EntreContos

Detox Literário.

Tente um pouco de carinho (Eduardo Barão)

carinho

Western para adolescentes: era essa a proposta norteadora do musical “Purple Flame Saloon” organizado e apresentado pelos alunos do Chula Vista High School durante dois anos consecutivos. Tendo em vista o sucesso estrondoso da peça nos anos precedentes, fez-se necessário dar continuidade à tradição recém-consagrada para satisfazer pais e professores afoitos.

O musical, escrito pela professora e diretora de artes cênicas Indira Gupta (uma mulher muito criativa, mas dona de um senso de modéstia quase nulo), girava em torno do bar ao qual o título fazia referência. O Purple Flame Saloon — cujo cenário consistia em móveis de papelão e barris emprestados de uma feira expositiva qualquer — era palco de disputa contrastante entre garçonetes (afinal, o termo prostituta nunca foi bem aceito em núcleos estudantis), forasteiros irascíveis e um romance protagonizado pelos personagens que estampavam os panfletos de divulgação: Brick Barracuda, o filho desvirtuado do xerife; e Diana, a donzela indefesa responsável por cantar boa parte do repertório escolhido a dedo pela Sra. Gupta.

Entretanto, apesar do enfoque ardente no casal, uma personagem secundária também encontrava brecha para irradiar um brilho — infelizmente — ofuscado. Serendipity, a indígena apaixonada por Brick, contemplava a chance de cantar apenas duas músicas em cenas porcamente distribuídas. Em face da obviedade do roteiro, a pobre não era capaz de competir o amor do garanhão com Diana e seu nome caía no esquecimento da plateia antes mesmo do fim.

Após esta breve introdução regada a muitas cuspidelas em vasilhas de bronze, voltemos nossa atenção à heroína de nosso relato. A palavra heroína — de cunho divinizado e comumente utilizada para designar autoras de imensuráveis atos filantrópicos — infelizmente só se aplica ao contexto perante a relevância de nossa querida protagonista para a história, e não necessariamente devido à sua personalidade insossa ou seu destino pré-fixado.

Leonora Gutierrez nasceu como fruto do casamento de uma filipina com um madrileno; ambos radicados nos Estados Unidos. O lugar escolhido para exercerem tamanho amor não poderia ser outro. Chula Vista (Califórnia) era panorama de comunidades latinas, asiáticas e qualquer outro grupo étnico que não fosse americano. Desta junção carnal resultou uma imagem mais filipina que espanhola: Leonora, menina magrela de olhos puxados e pele levemente bronzeada, muitas vezes era confundida com japonesa ou até mesmo vietnamita.

Assim, associa-se uma pergunta ao exposto: isso era um problema? Claro que não. O pinoy pride prevalecia ante qualquer preconceito cultural. Avante!

Devidamente acordada, ostentando cabelos desgrenhados (última moda em Manila) e um moletom do time de cricket local, Leonora saiu de seu quarto bem disposta e imersa em um riso contido. A seleção de papéis para o musical se daria naquela manhã e nada a faria desistir da expectativa de ganhar algum papel na peça após dois anos abarrotados de sonhos e tentativas frustradas. Comeu alguns pedaços de manga que sua estimada nanay carinhosamente cortara em pequenas tiras para o café-da-manhã e apressou-se em sair de casa para pegar o ônibus. Caso a timidez não fosse um empecilho, certamente teria pulado e cantarolado sua vitória durante o trajeto.

— Tira esse sorriso da cara, Leonora. Todos sabem que a vadia da Gupta vai escolher Diana Clark para fazer o papel principal de novo. Eu sei que é um absurdo, mas não adianta choramingar pelo favoritismo.

Nem o pessimismo de Nadine (prima gorda, mordaz e sua melhor amiga por mera questão de conveniência) seria capaz de apagar toda a quimera acumulada e exaustivamente construída em sua mente. Sorriu amarelo e terminou de guardar seus livros no armário metálico. Não cogitava a hipótese de assistir Diana mais uma vez interpretando — coincidentemente — Diana. Nem o rostinho angelical e a cabeleira loura da dita cuja eram páreos para seu talento nato.

— Tenho certeza que o critério de avaliação vai ser a voz, e não o físico. Escute o que estou te dizendo! — Retrucou confiante, emendando uma risada baixa que soou convincente.

Com o sinal esganiçado ecoando pelos alto-falantes, os alunos dirigiram-se até o salão nobre e acomodaram-se nos assentos azuis à espera de Gupta e seus pronunciamentos pouco animadores. Assim, sem mais tardar, uma mulher extremamente baixa e com forte aspecto de boneco playmobil adentrou os aposentos e desfilou até o palco com uma prancheta em mãos. Ajeitou com dificuldade o pedestal até que o microfone se adequasse à sua pouquíssima altura e, suspirando fundo, começou a cuspir palavras envoltas por um desagradável sotaque oriundo de algum lugar que todos os presentes desconheciam.

— Primeiramente, gostaria de informar que as fichas para tortas de maçã ainda estão sendo vendidas na cantina em prol de fundos para a construção da nova sala de professores. Provavelmente todos já sabem, mas aproveito a oportunidade para enfatizar. Comprem. — A última palavra tinha um quê de ameaça. — Agora vamos às considerações iniciais…

A pequena Nora retraiu suas pálpebras isentas de curvas, fitando a megera de um metro e quarenta de forma tão compenetrada que quase chegava a babar. Nadine estourou uma bola de chiclete e precisou conter o riso. Ficava triste ao vê-la tão otimista, mas satisfeita por estar prestes a constatar que suas observações haviam sido certeiras desde o princípio.

— Depois de muitos testes, indicações, votos e todas as formas mais democráticas possíveis de seleção, estou convicta de que posso informar quem participará dos ensaios oficiais. — Pausa dramática. — Felizmente, podemos contar mais um ano com a presença de Diana Clark da décima segunda classe interpretando Diana. Proponho uma salva de palmas.

Os aplausos eram os menos entusiásticos possíveis. Na primeira fileira, Diana esboçava um sorriso tão ensaiado quanto o papel conquistado pela terceira vez, jogando seus longos e macios cabelos de Sol para o lado enquanto fingia estar surpresa com a ovação dos colegas. Arrogância era um luxo ao qual não podia recorrer: mostrava-se sempre simpática e sorridente; não bebia, oportunamente participava de campanhas anti-bullying e auxiliava na confecção das já citadas tortas. Uma genuína e amada mocinha, não só do western enfadonho voltado aos conterrâneos de Chula Vista.

Já na última fileira, as reações divergiam. Nadine soltou um “eu avisei” quase inaudível e Leonora permanecia de olhos arregalados; no entanto, sem qualquer resquício da esperança antes aparente.

Enquanto Gupta prosseguia com a relação de alunos e seus respectivos papéis, Nora pensava em como a vida havia lhe sido injusta. Fazia covers famosíssimos no YouTube. Aos onze anos, participara de um show de talentos conceituado no qual avançou até as semifinais; aos quinze, foi convidada para cantar o hino nacional antes de uma partida televisionada de gridiron entre times estaduais. Nenhuma cantora com tão pouca idade havia chegado tão longe naquela cidadezinha mergulhada em culturas emprestadas.

Neste indispensável rombo reflexivo da trama, uma pergunta assolou nossa pequena mártir do mundo artístico: por qual razão aquela desgraçada havia insistido no erro de escolher uma garota que nem sequer conseguia atingir um high note sem parecer uma cabra para o papel principal?

O queixo tremeu. As lágrimas que pendiam não tardaram a escorrer. Antes que pudesse atropelar Gupta e Diana mais uma vez em seu mundo imaginário, algo a fez despertar do transe em que se encontrava.

— E por fim, Leonora Gutierrez da décima segunda classe como Serendipity. Os ensaios começam terça-feira. Alguma objeção? Sugestão? Não? Ótimo. Então está tudo acertado. Não se esqueçam de comprar fichas na cantina durante o intervalo.

Olhares curiosos cercaram Leonora. Olhares satisfeitos. A protagonista, dona de um timbre estridente e extensão medíocre, finalmente teria uma oponente à altura. Oponente esta que finalmente teria seu valor reconhecido em uma peça rasa que não fazia jus ao seu dom inerente; de modo muito mais irônico que infeliz. Fato: apesar dos inúmeros pesares, nem tudo estava perdido.

E assim, bastou um sorriso debelador de lágrimas para que a nossa pinoy queen alcançasse o primeiro passo de sua apoteose particular. Tudo num passe de mágica. Alakazam.

***

Leonora evidente, indubitável e irrefutavelmente possuía uma voz muito mais marcante e afinada que Diana Clark. Mas isso não bastava para provar ao mundo (leia-se, Chula Vista) que havia sido injustiçada com um papel aquém de sua capacidade vocal. Para tanto, precisaria converter sua personalidade amena em uma memorável labareda de emoção e energia.

Os ensaios arrastaram-se durante semanas a fio com a loura cantando um disco de vinil inteiro e o resto do elenco discente fazendo mera figuração. Quem interpretava Brick Barracuda? Ninguém se importava. O desejado galã era apenas marionete de Diana: mal tinha frases de impacto e suas aparições resumiam-se a brigas, flertes e duetos românticos com sua prometida. À humilde Serendipity restavam poucas cenas e duas singelas canções — Eternal Flame e Try a Little Tenderness. Dois grandes sucessos oitentistas que de forma alguma se encaixavam no enredo à la old west incoerente redigido pela nem tão ilustre Sra. Gupta. Todavia, ater-se ao nexo do script não era uma de suas prioridades.

Emagreceu tanto que as bochechas enxugaram e costelas tomaram um aspecto saliente. Cortou relações como quem corta legumes com um cutelo. Definhando em seu subconsciente, restringiu toda a sua atenção e força de vontade ao que lhe interessava no momento: a peça e a repercussão que seu bom desempenho causaria. Não só decorou falas como suprimiu toda a sua essência para dar lugar à Serendipity; seus anseios, dores e sabores. Embora assustada, sua mãe compreendia tal obsessão após dois anos assistindo-a fracassar sem justificativas plausíveis, de modo que até incentivava a pequena a persistir com sua dramática experiência no mundo das artes. Estava tudo preparado: sem comer e sem dormir, gritou desesperadamente durante semanas todas as notas até chegar ao tom almejado. Virara sua própria professora, técnica e ajudante; mas não restava tempo para orgulho.

O dia de estreia finalmente chegara.

Caracterizada como uma Sacagawea texana às avessas, fazia o gargarejo com água atrás das cortinas enquanto a figurinista não-remunerada terminava de trançar seu cabelo com um barbante. Trajava um vestido que mais parecia um saco de pão e, descalça, permanecia com o braço estendido no ar para que a tatuagem digna de uma índia powhatan e feita com tinta própria para tecido secasse. Cada poro de seu corpo — marcado por dias de esgotamento psicofísico — formigava graças à fé que lhe respaldava desde o dia em que fora convocada para o papel.

Santa María, Leonora. Você está péssima.

Tamanho escárnio lhe soava familiar. Girou o pescoço e deparou-se com Nadine também vestida e maquiada como uma índia. Franziu a testa. Se ela não fazia parte do espetáculo, então não existiam motivos para submeter-se a tamanha humilhação. Tão logo descartou a hipótese da prima ter pensado em prestar apoio moral vestida a caráter, passou a prestar atenção no que a mesma dizia:

— Precisa comer alguma coisa, parece até um cadáver. — Antes de continuar, tomou fôlego. — De qualquer forma, houve uma mudança de planos hoje de manhã e eu não consegui te ligar a tempo. A saxofonista pegou rubéola e precisei substituí-la.

Nora fez um novo gargarejo, dando pouca ou nenhuma importância ao que acabara de ouvir. Só pensava em como ambas pareciam duas gêmeas estúpidas usando a mesma fantasia — ignorando a diferença berrante entre portes e estaturas.

— Tive tempo para ensaiar poucas músicas, então optaram por cortar Eternal Flame do repertório.

Cuspiu toda a água abarcada em sua boca. Com o choque irrecuperável surgiu uma vasta gama de dilemas: estrangular Sra. Gupta ou a saxofonista acamada, atear fogo no salão com a plateia dentro ou esperar até todos saírem, chorar até ficar desidratada ou improvisar um seppuku para lavar sua honra. Nenhuma alternativa parecia dolorosa o bastante para equiparar-se à desgraça na qual acabara de cair. Não bastasse o favorecimento explícito à Diana unido ao roteiro canastrão, estava sendo obrigada a abrir mão de uma das duas únicas chances que dispunha de mostrar ao público sua competência como cantora.

A visão turvou. Naquele momento de náuseas e sofreguidão quase refreada, tanto Nadine quanto o mundo pareciam girar ao seu redor.

— Vai começar!

Seria sensato de sua parte trocar de roupa, passar demaquilante para livrar seu rosto de meio quilo de maquiagem, pegar sua bolsa e ir para casa destilar indiretas venenosas em alguma rede social. Decerto não valia a pena trocar sua dignidade por míseros minutos de fama.

Contudo (e é com muito pesar que declaro tal ressalva), a sensatez não mais se sobressaía em face do esperado colapso que acometera nossa simplória heroína.

— É tua deixa, Leonora. Entra e arrasa! — Tremendo como uma vara de bambu salteada pelo vento, mal conseguiu despertar e reconhecer a voz que a orientara antes de ser empurrada palco adentro.

As chances de sair pela tangente foram abortadas. Passar meia hora agitando água com a boca não havia sido de muito proveito: sua garganta estava seca. Chorosa e desnorteada, esqueceu toda e qualquer fala, limitando-se a contornar o ambiente com os olhos. Notou que alguns integrantes da banda do colégio encontravam-se espremidos na lateral do palco, bem como avistou Diana e pôde constatar que a mesma parecia um bolo de casamento com seu vestido de pastorinha.

— Olá, doçura. Você é nova por estas bandas?

Brick Barracuda. Rapaz louro, alto. Não fosse o visual de cowboy, teria pinta de galã de soap opera infindável. Na cabeça, um country hat preto; no pé, bota com espora. Completando o visual, um coldre de couro na calça surrada cintilava ao exibir uma pistola de plástico muito similar a uma Remington 1858. Nora tinha sérios motivos para desconfiar dos méritos de Indira como roteirista, mas assumia em silêncio o ótimo trabalho na caracterização estética dos personagens.

— Er…

Esqueceu o script.

Ababelou-se.

Pranteou baixinho.

Fixou o olhar na plateia e teve a nítida visão de sua mãe colocando a mão na testa em sinal de constrangimento; ao mesmo tempo em que a sempre compreensiva Sra. Gupta lançava investidas de reprovação em direção ao palco, vermelha como pimenta-caiena. Não mais insistiu em prostrar-se diante da humilhação e impaciência alheia que lhe afligiam sem ponderar. Não mais.

Fechou os olhinhos.

Suspirou.

Um, dois, três.

Não apenas abriu os olhos, como sentiu nascer dentro de si uma flama que a consumiu em questão de segundos. Uma flama roxa, em conformidade com o nome da peça. Flama que tinha nome e presença — Serendipity. Entrar na personagem não mais constituía um artifício teatral: a neta do cacique apache dominara cada um dos sentidos anteriormente controlados por Leonora.

As fileiras de poltronas nas quais os espectadores encontravam-se sentados haviam se transformado em dunas de areia. Suas narinas estavam impregnadas com o cheiro árido de feno e esterco de cavalo. O Purple Flame Saloon não era mais fruto fictício da mente perturbada de uma professora de artes baixinha e pessoalmente intragável: podia tatear cada mesa e interagir com cada pessoa inserida naquele cenário. E, em suma, a pistola no coldre de Brick nunca havia lhe parecido tão verdadeira.

— Sou Serendipity, neta do mestre Sahale e eterna devota da Lua. Rogo humildemente por abrigo e comida.

Brick estendeu sua mão de encontro à dela e, numa romântica reverência, flexionou seus lábios sobre a pele macia e curvou o rosto para baixo, fazendo com que a sombra do chapéu camuflasse seus olhos dissimulados. Diana, visivelmente enciumada, bufou e fez seus cabelos revolutearem com o abano de um leque bordado contra a face coquete.

As falas fluíram com precisão. Se antes sobravam indícios de que Nora estava nervosa, naquele momento não restavam dúvidas de que a mesma havia se recuperado como uma fênix pronta para enfrentar sua adversária e conquistar o afeto do cafajeste em pele de cordeiro. A peça desenrolou-se com parcas e porcas reviravoltas: duetos desafinados ali, bang bang acolá.

Serenora (a junção nominal entre intérprete e personagem talvez cause menos confusão e mais conforto ao leitor) precisava apenas de uma abertura propícia para cantar sua primeira e única música. Eternal Flame fora retalhada da trama, mas a trama não precisava dela. Dura realidade: a trama nem ao menos precisava de Serendipity.

— Oh, doce e serena neta do mestre Sahale. Teu espírito de bondade me encanta, mas prometi amor à Diana e não há nada que possa ser feito para alterar meu destino.

Novamente, aquela era sua deixa. Segundos após a última fala de Brick, o som do saxofone de Nadine reverberou pelo saloon. Na sequência, o resto da banda passou a acompanhá-la. As primeiras notas emitidas pela boca de nossa talentosa heroína foram suaves como o canto puro de um rouxinol à beira da janela. A índia-filipina passou a explorar o palco em movimentos bem sincronizados, cercando o cowboy e despertando sua atenção. Diana finalmente ficara em segundo plano: na peça, no coração de Brick e no foco do público.

A letra — escrita a seis mãos e conhecida mundialmente através da bela interpretação de Otis Redding — nada mais era que um delicioso discurso relativo ao ideal tratamento de uma dama. E clamando para que o filho do xerife tentasse um pouco de carinho, uma extasiada Serendipity conversava melodicamente com seu amado sem fazer rodeios.

Com o som do saxofone ficando cada vez mais alto, suas feições tomaram ares agressivos e o tom de sua voz intensificou-se. As notas altas e os melismas perfeitamente executados eram escoltados por uma rouquidão que rasgava o ar e ressoava como grunhidos cheios de sentimento. Membros da plateia permaneciam boquiabertos em seus assentos. Diana tentou controlar o choro. Sra. Gupta quase teve uma síncope em sua poltrona.

Quatro longos e impressionantes minutos haviam se passado. Antes de entoar a última frase, Leonora sentiu algo banhando o filtro de seu lábio superior. Sangue. Aquela pequena hemorragia nasal era resultado claro da rotina exaustiva de treino que se forçara a cumprir nas últimas semanas.

Try… A little…”.

As pernas bambas já não sustentavam mais o resto do corpo. Acoplou todas as forças que ainda lhe restavam para exprimir uma última e altamente destrutiva nota.

TENDERNEEEEEEEEEEESS”.

E estatelou-se no chão como fruta madura caindo de uma árvore. Em pouco tempo, uma multidão em pé aplaudiu emocionada a performance voraz da garota com feições asiáticas, nome latino e voz de negra que naquele exato momento encontrava-se desvanecida sobre o piso amadeirado. A plateia — incluindo os que já haviam acompanhado o musical em suas edições passadas — certamente pensava que o desmaio fazia parte da encenação; mesmo porque a peça se amoldara a diversas mudanças em função da notória incompetência de sua principal organizadora. Os elementos do elenco, cientes de que aquilo não estava previsto no roteiro, correram até Leonora no intuito de acudirem nossa desventurada heroína.

Antes que suas vistas fossem definitivamente obstruídas pelo breu da fadiga extrema, conseguiu enxergar Brick ajoelhado à sua frente. O intérprete a tomou nos braços e seu olhar parecia brilhar num misto de preocupação e admiração pelo que acabara de testemunhar. Os aplausos não eram mais relevantes. O objetivo traçado e alcançado dizia respeito exclusivamente à Serendipity, que só teve tempo para pensar em como Diana deveria estar se remoendo de inveja por não ser mais o centro das atenções antes de finalmente desfalecer.

E assim, num passe de mágica, deu-se o segundo passo da apoteose particular de nossa alucinada pinoy queen. Aquele era o final perfeito para o western teen promovido pelo Chula Vista High School e, se dependesse dela, as cortinas vermelhas poderiam ser fechadas sem maiores problemas. Alakazam.

…………………………………………………

Nota:

Para uma interessante experiência audiovisual, recomenda-se ao leitor ouvir a versão cantada por nossa querida protagonista: https://soundcloud.com/leonora-g/try-a-little-tenderness

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2 comentários em “Tente um pouco de carinho (Eduardo Barão)

  1. Fabio D'Oliveira
    21 de agosto de 2015

    ☬ Tente um pouco de carinho
    ☫ Eduardo Barão

    ஒ Físico: O autor mostra que possui um grande domínio da língua portuguesa e na arte da escrita. A habilidade está bem refinada, tendo como resultado uma narrativa fluida e envolvente. O maior pecado é cair, por vezes, na superficialidade. Com um pouco mais de carinho, o escritor consegue contornar esse problema.

    ண Intelecto: Esse texto exemplifica muito bem que o poder criativo vai além das ideias inovadoras. Sua maior influência está no processo de criação da estória e, às vezes, na estruturação da parte física do texto. Além disso, percebe-se que o autor pensou muito na estória e nos personagens. Está tudo muito bem construído. Só peço que preste atenção ao fator da superficialidade mais uma vez. A situação ficou muito caricata, fugindo muitas vezes da realidade. A protagonista, por exemplo, não tem um poder magnético forte, sendo fácil desgostar dela.

    ஜ Alma: Um texto que revela a beleza técnica do autor, mas uma pequena deficiência na alma. A superficialidade é uma armadilha cruel e impiedosa que muitos autores e leitores chegam a admirar. Mas esquecem que essa superficialidade revela uma coisa… A falta de talento.

    ௰ Egocentrismo: Não consegui gostar do texto, mas consegui admirar o trabalho em sua totalidade. Narrativa excelente e estória concisa. O maior problema para mim foi a superficialidade contida no texto. A leitura se tornou cansativa depois da primeira parte…

    Ω Final: Um texto excelente que irá agradar grandemente os leitores mais racionais e chamar a atenção dos leitores mais emocionais. Toda a estrutura física do conto revela a força do autor na arte da escrita. E toda a estória mostra seu poder criativo. O autor precisa tomar cuidado para não cair na armadilha do estilo prolixo que muitos adoram na atualidade.

    ௫ Nota: 8.

  2. Rogério Germani
    21 de agosto de 2015

    Olá, Barão!

    Gostei da levada western que você criou: tem humor, questionamentos adolescentes, quase uma paródia do High School Musical…
    Parabéns por apresentar personagens afinados com a sátira vocal!

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Publicado às 19 de agosto de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .