EntreContos

Literatura que desafia.

Por ti – Poesia (Rubem Cabral)

red rain

Por ti eu reformei minha alma

Desconstruí, dolorosamente,

Meu antigo eu

.

Olhava-me no espelho e

Não mais me reconhecia

.

Mas não bastou,

Não foi o suficiente

.

Então, eu li todos os teus

Livros preferidos

Vi todos os malditos

Filmes franceses

Escutei jazz até reconhecer

Que rock era mesmo

Apenas lixo

.

Provei de todos os pratos

Os confits, as reduções,

Os jus, as lesmas nojentas

Fervidas em vinho branco

.

Fiz de mim teu reflexo,

Uma coleção, um mosaico

Delicado, de tudo o que

Te fizesses feliz

.

Mas não bastou,

Não foi o suficiente

.

Então, deliberadamente,

Eu matei em mim

Tudo o que te desagradasses

.

Desceram pelo ralo

O futebol, a cerveja, os amigos

Os papos fúteis e meus trocadilhos,

Sempre tão infames

Meu mau gosto por perfumes amadeirados,

Minha risada ridícula

.

Extirpei tais tumores e

Sangrei

Esculpi, cortei, lixei

Poli

.

Mas não bastou,

Não foi o suficiente

.

Então, comprei adubo químico

Glucose e outros produtos

Em lojas em pontos diversos

Da cidade

Sempre em dinheiro vivo

.

E, no dia do teu aniversário,

Quando talvez tu apresentasses

A tua família

O meu novo « eu »

Mutilado, formatado

Conformado e sem alma

.

Eu fiz com que tu

Alcançasses as estrelas

E te espalhasses feito chuva

Rubra e morna

.

Um poema de carne

Uma ode de células

Névoa, orvalho

Arte, de imenso bom gosto

.

E isso, enfim,

Foi suficiente

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7 comentários em “Por ti – Poesia (Rubem Cabral)

  1. Anorkinda Neide
    17 de agosto de 2015

    Uma trágica história de amor!
    Serve de alerta… nunca será o suficiente pra quem nada basta, porque se está com a pessoa errada no lugar errado…hehehe
    Parabéns
    Gostei do ritmo e da clareza nas entrelinhas.
    Talento!

    Abraço, Rubem!

    • Anorkinda Neide
      17 de agosto de 2015

      Lembrei-me do poema que narra meu ex-casamento (que nao terminou tao tragico assim… rsrsrs)
      Vou trazê-lo!

      • Anorkinda Neide
        17 de agosto de 2015

        resolvi trazer aqui mesmo o poema que mencionei pq ele tá velhinho, bem fraquinho dos versos… para publicar, mandarei um no mesmo tema, mas mais trabalhado ^^

        NA PONTA DOS PÉS

        Muito tempo vivi em ponta de pé
        Com medo de magoar, de te ofender
        Em vão, pois até respirar te feria!

        Muito tempo torci a ponta do pé
        Tentando te agradar, te satisfazer
        Bobagem, nada te alcançaria!

        Muito tempo vivi sem a minha fé
        Com medo de me encontrar e te perder
        Bobagem, nunca houve garantia!

        Muito tempo torci o sentido da fé
        Tentando controlar o que não era pra ser
        Então desisti dessa relação vazia

        Sustentada na ponta dos pés!

        Anorkinda

  2. Brian Oliveira Lancaster
    9 de julho de 2015

    Profundo, quase sem rimas, mas traz as camadas características da poesia. O tom melancólico condiz muito bem com o enredo. Para um apreciador de FC, você consegue transmitir muito bem a sensação do cotidiano e a expressão pelo que lutamos sempre (às vezes em vão).

  3. vitor leite
    27 de junho de 2015

    olá Rubem, apresentas mais uma história muito interessante, com principio meio e fim, muito bem escrita, com algum cuidado na escolha de palavras. muitos parabéns. no português do lado de cá, por vezes não se percebe algumas coisas: “estirpei” ou outro exemplo “tudo o que te desagradasses” mas percebi o sentido e ficou muito bom. mais uma vez muitos parabéns

  4. Jowilton Amaral da Costa
    23 de junho de 2015

    Liricamente explosivo. hahahaha. Muito bom.

  5. Fábio Almeida
    23 de junho de 2015

    “lesmas nojentas fervidas em vinho branco” – há qualquer coisa que apetecível aqui =P

    O poema está muito bem construído, muito bem “narrado” e forte de sensações. É de leitura leve mas de conteúdo espesso, isto é, conta uma variedade de coisas sem que isso pese na leitura. Admirável. Parabéns =P

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Publicado às 23 de junho de 2015 por em Poesias e marcado .