EntreContos

Literatura que desafia.

A Música na Literatura – Artigo (Carlos Henrique Gomes)

8044385_orig

A literatura não é tão rica de música quanto a música é de literatura. Escrever sobre música é um desafio e tanto, mas existem obras primas da literatura universal que a exploram de forma intensa. O escritor francês Marcel Proust (1871-1922), em sua obra “No caminho de Swan” (1913), faz da sonata do Senhor Vinteuil quase um personagem do romance.

“No caminho de Swan” é o primeiro de sete volumes de “Em busca o tempo perdido” e na obra toda são citados quase cinquenta compositores que vão do barroco e rococó, passando pelo classicismo e romantismo, até o modernismo, balés russos e poemas sinfônicos. Entre eles estão nomes conhecidos como: Bach, Mozart, Beethoven, Schumann, Schubert, Chopin, Verdi, Wagner e Stravinsky. Proust era dotado de um gosto musical refinado e entendia bem do assunto o que lhe permitiu escrever tanto sobre música nessa extensa obra. (1)

Considera-se que a “Sonata de Vinteuil” é a “Sonata para Violino em Lá Maior” do compositor belga             César Franck (1822-1890) ou pelo menos muito parecida. (2) Proust escreveu numa carta datada de 1895: “A essência da música é despertar em nós um fundo misterioso de nossa alma, que começa onde o finito e a ciência param, e que se pode chamar por isso mesmo de religioso.” (3) A “Sonata de Vinteuil” fisgou o personagem Charles Swan através de um pequeno trecho que o emocionou de uma forma toda especial como se despertasse “um fundo misterioso” de sua alma.

Proust dedica muitas páginas mergulhando fundo no que representa o pequeno trecho da sonata para Swan, enquanto aparece na vida deste Odette de Crécy que se torna seu grande amor. Swan é um ciumento compulsivo e no tormento que passa a ser sua vida por causa disso, a “Sonata de Vinteuil” ganha um significado cada vez mais profundo.

O autor trabalha o isso e muito mais no cotidiano de seu personagem. A música pode pertencer a um domínio “divino-invisível”, mas nunca fora do nosso cotidiano. Como leitor, confesso que sinto falta de música na literatura e como escritor de final de semana até que tento amenizar essa falta.

Outras iniciativas de maior expressão acontecem em desafios de contos na internet. No mês de setembro de 2014 ocorreu, no blog Entre Contos (http://entrecontos.com), o desafio com o tema “Música”, que contou com quarenta contos inscritos. Entre os meses de março e abril deste ano, o Desafio de Terror do Site Recanto das Letras, o famoso DTRL (http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=169222), teve como um de seus cinco temas a música. Foram trinta e quatro contos participantes, sendo dez sobre música, inclusive o meu.

Voltando à obra de Proust. “Em busca do tempo perdido” tem uma característica ímpar: sensações como toque, cheiros, molhar um biscoito no chá, músicas ou até um tropeção que levam o narrador às lembranças do passado. Como todos temos pelo menos uma música marcante na vida, nem precisa dizer que ela é parte importante do nosso cotidiano.

Proust escreve sobre música, em geral, fazendo uma análise técnica em forma de reflexões como se fosse um fã e não como especialista; mesmo que pareça um. Tendo esse estilo como ponto de partida, pergunto-me por que escrevemos pouco sobre esse tema fascinante e não chego a uma resposta satisfatória.

Seria por causa das sensações complexas que a música desperta? Porque o autor não encontra, dentro da profundidade de seu personagem, onde encaixar a música? Pela dificuldade de casar a personalidade do personagem, seu contexto dentro do conto ou o objetivo do autor com a música? Não consigo encontrar uma resposta e nem poderia. Posso falar por mim e como amo música, pode ser que tenha menos dificuldades com o tema, mas é provável que minha dificuldade seja como a de todos.

E quem disse que escrever é fácil? É um desafio quase impossível vencer a folha branca ou a tela do computador com o cursor piscando (aquele tracinho na vertical) à espera da primeira letra. Mas quando germina a primeira palavra, a primeira frase, quando irrompe a tempestade cerebral, nesse momento a produção literária materializa-se. E por que não pode sair música dessa tempestade?

Imagine que o cursor piscando na tela do computador é uma clave de sol esperando pela primeira nota musical da partitura e que você, escritor, quer dar de presente aos seus leitores uma sonata tal qual a “Sonata de Vinteiul” que fisgue um deles como aconteceu com Swan. Imaginou? É esse o princípio de tudo.

Texto originalmente publicado na revista digital Contos & Vozes nº 2, em http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5317224

Anúncios

7 comentários em “A Música na Literatura – Artigo (Carlos Henrique Gomes)

  1. Claudia Roberta Angst
    7 de agosto de 2015

    Não consigo separar música de literatura. Para mim, está tudo junto e misturado. Escrevo sempre desenvolvendo uma trilha sonora real ou imaginária. Vou imaginando desenhos, fantasias, tudo de acordo com a música que me vem.Imagino que a clave de sol,, ao fim do dia, abre a porta da noite para as notas entrarem. Quando um novo dia nasce, estão todas ali penduradinhas nas linhas, fazendo arte, equilibrando-se na harmonia e cochichando melodias. As frases têm ritmo, as palavras são ora quiálteras apressadas,ora apenas silêncio em pausas.
    Não dizem que a Língua Portuguesa é melodiosa? E que algumas pessoas possuem sotaque particular e falam cantando? Então, tudo é música, mesmo quando a mente se cala. Os personagens nem sempre parecem ouvir nossa música, mas eles dançam. A inspiração assobia ideias e palavras. Assim, vai-se compondo arte, seja ela qual for.
    Eu era muito jovem quando li A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. E um trecho me conquistou:
    “Enquanto as pessoas são mais ou menos jovens e a partitura de suas vidas está somente nos primeiros compassos, elas podem compô-la juntas e trocar os motivos, mas quando se encontram numa idade mais madura, suas partituras estão mais ou menos terminadas, e cada palavra, cada objeto, significa algo diferente na partitura de cada um.”
    É isso! Música é vida. Vida é música. Seja ela real ou criação de um escritor.
    Adorei seu artigo.

  2. Gustavo Castro Araujo
    6 de agosto de 2015

    Seu artigo me fez lembrar um dos poucos livros sobre música que li. Bem, não é exatamente um livro sobre música em si, mas sobre o que a faz brotar. É o fantástico “Stradivarius”, de Toby Faber. Nele, o autor conta não só a história do violino mais famoso de todos os tempos — falando sobre o artesão de Cremona que o criou — mas também aborda a relação do instrumento com cinco de seus mais talentosos proprietários — músicos — como Paganini e Mary Hall. Depois de ler essa obra, confesso que senti vontade de aprender a tocar, mas tive que me recolher à minha insignificância musical. Não dá para tirar leite de pedra, rs

    Por outro lado, há também o excelente “Dias de Luta”, que trata da formação do rock brasileiro dos anos 80. Para o pessoal da minha geração, é uma espécie de viagem no tempo, daquelas que despertam saudades e uma pontinha de melancolia. Saber dos bastidores da Blitz, do Barão Vermelho, da Legião Urbana, enfim, de tanta banda legal, faz a gente sentir uma saudade enorme daqueles dias e execrar esse monte de lixo que temos hoje.

    Enfim, meu amigo, um artigo excelente, que mistura dois elementos do que há de melhor na cultura. Impossível não gostar. Parabéns.

    • Carlos Henrique Fernandes Gomes
      6 de agosto de 2015

      Muito obrigado, Gustavo, pelo incentivo e pelo espaço. Você conheceu a revista Contos & Vozes? Virei fã logo na primeira edição pela linguagem acessível para todos e pelo conteúdo que me atraiu bastante. Recebi o convite para escrever um artigo sobre música e saiu isso. É meu primeiro artigo. Se não fosse o Marcel Proust com a Sonata de Viteuil, não sei o que faria. Mais uma vez e sempre, muito obrigado por tudo.

  3. Fabio Baptista
    6 de agosto de 2015

    “Sem música, a vida seria um erro”.

    Às vezes tento empregar uma certa musicalidade nos textos. Mas é raro, difícil de executar e em geral o resultado não fica a contento.

    Normalmente faço referências diretas ou indiretas a determinadas músicas. Mas ninguém percebe.

    • Carlos Henrique Fernandes Gomes
      6 de agosto de 2015

      Tenta aumentar um pouco o volume. Lembro que o Sherlock Holmes da Praça da República estava compondo a continuação de uma música inacabada. Ele é um músico também; não tem como fugir disso. Tem cena que não dá, mas tem aqulas que o personagem ouvindo música, deixa ele mais “humano”. Mas não depende só disso, é claro. Você percebeu que virei fã do Sherlock Holmes da Praça da República?

  4. Eduardo Selga
    6 de agosto de 2015

    A observação é muito pertinente, mas me parece que o fazer literário ficcional é necessariamente carregado de musicalidade. Tanto que, mesmo definido de maneira um tanto precário, há dois ritmos literários: o da poesia (não necessariamente do poema) e o da prosa. No primeiro caso, é nítida a intenção de fazer o leitor ater-se à forma composicional, pela escolha das palavras que provoquem a sensação de música; no segundo caso, o enredo tem supremacia, de modo que a construção sonora é feita de modo a “iludir” o leitor, a fazer com que ele pense erroneamente que na prosa não existe ritmo. Em ambos os casos, a música pode até não ser o tema, mas a musicalidade, necessariamente, nós a encontramos tanto na prosa quanto no verso.

    Falando apenas de prosa, os próprios personagens, quando bem elaborados, apresentam determinado ritmo e costumam imprimi-lo à trama, de modo que, no caso específico do conto, a união de dois ou três personagens que o constituem, significa a união de dois ou três ritmos, harmoniosamente. Como numa orquestra. A exaltada função emotiva da linguagem, no texto ficcional ganha relevo, dentre vários motivos, por causa desse ritmo cadenciado, do qual o regente é o autor.

    Aqui no Entrecontos, por exemplo, é possível descobrir o autor de um texto se prestarmos atenção na cadência usada. Há autores dramáticos, que carregam nas cores e, portanto, no ritmo; outros, constroem personagens em tons pastéis, como se houvesse ao fundo um acompanhamento de flauta. Outro item é o uso das classes de palavras. A larga utilização de adjetivos e dos advérbios, normalmente indica um ritmo, uma musicalidade dramática, ao passo que seu uso comedido faz o oposto, ou seja, empresta ao texto um ritmo menos carregado.

    • Carlos Henrique Fernandes Gomes
      7 de agosto de 2015

      Eduardo, uma aula de música você deu! Encerrada uma fase, com objetivos específicos, vou para próxima fase fazer uma literatura com o que extraí dos comentários recebidos nos desafios e buscar meus objetivos. O esforço para esse ritmo musical que você tão bem explanou no seu comentário é um dos objetivos e agora tenho mais essa informação preciosa para consultar. Muito obrigado por isso.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 5 de agosto de 2015 por em Artigos e marcado .