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Literatura que desafia.

Poison Heart – Resenha (Gustavo Araujo)

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A paulista Susana Lima, mais conhecida como Susy Ramone, é dona de uma prosa fluida, certeira e que convida à leitura. Quando apanhei “Poison Heart”, romance de sua autoria, pude comprovar essa habilidade singular.

Trata-se da história de Horácio, um trabalhador comum de um desses escritórios que existem aos montes em São Paulo. Sua colega Sílvia está flertando com ele, para ciúmes de Nilton, quase um ex-amigo. E para completar ainda há o chefe deles, Odilon, um sujeito que transita entre o patético e o detestável, além de padecer do mal dos pleonasmos.

Susy cria uma atmosfera bem interessante a partir da relação desses personagens. É evidente sua habilidade em reproduzir a rotina burocrática vivenciada por eles: seus segredos sujos, seus desejos, suas manias e seus receios. Em diversas passagens é fácil para o leitor se identificar com as frustrações e com o anseio por algo melhor.

Pessoalmente falando, essa construção da laboriosa rotina de Horácio é o que há de melhor no livro. O ambiente urbano é descrito por Susy com fidelidade. É possível sentir o aperto dos ônibus, os odores, o calor, a indignação com o caos paulistano. Isso sem falar nos diálogos que os personagens travam entre si, cheios de intenções subliminares.

Horácio e Nilton vêm partilhando sonhos. Não no sentido figurado e poético, mas real e assustador. Não só eles, mas também Sílvia. Essas coincidências criam em Horácio uma expectativa que só faz aumentar quando ele encontra uma cigana misteriosa em um ponto de ônibus perto do local em que trabalha. As indagações vão ganhando vulto até que Horácio se vê diante do dilema maior: o que é realidade? O que é sonho? Vivemos aqui um simulacro de civilização? Quem nos controla?

Susy parece ter se inspirado em Matrix ou mesmo em Inception para jogar essas questões ao leitor. Mas seu viés é outro, mais direcionado ao suspense e ao terror. O público que procura cativar é de jovens adultos adeptos de literatura de fantasia, onde o fantástico predomina como explicação para diversos fenômenos.

O diferencial deste livro para outros da mesma vertente literária está no uso habilidoso da prosa, que foge das descrições fáceis ao estilo cinematográfico. Na realidade, é possível perceber que os personagens têm vida própria e isso empresta à história uma credibilidade fantástica sem ser fantasiosa. E, o que é mais bacana, em uma dinâmica que se serve das letras da famosa canção dos Ramones que empresa o nome à obra.

Como eu disse, é um livro voltado ao público que transita entre a adolescência e os primeiros anos da vida adulta, dada a temática de fantasia horrenda. Certamente há de agradar os leitores dessa faixa etária.

No entanto, a autora tem cacife para voar mais alto, para atingir outros públicos. Não sei se essa é sua intenção, mas para mim a perícia nas descrições urbanas e especialmente aquelas afetas a relacionamentos indica que há um certo pendor natural para abordar temas adultos na essência. Dramas ordinários que todos enfrentamos.

De todo modo, Poison Heart é um livro que entretém, que prende o leitor até o fim. Susy, aliás, cria situações de suspense como poucos autores atualmente. Impossível largar o livro sem saber, afinal, o destino de Horácio e dos demais personagens.

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2 comentários em “Poison Heart – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    26 de junho de 2015

    Você me convenceu! Lerei-o, com certeza, assim que terminar um interminável Marcel Proust. Parabéns pelo trabalho e muito obrigado pela dica.

  2. rsollberg
    24 de junho de 2015

    Ótima resenha, Gustavo!
    Direta – sem muitos floreios (Odilon) – e sem qualquer spoiler.
    Fora a elegância habitual.
    Valeu pela dica

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Publicado às 22 de junho de 2015 por em Resenhas e marcado , , .