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Detox Literário.

Um Pálido Ponto Cinza (Alan Cosme Machado)

um pálido ponto cinza

Os seres de barro nos deram muitos nomes. Anjos, celestiais, orixás, loas, deuses, espíritos de luz… Devido à uma dominação cultural, a maioria deles nos imaginava como sendo europeus portadores de grandes asas de aves. Não podiam estar mais enganados. A começar, asas seriam inúteis para um ser com o tamanho e o peso de um homo sapiens. Não é só o fato de ter asas que faz um pássaro voar. Mas, enfim, não dá para exigir muita acurácia técnica de folclore.

Não nos parecemos em nada com aqueles macacos pelados arrogantes. Não somos perfeitos, é claro, mas chegamos muito próximos disso. Somos tão arrojados que os cérebros simplórios dos hominídeos não conseguiam interpretar nossa figura. Dos poucos que nos viram a maioria perdeu a sanidade. Com exceção de três ou quatro, se não me engano. Me lembro ao menos de um neandertal, um oriental gordo, um judeu cabeludo e um taoista.

O fim do mundo humano foi anunciado há algum tempo, desde então os mais desesperados gritavam “o fim está próximo” durante boa parte de suas ínfimas existências. Levando em consideração o tamanho do tempo e do universo até que eles não estavam de todo errados. A depender de ponto de vista, que é algo muito maleável, o fim não tardou a chegar. Apesar de seus defeitos que superavam suas qualidades, até que eu gostava deles. Me simpatizei pelo jeito desengonçado com que levavam a vida. Sentirei saudades.

Ano cinco bilhões do calendário cristão, com uma margem de erro de alguns séculos para mais ou para menos. Depois do primeiro bilhão de anos eles perderam a conta e eu não costumo me guiar pelos métodos mortais de mesurar o tempo. Os gases que formavam o sol se expandiram ao ponto de fazer com que a estrela devorasse o próprio sistema solar. Eu gostava da Terra e de seus macaquinhos pelados, claro, mas ela nem de longe foi a maior perda. Sentirei falta principalmente de Júpiter. Um planeta gasoso grande e belo daquele jeito era uma pérola no cosmo, difícil de achar similar. Ele tinha potencial até mesmo para se tornar uma estrela vermelha e superar o sol. Mas o Altíssimo não quis, paciência.

Do primeiro ao último. Do mais nobre ao mais cruel. Assisti à dor daqueles que caíram na danação e o júbilo dos que ascenderam na graça. Acompanhei a vida e a morte de todos. Essa era minha função. Não interferi no menor detalhe da vida de nenhum deles, fui criado só para registrar. E com o fim da Terra veio meu último registro e o termino de minha missão. O sol os engoliu tão depressa que nem perceberam o que acontecia. A maioria viajou aos planos etéreos sem perceber que haviam desencarnado. Da minha estirpe há aqueles encarregados de velar por essas almas confusas. Se eu interviesse nesse problema estaria excedendo as minhas funções. Algo punível até com a não existência. O Senhor Pai pode ser bem severo quando assim deseja. Eu bem sei, por exemplo, ainda não me conformo com o Dilúvio. Quer dizer, dois ou três gatos pingados cometem seus erros e gente que não tem nada a ver com a história é que paga? Deixa para lá, são águas passadas. Isso foi uma piada? He. Nunca tinha conseguido contar uma.

Pairando no vácuo que se tornou o sistema solar onde a Terra habitava, eu espero pela minha próxima missão. Cinco bilhões de anos de serviço, até que não foi tanto tempo assim. Isso levando em conta que sou eterno. Com uma expectativa de vida tão absurda, minha esperança é praticamente sem limites. Eu gostaria de continuar exercendo o mesmo trabalho de vigia cósmico. Afinal, como dizem, “em sua casa há muitas moradas”. Talvez seja do desejo do Altíssimo me realocar para outro canto do universo e me agraciar com a missão de vigiar e registrar uma outra espécie relevante para a Divina Providência.

Como um filho único que descobre que seus pais estão esperando um irmão, muitos humanos relutavam com a ideia de que não estavam sozinhos no cosmo com medo de terem que disputar o amor do Pai. Bobagem. Amor infinito e incondicional significa amor infinito e incondicional. Infinito. Cabe muita coisa dentro disso aí.

Mudando de assunto, e voltando a falar dos meus anseios, ouvi dizer que os seres do planeta Orion são mais evoluídos do que os homens de barro queacompanhei. Eles também vivem em uma pedra sem muita importância no panorama geral, só que a deles é cinza ao invés de azul. Engraçado, eles também nos imaginam como versões aladas deles mesmos e se acham o centro do universo. É, talvez a diferenças entre as “moradas” esteja só no endereço.

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62 comentários em “Um Pálido Ponto Cinza (Alan Cosme Machado)

  1. Luan do Nascimento Corrêa
    11 de agosto de 2015

    → Avaliação Geral: 5/10

    → Criatividade: 6/10 – Há alguma criatividade a ser considerada. Até que é legal a história criada.

    → Enredo: 5/10 – Houve pouco desenvolvimento da história e espaço não foi o problema.

    → Técnica: 7/10 – A técnica não me agradou muito.

    → Adequação ao tema: 0/10 – Não é ficção científica.

  2. mariasantino1
    11 de agosto de 2015

    Olá, autor (a)!

    Esse seu conto tem ar total de prólogo, de apresentação de uma película. Gostei do ar irônico do narrador, meio frio e distante ao falar da humanidade, e por isso instiga o leitor (eu) a querer saber mais um pouco. Mas, infelizmente, ao menos pra mim, esse conto ficou com cara de apresentação.
    Gostei da narrativa, das referências bíblicas e clima apocalípitico.

    Boa sorte no desafio

    Nota: 7

  3. Fábio Santos Almeida
    11 de agosto de 2015

    Um conto breve e com pouca profundidade. Parece um tanto como um resumo. Gostaria de ver a versão alongada da história, talvez com uma ou outra personagem a dialogar. Este soou demasiado a exposição e não me arrebatou por ser demasiado linear.

    Um cinco =P

    Bem jogado! 8D

  4. Wilson Barros Júnior
    11 de agosto de 2015

    “Seres de barro”, “macacos pelados”, são boas ideias, parecida com um episódio de “Jornada nas Estrelas” em que os humanos são chamados “Bolsas de Água”, em referência à porcentagem de água dos nossos corpos. São colocações interessantes que levam a pensar em nós como seres, na nossa condição. As representações dos fundadores do budismo, cristianismo e taoísmo com certeza geram polêmicas, bem como o tom de religiosidade irreverente, mas isso é com vossa excelência. “Águas Passadas” foi ótimo. O conto, no estilo moderno de miniconto, é muito interessante.

  5. Gustavo Castro Araujo
    11 de agosto de 2015

    Há algum tempo – tudo bem, há muito, muito tempo – quando eu era um leitor voraz de quadrinhos, me fascinava com um personagem secundário da Marvel, que normalmente aparecia nas histórias do Quarteto Fantástico: o Vigia. Era mais ou menos como esse personagem-narrador que temos aqui, alguém que passa um testemunho sobre o destino da humanidade quem quiser saber. Do ponto de vista de um ser quase-onisciente, sabemos, então, o que aconteceu com os terráqueos: o sol os engoliu. Mais do que isso, ficamos cientes de que os humanos adoravam os seres dos quais esse vigia faz parte. E agora, com o fim da Terra e do próprio sistema solar, um novo ponto de interesse surge para o Vigia, o pálido ponto cinza. Bacana a analogia com a expressão cunhada por Sagan, do pálido ponto azul. Bacana também a mistura, ou melhor, a explicação para esse sincretismo – a religião e a ciência. No entanto, senti falta de uma história no conceito clássico da expressão. O que temos aqui é um relato, um breve relato, sobre o que ocorreu com a Terra, o sol e os planetas. Bilhões e bilhões (para usar outra expressão de Sagan) resumidos em poucas linhas. Acho que o destino da humanidade merecia um pouco mais. De todo modo, um trabalho competente e com poucos erros a acertar.

    Nota: 6

  6. Bia Machado
    10 de agosto de 2015

    Gostei do texto, mas não me cativou totalmente. Podia ser mais elaborado, tem umas partes filosóficas, mas ficaram meio “levinhas”, tem boas sacadas, podia ter trabalhado mais nisso, tendo em vista o tempo que ainda havia pela frente para postagem (tá, eu sei, tinha pontuação bônus, esse deve ter sido o motivo, mas será que valeu a pena? Só conjecturas…).
    O narrador é simpático. Mas faltou algo para me cativar totalmente. Alguns errinhos, mas que não me atrapalharam. Revise e pronto. Lembretes: não seria mensurar o tempo, em vez de “mesurar”? Alguns pequenos problemas de pontuação e acentuação. Um “queacompanhei” grudado e deixado passar na revisão.
    Finalizando: um texto que pode ser trabalhado, assim como está é uma boa leitura. Mas pode se tornar mais que isso.
    Boa sorte no desafio!

  7. Renato Silva
    9 de agosto de 2015

    Olá, tudo bem?

    Não tenho muito o que dizer. Achei o texto bonito, reflexivo, que faz pensar a nossa existência nesse mundo e o quanto somos infinitamente insignificantes. Apenas vejo um “porém”, o texto está mais para fantasia do que ficção científica. Gostei muito do tema.

    Boa sorte.

  8. Alberto Lima
    9 de agosto de 2015

    Gostei da proposta. Uma construção bela e no fim o que queria ser dito durante todo o conto. Enredo muito bom. Parabéns!

  9. vitor leite
    7 de agosto de 2015

    A história parece-me bem contada e pode ser um belo ponto de partida para um desafio maior, um romance? Digo isto porque parece muita vontade de passar informação para um limite “tão pequeno” de palavras. Passaram duas gralhas mas sem importância de maior.

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Publicado às 30 de junho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .