EntreContos

Detox Literário.

Tonin (Neusa Fontolan)

Antônio Cruz de todos os Santos, vulgo, Tonin, estava exatamente como todos os dias, esparramado em sua rede que ficava pendurada no meio do pequeno quarto, do casebre onde morava com sua mãe. Tonin não chegou a saltar da rede, mas deu um solavanco com o susto que levou, quando uma voz tenebrosa o chamou.

— Toninnn…

Virou o rosto e viu bem a sua frente, um homem muito bem vestido com um terno preto.

— UAI… Cabra da mulésta! Ocê qué mi mata di susto sô?

— Tonin, hora de levantar.

— Amódique?

— Satanás o aguarda.

— Eita bichim, ele que fique agardando, num marquei hora cum neum cabra dos zinfernos! E quem é ocê afinar de conta?

— Sou o mensageiro do demônio.

— Vixiii… Vala-me minha santinha! Qui disgracera é essa agora? Tô aqui assossegado sem faze mar pra seu ninguém e vem esse minino di recado do demo pra me atazana.

— Do que você me chamou? Tenha mais respeito! Eu sou o mensageiro de Satanás.

— Num se avexe, só falei a veidade, messagero é minino di recado. E pode vorta, pruque eu num perdo meu tempo aproseando com pau mandado.

— TONIN? Você está acabando com minha paciência!

— Eita, bichim… Ocê é nervosim mermo, né? Craro, tá sempre di cabeça quente… Vô aprosear um poco cocê pra si acarmar. E pra cumeça diz quar é seu nome.

— Que importa meu nome, eu sou o enviado do inferno para te levar.

— Ocê deve di te um nome, o teve antes de i praquele lugá de foguera eterna.

O capeta suspirou virando os olhos e pensou em procurar o RD do inferno para mudar de cargo, até fazer churrasquinho com os pênis de estupradores devia ser melhor que aquilo. Contou até dez e falou.

— Eu me chamava Leon.

— Intonce Leo, pru que ti mandaram mi busca? Eu nunquinha fiz nadica de mar, eu num faço coisa arguma, acuma podia faze mar pra quarquer coisa?

— É Leon e não Leo, ah deixa pra lá, me chame do que quiser… É exatamente isso! Você não faz nada! Você pratica, e com afinco, um grande pecado. A preguiça.

— Ara essa! Isso lá é pecado?

— É um dos sete pecados capitais.

— Num cuncordo.

— Como assim não concorda?

— Ocê percisa vê qui pecado é tudim que se faiz de mar pro seu vizim. Acuncorda cumigo?

— Tudo que se faz de mal na vida. Mas para ficar mais fácil vou concordar com você.

— Intonce, priguiça num faz mar pra seu ninguém.

— Você está fazendo mal a sua mãe, ela trabalha como louca na roça para poder por alimento em sua boca.

— Num faço nadim de mar, ela qué ansim, é acuma ela fica feliz. Qué vê só? – Manhêêê… Ocê qué qui eu ajude na roça?

— Nem pensá, fiinho! Tonin, ocê é meu santin e num deve se amisturar cum as marvadesas qui tem lá fora, é mió fica qui drento. Tô muito feliz cum ocê ansim, é um minino di oro.

O capeta ficou em dúvida, e talvez, devesse levar a mãe de Tonim, a culpa por ele ser assim era dela.

— Não tente me enrolar. A preguiça é sim um dos pecados capitais!

— Deve se um dos pititinhos… Pra eu sabe adireito, fale desses tar di pecados capitar.

— Eles são sete, gula, ira, avareza, luxúria, vaidade, inveja e preguiça.

— A priguiça tai pruque arguem bobeo, se todo mundo sentisse um tiquinho de priguiça esses otros pecados num azistia, a priguiça é do bem.

— Como pode falar uma coisa dessas?

— Ocê é distrambeiado, o a quentura aderreteu seu miolo? Ara! Vê si mi faço intendê! É só pensa um tiquinho.

— Você acha que eu não tenho inteligência? Tudo bem… Vamos supor que esteja certo… Então quero que me explique: porque supõe que a preguiça é do bem?

— Facir. Com um tiquinho de priguiça, o isfomeado num pecava pruque da muito trabaio apreparar a cumida.

— E se ele fosse rico e tivesse empregados para tanto?

— Mermo assim, da trabaio decidi o que qué cume i mandá ussimpregados faze. I cume, intonce! Dá um trabaião danado levá a cumida pra boca, depoizes tem qui mastiga i ingoli.

— Eu ainda tenho que ouvir isso. Tudo bem, e o que me diz da ira?

— Inda mais facir, uai. Pruque cum priguiça num da pra fica com reiva. E só pra diantar, isso é iguar pra iveja e vaidade, qui cum priguiça num da vontade nem di si banha.

— O meu Deus do céu! 0ps… Desculpe… É esse bitolado que está cozinhando meus miolos.

— Vixiii… Dano pra ocê!

— Eu me ajeito. E o que me diz da avareza e da luxúria?

— Ocê acha que cum priguiça da pra fica aprecupado com essas besteradas?

Nisso junto a um estrondo que parecia mais o som de mil trovões, eles ouviram uma voz tão macabra que seria capaz de despertar os mortos, mesmo os que tinham virado pó.

— LEEEONNN…

Desta vez Tonin pulou da rede e tremendo se agarrou ao capeta que também tremia.

— É ele?

— O próprio.

— LEON, se você trouxer este empiastro, porcaria, vagabundo e MERDÃO, para impregnar meu reino com suas teorias, eu vou te matar novamente. ENTENDEU?

— Sim, meu senhor.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, só na expectativa, mas perceberam que o Demo tinha ido embora. Leon devagar se voltou para encarar Tonin, pensou por um pouco, depois deu de ombros e falou.

— Tonin, mi da um espacim aí nessa rede?

Tonin abriu um sorriso triunfante e gritou.

— Manhêêê… Traiz a rede di reseiva, o meu amigo vai ficá.

— Qui bão fiinho, ansim ocê vai te cum quem aprosea.

— Aprosea da muito trabaio.

— Eu que o diga.

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4 comentários em “Tonin (Neusa Fontolan)

  1. Fabio Baptista
    4 de maio de 2015

    Neusa! Tudo bem?

    Já comentei minha impressões sobre esse texto. Quando você me respondeu, falou sobre um dos apontamentos que era o uso da vírgula.

    Eu bati bastante cabeça com isso também, mas hoje acho que consegui achar um “caminho”. Vou colocar aqui para que pessoas mais qualificadas possam acrescentar ou mesmo me corrigir (afinal, não sou autoridade nenhuma em gramática… tenho formação em exatas e só dou pitacos aqui de intrometido! kkkkkkk).

    Vamos lá:

    A regra básica diz que “não se separa o sujeito do verbo”.

    Em frases curtas isso é bem fácil de se notar, por exemplo: “Pedro foi ao cinema”.

    Mas a gente gosta de dar uma enfeitada na frase, daí começa a complicar. Tipo, nessa mesma sentença queremos explicar o motivo do Pedro ter ido ao cinema: o pobre rapaz estava entediado!

    Poderíamos resolver assim:

    – Pedro foi ao cinema, porque estava entediado.
    >>> O sujeito continua junto do verbo e demos uma pausa antes da explicação.

    Um recurso mais “avançado” (que eu particularmente acho mais atraente, desde que o escritor tome cuidado para não sobrecarregar o texto só com esse método) seria usar a vírgula como parênteses:

    – Pedro, que estava completamente entediado, foi ao cinema.
    Seria o mesmo efeito de:
    – Pedro (que estava completamente entediado) foi ao cinema.

    E daí começamos a brincar ainda mais, terminando com algo do tipo:

    – Pedro, que preferiria brincar de roleta russa a rodar os canais e correr o risco de topar com a cara da Márcia Goldsmith mais uma vez, pulou do sofá de areia movediça onde afundava e foi ao cinema.

    Espero ter ajudado.

    Abraço!

    • Neusa Maria Fontolan
      6 de maio de 2015

      Você sempre me ajuda (fique ciente disso) e obrigada mais uma vez. Outro abraço com carinho especial.

  2. Anorkinda Neide
    3 de maio de 2015

    hiaauha adorei, Neusa!
    Que divertido.. pena que não participaste com este no desafio dos Pecados.

    adoro essa fala errada, tá tão meiga: ‘num perdo meu tempo’
    adoooooro…kkk

    O preguiçoso é bom de prosa!
    Parabéns pelo causo!
    Abraço

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Informação

Publicado às 2 de maio de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .