. Liana concordava, pois o amor nunca fora algo fácil para ela.

─ Bom dia, vocês dois. Não é muito cedo para isso tudo?

Jonas entrou no elevador, jogando um beijo para Dona Leonor, que já sorria rendida ao visitante sedutor. Ele era uma bela visão, uma constante e encantadora aparição.

─ Você precisa se casar, mocinha. O que seu pai diria disso?

Liana sorriu, exagerando nos dentes e nas covinhas para se mostrar tão menina quanto a vizinha lhe via. A senhora, sempre muito simpática, só queria o seu bem, mas a repetição daquela ladainha diária exigia uma tolerância que Liana costumava guardar para ocasiões de emergência.

Acenando com suavidade para a senhora, Liana fechou a porta do apartamento. Tomou um banho rápido, refazendo mentalmente a lista de produtos que precisava comprar. Xampu, condicionador, algumas aspirinas, talvez muitas. Um frasco inteiro ou uma boa golada de arsênico.

Outro dia, o ciclo recomeçando com gosto de café e ausência. Vestiu-se em ritmo cerimonioso, como se um novo protocolo fosse ser instaurado sob a luz das nove horas. Esperou o relógio de carrilhão no apartamento vizinho anunciar o preciso momento. Alisou o vestido com as mãos um pouco trêmulas. Precisava de mais café e talvez outro bocado de coragem. Curvou-se ao sentir o mesmo arrepio de todas as manhãs.

Preferiu não revirar o mesmo pensamento que lhe assediava com sua constante coreografia. Com passos lentos e imprecisos, preparou-se para a rotina que se seguiria. Sentou-se ao piano, abrindo sua tampa e retirando o longo pano bordado que cobria as teclas. Dobrou com cuidado o feltro, sentindo a aspereza em relevo. Lembrou-se da avó que, já idosa, bordara aquele dragão cercado de flores e notas musicais.

Pegou as partituras e as olhou com descaso, acomodando-as sobre o piano. Aprumou-se no banco, abriu e fechou as mãos, tentando relaxar os ligamentos. Pousou os dedos sobre as teclas e começou a tocar escalas para aquecer músculos e ânimo. Depois, seguiu com arpejos e oitavas para poder enfim enfrentar o Estudo Transcendental n.6, de Lyapunov. O subtítulo Tempête revelava a verdadeira temática da música.

Liana estudava a mesma peça há meses. Não era uma composição tão conhecida e parecia ser bem mais complexa do que lhe haviam dito. O maestro Benatti tentou alertá-la sobre os acordes quase impossíveis e passagens que exigiam demais de qualquer pianista. Marco Benatti demonstrava pouca paciência com os talentos mais jovens, o que não fazia dele exatamente uma pessoa agradável. Tinha seus destemperos quanto às interpretações mal executadas e o vagar de iniciativa dos iniciantes. O maestro não fora a primeira escolha de Liana para ser seu professor, mas o pai insistira que Benatti era o melhor de todos. Ela, sem argumentos, cedera muito mais do que pretendia.

Sua cabeça doía com os lampejos de sobriedade e os pulsos previam um novo surto de tendinite. Todo o seu corpo padecia de silêncios interrompidos. Liana buscou apoio no teclado, as mãos espalmadas em crescente agonia. O medo disparava adrenalina por todo o seu organismo, alertando sobre o perigo eminente.

Liana balançou a cabeça em desacordo. Desabou a harmonia com a respiração ofegante. Teria de contar tudo. Não haveria outra saída para ela. Sem saber o que fazer, pegou a partitura e se pôs a tocar a melodia com um vigor desnecessário.

Todas aquelas notas roubavam-lhe a possibilidade de terminar o dia. Mesmo assim, a música era o seu refúgio, a sua rota de fuga rumo ao desconhecido. Os compassos infiltravam-se, aos poucos, em seu cérebro, fornecendo combustível para seus delírios mais secretos. Não havia escapatória além do eco encontrado nas cordas do piano.

 

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Liana estudou durante três horas seguidas. Era como se estivesse no automático, resgatando melodias distantes e as guardando em pastas na sua memória. Sem aviso ou ralentar de ritmo, pausou pensamentos e dedos, dando por encerrada aquela sessão musical. Recolocou com cuidado a cobertura de feltro sobre o teclado e fechou o piano. Decidiu não se dar maiores explicações. Nem ela sabia o que estava acontecendo, então evitaria especulações.

Começou a assistir ao noticiário na TV enquanto aguardava seu almoço chegar. Há dois anos, recebia refeições quentes vindas da pensão de Tia Nice. Parente distante de seu pai, Eunice Alencar ficara bem satisfeita por aumentar sua renda alimentando a pequena notável. Era assim que a família chamava Liana, como se fosse de fato uma garota prodígio.

Desta vez, a própria Nice apareceu com uma quentinha nas mãos. Era uma senhora de gosto duvidoso, olhos castanhos apertados sob um cabelo quase roxo. Não era mais uma personagem incomum, pois fazia parte do cenário diário de Liana. Sua excêntrica e colorida figura destoava do tom monótono do concreto ao seu redor.

─ Olá, moça bonita! Hoje, entrega especial para você.

─ Cadê o Junior?

─ Pois é, parece que está com dengue, o pobrezinho. Sobrou tudo para mim agora, meu bem.

─ Agradeço por não se esquecer de mim.

─ Claro que não. Negócios são negócios. Hoje é o meu famoso escondidinho. Bom apetite!

Liana pegou o recipiente quente com as duas mãos, fechando a porta com o pé direito. Passara da sua hora de almoço e assim, seu intervalo de descanso também ficara encurtado. Tratou de se alimentar, tentando descobrir que tipo de tempero havia no famoso escondidinho de D. Nice. Pensou novamente em venenos: cianureto, arsênico, chumbinho.

Trocou o vestido florido por uma saia reta preta e uma camisa branca, alinhada e discreta. Olhou-se no espelho, segurando a escova de cabelo como uma arma, defendendo-se de si mesma. Escovou os cabelos com vigor, prendendo todos os fios em coque sofisticado. Tomou o cuidado de esconder as pontas acobreadas como quem tenta camuflar a lava de sua última erupção.

Pegou as partituras em cima do piano e as enfiou dentro da pasta de couro. Sobre a superfície macia lia-se Ana Lee. Como um ritual improvisado, Liana passou os dedos sobre as letras em relevo sentindo-se no patamar de um grande portal. De novo, infiltrou-se em um transe obrigatório, obedecendo a uma rotina oculta.

Realçou os olhos com um traço negro, destacando os cílios espessos com mais de uma camada de máscara. A boa neutralizada com um batom mate cor de quase nada. Calçou os sapatos de salto alto, mas discretos como todo o seu visual.

Catou as chaves do carro sobre o aparador e despediu-se do apartamento com um olhar descrente. Mais uma tarde, pensou ao entrar no elevador e descer até a garagem.

 

♫♪♯♫♪♯♫♪♯♫♪♯♫♪♯

 

A sala no conservatório era um pouco menor do que se esperava de um reduto de arte. A lenta exposição à luz do dia tornava o ambiente hostil. Liana sentiu um estranhamento agudo naquele momento de espera. Sem perceber, seu coração adquirira um ritmo compulsivo, pulando em quiálteras sucessivas.

─ Boa tarde, Ana. Conseguimos algum progresso na harmonia?

Marco Benatti sorriu ao entrar na sala com passos firmes. Não era um homem muito alto e tampouco jovem. No entanto, havia nele uma aura de poder que seduzia qualquer plateia feminina. Os cabelos grisalhos abundantes emprestavam-lhe um quê rebelde e a postura alinhada refletia uma autoestima bastante elevada. Pelo menos era o que deixava transparecer.

Liana, um pouco corada, olhou para Benatti e acomodou-se na banqueta do piano. Ele posicionou-se bem próximo, esbarrando nos braços da jovem. Seus olhos percorriam um caminho tortuoso entre a partitura e a nuca descoberta de Liana. O cheiro que vinha dele era bom, algo com toques cítricos de verão, mas o sorriso revelava vícios, os dentes amarelados pelo alcatrão e o hálito exalava uma não tão distante embriaguez. Um tremor insistente no roçar das suas mãos entregava uma fragilidade muito bem camuflada.

Liana tentou se concentrar ao máximo na execução da peça do russo Lyapunov. O maestro interrompia sua evolução, vez ou outra, com comentários sobre a inadequação do ritmo empregado. A voz apresentava um tom de impaciência que contaminava a melodia.

─ Precisa melhorar essas passagens. Veja esses compassos, continuam tênues demais. Sinta a música, minha menina. Sinta a tempestade!

Então, ele sentou-se ao seu lado e tocou alguns compassos com uma agilidade espetacular. Naquele instante, tudo nele era encantamento, notas perfeitas inaugurando magias. Liana suspirou, quase gemeu, admirando aquelas mãos que seduziam com música.

De repente, a mão do maestro em seu pescoço despertou Liana de um transe. Sentiu uma onda de náusea se aproximar e fingiu não se importar. Nem mesmo quando ele beijou sua nuca e alisou seu colo com suavidade, ela demonstrou qualquer reação.

A mesma rotina revivida quase todas as tardes. A mão ostentando aliança e compromisso a invadir seu bom senso. Benatti parecia saber que era inútil tentar domar seus instintos. Afoito, dedilhava os compassos acéfalos daquela relação.

─ Espero você no carro.

Liana consentiu com a cabeça e observou o professor sair da sala. Inclinou-se sobre o teclado, sentindo a alma rasgar-se em um misto de desejo e desespero. Mal conseguia respirar, sentindo-se encurralada entre as paredes do pânico. A música continuava a tocar, a repercutir em sua mente como acusação.

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Liana levantou-se em um pulo. O som da campainha era um verdadeiro concerto para os seus ouvidos. Abriu a porta, quase sem fôlego e sorriu.

─ Você veio mesmo, moço.

─ Claro! Como todos os dias…

Ela o enlaçou em seus braços como quem cuida de não perder o que nunca se reteve. Os beijos ventilaram suas dúvidas e tudo pareceu menos denso.

Enquanto Jonas dormia, Liana sentou-se no sofá e cruzou as pernas sentindo o atrito das pernas com o tecido do estofamento. Estava nua, sem possibilidade de despir mais argumentos.

Pegou a caneca vermelha com as duas mãos, inspirando o vapor aromatizado e soprou como quem esfria a própria vida. Olhou para as cartelas de comprimidos sobre a mesinha de centro. Tão esféricas, em um ciclo contínuo, sem começo ou fim, gotas de esquecimento eterno.

Não sabia mais o que viria pela frente. Talvez algo surpreendente a arrancasse da cama e roubasse suas promessas. Ou quem sabe tudo permanecesse inalterado, uma borbulhante reprodução dos mesmos começos.

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♫♪♯♫♪♯♫♪♯♫♪♯♫♪♯

─ Perdeu o sono, princesa?

Liana, mergulhada em seu transe melancólico, assustou-se com a voz de Jonas. Era como um trovão cortando seus pensamentos sem aviso de relâmpagos. Com o susto, deixou cair parte do chá em suas pernas e viu a caneca espatifar-se no assoalho de madeira.

─ Calma, não se mexa. ─ Jonas apressou-se a socorrer Liana, sentindo-se culpado pelo acidente. ─ Vou cuidar de você.

Liana começou a chorar. Não tanto pela queimadura na pele, mas pela ausência de alternativas que a tirassem daquele ciclo. Jonas observou de relance os comprimidos na mesinha, mas intuiu que seria melhor ignorá-los por enquanto. Foi atrás de toalha, gelo, pomada, tudo que poderia aliviar a dor da namorada. Seus recursos eram poucos e a habilidade menor ainda, mas precisava desfazer aquela cena que se repetia como um filme sem som.

Depois de lidar como pôde com o estrago feito, Jonas acomodou Liana em seus braços até cessarem choro e tremor. O ar permanecia denso, com nuvens em suspensa angústia. Um céu de tormentas veladas pairava sobre o casal.

De repente, Liana levantou-se e atravessou a sala com passos lentos, porém firmes. Jonas seguiu o mesmo caminho, movido em parte pelo instinto de proteção e muito mais por curiosidade. Deparou-se com uma bela e inusitada cena: uma mulher nua sentada ao piano.

O instrumento sempre estivera ali e sua ostensiva presença não passara despercebida por Jonas. No entanto, ele considerava o piano como uma herança de família, um daqueles móveis que se transformam em refinados itens decorativos.

─ Você toca?

Liana não respondeu, mas permitiu que seus dedos contassem os sons de alguns segredos. A tempestade fez com que seu corpo desaguasse em música, diante de um Jonas atônito, encantado com aquela beleza dilacerante.

Os compassos desfizeram-se em soluços, minutos em ritmo preciso e as mãos delicadas tornaram mágico tudo ao redor. O último acorde soou como uma chibatada nas costas da noite.

Liana estancou o movimento em silêncio. Virou-se para Jonas e observou aquele quase gigante ceder ao peso das próprias lágrimas. Seus olhos brilhavam, refletindo emoções diversas.

─ Lindo, Liana!

Ela sorriu, exausta e, ao mesmo tempo, aliviada. Apontou para um objeto em cima da mesa coberta por pilhas de partituras e livros. Jonas pegou a pasta de couro e deteve as mãos sobre o material macio, observando suas linhas.

─ Ana Lee. ─ Leu sem transparecer qualquer surpresa. ─ Já conheço o seu nome, princesa. A correspondência e a encantadora D. Leonor me contaram tudo sobre isso.

Liana suspirou ao descobrir que o seu segredo não era tão oculto quanto imaginava. Na verdade, ela mesma nunca se preocupara muito com isso. Outros mistérios lhe pesavam bem mais.

─ Se quer ser Liana, que seja. ─ Continuou Jonas, limpando as lágrimas do rosto com as mãos. ─ Se você precisa ser o oposto do que é, não serei eu a quebrar seu reflexo.

Ana Lee, Lee Ana, Liana. Não fora difícil desvendar o enigma daquela mulher. Pelo menos, aquele tinha sido fácil de decifrar. O que parecia impossível era percorrer o corredor de sentimentos que tingiam aqueles olhos de sombras.

 

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Ela olhou para as paredes. Pareciam diferentes de todas as outras tardes, menos opressivas, talvez. Ou seriam seus olhos que se vestiam de cores diferentes? Revelar sua música a Jonas fora um passo libertador. Agora, precisava tomar coragem para desfazer outros enganos.

Tentou dedilhar algumas escalas, mas a ansiedade dominou seus movimentos. Teria uma conversa difícil pela frente e não estava certa de ser ali o melhor local para lidar com aquilo.

Ela conhecia bem o gênio de Marco Benatti, seus rompantes temperamentais e suas reações intempestivas. Apesar disso, percebia, com alguma surpresa, que estava ansiosa para enfrentar o maestro. Talvez fosse o sabor do desafio de alcançar oitavas superiores e aumentar o ritmo dos acontecimentos. Sinta a música, minha menina. Sinta a tempestade!

─ Com licença.

Liana olhou para a moça que entrava na sala após bater levemente na porta. A expressão carregada da sempre sorridente Violeta despertou-lhe o sentido de alerta. Por puro instinto, crispou as mãos, quase se agarrando ao teclado.

─ O Maestro Benatti não virá.

Sem perceber, Liana suspirou e deixou as mãos pesarem sobre as teclas. Já pressentia nuvens pesadas conspirando motins. Era o silêncio que precedia a tempestade.

─ Aconteceu alguma coisa?

Violeta titubeou e sua boca tremeu desalinhando uma tentativa de sorriso. Algum encantamento havia sido desfeito e uma palidez quase doentia enchia-lhe o rosto com uma passividade sinistra.

─ Na verdade, o maestro sofreu um enfarte…

A tempestade chegara. Liana fechou o piano, lembrando-se das várias ocasiões em que Benatti havia lhe recomendado fazer isso. Quase todas as tardes, alertava sobre a necessidade de evitar que a umidade percorresse teclas e cordas, desafinando o instrumento.

Sem dizer uma só palavra, Liana levantou-se em lenta interpretação dos fatos. Seus sentidos perdiam-se no branco das paredes e ela sequer percebeu o olhar assustado da secretária.

─ A professora Lúcia está livre agora, se quiser que ela…

Liana nem ouviu as últimas palavras de Violeta. Pegou suas partituras e as guardou na pasta. Engoliu o medo, tentando esconder as lágrimas que pressionavam suas retinas. Saiu da sala carregando sons e pausas já sem nomes.

 

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Deram-se as mãos em cordial cumprimento. Aqueles dois homens, tão amados por ela, enfim se conheciam. Jonas vestia um terno escuro, chumbo fechado, que realçava ainda mais seus magníficos olhos azuis. Contrastava com o tom esfumaçado dos traços paternos. Dr. Luiz Gouveia Lee, observador quase científico, sorria por mera obrigação social.

─ Uma perda irreparável. Benatti fará muita falta, sem dúvida.

Virou-se para Liana, que ainda se perdia em devaneios sem respostas. O cabelo, preso somente por uma simples tiara, batia em suas costas como ondas de um mar revolto.

─ Não sei se encontrará um professor à altura para auxiliá-la agora, querida.

Liana baixou os olhos e nada comentou. O corpo carecia de descanso, assim como a consciência que se debatia ao observar a viúva e os filhos próximos do caixão. Cena de mau gosto que, decerto, desagradaria Marco Benatti e seu sofisticado talento artístico.

Perdia-se ali a continuação de uma história de amor que nem deveria ter sido rabiscada. A morte súbita de Benatti havia antecipado qualquer decisão. Livre de uma responsabilidade maior, Liana contrariava o andamento da melodia, guardando notas que arranhavam cada minuto com aquela ausência.

Sentia-se culpada por experimentar um certo alívio. Não ter que revelar aquela ambiguidade de sua personalidade a Jonas era, de fato, uma dádiva.

─ Papai, acho que não ficarei para o enterro. Minha cabeça está explodindo e preciso dormir.

Dr. Lee olhou para a filha com um distanciamento atento. Reconhecia bem pouco da sua menina disciplinada naquela mulher de cabelos e olhos flamejantes. Algo mudara e ele não se dera conta disso. Sua Ana não era mais uma menina dedicada às escalas e aos livros de escola.

─ Melhor descansar mesmo, Ana. Você parece doente, minha filha. Tem se alimentado bem?

Liana concordou com a cabeça, evitando sacudir demais as ideias que lhe atravessavam. Jonas pegou a mão de Liana, conduzindo-a para a saída. Ainda agitado com a promoção de anônimo acompanhante a namorado oficial, cumprimentou alguns conhecidos que o surpreenderam no velório. Não conseguia passar despercebido pelos presentes. Seu porte diferenciado descartava qualquer possibilidade de timidez. Ostracismo não era uma opção para ele.

Antes de sair, Liana lançou um último olhar à viúva, que se desmanchava em dores sem definição. Lembrou-se dos últimos dias, da sensação de opressão e tensão que Marco lhe trazia entre os lábios. Sinta a tempestade! Não era alegria, não era romance. Antes catarse, exposição dolorosa de corpos e desejos. Era arte.

 

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A rotina reinstalou-se aos poucos, acomodando-se no cronograma estabelecido pelos anos. O acordar vagaroso, com o café derramado em recipientes coloridos, voltou às manhãs. Liana providenciou outra caneca tão vermelha quanto a anterior. Algumas coisas podiam ser substituídas facilmente, outras não.

Jonas continuava a se espreguiçar quase caindo da cama. Ainda era um deus criado para antecipar fantasias. Os namorados encontravam-se distraídos em sua rotina sem amarras. Ou pelo menos, conseguiam lidar com um calendário que não acorrentava mais Liana a tardes de tormenta.

Até mesmo Junior reaparecera com o seu gingado provocado por uma música que só ele ouvia. Trazia o mesmo riso solto de quem é muito jovem para se preocupar com os tropeços do dia a dia.

─ Ah, você voltou. Era dengue mesmo? ─ Liana recebeu o rapaz, feliz por rever aquele rosto cheio de sardas.

─ Virose. Foi o que disse a doutora lá no posto. ─ Sacudiu os ombros com desdém, quase deboche. ─ Tudo é virose para esses médicos, como diz minha mãe.

Liana sorriu, pegando a refeição quente em sua cotidiana porção. Fechou a porta e esperou algo acontecer. O silêncio prosseguiu com sua insistente melancolia sem pausas.

Ela sentou-se à mesa e experimentou algumas garfadas antes de afastar prato e remorsos. Sentia-se empanturrada, cheia de considerações. Mentira. O tempo todo, havia mentido para Jonas, para o pai, para o maestro. Ela era uma fraude, uma composição plagiada, um rascunho descartado.

Voltou a tocar três dias depois. O piano abriu-se após um período de luto que Liana considerou inevitável. Tentou repassar todas as anotações feitas por Benatti nas últimas aulas. Sinta a tempestade! Seu corpo estremeceu com a lembrança das mãos a lhe despertarem um ritmo oculto.

Jonas jamais saberia de toda a verdade. Fosse como fosse, Marco ficara no passado como seu mestre, um cúmplice na arte e no proibido. As curvas de seus seios não seriam mais redesenhadas em assobios sincopados. A regência era outra, agora.

Aos poucos, Liana deixou de se culpar pelo caminhar claudicante dos dias. Experimentou o alívio de reaver seus momentos particulares sem lágrimas. Enterrou todas as pílulas no enorme vaso de antúrios, que ficava na varanda. Que seus delírios brotassem inofensivos. Não desejava mais aquele som tardio em seus dias.

 

♫♪♯♫♪♯♫♪♯♫♪♯♫♪♯

 

Jonas sorriu ao entrar pela porta. O chaveiro sacudido nas mãos, virando brinquedo, instrumento de percussão. Sua presença inundava qualquer desatenção, fazendo com que Liana sentisse o coração disparar.

─ Você veio! ─ Sua voz titubeava entre a alegria e um indisfarçável receio.

─ Ainda não se acostumou com isso? ─ Jonas abriu os braços, esperando a recepção calorosa à qual já se habituara. ─ Estou aqui, sempre. Como te prometi, todos os dias.

Liana aninhou-se em seus braços. Com o movimento, seus cabelos soltaram-se, deixando que as ondas acobreadas caíssem sobre os ombros com o peso de um acorde final.

─ Talvez, eu não queira mesmo me acostumar. Preciso? ─ Liana olhou para Jonas como quem já tem a resposta e não precisa mais ocultá-la. ─ Apenas repita, insista, até que eu não duvide de mais nada.

Jonas abraçou-a com cuidado, atento à fragilidade despertada nos últimos dias. Sabia que havia muitos segredos naquele olhar sem limiar. Fosse o que fosse o que aqueles olhos camuflavam, acordes dissonantes perdiam gradativamente a força. Algumas músicas permaneceriam como enigmas, guardando em si, a repetição dos dias nublados de promessas.

Ela aceitou-se em verso e avesso. Liana e Ana Lee reencontravam-se, pouco a pouco, reproduzindo sons e luzes. E quanto mais serenava vendavais, mais a rotina tornava-se suave brisa. Em meio a compassos desconhecidos, a vida seguia.

As horas revelavam-se em modulações fugazes, cativas de pautas já compostas. Os dias eram como linhas melódicas que se cruzavam lentamente. Sem menção de surpresas, para assim não causar qualquer alarde, a vida continuava como uma incessante interpretação de partituras. Solfejo diário, uma disciplinada leitura, mas nem sempre silenciosa. Estranha calmaria no horizonte, convidando tempestades. Como todos os dias.

 

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Caso alguém tenha curiosidade quanto ao estudo transcendental n˚ 6 de Lyaponov, segue o link.

https://youtu.be/FVBsjcppKmE

 

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81 comentários em “Como todos os dias (Claudia Roberta Angst)

  1. Fabio D'Oliveira
    5 de novembro de 2015

    ☬ Como todos os dias – Final
    ☫ Marcela Sontag

    ஒ Físico: Percebi durante a leitura da segunda parte que a autora tem um estilo bem equilibrado. Não pende para o simplório nem para o prolixo. Se tivesse um toque mais poético, ficaria praticamente perfeito. Parabéns!

    ண Intelecto: A estória acompanha o ritmo complexo e melancólico da primeira parte. E a autora conseguiu seguir a lógica. Parabéns! A protagonista está bem construída e é fácil entendê-la, pois a narrativa é um pouco intimista, mas a autora poderia desenvolver outros personagens de uma forma mais realista. Jonas não convenceu. E o maestro não é original. Vamos lá, sei que consegue fazer algo melhor, pois parece ser bem talentosa!

    ஜ Alma: Na primeira parte, estava dentro do tema. Na segunda parte, afastou-se do tema. Infelizmente, o foco mudou. E passou a ser os sentimentos e situação da protagonista. A autora até tentou retornar para o cotidiano, mas não conseguiu.

    ௰ Egocentrismo: Gostei da leitura, mas a estória não me cativou. Não sei o motivo disso. Vamos dizer que o santo não bateu! Hahaha! Porém, uma coisa é certa: a autora parece ser uma escritora nata. Está de parabéns!

    Ω Final: Texto bem equilibrado com uma estória complexa e concisa. Protagonista real, coadjuvantes nem tanto. Saiu um pouco do tema na segunda parte, mas a primeira compensa um pouco. Autora parece ser talentosa.

    ௫ Nota: 9.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Obrigada pelo seu comentário e pela bela nota.
      Mas esse seu santo não foi com a cara do meu conto?rs
      Adorei essa coisa do meu texto ser bem equilibrado com estória complexa e concisa. Foi um baita de um elogio.
      A questão do cotidiano realmente falhou um pouco na segunda parte, porque achei que ficaria muito forçado me ater somente às atividades rotineiras da personagem.
      Concordo que os personagens masculinos poderiam ser melhor desenvolvidos. Quem sabe eu faça isso no futuro?

      • Fabio D'Oliveira
        10 de novembro de 2015

        Olá, Claudia!

        Então, você conseguiu fazer algo que tento fazer há bastante tempo. Encontrou um estilo equilibrado. Parabéns por isso! Espero alcançar o seu feito algum dia.

        E, de fato, se focar no cotidiano na segunda parte poderia ser cansativo. Acredito que você fez a melhor escolha para a estória terminar bem.

        Parabéns mais uma vez!

  2. Pedro Luna
    5 de novembro de 2015

    Eita. O texto é belo demais. Um turbilhão de emoções e acontecimentos e mesmo assim, termino o texto não sabendo nada de Liana. Uma personagem misteriosa e forte. Parabéns pela criação. O personagens que interagem com ela mostram detalhes da personalidade dela, principalmente quanto ao Jonas e a insegurança que ela sente com sua partida. O texto é poético e bonito, mas não posso dizer que adorei pois faltou, pelo menos pra mim, uma trama que me agarrasse. Mas pelo trabalho psicológico aqui, ganhou pontos comigo.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Interessante, parece que você foi o único que notou a insegurança de Liana em relação a Jonas. Como se ela não se achasse boa o bastante para tê-lo por perto.
      Gosto muito de me perder nesses labirintos psicológicos dos personagens.
      Ainda não consegui desenvolver uma trama aderente, mas não desisto!
      Obrigada pelo seu comentário.

  3. G. S. Willy
    5 de novembro de 2015

    A pesquisa, ou conhecimento prévio, da autora é digno de nota. As nomenclaturas e descrições das cenas ao piano saltam aos olhos. E o conto em sua totalidade também é muito bem escrito.

    Porém senti um pouco que a história não andava, e que muitas vezes não havia história ou era deixada de lado. A melancolia da protagonista não convence, parecendo gratuito, e acho que a autora poderia ter dado mais profundidade à questão. Talvez explicando o motivo dela ser assim, quando começou, enfim, dar mais credibilidade. Assim como o relacionamento dela com os dois homens fica em uma única camada, sem forças.

    Acho que a autora poderia ter escrito com mais energia, mais enfoque nas dúvidas e na pressão, mais ligada à tempestade da música em destaque.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Conhecimento prévio sustentado por um pouco de pesquisa, também.
      Meus contos geralmente não são muito dinâmicos, tendo um ritmo mais arrastado mesmo. É assim que eles nascem, fazer o quê?
      A sua sugestão de uma escrita mais enérgica com enfoque nos conflitos, ligando tudo à tempestade da música é bem interessante. Tentei fazer um pouco isso,mas não me atrevi a aprofundar. Vou pensar a respeito.
      Obrigada pelo comentário.

  4. Bia Machado
    5 de novembro de 2015

    Achei perfeita a continuação. Tudo pareceu se encaixar tão bem, não? Para sorte de Liana e para meu alívio, pois ninguém merece. O texto demonstrou um cuidado enorme com cada trecho, talvez o último parágrafo seja até desnecessário, a mim me pareceu como um alongamento, terminar no anterior traria o mesmo efeito, a meu ver. Por enquanto, meu favorito dos favoritos, parabéns!

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Que bom que gostou da continuação. Escrever essa segunda metade foi um parto na caverna.
      Relendo, acho que você tem razão. O último parágrafo não faria falta se fosse cortado. Mas me apeguei à ideia de novas tempestades no horizonte.
      Agradeço seu comentário. Beijos.

  5. rsollberg
    5 de novembro de 2015

    Caro (a), Marcela Sontag

    Então, gostei bastante do seu conto. Os personagens não são lineares, possuem camadas e segredos. Já falei isso várias vezes por aqui, como leitor gosto de preencher certas lacunas, buscar entender o que há por trás da história. Tentar desenvolver um histórico. Por essa razão, Liana é uma protagonista especial, você se apaixona tentando compreender um pouco de sua personalidade, algo de Lolita, algo de Anita, um pouco daquele ar do Nelson Rodrigues também!

    O jeito de narrar é muito especial, adoreis essas das frases: “Perdia-se ali a continuação de uma história de amor que nem deveria ter sido rabiscada.”
    Coisa linda: “Já pressentia nuvens pesadas conspirando motins”!

    A música com pano de fundo funcionou muito bem, todas as minucias, referências….

    Não tenho nenhum apontamento negativo para fazer, penso somente que com mais espaço os personagens secundários poderiam ser melhor desenvolvidos. Principalmente a Nice, o Júnior e a Leonor.

    Parabéns e boa sorte!!!

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Eu também não gosto de receber todas as lacunas já preenchidas. Assim, prefiro deixar que o leitor.
      Que bom que apreciou o meu modo de narrar. Sinto-me envaidecida com isso.
      A música – estudo de Lyaponov – foi sugestão de um sobrinho virtual, pianista, muito talentoso.
      Também encontrei em Liana esse tom de Nelson Rodrigues, Lolita ou Presença de Anita, só que menos sexualizado. Mas a complexidade está aí.
      Obrigada pelo comentário.

  6. Felipe Moreira
    5 de novembro de 2015

    Conto muito bem trabalhado. Gosto muito da maneira como foi escrita, a sensibilidade de narrativa envolvendo o ambiente musical. Li a última parte ouvindo o link. A impressão é que o autor realmente conhece o que está escrito, indo além da pesquisa comum de levantamento.

    Alguns trechos soaram extravagantes, mas a beleza da história conduzida por trás dessa abordagem ficou muito boa. Parabéns pelo trabalho.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Foi até fácil trabalhar o ambiente musical.Tive lá meus anos de piano para me basear. O problema foi explorar a natureza conflituosa de Liana. Talvez por isso, a narrativa tenha soado extravagante em alguns momentos. Obrigada pelo seu comentário.

  7. Jefferson Lemos
    4 de novembro de 2015

    Olá, autor (a).
    Gostei de como você conduziu a história, trazendo esse cotidiano tão real que parece até novela.
    Não gostei da personagem, pois ela era uma baita de uma mentirosa, e o coitado do Jonas sendo um cara legal sem perceber isso. O final não me agradou porque não achei que ela merecesse ficar com ele. Mas isso é cotidiano e a vida real nunca é justa, então acho que ficou verossímil por isso.
    Sua narração é bem ágil,  com descrições diretas e que contribuíram para a criação do cenário.
    No geral eu gostei bastante do que li, somente desejando que ela ficasse sozinha ao final, ao invés de ter ficado com o cara bacana.

    Parabéns e boa sorte!

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Liana não é uma mentirosa compulsiva, só uma jovem em conflito. Jonas é bacana e lindo, mas não é perfeito. Na verdade, ele não deixava a namorada segura e por isso ela sempre perguntava se ele ia voltar. Enquanto a relação com o maestro era densa e profunda, com todas as implicações de um romance clandestino, com Jonas só havia leveza, momentos chub, mas a vida não é só isso,né? Mas vou fazer uma experiência e tentar rescrever o final, deixando Liana sem Jonas. Ou não?
      Muito obrigada pelo seu comentário. 🙂

  8. Leonardo Jardim
    4 de novembro de 2015

    Como todos os dias (Marcella Sontag) – Primeira Fase

    📜 Trama: (3/5) incompleta na primeira fase, precisava se desenvolver melhor para se fechar. Veremos na segunda.

    📝 Técnica: (4/5) muito boa, ótimas passagens e narração natural como o fluxo de um rio.

    🎯 Tema: (2/2) adequado.

    💡 Criatividade: (2/3) não é novo, mas não é clichê.

    🎭 Emoção/Impacto: (3/5) a parte que descobri a safadeza do maestro me deixou enojado. A falta de conclusão diminuiu o impacto da primeira parte.

    Problema que encontrei:
    ● A *boca* neutralizada com um batom mate cor de quase nada

    • Leonardo Jardim
      4 de novembro de 2015

      Como todos os dias (Marcella Sontag) – Segunda Fase

      📜 Trama: A trama se fechou e mereceu uma nota melhor. Fiquei surpreso ao saber que ela gostava de se relacionar com o maestro. No início tinha achado que ela fazia isso contra a vontade com medo de perder o professor. Apesar da “sorte” dela do problema ter se resolvido sozinho, a trama agradou. (+0.5)

      📝 Técnica: manteve o mesmo bom nível da primeira parte. (0)

      🔧 Gancho/Conexão: a história continuou e se encerrou bem. O problema neste quesito é que mais parecia uma história dividida em duas partes. (0)

      🎭 Emoção/Impacto: apesar da história ter uma conclusão, não chegou a me emocionar e nem causar grandes impactos. Mas, apesar dos comentários aparentemente negativos, é uma boa história e merece uma boa nota. (0)

      ⭐ Nota: 8.5

      • Claudia Roberta Angst
        7 de novembro de 2015

        OLá, Leo Garten, digo Jardim. Primeiro, agradeço pelo seu comentário. Seus apontamentos são sempre relevantes.
        Não entendi qual foi o problema com a frase: A *boca* neutralizada com um batom mate cor de quase nada.
        Talvez fosse melhor- Os lábios neutralizados com um batom mate cor de quase nada?
        Ou o problema foi “mate” – segundo minha filha adolescente – é um tipo de batom,mate,não brilhoso.
        Que pena que a história não te emocionou, mas adorei a nota. 😉

      • Leonardo Jardim
        7 de novembro de 2015

        Oi Cláudia.

        No texto, a frase está: “A boa neutralizada com um batom mate cor de quase nada.” Ou seja “boa” no lugar de “boca”. Geralmente eu marco a palavra errada corrigida com asteriscos.

        Não tinha menor noção do que é um batom mate, mas simplesmente relevei 🙂

  9. Thata Pereira
    22 de outubro de 2015

    Bom, o “algo a mais” na verdade, me surpreendeu por não ter nada a ver com os relacionamentos de Liana, mas com seu nome. Gostei muito disso, pois me identifiquei, conheci pessoas assim, que depois de muito tempo descobri que não tinham o nome com o qual as conhecia.

    Eu gosto muito desse conto, desde que li a primeira parte. O infarte (prefiro assim) foi uma jogada de mestre, claro. E também é claro que eu gostaria de ver, de alguma forma, o confronto entre o casal, mas não é algo que atingiu o meu gosto por uma leitura tão bonita, com frases tão marcantes.

    Da segunda parte destaco: “As curvas de seus seios não seriam mais redesenhadas em assobios sincopados. A regência era outra, agora.”.

    Boa sorte!!

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      A dualidade do nome refletia a ambiguidade dos sentimentos de Liana.
      Ainda não sei se o infarte do maestro Benatti foi uma boa escolha, mas foi o caminho que encontrei para conduzir a narrativa.
      Que bom que gostou da leitura.
      Obrigada pelo comentário. Beijos.

  10. Piscies
    22 de outubro de 2015

    Bravo!

    Excelente conto. Um texto sem compromisso, narrando o cotidiano que circunda os momentos anteriores e posteriores ao clímax: a morte do maestro. Tudo aqui tem um certo significado: o maestro que a arrebatava também parecia orquestrar sua vida. Sua morte a libertou não apenas de um amor em chamas, mas também das mãos que a conduziam como boneca.

    Jonas é um personagem completo e interessante, não estúpido como muitos personagens coadjuvantes parecem ser em contos curtos. Ana Lee – ou Liana – também tem uma profundeza incrível. Até mesmo Marco Benatti, que aparece em poucas linhas do texto, inspira um peso na narrativa e no leitor que nos faz sentir o que Liana sentia ao estar ao seu lado.

    Muito bem escrito e interessantíssimo!!! Esse é nota 10!

    Uma nota: na parte sobre a Tia Nice, o autor fala que ela “Não era mais uma personagem incomum, pois fazia parte do cenário diário de Liana”. Porém, até onde entendi, não era ela que costumava entregar as quentinhas mas sim Junior, seu filho. Logo, Eunice não era exatamente parte do cenário diário de Liana, a não ser indiretamente pelo fato dela comer sempre a comida que a tia fazia.

    Outra nota: Achei o parágrafo abaixo desnecessário, quase como uma quebra do clima da narrativa. Uma repetição desnecessária do que o leitor já sentia ao ler o resto do texto. Acho que conto ficaria bem sem ele:

    “Ana Lee, Lee Ana, Liana. Não fora difícil desvendar o enigma daquela mulher. Pelo menos, aquele tinha sido fácil de decifrar. O que parecia impossível era percorrer o corredor de sentimentos que tingiam aqueles olhos de sombras.”

    Felizmente, o autor é um mestre e isso não me fez, em momento algum, perder o interesse na leitura.

    PARABÉNS!

    • Piscies
      22 de outubro de 2015

      Ah, outra coisa: achei o título fraco para um conto assim tão bom. Ele merece algo bem melhor do que “todos os dias”.

      “Tempestade”, talvez? xD

      • Claudia Roberta Angst
        7 de novembro de 2015

        Tenho uma certa dificuldade de escolher títulos, então aceitei esse mesmo. Adoro tempestades, talvez devesse mesmo ter ido por aí.
        Parece-me que você foi o que melhor compreendeu o conto e os personagens. Análise bem sensível de toda a trama. Parabéns.
        Quanto à Nice, você tem toda a razão. Eu não tinha me dado conta dessa contradição. Ela realmente não via Liana todos os dias. Vou ter que rever essa passagem. Muito bem apontada essa falha. Obrigada.
        Gostei muito do seu comentário. Grata.

  11. catarinacunha2015
    21 de outubro de 2015

    Parte II: O TÍTULO continua perfeito, não houve absolutamente nada para alterar a alma de Ana (2/2), assim como o TEMA também mantenho a nota (2/2). O FLUXO deu uma caída quando esperei maior intensidade, mas as construções das frases são belíssimas (1/2). A continuação da TRAMA perdeu força (1/2). O FINAL em forma de prosa poética ficou bacana (2/2) . Total 8.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Ainda estou em dúvida quanto ao título. Não sou boa nessa coisa de dar nome aos contos. Concordo que a trama perdeu força e ritmo, pois nem esperava ter de escrever uma segunda parte. Então, estou no lucro.
      Muito obrigada pelo seu comentário. 🙂

  12. Gustavo Aquino dos Reis
    21 de outubro de 2015

    Continuamos com a história trágico-introspectiva da Liana. Não existe nenhuma novidade arrebatadora, porém a estética poética prossegue com firmeza, assim como a impoluta escrita. Infelizmente, a narrativa, mesmo na segunda etapa, não me cativou.

    Não obstante, dedico ao autor da obra um profundo parabéns.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      E a prosa poética não me larga por mais que eu tente. Que pena que a narrativa não cativou seu interesse. Não se pode agradar a todos, sejam da zona norte ou zona sul. Aliás, parabéns pelo contaço.
      Obrigada pelo seu comentário. Abraço.

  13. Fabio Baptista
    20 de outubro de 2015

    A grande força desse conto é a maestria poética com que foi escrito. O ritmo cadenciado casou perfeitamente com o tema. Confesso que, fosse outro tema, provavelmente não daria nota máxima, pois tanta poesia e tanta cadência não me agradam em cheio.

    Outro ponto forte a se destacar é a aura de mistério ao redor de Liana / Ana Lee, que é o que na verdade sustenta toda a trama. Essa segunda parte, principalmente, lembrou aquele clima de Cisne Negro (filme sensacional). Um mistério que não se revela até o final e dá a entender que não se revelará nunca. Ou, talvez, como cantava Renato Russo – “o maior segredo é não haver mistério algum”.

    – permitiu que seus dedos contassem os sons de alguns segredos
    – Não era alegria, não era romance. Antes catarse, exposição dolorosa de corpos e desejos. Era arte.
    >>> Belíssimo!

    – Ainda era um deus criado para antecipar fantasias
    >>> Isso foi meio… Sabrinesco kkkkkk

    – Algo mudara e ele não se dera conta disso
    >>> Usaria “algo havia mudado”, pra não deixar os dois mais-que-perfeitos tão próximos.

    – acorrentava mais Liana a tardes
    >>> caberia crase aqui? Fiquei na dúvida.

    NOTA: 10

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Maestria poética? Não apela porque vou continuar falando mal das suas personagens femininas.
      Interessante você associar a trama ao clima de Cisne Negro. Pensando bem, Liana tem mesmo aquela tensão de perfeccionismo a toda prova.
      Tenho de concordar com você quanto à frase sabrinesca, mas não resisti.
      A dica de não usar dois mais-que-perfeitos(que você odeia) na mesma frase valeu. Ficaria mesmo melhor do jeito que sugeriu.
      Não caberia crase em “a tardes”.POr que? Porque não há concordância de número.Se fosse ” acorrentava mais Liana ÀS tardes” , aí sim, seria necessário o emprego de crase.
      Novamente, agradeço o comentário e a nota 10. Quem diria?

  14. Evandro Furtado
    20 de outubro de 2015

    Tema – 10/10 – adequou-se à proposta;
    Recursos Linguísticos – 9/10 – há a repetição da palavra perna em um curto espaço do texto. Como não encontrei razões para isso (ênfase, ou outro recurso) caracterizei como um probleminha;
    História – 10/10 – muito bem desenvolvida;
    Personagens – 10/10 – bem construídos tanto fisica como psicologicamente;
    Entretenimento – 10/10 – texto que prende o leitor do início ao fim;
    Estética – 10/10 – a alegoria musical que permeia o texto foi executada com maestria e excelência. Parabéns.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Obrigada pelo comentário e pela bela nota.
      Não tinha reparado nesta repetição de “perna”, ainda bem que você me avisou.
      🙂

  15. Brian Oliveira Lancaster
    20 de outubro de 2015

    EGUAS (Essência, Gosto, Unidade, Adequação, Solução)

    E: O ar de tragédia romântica foi muito bem descrito aqui. Lembrou-me vagamente o filme “Letra e Música”, evocando vários sentimentos dispersos. – 9,0.
    G: Leve, com atmosfera poética (o piano ajudou muito nesse sentido) e com toque de arte contemporânea. Sutil, um pouquinho de clichê de noveletas antigas, mas que não tira o brilho da história. A melancolia é bem presente, apesar dos traços de felicidade em camadas inferiores. – 9,0.
    U: As divisões são bem criativas. Incomodam um pouco depois de certo tempo, mas como seu uso não foi exagerado foi tranquilo. No mais, escrita leve e fluente. – 9,0.
    A: Tem tudo a ver com o cotidiano e seus segredos escondidos. – 9,0.
    S: Quase não achei a divisão, o que é ótimo. A história prossegue sem engasgos. – 9,0.

    Nota Final: 9,0.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Obrigada pelo comentário e por não ter se engasgado com a leitura. Adoro o filme Letra e Música, mas não pensei nele ao escrever o conto.
      Não consigo me livrar dessa coisa poética que me persegue enquanto crio. Melhor aceitar e deixar rolar, né?

  16. Rubem Cabral
    19 de outubro de 2015

    Olá, Marcella.

    Reli a primeira parte do conto com mais vagar e gostei da boa “liga” desta com a nova segunda parte. O ritmo é um tanto lento, mas consegui desta vez ter uma impressão melhor do texto e gostei da segunda parte também. A escrita continuou muito apurada, enfim, achei o todo bastante bom.

    Liana me pareceu uma personagem muito insegura e até um pouco mimada, rs. Talvez fosse mais interessante explorar o romance dela com o professor, talvez num flashback.

    Nota 8!

    Abraços.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Que bom que a segunda parte salvou a pátria. O ritmo é esse mesmo, lento, denso, silêncio arrastado antes da tempestade.
      Liana é bastante jovem, privilegiada, mas não sei se bem mimada,pois a insegurança vem do fato de ter sido negligenciada.Mas cada leitor terá uma visão particular de Liana e o seu mundo.
      A ideia do flashback – romance de Liana com o maestro – me agrada. Posso tentar isso quando transformar o conto em algo maior.
      Obrigada pelo comentário.

  17. Rogério Germani
    18 de outubro de 2015

    Olá, Marcella Sontag!

    A repetição das metáforas musicais em todo o texto foi um artifício que engessa por demais o texto; torna-o previsível tanto quanto o cantar dos pássaros diante da chuva iminente. O vocabulário e a técnica fazem um belo dueto, mas perdem-se no estribilho.
    Outro fato que incomodou -gosto particular- é como a personagem principal, amante da arte, ser tão leviana com os sentimentos sinceros daqueles que a amam sem restrições…

    Boa sorte!

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Como a vida de Liana era em torno do piano, não pude descartar as referências musicais. Vou reler e verificar se é possível cortar algumas metáforas.
      Não diria que Liana é leviana. Ela não tem intenção de brincar com os dois homens, apenas aconteceu de se envolver com os dois. Sofre com o conflito, então não é uma leviana. E quem disse que os outros a amam de forma sincera? Ali não tem nenhum santo.
      Obrigada novamente pelo seu comentário.

  18. Renato Silva
    30 de setembro de 2015

    Olá.

    Texto bem escrito, mas não me empolgou muito. Os personagens não soaram tão agradáveis, não me prenderam. A estética do texto é bacana e ele tem qualidade, mas faltou ‘alma”.

    Bos sorte

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Normal que os personagens e o texto não agradem a todos os leitores. Estranho seria se todos gostassem e pronto. Não sei como conseguiria dar mais alma ao conto, mas eu tentei,
      Obrigada pelo comentário.

  19. Gustavo Aquino dos Reis
    28 de setembro de 2015

    Conto que beira a precisão técnica. Tudo muito bem escrito, narrativa redondinha, focada na Liana e nas suas poéticas sacadas. Porém, e quero deixar bem claro ao mestre literário por trás dessa obra que é um gosto totalmente pessoal, a história me proporcionou um misto de beleza poética e enfado. Enfado, sim, devido à narrativa que se debruça na exteriorização de sensações afogueadas da personagem.

    Enfim, acho que falhei com o conto – e não ao contrário.

    Parabéns, mesmo.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Mestre literário? Exagerou,hein, Gustavo?
      Não se preocupe, pois não é o primeiro a sentir um certo enfado diante das minhas narrativas. Fazer o quê? É assim que nasceu Liana e seus amiguinhos.
      Obrigada pelo comentário.

  20. catarinacunha2015
    28 de setembro de 2015

    O TÍTULO traduz bem o sentimento de urgência por uma definição (2/2). Nada mais adequado ao TEMA cotidiano do que o drama de consciência (2/2). Estiloso e elegantemente feminino, o FLUXO retrata com competência (2/2) toda a tensão da TRAMA intimista (2/2). O FINAL em aberto deixou um guindaste no lugar do gancho (1/2). 9

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Poxa, nem me preocupei com o tal gancho e você me arrumou um guindaste?
      Adorei você ter achado o conto estiloso e elegantemente feminino.
      Pelo menos, todos parecem ter percebido que se trata de uma trama intimista em volta dos conflitos de Liana.
      Obrigada por comentar meu conto.

  21. Thata Pereira
    28 de setembro de 2015

    Gostei muito da forma como o conto foi conduzido. Destaquei três frases que me encantaram:
    “Jonas sorveu cafeína e beijos com a mesma intensidade.”
    “Afoito, dedilhava os compassos acéfalos daquela relação.”
    “Estava nua, sem possibilidade de despir mais argumentos.”
    Estou curiosa para saber a forma como o(a) autor(a) vai continuar esse conto. Com as partes oferecidas, imaginamos que Liana (gostei muito do nome) trai o namorado com o professor, mas acho que existe algo a mais. Uma informação que quem escreveu não forneceu. Quero ver essa continuação.

    Boa sorte!

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Olá, Thata! As frases que você destacou também são as minhas queridinhas.
      Espero que a continuação do conto não tenha te decepcionado muito.
      Jonas não era bem um namorado, assim oficial, então não sei se houve traição entre eles.
      Obrigada pelo comentário. Beijos.

  22. Lucas Rezende
    28 de setembro de 2015

    Olá,
    O começo da história prende bem com o conflito da personagem, o drama de Liana está muito bem representado no conto. Aliás, Liana é talvez a melhor coisa do conto. Um personagem bem construído e cativante, a relação da música com os problemas dela e com a história ficou muito boa.
    O desfecho perde um pouco a força, mas inda assim prende para a próxima parte, para o desfecho do conto.
    O único gancho que consigo ver para uma continuação é a resolução dos conflitos apresentados neste conto. Parabéns.
    Boa sorte!

    Nota: 9

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Para ser franca, não me preocupei em deixar um gancho para a segunda parte.Nem mesmo pensei em uma continuação enquanto estava escrevendo o conto.
      Gosto também de Liana, embora nem todos simpatizem com ela. Não é uma personagem simples ou rasa.
      Obrigada pelo seu comentário.

  23. Bia Machado (@euBiaMachado)
    28 de setembro de 2015

    Emoção: 2-2 – Gostei, me envolvi com o cotidiano de Liana. A cadência da narrativa também contribuiu muito.

    Enredo: 2-2 – Parece simples, mas o autor/autora (acredito que seja autora) torna tudo bem interessante conforme a história se desenvolve, mantendo o ritmo do início ao fim.

    Construção das personagens: 2-2 – Gostei muito de Liana e Jonas. Fizeram com que eu quisesse saber como continuará isso tudo. Espero que acabe bem para os dois, fico torcendo, rs.

    Criatividade: 2-2 – Sim, com as palavras, fazendo com que o texto seja agradável e prenda a atenção.

    Adequação ao tema proposto: 1-1 – Totalmente adequado.

    Gramática: 1-1 – Não encontrei nada de mais, mérito de quem escreveu. Parabéns!

    Trecho destacado: “Como um ritual improvisado, Liana passou os dedos sobre as letras em relevo sentindo-se no patamar de um grande portal. De novo, infiltrou-se em um transe obrigatório, obedecendo a uma rotina oculta.”

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Obrigada pelo seu comentário, Bia. Espero que o final de Jonas e Liana não tenha sido um desapontamento para você. No entanto, prevejo novas tempestades no horizonte desses dois. 🙂

  24. Fabio D'Oliveira
    27 de setembro de 2015

    ☬ Como todos os dias
    ☫ Marcella Sontag

    ஒ Físico: A estrutura física do conto revela que seu autor possui uma habilidade refinada. Não há erros grotescos no texto. A narrativa é natural, assim como o desenrolar da estória. Parabéns!

    ண Intelecto: A estória é tão complexa quanto a mente de Liana. E o autor acertou em cheio no desenvolvimento das tramas. O texto é conciso e funciona por si mesmo. O tema, entretanto, não irá agradar todos. Muita melancolia no ar.

    ஜ Alma: O autor é, certamente, talentoso. E é muito habilidoso! O conto se encaixa no tema da proposta, pois o foco é exatamente o cotidiano triste de Liana. Mas o texto não tem muito poder de atração. Uma continuação teria que surpreender para alcançar o nível desse conto.

    ௰ Egocentrismo: Gostei da leitura e do tom melancólico, mas o grande foco na vida sexual de Liana acabou me desagradando. É só isso que o texto fala!

    Ω Final: Um conto muito bem escrito. O autor é muito talentoso e habilidoso. No final das contas, encaixou-se no tema do desafio, mas uma continuação não parece muito atraente.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Contente por me considerar uma autora hábil e talentosa.
      Realmente, Liana é bem complexa, apesar de muito jovem. O conto fluiu como um rio de melancolia,não sei se exagerei neste ponto. Não tentei focar a atenção do leitor na vida sexual de Liana,mas sim nos seus conflitos internos – com o pai, com o maestro, com Jonas, com a música.
      Muito obrigada pelo seu comentário. Anotando aqui suas considerações. 🙂

  25. Gustavo Castro Araujo
    26 de setembro de 2015

    Um contaço. Ainda faltam muitos contos para eu ler, mas tenho a sensação de que será difícil encontrar outro que me agrade tanto quanto este. Tudo na medida certa: amor, romance, culpa, remorso e suspense. Acabei a leitura querendo mais, querendo saber o que Liane esconde de Jonas, e por que ela se submete em todos os sentidos ao maestro. O texto beira a perfeição (só vi um “eminente” no lugar de “iminente”), a escrita convida à leitura pela fluidez, pelas digressões filosóficas discretamente embutidas. Muito legal ver como tanta coisa pode ser dita mesmo quando não se faz referências diretas a elas. Habilidade exemplar. Enfim, um conto muito, muito bom, do tipo que me atrai escandalosamente. Tô aqui louco para ler a segunda parte.
    Nota: 9,5

    • Gustavo Castro Araujo
      2 de novembro de 2015

      Retomando…
      O conto mantém a pegada da primeira parte, especialmente no que se refere às construções inspiradas. No entanto, a alta expectativa gerada pela primeira metade acabou tendo um efeito nefasto: eu esperava mais. Não que tenha me decepcionado, mas esperava algo mais profundo. Liana me pareceu uma pessoa bastante perturbada, o que é ótimo em se tratando de literatura, já que uma mente psicótica abre mil oportunidades para exploração. Quando percebi o dilema que se abatia sobre ela – entregar-se ou não ao maestro – e principalmente a maneira como isso foi descrito, pensei que você, cara autora, havia acertado em cheio. Fiquei imaginando como, afinal, isso tudo terminaria. E Jonas? E dona Nice, que ao que tudo indicava poderia trazer algum alimento envenenado? Mas… De repente, o Maestro morre. Morre mesmo. Putz, e ainda faltava muito para o conto terminar. Mas como, se o Maestro morreu? Logo ele, o personagem mais cativante? Isso, confesso, me fez torcer o nariz, especialmente porque daí para o fim Liana mergulha numa rotina modorrenta e arrastada com Jonas, afundada na dúvida sobre revelar ou não seu alter ego ao namorado. Para mim, o desconforto, a dúvida que ela sentia quando estava com o Maestro era o que havia de melhor no texto. Eu já estava pensando que ela deixaria Jonas para ficar com ele ou até mesmo poderia cometer alguma sandice, se lá. Mas mata-lo terminou frustrando minhas expectativas. De todo modo, não dá para negar que tecnicamente o texto continua perfeito, belamente escrito e descrito, despertando o interesse a cada linha. As alusões ao piano e à música de Lyapunov ficaram muito, muito legais mesmo, um recurso sabiamente usado e que casou com maestria (!) com o ritmo do conto. Em suma, no geral, um ótimo trabalho!
      Nota final: 8,5

      • Claudia Roberta Angst
        7 de novembro de 2015

        Pois, meu caro,Marco Benatti pediu pra sair. Veio e disse que já estava cansado desse triângulo que ele nem desconfiava que existisse. Fiquei em dúvida se devia matar o personagem ou deixar Liana seguir com o seu conflito. Mas a moça tem tantos conflitos que um a menos não aliviaria muito a sua carga dramática.
        Entendo que a segunda parte tenha provocado menos empolgação. Eu pensei que não fosse escrever uma segunda metade, então, não tinha nada previsto para a vida dos personagens.
        Confesso que tenho uma quedinha pelo Maestro e eliminá-lo não foi fácil. Talvez,eu desenvolva melhor o personagem em outra ocasião.
        Não me passou pela cabeça Nice entregar comida envenenada,mas até que é uma boa ideia para se arquivar.
        Adorei escrever usando minhas memórias dos tempos de piano. Adoro esse universo musical.
        Obrigada pelo seu comentário. Levarei em conta suas considerações. 🙂

  26. Anorkinda Neide
    25 de setembro de 2015

    Ahhh.. lembrei de falar do título…
    não me soa bem: “Como todos os dias”
    parece q estás falando das refeições ou dos homens dela, hein!!! kkkk

    será q ficaria melhor assim?: “Como em todos os dias”

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Confesso que o título não foi um dos meus preferidos, também. Pensei nessa confusão aí -como – verbo comer. 😛

  27. Anorkinda Neide
    25 de setembro de 2015

    Olá!
    Que bonito!
    Vários tons de prosa poética espalhados pelo texto, sem cansá-lo…parabéns!
    Mas uma coisa ficou um tantinho cansativa… a repetição de expressões que pontuavam o cotidiano: todo dia, toda manhã, sempre,e outras assim… (acho que fiz isso no meu também!)

    Mas a história é bem bonita, bem feminina… rsrsrs Louca para que a continuação dê uma solução para o impasse e ela passe a não pensar mais em arsênicos e tais!

    Boa sorte ae
    Abração

    • Anorkinda Neide
      18 de outubro de 2015

      E a prosa poética continuou-se… e o impasse desfez-se e o final foi feliz num crescente lento e não repentino, enfim, texto eficientíssimo e muito bonito, Parabéns.
      Pode-se pensar que a saída para o fim do triangulo amoroso fora muito fácil com uma morte repentina e providencial, mas estamos em um conto, é preciso condensar os movimentos. Gostaria de saber mais sobre os personagens masculinos, mas estenderia-se demais o enredo, levando o texto a se transformar em uma novela.
      Então, repito que como está está eficiente e bonito, muito bonito.

      Abraços de boa sorte!

      • Claudia Roberta Angst
        7 de novembro de 2015

        Anorkinda, sempre gentil em seus comentários.
        Não sei bem se foi um final feliz, já que outras tempestades anunciavam-se no horizonte.
        Fiquei em dúvida se devia matar o maestro ou não, mas como você disse, é preciso condensar os movimentos em um conto.
        Talvez, eu transforme esse conto em algo maior, já que ainda não consegui me desapegar dos personagens.
        Muito obrigada pela sua leitura e pelo seu comentário. Beijos.

  28. Felipe Moreira
    24 de setembro de 2015

    Acho que esse tenha sido o mais preciso na adequação ao tema até agora. Está bem escrito, algumas passagens com mais floreios do que o “normal”, porém agradável de ler. Quero ver a continuação.

    Boa sorte no desafio.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Acredite, tentei evitar florear o meu conto. Segurei a mão para não cair de novo na prosa poética e enfeitar tudo com coração, flor e estrela.
      Obrigada pelo seu comentário, Felipe.

  29. Pedro Viana
    23 de setembro de 2015

    Que lindo!

    Achei um conto muito bonito, bem executado, bem escrito. A trama é redonda, e a autora deixa cuidadosamente algumas perguntas em aberto para a parte dois. Particularmente, senti um pouco de passividade por parte da protagonista, ela parece encarar os fatos sem tomar muitas atitudes, e apenas reclamar e resmungar, deixando que outros personagens tomem as decisões por ela. Costumo virar os olhos com estes Harry Potter’s da literatura. Questão de gosto mesmo. Vou dar nota 9 e esperar pela segunda parte, torcendo para que isso melhore. No mais, meus parabéns!

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Que bom que o meu conto agradou em vários pontos.
      Sim, Liana tem mesmo esse lado mais passivo, talvez pela idade, talvez por não querer de fato se decidir sobre a sua vida amorosa. Deixa-se levar.
      Não sei se melhorou na segunda parte, mas tentei.
      Obrigada pelo seu comentário.

  30. pythontrooper
    22 de setembro de 2015

    A autora conseguiu criar em mim uma curiosidade sobre o que tanto atormentava a personagem principal, e isso me fez querer ler mais, querer terminar logo e descobrir o mistério. Escrita muito boa e elegante, totalmente fiel ao tema. Os separadores de notas musicais foram uma boa sacada.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Fico contente por saber que criei algo que despertou seu interesse. Instigar a curiosidade do leitor é o sonho de todo autor.
      Obrigada pelo seu comentário.

  31. Tiago Volpato
    21 de setembro de 2015

    Texto muito bem escrito. Interessante você trabalhar o cotidiano de alguém da música, achei bacana. Você colocou coisas meio banais na história, como a aluna que dorme com o professor e sente nojo disso, acho que é um tema que já foi explorado muitas vezes em várias midias, e pra mim, ficou desinteressante. É a minha opinião, mas pode ser que os outros colegas pensem diferente, ainda assim o seu texto é muito bem construído e muito bem conduzido, mostrando que você tem o domínio da arte.
    Abraços.

    • Tiago Volpato
      21 de outubro de 2015

      Voltando ao texto. Continuo achando o texto muito bem escrito, mas realmente eu não sou o público alvo da sua história, então fica até difícil opinar. Creio eu, que pro que você se propôs a fazer e pelo desafio em si, você construiu algo extremamente satisfatório. Apesar de não me identificar com o texto, dá pra ver que ele possui muita qualidade e tem o suficiente para se destacar.
      Parabéns e boa sorte!

      • Claudia Roberta Angst
        7 de novembro de 2015

        Que bom que achou meu conto bem escrito. Tentei caprichar.
        Não quis passar a ideia de Liana sentir nojo do maestro. Ela sentia-se atraída por ele, dominada pela sua aura de poder, mas não sentia repulsa. Liana admirava o maestro, seu talento, mas ao mesmo tempo sentia-se culpada por viver um relacionamento clandestino. A náusea era devido ao conflito, ao nervoso que sentia perto dele. Contudo, vou rever essas passagens para descrever melhor as sensações da moça. Obrigada pelo comentário.

  32. Maurem Kayna
    21 de setembro de 2015

    o suspense construído em torno do significado daquela peça musical em especial não se sustentou o bastante. A história de um misto de assédio e aventura erotico-afetiva o mestre deixando a moça dividida entre isso e seu novo amante é boa, mas alguns trechos parecem ter se espichado demais em descrições do modo de vestir ou do paladar sem que isso dissesse algo do conflito experimentado pela protagonista. É como se os fatos não casassem com a tensão criada em torno de suas atitudes.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Oi,Maurem! Não pensei em criar um suspense em torno do estudo de Lyaponov, mas sim uma atmosfera para desenvolver a trama do conto.
      Não sei se foi mesmo um caso de assédio, mas de envolvimento do professor e da aluna. Apesar de bastante jovem,Liana não era tão inocente assim. Benatti e Jonas eram homens bem diferentes, que mexiam com a jovem de maneiras diferentes. E por que ela não poderia experimentar isso? Por que não errar de vez em quando?
      A descrição do modo de vestir foi necessária para mostrar como Liana vivia duas histórias diferentes com os seus amores. Com cada um, ela era uma.
      Obrigada pelo seu comentário relevante. Valeu!

  33. Brian Oliveira Lancaster
    21 de setembro de 2015

    Gostei de toda a atmosfera criada em torno da pianista – um cotidiano bem diferente a ser abordado por aqui. A história tem um “Q” de trágica, mas consegue ser leve e suave ao mesmo tempo.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Quis criar essa atmosfera mesmo – melancólica,mas suave, sem pesar de mais. Tenho um histórico envolvendo piano e música, então foi natural abordar esse tema.
      Grata pelo comentário!

  34. Fabio Baptista
    16 de setembro de 2015

    Não tem muito o que falar aqui… a escrita beira a perfeição (só pra não perder a chatice nossa de cada dia, devo dizer que achei as falas da Nice um pouco artificiais) e a história é cadenciada na medida certa, um “morno” premeditado, que tem tudo a ver com o tema.

    Meu gosto pessoal não vai muito com essa poesia toda, mas aqui tive que me render ao talento da autora (tenho quase certeza que é a Claudia… e espero que seja, pra ela não ficar falando que nunca dei um 10! kkkkkkk).

    Vamos aguardar a segunda parte, torcendo para que a história não fique Sabrinesca! 😀

    NOTA: 10

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Ahahah, nem acredito que o senhor liberou um 10 para mim!
      Nice só está de passagem, levando uma quentinha para a mocinha. Não consegui desenvolver uma fala mais natural para ela.
      Morno? Morno premeditado? Combina bem com o estado melancólico da Liana,né?
      Poxa,economizei poesia neste conto. Juro que me segurei o máximo que consegui.
      Será que a segunda parte ficou sabrinesca?
      Valeu pelo comentário!

  35. Rubem Cabral
    14 de setembro de 2015

    Olá, Marcella Sontag.

    Veja, não gostei muito do conto. Está gramaticalmente bem escrito e tem algumas frases inspiradas, mas o enredo não me capturou, assim como os personagens.

    Há um tanto de repetição também, em especial o nome da Liana. Outro ponto que me incomodou foi a cena de se olhar no espelho, para descrever a aparência de alguém. É um recurso meio batido, quase um clichê.

    Enredo: 3 (0-6)
    Escrita: 3,5 (0-4)

    Abraços.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Olá, Rubem. A repetição do nome foi proposital já que eu queria revelar o jogo de troca das letras – Liana = Ana Lee. Vou rever para verificar se não exagerei na dose.
      Adoro espelhos, cenas com reflexos, nem me liguei que poderia parecer clichê. No próximo conto, vou passar longe …rs.
      Agradeço pelo seu comentário.

  36. Rogério Germani
    13 de setembro de 2015

    Olá, Marcella Sontag!

    Seu conto foi conduzido com maestria! Feito ópera, leva o leitor ao deleite com os pormenores da peça, principalmente por revelar a sordidez por detrás dos bastidores. Não é um fato original a situação envolvendo professor(a) X aluno(a) em assédios amorosos, mas o ritmo aplicado na trama convence-nos a esperar o desfecho no segundo ato.

    Nota 7,5

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Olá, Germani. Não sei se havia mesmo sordidez por detrás dos bastidores, mas Liana era bastante jovem e deixou-se influenciar pelo charme e aura de poder do maestro. Ele também não era um monstro, mas um homem com suas falhas de caráter e vaidade. Ah, o ego dos artistas!
      Obrigada por comentar.

  37. Ruh Dias
    12 de setembro de 2015

    Sensível, melancólico, boa apresentação daa personagens secundárias e gramática impecável. A única ressalva é: Liana precisaria reagir em algum momento do enredo para não pegarmos “birra” dela.

    • Claudia Roberta Angst
      7 de novembro de 2015

      Então, Ruh Dias, não poderia fazer Liana reagir pois ela estava muito mergulhada na melancolia do seu dia a dia. Não é uma personagem para se apaixonar,mas para se estranhar mesmo. Obrigada por comentar. Valeu!

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Publicado às 12 de setembro de 2015 por em Cotidiano Trevisan e marcado .