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Detox Literário.

À Espera do Mestre (Rubem Cabral)

demoras-de-deus

O que relatarei foi testemunhado por mim, por puro acaso. Não intenciono trazer lições ou ensinar moral, pois não acredito em tais coisas. Talvez o que contarei poderá servir de alerta para que não cometamos nós mesmos erros iguais, ou nem para isto. Não confio em homens ou deuses, apenas acredito em meus sentidos e, acima de tudo, sou adepto da Igreja da Minha Santa Sobrevivência.

Eu vagava meio sem rumo pela cidade de Manado, nas Filipinas; não tinha morada certa e já conhecia bastante àquela vizinhança, onde um casarão de muros amarelos e muito altos se destacava. Havia um jardim meio maltratado à frente do lugar e algumas colunas em espiral, de gosto francamente duvidoso. Nos fundos, se destacava somente um enorme quintal acimentado e liso; estéril como um deserto. Por motivos que logo ficarão claros, chamei tal horrível edificação de Castelo dos Sete Fanáticos ou Grande Prisão Amarela.

Foi numa manhã até bonita, que vi pela primeira vez os sete chorando após a despedida do Mestre.

— O Senhor irá em busca de mais conhecimento e logo voltará – dizia o maior deles aos outros seis. De imediato, batizei aquele indivíduo formidável de Estúpido Otimista ou Grande Protetor.

— Ai de nós, o que seremos sem o Mestre? O que fizemos para ofendê-lo, para que decidisse nos abandonar? – Falava a fêmea branca e bonita, que apelidei de Graciosa.

— O Amo nos testa, certamente. Ele espera que em sua ausência nos comportemos de forma ideal, que sejamos dignos de seus ensinamentos – gaguejou um magrelo de olhos nervosos, o Guardião da Moral.

Os outros quatro jovens e pequenos apenas observavam, nervosos. Somente um deles, o mais feio e fraco comentou:

— Não significamos nada para Ele. Não faria diferença para o maldito se morrêssemos todos – naturalmente, dei-lhe a alcunha de Pequeno Amargo, para separá-lo dos três outros sem nomes, que mudavam de opinião conforme os maiores se manifestavam.

Notei que as reservas de alimentos e água do grupo eram parcas e que, sem se importar com o dia seguinte, todos avidamente consumiram suas porções até ficarem satisfeitos, como se tudo estivesse normal. Quase que rezei pelo bem daqueles tolos; ao menos cheguei a desejar, sinceramente, que o tal Mestre logo retornasse.

Era chegada a época das monções, e apesar do calor, chovia forte quase todas as tardes. Dois dias depois, voltei a observar o grupo, que recolhia ávido a água que descia pelas calhas do casarão após a tempestade.

— O sacrifício enobrece. O jejum de água e comida purifica. – Repetia o esquálido Guardião aos outros, ainda mantendo a cabeça elevada e certo ar de superioridade.

— Em breve o Mestre irromperá através dos portões. Trará tanta comida, tantas iguarias, tanta água pura e fresca quando se é possível consumir, vocês verão. – Comentou o maior de todos.

— Eu afirmo, ora, eu afirmo e reafirmo; o Mestre nos abandonou por causa dos pequenos! Ele não suportava mais estas criaturinhas sem modos e barulhentas – resmungou a Graciosa.

— Não diga isto, querida! Os pequenos são inocentes e o Amo é bom, profundamente bom – insistia o Grande Protetor.

— O desgraçado nos deixou para morrer de fome! Sinto minha barriga doer tanto que nem consigo dormir! Seria mais justo se houvesse nos eliminado a tiros ou envenenados; ao menos seria rápido – refletiu o Pequeno Amargo.

Os outros três pequenos apenas sorviam a água e sacudiam as cabeças, concordando com os comentários díspares, sem se importar.

O Guardião descobriu-me espionando-os e disparou, perdendo toda a empáfia que o caracterizava:

— Desça aqui, infeliz. Desça, seu bastardo, e faremos você se arrepender por testemunhar nosso infortúnio!

Naturalmente, abandonei meu posto de observação e escapei, enquanto todo o grupo gritava e xingava tão alto que poder-se-ia escutar a quase um quarteirão dali.

Passaram-se talvez mais cinco dias, quando curioso em demasia eu retornei. O Pequeno Amargo parecia agonizar de fome, deitado no chão com o abdômem para cima e rodeado pelo grupo.

— Sonhei com o Mestre ou delirei, não sei. Talvez, afinal, ele fosse bom, talvez tenha viajado para limpar o grupo dos dissidentes da fé; de gente como eu. Eu não merecia o amor do Amo! Eu sou o culpado por tudo que estamos passando.

— Não diga isto, pequeno – respondeu a Graciosa, estranhamente gentil e compreensiva. — Eu também comecei a pensar que ele não nos merece, que não foi justo ou bom, como você sempre tão sabiamente nos avisou. Você e os outros pequenos são inocentes, eu estive errada, desde sempre.

— Pode ser – continou o pequeno – pode ser que o Amo me perdoe se eu fizer um sacrifício. Talvez até minha alma poderá ser salva assim!

De longe, notei um brilho estranho nos olhos que começavam a embaçar.

— Matem-me e devorem meu corpo! O Mestre queria uma prova de fé, só pode ser. Sejam gentis e deem-me um fim rápido e salvem-se também. Minha carne é pouca, mas fará vocês resistirem alguns dias a mais.

O Guardião da Moral, cabisbaixo, nem sombra do indivíduo orgulhoso de dias atrás, nem pensou duas vezes, certamente empolgado pela possibilidade de forrar o estômago.

— Não! – Gemeu a Graciosa. — Isto não está certo!

Mas já era tarde; o pequeno, com pescoço partido e rubro, agitou um pouco os membros e por fim ficou estático. O Grande Protetor foi o primeiro a provar da carne, enquanto selvagemente afastava os outros. Chocada, a Graciosa havia se retirado e deitara desconsolada sob uma das poucas sombras do local.

— Não há o suficiente para todos! Primeiro os mais velhos e os mais fiéis ao Mestre.

— Fui eu que o matei – contestou o magrelo. — É direito meu ter o maior quinhão.

— Ousa me enfrentar, seu verme? Quer ser o próximo? Você não é páreo para mim. É magro, mas seguramente tem mais carne que esta coisinha desprezível.

Acuado, o esquálido se afastou e só retornou quando o Protetor saiu e os pequenos tentaram comer também.

— Fora! É minha vez! Fora ou devoro vocês também. Pensando melhor, quase não há mais carne nesta carcaça…

Fechei os olhos e tentei ignorar os gritos, enquanto o Guardião da Moral abatia outro dos pequenos sem dó.

Outra semana se passou e, quando retornei ao meu posto de observação, só vi os três. A Graciosa muito abatida, o Estúpido Otimista e o Guardião feridos e cansados demais. Nem ossos dos quatro pequenos podiam ser vistos pelo chão.

Neste momento, uma surpresa! Um ruído nos portões, um barulho de arrastar malas pesadas, de abrir as portas da frente, de passos duros pelos cômodos e na cozinha, seguidos do som de chaves girando na porta que dava para os fundos.

— O Mestre! – Gemeram todos os três, quase em uníssono.

No entanto, não havia mais aquela adoração fanática, não havia mais dúvidas sobre o amor ou a santidade do amo. Unindo suas forças combalidas, os três atacaram o homem gorducho e de meia-idade, que gritou e tentou fugir.

A Graciosa, ah, ela saltou com agilidade e cravou os dentes no pescoço gordo e odioso. O Guardião e o Otimista flanquearam o Mestre, atacando suas pernas e braços, dilacerando seus membros facilmente. Quando o homem caiu, numa comunhão de objetivos que chegou a me emocionar, eles reuniram esforços e destacaram a cabeça, que finalmente parou de berrar. Arrastaram o corpo até o quintal cimentado e coberto de fezes e o devoraram, ávidos,, por várias horas depois.

— A carne do Mestre é apenas carne; nem melhor ou pior – falaram com as bocas cheias. Tais palavras foram a última coisa que escutei, ao abandonar o topo do arbusto que ficava junto do muro da Grande Prisão Amarela.

Mais tarde, enrodilhado e aquecido num pedaço de pano numa varanda que invadi, refleti sobre a fé e sobre os homens e os cães. Depois, me esqueci daquela bobagem e, escutando o ruído reconfortante de meu próprio ronronar, dormi um sono tranquilo sem pensar mais no destino daqueles infelizes.

Link para a notícia que inspirou o conto.

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3 comentários em “À Espera do Mestre (Rubem Cabral)

  1. Fabio Baptista
    23 de agosto de 2015

    Precisei de duas leituras para sacar algumas nuances do texto (e provável que ainda assim deixei muitas outras para trás), mas valeu muito a pena.

    Da primeira vez tinha notado as alusões religiosas e tal, mas não gostei muito. Agora, com as coisas mais claras, ficou bem mais evidente a criatividade do autor.

    Muito bom.

  2. Fabio D'Oliveira
    23 de agosto de 2015

    ☬ À Espera do Mestre
    ☫ Rubem Cabral

    ஒ Físico: Conheço esse autor há muito tempo. Essa obra representa com excelência sua capacidade como escritor. Possui um gigantesco domínio sobre tudo que se resume à estrutura física de contos.

    ண Intelecto: Percebe-se que o autor pensou e planejou muito. O texto emana criatividade, seja na ideia, seja na estrutura geral. O maior problema é que o conto é previsível. Um leitor mais atento percebe na metade do texto o que está acontecendo e quem são os personagens. É bem caricato.

    ஜ Alma: Já li muito contos desse autor. É verdade! Ele mantem o mesmo estilo. Continua esbanjando criatividade. Mas parece que não mudou muito do que era antes. Se não está estacionado no tempo, está evoluindo muito devagar. Ainda sinto aquele ar um pouco superficial.

    ௰ Egocentrismo: Gostei muito da narrativa e da leitura, em geral. Apesar da previsibilidade, a estória tem seu charme.

    Ω Final: Um texto glorioso em praticamente todos os seus sentidos, no entanto, preso no âmbito superficial da literatura.

    ௫ Nota: 8.

  3. Piscies
    21 de agosto de 2015

    Uma parábola bem interessante. Não sei se foi o seu objetivo, mas o cunho religioso do texto é palpável para mim, tanto como crítica ao fanatismo e à cegueira religiosa, quanto como um incentivo à ampliação dos horizontes (afinal, tudo o que eles tinham que fazer era sair dos portões da “prisão” e buscar comida).

    Gostei disso aqui. Gostei mesmo. Parabéns!

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Informação

Publicado às 21 de agosto de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .