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Detox Literário.

Balada por Adele5 (Claudia Roberta Angst)

Cosmo-olho

A vida não é justa. É apenas um apanhado de dados analógicos, desorganizados e caóticos. Não entendo o porquê da surpresa dos mais jovens. Estamos todos inseridos neste mesmo contexto, sem esperanças de um final feliz.

Quando Adele5 mostrou-me os seios, achei que enfim tinha encontrado o paraíso dos nossos antepassados terrenos. Não gosto quando se referem a eles como terráqueos. Associo logo a batráquios e, sapos sempre me enojaram, mesmo que eu só os tenha visto nos catálogos virtuais de biologia.

Voltemos aos seios de Adele5. Deleitei-me ao ver o redondo das suas formas, a junção quase perfeita dos três montes em erupção. Há quem prefira quando existem quatro deles, mas eu ainda acho que três é o número perfeito. E pensar que o par já foi considerado o ideal.

Não sei porque associei a injustiça da vida à visão dos seios de Adele5. Neste mundo, não há mesmo espaço para a poesia, não vê? Nem mesmo é mais um mundo. Não ria. Creio que este eterno orbitar sem parada ou dimensão, tirou-me o resto do que eu julgava razão.

Há dias (se posso dizer que dias ainda existem) que recalculo nossa rota em vão. Não, não preciso de sua ajuda para isso. Continue reformulando esse seu emaranhado de chips e… Que droga é essa afinal?

Tivemos dois filhos. Do modo tradicional, claro. Provetas, embriões pré-selecionados, adequação genética. Tudo como manda o protocolo estelar. Adele6 e Parkson9, gêmeos idênticos. Duvido que você tenha encontrado crianças mais lindas do que aquelas. Mas o tempo, ah esse tempo de trevas, fez com que minha descendência e glória virassem pó em algum buraco negro da existência. Não sei onde estão meus filhos. Não os vejo desde que Jargão49 destituiu de vez o poder pátrio, reduzindo as famílias a contingências autônomas. Sinto falta dos olhares, do suave retorno de sorrisos que visualizava através do blindex-X19.

Bolhas. Falaram muito sobre isso lá nos primórdios tecnológicos. Apreciei parte da minha vida através de bolhas. O contato físico sempre me foi danoso, pois sou alérgico a tudo que é vivo. Entende agora o porquê de considerar a vida tão injusta?

Adele5 e eu costumávamos conversar sobre constelações antigas. Era o nosso momento romântico, quando conseguíamos nos transportar para um outro universo, sem fendas radioativas ou suspeitas alienígenas. Eu não sei. Muitas luas passaram a contornar nosso planeta. A diversidade de acontecimentos foi tremenda e levou parte da civilização registrada pelo cosmo. Não, não sinto pena. Foi um tempo confuso, com sombras históricas e acidentes geográficos que não merecem memória.

Jargão49 surgiu como um imperador. Foi o termo que usaram na época: imperador. Sim, eu sei que uso demais essas palavras consideradas arcaicas. Talvez, eu seja mesmo um erro de programação. De fato, não sou um ser sublime, desses que andam por aí sem emoções ou conexões cármicas. Jogue aí no GoogleX45 e descubra o que é carma.

Não me aponte meus vícios, pois conheço todos eles de cor. Confesso que desejaria ser um robô sem coração ou lataria enferrujada. Meus olhos têm a cor do inox, não têm? Minha mãe preferia ônix, mas meu pai errou na grafia e deu nisso. Olhos de aço.

Claro que meu discurso é caótico. O que esperava de alguém que já completou 345 voltas em torno do mesmo sol? Uma cartilha intergaláctica? Não sou um manual de civilizações, embora muitos me considerem um e-book bem interessante.

Ainda penso em Adele5 e nos seus incríveis olhos violetas. Dizem que os dela, sim, resultaram de uma experiência perfeita. Inspirados em uma diva da antiguidade humana, foram lapidados por engenheiros genéticos com cromossomos nanometricamente selecionados.Conhece a extensão dessa beleza? Os olhos de Adele5 sempre foram para mim um pulo no abismo.

Tenho medo de apertar um desses botões e me desviar demais do nosso percurso. Semana passada (como vocês chamam isso agora? Septciclo?), Pavarotti22 e eu assistimos a um lindo espetáculo através das bordas cibernéticas. O universo explodindo em mais uma colisão de planetas. A chuva de meteoros foi tão incrível que tive mesmo vontade de chorar. Mas eu não choro nunca. Não, se não for Adele5.

Eu poderia falar sobre a diversidade planetária, sobre os avanços da mecânica e das ciências pós-jargonísticas, mas esses assuntos cansam-me demais. Vocês não aprendem isso tudo lá na fase Beta-Steps? Então, por que eu repetiria a mesma sequência de relatos? Não pretendo esclarecer meu ponto de vista sobre o Terraforming e suas consequências. Já se debateu muito sobre isso, não acha?

Deixe-me falar de uma época em que tudo isso que vivemos agora era considerado ficção científica. Alguns eram doidos por esse tema. Doidos mesmo, de verdade. Claro que eu sei muito pouco sobre isso, afinal o meu registro cronológico não é tão antigo assim. No entanto, percebo a beleza naquela ingenuidade humana. Sou mesmo um cadete espacial, não sou?

Precisa mesmo ficar traduzindo tudo o que falo? Interpretação de texto nunca foi mesmo o forte dos engenheiros espaciais. Garanto a você que se fossem realizadas pesquisas a fundo, encontrariam o real motivo do fim de várias civilizações: ruído na comunicação. Simples, assim. Ninguém se entende e nem se dão conta disso.

Pensa que meus chips estão em curto? Que nada restou dos meus neurônios biônicos? Não ligo se me denunciar às autoridades cósmicas. O que farão comigo? Rasparão meus códigos de barra e anularão minha previdência vitalícia? Há muito não me importo mais com isso. São muitos anos-luz para recordar sem temer abandono.

Compreendo que não me queira muito bem. Tanto tempo, aqui, ao meu lado como copiloto e pouco lhe tenho dito de útil, não é mesmo? É porque sinto falta de Adele5 e seus três montes de aconchego. Se tivesse experimentado um amor assim, também se sentiria perdido neste cyberspace.

O que é o amor? Procure no… Ah, deixa para lá. Não vale a pena explicar o que se derreteu no espaço atemporal. Digo apenas que o amor que senti por Adele5 não possui registro, já que escapa de qualquer forma de classificação. Não há medidas para esse tipo de sensação, esse formigar de sentimentos, torpor de sentidos. Digo-lhe ainda, meu jovem, que me contaminei com tudo de antigo mergulhado na essência humana. Assim que me deitei com aqueles olhos abismais, meu mundo mudou de eixo.

Quando mergulhei naquelas íris violetas, abandonei meus princípios e deixei-me naufragar sem delicadezas. Agora, sem ela, sinto o frio da existência guardar meus dias na espera de mais um big bang. A que velocidade vamos? Traçarei outra rota, pois as estrelas têm sido obstáculos perigosos em nosso trajeto.

Pensei em um atalho que nos levasse ao destino final. Eu sei que não era o que você pretendia, nem mesmo supunha que eu seria capaz disso, mas… Aqui, estamos: Nietzsche56 e Freud78/45, velejando em um mar de suposições.

O fim é tão bonito, não é mesmo? Aprecie sem moderação a chuva de luas. Não há porque se apavorar, criança. O caos sempre será a perfeição em nós.

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58 comentários em “Balada por Adele5 (Claudia Roberta Angst)

  1. Claudia Roberta Angst
    13 de agosto de 2015

    Agradeço a todos pelo feedback recebido. Realmente, os comentários são muito importantes para que se possa reavaliar o que foi escrito. Não tive a pretensão de realizar um bom trabalho, já que torci o nariz para o tema FC logo de início. BIG MISTAKE, diria Julia Roberts em Uma Linda Mulher (filme tão apropriado para FC quanto o meu conto rs). Deveria ter me esforçado para apresentar algo razoável.
    – Não deveria ter escolhido nomes com números para os meus personagens – Adele5, Adele6 e Parkson9, Jargão49, etc. Ficou artificial e bem estranho, “alfa-numéricos esquisitos” como disse o Renato Silva.
    – Não havia necessidade de incluir expressões em inglês, mas foi falta mesmo de conhecimento e preguiça de fazer uma pesquisa mais atenta.
    – Sim, eu sabia que ANO-LUZ é medida de distância e não de tempo, mesmo assim empreguei errado aqui. Mancada, mesmo.
    – Adele deveria ter sido melhor explorada, assim como suas lembranças – sem pressa, sem atropelar a narrativa.
    – O conto ficou um tanto confuso, caótico como afirmaram alguns. Isso é verdade não me preocupei em dar muito sentido à trama.
    – Vírgulas precisam ser revistas.
    – O personagem/narrador estava conversando com o co-piloto. Posso ter confundindo alguns leitores, mas Isso eu não sei se mudaria. Gosto dessa coisa meio esquizofrênica.
    – a imagem ficou bem tosca, como disse o Thales “nossa, que montagem careta a da sua imagem. Parece aquelas feitas no paint.” Exatamente, meu caro Thales, inabilidade e pressa resultam nisso…rs.
    – Boa a ideia de Maria Santino em deixar o narrador como um software. Pensarei nisso.
    – Falha apontada por Angelo Dias – quando o narrador diz que vive em uma bolha e depois diz que se deitou com Adele5. Nem eu entendi isso direito, vou ter que mudar.
    – Outra falha, desta vez apontada pelo Pisciez – “o personagem principal fala sobre “Não ser idoso o suficiente para saber tudo sobre a Ficção Científica do passado”, porém ele lembra de SPACE CADETS! ” Pressa dá nisso!
    – TRAMA ficou morna, segundo Cat Cunha. O morno tinha de aparecer, né? rs. E ela ainda me deu uma boa nota assim mesmo. Valeu!
    – Minhas tentativas de relações filosóficas não foram boas segundo Felipe T.S . Sinto muito, mas é mais forte do que eu.
    – Pontas soltas a amarrar! Parece que joguei algumas ideias e não me dei ao trabalho de desenvolvê-las. Novamente, pressa.
    – Algumas passagens foram riscos felizes. Como “Os olhos de Adele5 sempre foram para mim um pulo no abismo” e a frase final “O caos sempre será a perfeição em nós.” E muitos disseram que o conto está bem escrito. Fiquei bem feliz por isso!
    Acho que fiz a lição de casa direito – ou Hausaufgaben, né, Rubem Cabral? Enfim, relendo todos os comentários, percebi que o conto não foi uma grande catástrofe e vamos sobreviver. E sabem que eu até comecei a apreciar Ficção Científica?
    🙂 🙂 🙂

  2. Marcel Beliene
    11 de agosto de 2015

    Seu conto é belo, Joe Space, muito bem escrito. Adele5 foi tão bem descrita! Os olhos, os três seios… Gostei muito 🙂 Parabéns!

  3. Luan do Nascimento Corrêa
    11 de agosto de 2015

    → Avaliação Geral: 6/10

    → Criatividade: 6/10 – Não achei os nomes nem um pouco criativos. A prosa é um tanto criativa.

    → Enredo: 5/10 – Alguns trechos ficaram confusos, outros simplesmente não agradaram. O emaranhado de nomes também não ajudou.

    → Técnica: 7/10 – Bem escrito, mas poderia ser um pouco menos confuso.

    → Adequação ao tema: 10/10 – É ficção científica.

  4. Fábio Santos Almeida
    11 de agosto de 2015

    “Claro que meu discurso é caótico. O que esperava de alguém que já completou 345 voltas em torno do mesmo sol? Uma cartilha intergaláctica? Não sou um manual de civilizações, embora muitos me considerem um e-book bem interessante.” Um discurso caótico… Hmm, um fundo de verdade que se estende ao resto do conto. Fiquei meio confuso com este. O narrador ora expõe eventos ora dialoga com o leitor ora surge em introspecção. Este tipo de escrita resulta bem, mas confesso que aqui não me surgiu assim tanto a ideia de uma conclusão definida, talvez pelas voltas que o conto dá. Tem, todavia, frases muito bem conseguidas e por isso leva mais uns pontinhos eheh =P

    Bem jogado! 8D 7

  5. Wilson Barros Júnior
    11 de agosto de 2015

    O começo parece muito com a minha filosofia, por isso identifiquei-me. Há uma ordem geral no caos, mas não nos eventos que o compõem. Por isso levou bilhões de anos para estarmos aqui. Discordo, acho que dois, sim, é o número perfeito. O conto é bonito e a ideia da cyborguização, que faz o “Homem Bicentenário” parecer brincadeira, é ótima. O caos é a perfeição, penso da mesma forma, como prova veja meu humilde conto. Gostei da sua escolha pra a trilha sonora, ficou muito adequado.

  6. Gustavo Castro Araujo
    11 de agosto de 2015

    O que o texto ganha em vitalidade com Adele5, perde quando se fala de outras coisas. Quando ela surge o conto floresce, fica colorido. Ao abordar outros aspectos, perde-se em monocromia. Senti o personagem-narrador um tanto sem paciência. Por vezes ele começa a explicar alguma coisa, mas depois desiste, dizendo que “isso vocês já sabem”, ou “isso você encontra não-sei-onde”. Não gostei muito dessa fuga, não. Pareceu-me a tentativa de erguer uma fachada sci-fi, usando-se expressões típicas desse estilo, sem, no entanto, emprestar-lhe substrato verdadeiro. Talvez, se o foco da narração privilegiasse Adele, tivéssemos um resultado melhor, já que a especialidade do autor é, sem dúvidas, falar de relações interpessoais. Aí surgem os momentos mais inspirados do texto, os mais poéticos, os mais filosóficos. Para mim, um bom conto de ficção científica deve misturar esses aspectos – o nerd com os dilemas humanos. Vislumbrei essa tentativa aqui, o que é válido, mas o resultado poderia ter sido melhor. De todo modo, um bom exercício narrativo.

    Nota: 7

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Informação

Publicado às 30 de junho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .