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Literatura que desafia.

Marina – Resenha (Fabio Baptista)

“A gente só se lembra do que nunca aconteceu…”

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Nos anos 90 não tinha IMDB, Metacritic, Pablo Villaça nem nenhuma outra dessas frescuradas que tem hoje.

A qualidade dos filmes era medida pela expectativa gerada nas escolas no dia seguinte ao anúncio da programação da “Tela Quente” ou “Sessão da Tarde”.

“Aventureiros do Bairro Proibido”, por exemplo, gerava uma comoção proporcional a um pequeno apocalipse, “Fuga de Nova York” deixava as crianças mais elétricas do que aquele suco que vinha num plástico de jacaré e era metade açúcar metade corante e “Curtindo a Vida Adoidado” fazia diretoras, professoras, inspetoras e até as mulheres da cantina entrarem em estado permanente de alerta, não importava quantas vezes fosse repetido.

Já “Os Trapalhões” e “Super Xuxa Contra o Baixo Astral” produzia a mesma animação e vontade de viver que um dia de chuva.

Um dos filmes que mais geravam expectativa (e, portanto, um dos filmes bons) era “A Fera do Rock” (Great Balls of Fire) que conta a vida do cantor Jerry Lee Lewis. Sendo bem sincero, eu gostava mais desse do que de “Curtindo a Vida Adoidado”, mas nunca tive coragem de dizer isso na escola com medo da zoeira eterna (na época não existia “bullying”) que certamente iria sofrer.

Numa das cenas clássicas desse filme, o Jerry Lee Lewis (magistralmente interpretado por Dennis Quaid) fica puto porque colocam ele pra abrir o show de um outro cara. Ele se achava o astro mais foda do mundo (filmes que moldaram meu caráter! :D) e era inconcebível não ser a atração principal da noite. Bom… ele acaba indo fazer o show. E o fdp faz o melhor show que se pode imaginar: sobe no banco, toca com os pés, com a testa, com a bunda, corre de um lado pro outro e no final taca fogo no piano. A plateia, evidente, entra num frenesi de pulos e gritos e mãos esticadas em direção ao palco num surto incontrolável de lágrimas (algo parecido com o que vemos nos documentários sobres os Beatles… ou nas apresentações do Justin Bieber, usando um exemplo mais contemporâneo).

Daí o Jerry sai do palco, cruza com o cantor que seria a atração principal da noite e fala:

— Vai lá… faz seu show agora.

O cara (que esqueci quem era, mas é famoso também) fica com cara de botóx, afinal, por melhor que fosse, os espectadores (e até ele próprio) iriam achar o show uma merda, porque algo definitivamente arrebatador ainda estava muito fresco na memória.

Enfim… enrolei tudo isso para dizer que li “Marina” depois de ver o show do Jerry Lee Lewis.

Ou melhor, depois de ter lido “O Amor nos Tempos do Cólera”, do Gabriel Garcia Márquez. Eu ainda estava impressionado com aqueles parágrafos gigantes, aquelas frases que não acabavam mais, cheias de vida, humor, reflexões, magia e a simplicidade mais genial que já vi. Daí peguei Marina e logo de cara já torci o nariz com as frases curtas, as figuras de linguagem que, apesar de bem construídas, aparecem mais que artigos e substantivos e uma hora começam a encher o saco. A isso, soma-se a trama… infantil (no mau sentido da palavra) e meio sem pé nem cabeça (literalmente! :D).

E assim Carlos Ruiz Zafón ficou parecendo um adolescente apaixonado escrevendo cartas para a namorada após a inevitável comparação com Gabriel Garcia Márquez.

Talvez se eu tivesse lido “A Sombra do Vento” (que li há uns 2 anos e gostei bastante), a luta tivesse sido mais justa. Mas com “Marina”, não teve jeito. Aliás, “A Sombra do Vento” foi outro fator que contribuiu com minha má impressão de “Marina” – eu estava com mais expectativas em relação ao autor.

É tudo uma droga, então?

Não! Zafón escreve bem. Muito bem. Quando o foco do livro está na exploração da alma humana através do relacionamento de amizade entre Óscar, Marina e Gérman (pai de Marina), a história chega a brilhar em momentos até bem comoventes. Destaquei um trecho que achei particularmente genial:

“Naquela noite, Mijail disse que a vida concede a cada um de nós apenas alguns raros momentos de pura felicidade. Às vezes são apenas dias ou semanas. Às vezes anos. Tudo depende da sorte de cada um. A lembrança desses momentos nos acompanha para sempre e se transforma num país da memória ao qual tentamos regressar pelo resto de nossas vidas, sem conseguir. Para mim, tais instantes estão enterrados para sempre naquela primeira noite, passeando pela cidade…”

Mas infelizmente esses trechos não ocupam nem metade da história. O restante é preenchido com uma trama de mistério ao estilo “desvendar o passado” que não empolga e exige uma boa dose de suspensão de descrença para ser levada adiante. É tipo um Dan Brown com belas figuras de linguagem, mas com as pernas amarradas, sem aquele ritmo frenético.

O final é bom. Em outras resenhas eu vi que muitas pessoas não gostaram, mas para mim foi a melhor parte. Infelizmente nessa altura do campeonato o estrago já estava feito.

No geral, é um livro que recomendo apenas para quem se propor a conhecer a obra completa do Zafón. Do contrário, eu começaria pela “Sombra do Vento” e continuaria com os outros dois da trilogia (que não sei se é bem uma trilogia, mas enfim).

Esse não chega a ser um “Trapalhões na Terra dos Monstros”, mas está ainda mais distante de ser um “Os Goonies”.

Avaliação: ** (Regular)

Fabio Baptista

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Sobre Fabio Baptista

2 comentários em “Marina – Resenha (Fabio Baptista)

  1. Gustavo Castro Araujo
    19 de agosto de 2015

    “Marina” deve ser lido como uma noveleta infanto juvenil, sem compromisso. Com essa pré-concepção em mente, fica mais fácil aproveitá-lo. Eu gostei do início da história, quando o menino (já esqueci o nome dele) entra na casa antiga e encontra a garota. Depois a narrativa deriva para algo próximo do sobrenatural e isso causa certo desconforto, mas nada que prejudique a experiência.

    O problema é que tendemos a comparar “Marina” com “A Sombra do Vento” e “O Jogo do Anjo”, obras adultas e infinitamente melhores. Mas, se procurarmos direito, dá para ver a essência de Zafón mesmo nessa obra menor, com aquelas metáforas que nos deixam babando, rs

    Não sejamos tão severos com o autor. Ele mesmo admite no prefácio que Marina foi uma espécie de experimento. Dá para comprovar isso quando lembramos que algumas das passagens do livro serviram de balão de ensaio para cenas semelhantes nas obras posteriores. É algo que todo escritor faz, não é mesmo? Aliás, não deixa de ser interessante testemunhar a evolução da narrativa nesse sentido. Só por isso já vale a leitura.

    De todo modo, bem melhor que Tico Santa Cruz 😉

  2. catarinacunha2015
    4 de agosto de 2015

    Grande sacada essa referência do show do Jerry Lee Lewis. Mas temos que admitir: qualquer coisa logo depois de ler Garcia Márquez soa como covardia.

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Publicado às 3 de agosto de 2015 por em Resenhas e marcado , .
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